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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 22.04.19

Que democracia é esta? - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Que democracia é esta? 

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   Afinal vivemos numa democracia e num Estado de Direito ou numa ditadura?

Então como se entende que tenha sido convidado para intervir num fórum onde se debaterão exactamente estes temas o Ministro da Justiça de um Estado que, neste momento, é tudo menos uma democracia, um Estado com um presidente que elogia os torturadores da ditadura militar, onde se destroem em ritmo acelerado todos os preceitos legais e todas as instituições que pretendiam uma aproximação social dos direitos dos cidadãos brasileiros, um Estado onde reina a injustiça e o terror diários?

Como pôde a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa fazer este convite a Sérgio Moro e como pode o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, acolher tão nefasto hóspede?

Nesta altura do ano, ao comemorar-se o aniversário da Revolução dos Cravos, é da praxe os jornais e televisões entrevistarem Otelo Saraiva de Carvalho e é sempre com um sorriso complacente que os entrevistadores voltam a ouvir a sua manifestação do desejo de que uma sociedade de democracia directa se tivesse construído a partir da queda da ditadura. E é, igualmente, com um esgar de bonomia, como quem faz a pergunta a um puto da escola, que o interrogam sobre se conhece algum país onde isso tivesse acontecido. A resposta certeira não pode ser mais do meu agrado: - “Construíamo-la nós!”. É isto a utopia. E são as utopias que têm feito o mundo dar saltos.

Eu não posso ser contra os partidos porque sei que a minha vida já não dá tempo para grandes mudanças. Mas os verdadeiros democratas estão a ser submergidos por uma avalanche de nepotismo e de total ausência de nobreza na condução da causa pública, isto é, dos interesses fundamentais de todos nós. Espero que esses, os poucos que no exercício do poder têm essa verdadeira vocação, lá se mantenham. Quanto a nós, os outros todos, SOMOS LIVRES desde o 25 de Abril para podermos formular perguntas como por exemplo, esta:

- O que vem cá fazer um fascista igual àqueles que expulsámos há 45 anos?

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por Augusta Clara às 16:47

Domingo, 18.03.18

Morreu.- Anielli, Poeta de V Redonda

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Anielli  Morreu

 

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Morreu a preta da maré,
a negra fugida da senzala
que foi, sentar com "os dotô" na sala
e falar de igual pra igual com "os homi".
A negra que burlou a fome de se saber,
que fez crescer dentro dela, o conhecimento.
Aquela, que por um momento de humanidade,
sonhou com a justiça, lutou por liberdade
e ousou ir mais alto,
do que permitia sua cor.
"Mas preta sabida, não pode!
Muito menos pobre! Não tem valor."
Diziam as más línguas na multidão.
E ela ousou tirar seus pés do chão.
Morreu.
Morreu a "preta sem noção",
que falava a verdade na cara do patrão,
que carregava a coragem, como bagagem,
no coração.
O tiro foi certo,
acertou com maldade,
ecoando seco no centro da cidade.

 

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por Augusta Clara às 03:04

Terça-feira, 19.07.16

O sultão venceu - Francisco Louçã

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   Falhou um golpe, triunfa outro.

Imagine-se a leitora ou o leitor, por um instante, a ler estas notícias: “Venceu um golpe de Estado na Turquia, foram demitidos quase três mil juízes, fechados os jornais de oposição e presos dirigentes dos partidos parlamentares que se opõem ao Chefe”. Que diriam as chancelarias? Enviariam notas soturnas de preocupação. Foram presos os dois juízes do Tribunal Constitucional que libertaram jornalistas que tinham investigado uma venda de armas turcas na Síria, ou seja, um apoio ao Estado Islâmico? Mais uma nota de surpresa e de indignação. Seria isso que aconteceria se fossem estas as notícias.

Só que são mesmo estas as notícias. Erdogan, depois do golpe militar falhado, decidiu desencadear todas as medidas possíveis para destruir a contestação social e os protestos democráticos. Nada o limita agora, e as autoridades europeias, sabendo-o, põem-se ao seu lado, pelo silêncio mais do que pela anuência.

Sonhando recompor o império otomano em nome de um partido religioso que tem desmantelado a tradição laicista do Estado turco, que fora criada por Ataturk desde a fundação da república moderna, Erdogan construiu lentamente o seu poder. O movimento islâmico teve 8% em 1987, 16% em 1991, 21% em 1997, mas, já com Erdogan, teve 34% em 2002, 46% em 207 e 50% em 2011. Controla hoje todas as estruturas do Estado.

Ao longo deste percurso, foi sempre vitoriado pelas potências internacionais. O então presidente Bush foi discursar a uma cimeira da NATO em Istambul, em 2004, vangloriando o sucesso de Erdogan: “o vosso país é um exemplo”. Na NATO e com uma sólida aliança com Israel, raramente perturbada por escaramuças verbais, este estranho regime islâmico manteve-se como um pilar da política de Washington na região. A União Europeia reforçou esta aliança, ao atribuir-lhe o papel de guardião das fronteiras para parar os refugiados, pagando-lhe e fazendo concessões de monta a Erdogan, precisamente quando ele dirigia a repressão sobre os jornais independentes e sobre os partidos de oposição.

Militarmente, este apoio é um erro que acentuará os riscos de segurança na Europa, porque o alvo de Erdogan na região são as forças curdas, precisamente as únicas que combatem no terreno contra o Estado Islâmico.

Socialmente, este domínio absoluto também agrava as tensões na Turquia, um dos estados mais desiguais da OCDE (os 1% mais ricos tinham 38% da riqueza nacional em 2000 e já detinham 54% em 2014, um progresso impressionante).

O golpe de estado que agora está a triunfar na Turquia é portanto uma ameaça para a população turca e para quem vive no Mediterrâneo ou na Europa. O mundo ficou mais perigoso com a ofensiva de Erdogan.

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por Augusta Clara às 16:00

Sexta-feira, 16.05.14

Vamos ter eleições - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Vamos ter eleições

 

 

   Os jornais de hoje dizem que as grandes fortunas aumentaram milhares de milhões durante a colonização da Troika. E trazem a fotografia de alguns dos figurões, que até parecem seres humanos normais. A palavra escândalo é demasiado leve para traduzir aquilo que não é traduzível pelo mais abjecto dos palavrões.

Vai haver eleições, ainda não sei bem de quê e para quê. Talvez para ajudar a aumentar mais uns milhares de milhões a pilha de notas em que esses abutres se sentam, à custa dos milhões de pobres e miseráveis que vão votar para que eles lá se mantenham na sua vampiresca e inacessível pirâmide.

Vamos ter eleições. Deixa-me rir. Eleições! Estupidez, ignorância, fé, não sei como se define a plataforma em que assenta aquilo que chamam consciência política de um povo. Um povo que se deixa enganar e conduzir irracionalmente como um rebanho de ovelhas, expressão tão cara aos clérigos da igreja. Um povo que não é só o povo mais ou menos analfabeto, mas também parte daquele povo que se diz culto e se reclama de intelectual. Deixa-me rir, ainda que amargamente.

A direita aí está desde sempre!, Escarrapachada, retinta, varrendo para o lixo os restos da democracia, abocanhando o prato dos outros, como instinto natural e desumana mal-formação genética, enxertada não sei em que malfadado braço da Evolução, cuja missão soberana é aumentar cada vez mais a fortuna dos que tudo têm à custa dos que pouco ou nada têm. Com a Troika, o país, ou seja a quinta, ou seja a coutada, está melhor, o povo que nela vive e vegeta é que está pior. A pilha de notas em que os donos do país se sentam é cada vez mais alta, para fugir ao monte de merda cada vez maior que se estende a seus pés.

A direita aí está desde sempre, cuspindo na Constituição, porque ainda não pôde rasgá-la aos bocadinhos. A direita aí está, usando a lei ou a ilegalidade conforme convém, a sua Justiça e os buracos da lei como o seu mais seguro tira-nódoas e os buracos da nação como esconderijo dos seus roubos e assaltos. A direita aí está de portas escancaradas a todos os Passos e Portas que sejam as portas e os passos para a descarada mentira de todas as promessas. E a maioria silenciosa lá vai engolindo, como incontornável destino e divina resignação, a consagrada hóstia de todas as traições.

Sem consciência a democracia é um barrete, com olhos fechados a democracia é um barrete, sem cultura a democracia é um barrete, sem coragem a democracia é um barrete, sem revolta a democracia é um barrete, sem Constituição a democracia é um barrete, sem Justiça a democracia é um duplo barrete, sem povo, ou melhor, sem cidadãos a democracia é um triplo barrete, sem cidadãos, a democracia não existe.

Por isso a direita não quer cidadãos. A direita só quer povo, se for uma direita com rótulo. Se não tiver rótulo, se for supranacional, profissional ou mesmo artesanal, nem de povo precisa. Por isso eu não acredito no povo, eu não acredito no povo despido da sua dignidade de cidadão, no povo que beija a mão aos que o fazem povo, aos que o utilizam como povo e não como gente ou como sociedade de cidadãos.

Um imenso lençol de mortos jaz debaixo da terra carcomidos pela exploração e pela injustiça, e um imenso mar de vivos (mortos-vivos?) deambula à flor da terra. Os de baixo expiraram. Nós, os de cima, ainda inspiramos alguma coisa, mas não conseguimos respirar, asfixiados que estamos pelo garrote do poder e da desonra. O povo, em vez de abrir a janela de par em par para respirar ar puro, vai aceitando como esmolas e caridades, as máscaras de oxigénio que a direita lhe estende.

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos. Sem cidadãos a democracia é um barrete. Sem cidadãos não há eleições. Deixa-me rir. Sem cidadãos as eleições, sejam daqui ou europeias, são um pedido da sua bença, e o desejo de um feliz regresso da madrinha Troika.

O país está infestado de ratos. Os ratos roeram os embriões da democracia e da justiça, os ratos roeram tudo, os ratos roeram o país, os ratos deixaram o país em buracos. Mil e tal milhões de buracos, sessenta milhões de buracos, trinta milhões de buracos, vinte milhões de buracos, dez milhões de buracos… Os ratos comeram tudo e também os olhos do povo. O povo de Abril sempre teve um frasco de raticida na mão, mas em vez de o atirar para cima dos ratos deitou-o pela retrete abaixo. O povo cegou, e quanto mais cego, menos o povo é capaz de ver quem o cegou.

O povo sempre foi avesso à cidadania, ou melhor, a direita, que não quer cidadãos, sempre procurou secar as fontes onde o povo pudesse beber a fresca água da cidadania. E ao povo sempre foi vedada a luz da cultura, do conhecimento e da lucidez mental com que se faz um cidadão.

Por isso eu não acredito no povo que quer como amigos os seus inimigos. Só acredito em cidadãos, e os cidadãos não são muitos e não acreditam nos inimigos. A direita e o capitalismo selvagem não sobrevivem com cidadãos. Se houver muitos cidadãos a direita impõe uma ditadura. Sempre assim foi. Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem o sangue da sociedade.

O país cheira mal que tolhe. Cheira a fraude, cheira a roubo, cheira a corrupção, cheira a merda por todo o lado. Quando ao fim de quatro anos a fossa está cheia, a falsa democracia pede ao povo para a despejar, e o povo, em vez de a lavar bem lavada e encher de água limpa, oferece-a de mão beijada a uma nova equipa de cagadores. Em vez de lhes atirar com a trampa à cara, varre-a para debaixo do tapete e com o ar mais cândido diz: não é merda o que fizeram, senhores, são rosas!

Os que antecederam Cavaco e seus acólitos, desenraizados personagens de divina comédia, nada-tudo-nada deste pobre país, andaram por aí, por essa Europa, a tentar fazer disto um cemitério. Cavaco adiantou-se como coveiro, começou a abrir a cova para enterrar Portugal, e os ”boys” que o povo foi acariciando carregaram o caixão às costas, alternando com outros “boys” de outras equipas desta fossa democrática. E o povo ingénuo, sempre a pensar que ia numa procissão do Senhor dos Passos, com a Igreja à frente aspergindo água benta! Deo Gratias! Gloria in Excelsis Deo!

Por isso eu não acredito no povo, o principal responsável pelo aumento dos mil e tal milhões nas fortunas dos figurões que hoje vêm escarrapachados nos jornais, e que até parecem seres humanos normais.

Por isso eu não acredito nas eleições sem cidadania, borbulhando de quando em vez como emanações de gazes, simulacro de vida, na imunda fossa desta “democracia”.

 

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por Augusta Clara às 16:00



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