Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Chamava-se MARIA IGNEZ DE SOUZA DA CÂMARA E MORAES SARMENTO ( tirou o Patricio depois do divórcio)

"Para variar, este é o dia de falar da minha mãe. O tempo dela era o Estado Novo, a ditadura dos homens de suspensórios. Quis trabalhar e não autorizaram. Quis divorciar e não podia, pela lei. Tomou a pílula e disseram que não podia comungar. Esteve a lixar-se para isso. Perguntou porque é que as mulheres de ministros ( ela era) não ganhavam nada mas tinham de comprar vestidos, ir a chazinhos de embaixatrizes, a jantares e viagens de trabalho. Não responderam. Porque sim. Ela foi a Conselho de ministros e de lá de cima ( acho que era um lugar onde os homens ficavam em baixo) gritou: ninguém me contratou mas eu demito-me! ( hoje já há ajuda de custo para mulheres dos caras publicos). Ela ligava para os caras que mandavam e reclamava da falta de direitos das empregadas. Chateava. Ligava para o Veiga Simão que era da educação e reclamava dos lavores para as mulheres. Queria música e carpintaria. Acho que conseguiu música. Tirou-me do colégio de freiras e pôs-nos a mim e minha irmã no liceu. Não acordava de manhã para nos dar bom dia nem nada. Eu reclamei. Disse: tira o curso e trabalha para não ficares sem sono de noite, como eu. Quando prenderam uma moça chamada Dalia passou-se. Foi o fim dos dias lá em casa. Passava o almoço e jantar sem comer, de braços e pernas abertos a simular um tipo de tortura. Emagreceu e ficou doente. Teve sífilis. Pediu ao médico atestado para se divorciar. O médico teve medo e não deu. O medo dos homens era de outros homens. Das mulheres não teriam medo! Foi a Caxias com o senhor Matos chauffeur( um homem bom que chorava) e uma cadeira. Sentou. Esperou. Disse que tinha as mesmas ideias dos presos. Mandou um livro á moça em que a dedicatória era Aqui em Portugal nem as moscas mudam!. O Silva pais, chefe da polícia, ligou a meu pai. A mulher do meu pai incomodava. Não a podiam prender. Deem-lhe uns safanoes, disse alguém. O primeiro ministro ligou e disse Tortura não é assunto para mulheres. São o sexo frágil. E ela: pensam nisso quando se deitam em cima de nós com o vosso peso? O homem era púdico, conservador e cristão. Não gostou da rudeza. Não gostavam dela. Nem ele nem a pide.
César Príncipe Levante-se a ré
(Imagem de Adão Cruz)
Máquina-máter Máquina-mártir Máquina-poedeira Máquina-batedeira Máquina-enfardadeira Máquina-yogurteira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Mulher-deitada Mulher-sentada Mulher-de-pé Mullher-deterGente Mulher-deCoração Mulher-obeDecente Mulher-matreira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Mulher-deitada Mulher-sentada Mulher-de-pé Mulher-sofá-cama Mulher-carrinho-de-rodas Mulher-cabide-de-modas Mulher-rabinho-de-freira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Escreve o seu nome com todas as letras Descuida a cabeça e cuida das tetas Levante-se a ré No Dia da Mulher tem direito a jantar Uma flor e um café E se nada tiver no Dia da Mulher Para o ano há mais e é para quem quer Levante-se a ré Há quem lhe chame Companheira Ela anda Ela desanda Entre o colo e a coLEIra
Apanha do pai Apanha do irmão Apanha do
marido Apanha do patrão Apanha do padre Apanha do professor Apanha do chulo Apanha por amor Gosta de apanhar Dizem os machistas Adoram levar Dizem os maricas Se quiser igualdade tem de muDar de sexo O homem está a mudar e sem qualquer protesto Levante-se a ré Enfrenta o tribunal com panelas ao lume Insulta a autoridade com esfregona e perfume Sai a mulher em ombros Sai nos noticiários Pois levantou as saias aos julgaDores sumários Começou a guerrilha da mulher ideal Há um juiz sem toga Outro sentiu-se mal Levantou-se a arguida e foi o fim do mundo
A cena é repetida de segundo em segundo
Levante-se a ré
Mulher-a-dias Mulher-a-noites
Um falo duro Três falas mansas
São três amores São três açoites
Três são no ventre Três são nas ancas
(in Correio Vermelho, Editora Seara de Vento, 2008)
No Dia 8 de março de 1857, morreram aproximadamente 130 mulheres carbonizadas, quando foram trancadas na fábrica de tecelagem, em Nova York, onde trabalhavam, por estarem em greve. Em homenagem a estas mulheres, em 1910, declarou-se o dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher.
Marina Menegazzo e Maria José Coni
Não gosto de "Dias de ..." mas este ano, depois de tudo o que se tem passado por todos os cantos do mundo e também em Portugal, com maus tratos e assassinatos de muitas mulheres, apetece-me deixar aqui algumas notícias e referências.
E começo pela notícia da morte bárbara de duas jovens argentinas que se tinham deslocado de férias, já este ano, ao Equador e cujos corpos apareceram com sinais de terem sofrido extrema violência ao tentarem defender-se. Os criminosos confessaram o crime.
A. Clara
"Resumindo: duas mulheres foram de férias. Um grupo de homens achou-as ‘apetecíveis’ e fez-lhes uma emboscada para as tentar violar. Elas, como qualquer pessoa faria, resistiram. E foram mortas à paulada e à facada por isso."
Leia o artigo aqui.
(Alex Davico, Galeria Zeller)
Nutro pelos dias do calendário, que a sociedade de consumo reverencia, saudável horror e desprezo visceral.
No dia da mulher vacilo e soçobro. Evoco mãe e irmã e esmoreço; lembro companheira e amiga e descoroçoo. Recordo as mulheres, vítimas de todas as épocas, e enterneço-me.
Recordo a oração matinal dos judeus que convida os homens a bendizer Deus por tê-lo feito judeu e não escravo...nem mulher. Recordo a Tora que decidiu a inelegibilidade [da mulher] para funções administrativas e judiciárias e a incapacidade de administrar os próprios bens.
Lembro a submissão que o islão impõe, a burka que lhe cobre o corpo e oprime a alma, a lapidação, as vergastadas e a excisão. Os machos são superiores às fêmeas, «porque Deus prefere as homens às mulheres (IV, 34)».
A cultura judaico-cristã é misógina, submete e explora a mulher. Destina-lhe a cozinha e a procriação, a obediência e a servidão. É a herança que Abraão lhe deixou.
Quando a mulher irrompeu com a força contida por séculos de opressão, avançou nas artes, na ciência e na cultura, com o furor do vulcão que estoirou os preconceitos.
Antes do 25 de Abril, em Portugal, a mulher carecia de autorização do marido para transpor a fronteira, não tinha acesso à carreira diplomática ou à magistratura, nem à administração de bens próprios.
Não há países livres sem igualdade entre os sexos.
A libertação da mulher é uma tarefa por concluir, contra o peso da tradição, a violência dos homens, o abuso das Igrejas e os preconceitos da sociedade.
Hoje, dia internacional da mulher, é dia para, homens e mulheres, pensarmos que somos iguais. Todos os dias. Em qualquer lugar. Sempre.
André Gago Dia Internacional da Mulher
(Era assim, e quantos se preparam para lá regressar?)
Nota de edição: de todos os textos que li, só este do actor André Gago me mereceu publicação. Sou contra esta comemoração, ainda que ela possa lembrar as lutas de muitas mulheres pelo reconhecimento da sua igualdade como seres humanos. Nos dias de hoje, em que os diversos poderes dela se apropriaram como sempre se apoderam de tudo o que surge como revolucionário, assume carácter de hipocrisia. Com toda a certeza, neste dia, mais mulheres serão assassinadas e molestadas apenas por não lhe serem reconhecidos os tais Direitos Humanos de Igualdade. Serão assim tantos os que contra isto se insurgem no dia da "comemoração"? Não dei por isso. Augusta Clara
Instalou-se por aí uma versão muito adocicada deste dia, que na verdade é um dia que simboliza a luta das mulheres pelos seus direitos — muitos dos quais, entre nós, só chegaram com o 25 de Abril, ó memórias cur...tas! Portanto, não é um dia de cosméticos ou de celebração de género, mas de combate à discriminação e à exploração (não me lembro de ter escrito uma frase assim nos últimos tempos). Na verdade, devia ser mais um dia dedicado a todos os que acham que não vale a pena protestar, nem acolher na governança o sentido dos justos protestos de quem luta pela vida condigna — no caso, os direitos das mulheres.
P.S.(salvo seja): com aviso de recepção ao nosso jovem geriátrico primeiro-ministro, àquele senhor que é dono de um supermercado e usa óculos práfrentex e que diz que isto não vai lá com grândolas, àquele senhor que é cardeal e é patriarca, o que não deixa de ser curioso, e que diz que não vale a pena andar nas ruas a protestar (ele tem de se fiar na eficácia das rezas, é compreensível), aos outros senhores congéneres, e com prazo confortável de 30 dias para resposta anódina ao senhor que vive ao lado dos Jerónimos (em todo o caso, mais dos Martins dos que dos Sousas), e cujo alto sentido de Estado não lhe permite exercer o cargo.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.