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Jardim das Delícias


Sábado, 13.04.19

Confusões muito convenientes - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Confusões muito convenientes

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   Há coisas nos tempos de hoje que estão a tornar-se perigosamente - não é exagero utilizar o advérbio - apreciadas e divulgadas como é o caso da oportuna e incentivada confusão entre o que é o saber e a competência e o que configura a promovida ignorância. E não se trata aqui da ignorância de que todos padecemos em relação a tanto que há para saber. Trata-se de desprezar, atacar e incentivar ao ataque do reconhecido e provado conhecimento adquirido por quem para isso trabalhou e o pôs ao serviço da comunidade.

O mundo vai ao arrepio da democracia. Os estúpidos e os venais conseguiram atingir os lugares de maior poder sobre tudo e todos graças não só ao poder bélico mas tanto ou mais ao comportamento acéfalo e permissivo de grande parte dos cidadãos dos países que se reivindicam dessa mesma democracia. Sabemos bem como lhes foi e tem sido criado o caminho do entorpecimento da razão para aí chegarem.

Quem tem as principais ferramentas para ajudar a inverter este estado da mentalidade colectiva, a Comunicação Social, não o faz. Deixa-se caír, na melhor das hipóteses, no conformismo do assumido como inevitável rumo do futuro global. E a quinquilharia das “ideias” prolifera em todo o suporte onde se podem juntar letras ou sons falados.

O saber é considerado arrogância e a estupidez humildade. E esta confusão contamina até, subrepticiamente, sectores que têm o dever e a capacidade de não se deixarem contaminar.
Neste mundo virado do avesso, oxalá a queima de livros não se propague como se tem propagado a inconsciência e a indiferença crescentes pela anulação dos direitos humanos.

“Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar!” sob pena de sermos nada mais que mais um.

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por Augusta Clara às 20:53

Quarta-feira, 24.02.16

A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza - José Goulão

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José Goulão  A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza

 

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Mundo Cão, 24 de fevereiro de 2016

 

   Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.

Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.

As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.

Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.

Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.

A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.

Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.

O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.

Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.

A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.

Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.

 

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por Augusta Clara às 16:20

Sexta-feira, 18.09.15

A tortura como segredo de Estado - José Goulão

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José Goulão  A tortura como segredo de Estado

 

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Mundo Cão, 17 de Setembro de 2015

 

   Todos sabemos que os Estados Unidos da América são os campeões dos direitos humanos, qualidade que lhes faculta a possibilidade de actuarem como juízes na matéria e promoverem guerras, assassinando milhares de seres humanos e espalhando multidões de refugiados através do mundo, lá onde os direitos humanos são violados sem qualquer pudor.

É sabido que os Estados Unidos nada têm a ver com o desmantelamento de um país chamado Líbia, a fragmentação do Iraque em múltiplos cenários de guerra, a transformação do Afeganistão no Eldorado dos empresários multinacionais de heroína, ou com a destruição de um país chamado Síria e a liquidação massiva de milhares dos seus habitantes. O apego norte-americano aos direitos humanos é tal que os seus dirigentes, com o presidente Obama à cabeça, estão consternados com a proliferação de refugiados na Europa provocada pelos enunciados conflitos, mostrando-se disponíveis – por enquanto apenas em palavras – para acolher um lote de 10 mil enquanto mandam erguer mais muros e cercas para dissuadir uma praga de mexicanos que sempre os ameaça.

Em matéria de direitos humanos os Estados Unidos da América são igualmente um exemplo no combate à tortura, actividade que não praticam e, como diz gente carregada de más intenções, nem voltam a praticar.

Confirmou-se agora, porém, através das repercussões na comunicação social das notas de um advogado de um detido de Guantanamo, esse campo de férias erguido pelo Pentágono e a CIA em território cubano ilegalmente ocupado, que os presos ali confinados são submetidos a sessões de tortura com alguma regularidade. Um deles, de nome Abu Zubaidah, foi vítima de waterboarding – simulação de afogamento até à inconsciência - 83 vezes num único mês, além de ser alvo de continuados espancamentos e tratamentos humilhantes. Zubaidah, preso há nove anos sem culpa formada – norma corriqueira em qualquer catálogo de direitos humanos – já cegou de um olho em consequência de tão generosa hospitalidade.

Notas de outros advogados revelam que as atrocidades são cometidas por indivíduas e indivíduos embriagados, que recorrem ao que estiver mais à mão sejam martelos, tacos de basebol, prosaicos varapaus ou mesmo aos próprios cintos, como qualquer pai disciplinador com mente medieval. Claro que pessoas com estes comportamentos não podem ser da CIA e outras instituições igualmente democráticas e respeitadoras dos valores básicos “da nossa civilização”. Por isso o presidente Obama, os seus ministros e secretários, os seus conselheiros e agentes de censura decidiram que tais actos não podem ser reconhecidos oficialmente, incluindo as notas dos advogados de defesa, que agora vão ter de se haver com a lei apesar de reclamarem que as suas denúncias são feitas de acordo com a Lei e a Constituição.

Há meses ainda vieram a lume, por acção voluntarista de membros do Congresso – certamente quintas colunas do terrorismo universal – algumas denúncias dessa tortura, ainda que poupando os cidadãos à identificação dos esbirros e aos lugares clandestinos onde praticam tortura, embora se saiba que alguns se situam na democrática Europa. As ondas de choque das revelações, porém, terão incomodado a CIA e o Pentágono, consideradas até nocivas para o esforço de guerra desenvolvido pelos denodados destacamentos libertadores.

Agora o presidente Obama e os seus declararam que tais assuntos são confidenciais, uma vez que segredo de Estado deve continuar a ser segredo de Estado, em nome da segurança do Estado e dos cidadãos, mesmo que o Estado tenha deixado de ter alguma coisa a ver com estes.

Ignore, portanto, tudo quanto atrás ficou escrito sobre práticas violadoras dos direitos humanos pelo país que mais os defende. Ignore que a Administração norte-americana gere lugares clandestinos, ou nem tanto, onde se praticam sessões de tortura. Tal não existe; o que é oficialmente escondido não existe. A bem do respeito pelos direitos humanos.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 24.04.15

União Europeia afogou os direitos humanos no Mediterrâneo - José Goulão

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José Goulão  União Europeia afogou os direitos humanos no Mediterrâneo

 

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Mundo Cão, 24 de Abril de 2015

 

   Os resultados da cimeira da União Europeia dedicada à tragédia no Mediterrâneo confirmam que os conceitos de “humanismo” e “direitos humanos” se transformaram em palavras ocas a usar obrigatoriamente nos discursos e declarações oficiais, mas que deixaram de fazer qualquer sentido nas mentes dos dirigentes, pervertidas por estatísticas, indicadores, cálculos de deve e haver. O panorama tornou-se de tal maneira vergonhoso que permitiu a emergência de Jean-Claude Juncker, o tecnocrata impenitente que preside à Comissão Europeia, como figura dotada de resquícios de alguma sensibilidade. Por isso ficou a falar sozinho e as suas propostas foram derrotadas.

A arte propagandística da manipulação dos números, usando termos como “triplicar verbas” e insistindo no uso da palavra “milhões”, não resiste a uma avaliação breve dos resultados. Em suma, os chefes dos 28 – que gastaram longas quatro horas dos seus preciosos tempos à ameaça que paira sobre milhões de seres humanos – decidiram gastar 9 milhões de euros por mês nas operações de patrulhamento do Mediterrâneo através do Frontex, a polícia das fronteiras externas da União, em vez dos 2,9 milhões actuais. Pois bem, descodificando a multiplicação por três: os 9 milhões correspondem ao que a Itália gasta sozinha na operação Mare Nostrum e, ao contrário desta, que se estende até aos limites das águas líbias e tunisinas, restringem-se apenas às águas territoriais dos países ribeirinhos da União, evitando as zonas onde acontecem a maioria dos naufrágios. Recorda-se que o orçamento da União Europeia para 2015 é de 161 800 milhões de euros

Como o preço da vida humana anda de facto muito por baixo nas cotações bolsistas, note-se que 9 milhões de euros/mês correspondem a menos de um décimo do orçamento do Frontex, que obviamente tem muito mais que fazer. O seu director-geral, Frederice Leggeri, explicou que este corpo “não tem por missão salvar vidas”, e se o faz é apenas por imposição “do direito marítimo”, porque deve dedicar-se, isso sim, a “controlar e triar as entradas de imigrantes irregulares”.

No quadro das decisões tomadas durante a trabalhosa reunião, a chefe da política externa da UE, a italiana Frederica Mogherini, foi encarregada de ir estudar os meios jurídicos a que é possível recorrer, no quadro das leis internacionais, para combater as redes de traficantes de carne humana que medraram como cogumelos no Mediterrâneo depois de a NATO ter “libertado” a Líbia. Ou seja, a dirigente europeia vai reflectir nas leis para combater traficantes de pessoas que fogem da guerra e da miséria depois de a União Europeia ter passado por cima de todas as leis internacionais para fazer a guerra na Líbia e desmantelar o país, deixando o terreno perfeito para os praticantes de todos os tráficos. Quanto aos imigrantes propriamente ditos que sobreviverem às tragédias no mar dificilmente escaparão à triagem do Frontex, muito mais preocupado em expulsá-los para os países de origem, para as situações de que fugiram – sendo que esta medida viola a Declaração Universal dos Direitos Humanos, coisa de que não é matéria obrigatória, nem facultativa, nos cursos de economia neoliberal, incluindo os tirados por correspondência. Para o acolhimento “solidário” dos imigrantes que escaparem a tudo isto, a União Europeia vai criar um “programa piloto” de integração, ideia que dificilmente encontrará saída no labirinto da burocracia europeia, onde nem sequer ainda entrou. Talvez o objectivo seja esse.

Registemos que as quatro longas horas de reunião foram um favor feito pelos dirigentes europeus aos milhões de seres humanos vítimas de guerras e misérias. O presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, foi muito claro quanto a isso: “a Europa não causou esta tragédia, mas não quer dizer que lhe seja indiferente”. Leram bem, sim. Um dos padrinhos do caos ucraniano diz que a Europa não tem culpa nas guerras de que fogem os náufragos. Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão, Egipto, Mali … A União Europeia tem as mãos limpas destes acontecimentos. A mentira e o absurdo tornaram-se instrumentos privilegiados dos políticos que mandam na Europa.

Como nota final de mais um episódio negro da história negra da União Europeia deixo-vos esta pérola patética do impagável Hollande: “gostava que tivéssemos sido mais ambiciosos…”. Então o que os impediu?

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 11.12.14

Os ricos são pessoas mas os pobres são estatísticas - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  Os ricos são pessoas mas os pobres são estatísticas

 

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Público, 9 de Dezembro de 2014

 

   Os pobres como Garner só vêem as histórias contadas do seu ponto de vista quando chegam à morgue.

“Quando um homem morre é uma tragédia. Quando morrem milhares, é uma estatística”. A frase é de Estaline, que a terá dito a Churchill durante uma conversa na cimeira de Teerão, em 1943. Encerra uma enorme verdade.

O movimento de protesto que está a varrer os Estados Unidos devido a uma série de homicídios injustificados de homens negros por polícias brancos é uma das muitas provas do aforismo. Se não conhecêssemos os nomes e as histórias de Eric Garner, sufocado por um polícia que pensava que ele estava a vender cigarros avulso na rua; de Tamir Rice, um miúdo negro de 12 anos que brincava com uma pistola de plástico num jardim; de Michael Brown, um jovem de 18 anos, desarmado como todos os outros, que foi atingido com oito tiros por um polícia que o deteve no meio da rua, em Ferguson, Missouri; de Rumain Brisbon, que ia tirar do bolso um frasco de comprimidos que um polícia receou que fosse uma arma; de Akai Gurley, que ia a sair de sua casa quando um polícia o atingiu mortalmente a tiro sem que houvesse a mínima razão para tal, e de outros como eles, trataríamos o elevadíssimo número de negros mortos às mãos de brancos nos EUA (ou de polícias brancos) como uma estatística. É porque os conhecemos um pouco, porque ouvimos contar as suas histórias, que sentimos as suas mortes como tragédias. É evidente que sentimos estes casos como injustiças intoleráveis e como sintomas de uma sociedade gravemente doente porque todos os polícias brancos envolvidos na morte destes negros foram ilibados ou tratados com grande brandura pelo sistema judicial, mas a nossa revolta também não seria a mesma se, em vez das cinco ou seis pessoas que ficámos a conhecer, se tratasse de 500 que não conhecemos.

No caso de Eric Garner, o negro obeso que talvez estivesse a vender cigarros de contrabando avulso na rua, há uma poderosa razão extra para a nossa indignação: o vídeo do seu assassinato divulgado no YouTube. Vimos o vídeo e sabemos o que aconteceu. Vimos o uso desproporcionado e injustificado de força pelos polícias e ouvimo-lo repetir “I can’t breathe!” enquanto teve forças para isso, perante a contínua brutalidade dos agentes.

 

 

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por Augusta Clara às 08:00



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