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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 18.07.16

Será possivel julgá-los? - Isabel do Carmo

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Público, 18 de Julho de 2016

 

   Suspeita-se, com fortes indícios, que os grandes decisores da invasão do Iraque em 2003 mentiram voluntariamente, provocando centenas de milhares de mortes. Sendo este um crime contra a humanidade, pode haver alguma esperança de que sejam julgados e eventualmente condenados? Ou vamos acreditar de vez que os caminhos da justiça política e social têm mesmo que ser percorridos fora da ordem estabelecida?

A 16 de Março de 2003 Tony Blair, José Maria Aznar, George Bush e o anfitrião Durão Barroso reuniam-se em território nacional português, a Base das Lajes, para dar uma “última oportunidade” ao Iraque. Recordamo-los na fotografia oficial, os quatro sorridentes e bem-dispostos. O crime estava decidido. Quatro dias depois as tropas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Polónia e da Austrália invadiam o Iraque, seguidas de soldados de mais 36 países para solidificar a ocupação. É altura de lembrar, porque a memória é curta ou trapalhona, que as Forças Armadas portuguesas nunca estiveram incluídas nem na invasão, nem na ocupação do Iraque, porque, sendo Jorge Sampaio, como Presidente da República, chefe das Forças Armadas, opôs-se à sua utilização para esse fim. Há sempre formas de dizer não, mesmo nos mais estritos formalismo e legalidade. Só a GNR foi, porque não dependia da presidência.

O que seguiu é uma tragédia, cuja amplitude se tem de avaliar em função das suas consequências. Morreram centenas de milhares de iraquianos, morreram pelo menos mil soldados invasores. E sobretudo desencadeou-se uma catadupa de guerras no Médio Oriente, uma situação de conflito permanente no Iraque e o nascimento da organização de assassinos do autoproclamado Estado Islâmico, com território próprio, criado exactamente a partir de território do Iraque. Centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados. Em nome de uma mentira. Em nome de um álibi, cujo enredo estamos longe de conhecer — parece haver provas de que o plano para a invasão já existia antes do 11 de Setembro. Em nome do petróleo, claro, e de acordo com os aliados locais.

A mentira foi desde logo desmontada em vários focos informativos de contracorrente. Mas é agora formalmente denunciada no Reino Unido no Relatório Chilcot.

Tony Blair aceita a acusação, mas desculpa-se dizendo que foi para bem do Iraque. Quanto aos outros personagens ainda não se pronunciaram. Tony Blair criou a sua terceira via do socialismo, atraiçoando toda a história trabalhista da Grã-Bretanha e enfiando uma grande parte dos partidos socialistas europeus no caminho colaboracionista do domínio financeiro. Veja-se o comportamento da maior parte dos ministros das Finanças socialistas, que são a maioria do Ecofin e que obedecem reverentes à ditadura de Schäuble, o infame. Tony Blair enriquece com a sua actual fundação mercantil. É boa altura para revermos o filme O Escritor Fantasma de 2010 de Polansky, sobre “um ex-ministro britânico”, quase explicitamente retratando Blair e traçando-lhe compromissos políticos ocultos que nos dizem muito sobre o seu comportamento na cena internacional. Durão Barroso é o retrato da sua promoção, que vai directamente de presidente da Comissão Europeia e adepto da Alemanha e das indignas sanções a Portugal para o topo do gangsterismo financeiro, o Goldman-Sachs. Todos eles se desculparão. Lembrando uma série francesa recente do segundo canal, Uma Aldeia Francesa, que descrevia a ocupação e a resistência na II Guerra Mundial, o chefe local das SS, depois de torturar barbaramente e de matar, dizia para a amante: “C’est la guerre, Hortense.” Estes dirão com um sorriso: “C’est la politique, chérie.”

Ora o julgamento era possível. Paulo Portas afirmou taxativamente que viu as provas das armas de destruição maciça. Poderá explicar o que viu, como viu, quem lhe mostrou. Todos eles poderão explicar-se. Mas parece que a ordem estabelecida não o permitirá. Blair irá ao tribunal de Haia?

Fica-nos a sensação de beco sem saída. Em 2003 fomos milhões os que se manifestaram nas ruas das cidades portuguesas e de outras cidades do mundo. Convocados sem os apelos dos partidos e com as palavras de ordem e os cartazes que escolhemos. Por mim escolhi o grupo que mostrava uma grande ampliação do Grito do Munch. E como vivemos em democracias, eles toleraram-nos. Deixá-los manifestar-se. Assim descarregam a sua raiva...

De que é que serve a nossa razão moral, anos depois de centenas de milhares de mortos?

Pode ser que um dia aconteça como no Campeonato Europeu de Futebol e que actores políticos improváveis, vindos de baixo, demonstrem, como diz o nosso humorista, que as “criadas” podem vencer as patroas.

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 14.07.16

O Cherne espantou a caça - Helder Costa

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Helder Costa  O Cherne espantou a caça

 

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   E, de repente, alguém da Europa decidiu que o que é demais não presta. Políticos, jornais, todos se indignam com o cherne Durão se acoitar nas profundezas ( não esquecer que ele é um peixe de águas profundas) do tal Banco- maravilha Norte - Americano, o Golden Sachs.

Mas só agora é que repararam no tal Moedas de falsa moeda, no equilibrista Arnault, nos Gaspar , Marilu Albuquerque, no reptilineo Portas, no sempre coerente comportamento do Cavaco apoiando as sanções contra ESTE governo, e mais bicheza mais ou menos miúda que tem andado desde sempre ao serviço dos imperialismos vários que nos sugam o sangue?

A questão é : que fazer com esta indignação?

Pedir que o Barroso se arrependa e " não aceite" o convite???

Mas qual convite?esse plano foi projectado há muitos anos. Desde que como 1º ministro convidou esse Banco para assessoria, depois foi o porteiro da guerra do Iraque compensado com o cargo da Comissão europeia!!, e assim segue a sua brilhante carreira.
Em plena impunidade, com um sólido guarda-chuva associal protector destas palavrinhas e indignações.

Claro que um regime Republicano poderia levar a julgamento toda esta cambada com a simples acusação Novecentista de lesa- Pátrias. Recuperando parte dos roubos descarados e fundamentalmente recuperando a honra do país.

A caça saiu da toca e volta à pressa para a gruta. Nunca fizeram nada, nem nunca farão.
Não estou a falar de esquerdismos nem de Revoluções. Estou unicamente a recordar intelectuais e politicos como Victor Hugo, Jean Jaurés, Antero de Quental, Raul Proença, Ortega e Gasset, Bertrand Russell...gente antiga, gente fora de moda.

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por Augusta Clara às 19:06

Quarta-feira, 21.10.15

Gangsters - José Goulão

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José Goulão  Gangsters

 

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Mundo Cão, 20 de Outubro de 2015

 

   No meio de documentos que a Srª Hillary Clinton foi obrigada a entregar à justiça norte-americana no quadro das investigações de que está a ser alvo, por causa do desempenho como secretária de Estado de Obama, estão papéis arrepiantes. Como este: um “memorando secreto” enviado em Março de 2002 pelo então secretário de Estado, Collin Powell, ao seu presidente, George W. Bush, assegura que a realização de uma guerra contra o Iraque teria sempre o apoio do primeiro-ministro britânico, ao tempo Tony Blair. “O Reino Unido seguirá a nossa liderança”, escreveu Powell, garantindo assim a Bush que poderia começar a preparar a guerra ao receber Blair no seu rancho de Crowford, o que aconteceu em finais desse mesmo mês de Março.

Esta informação, que corre agora tranquilamente pelas agências noticiosas internacionais, tem o conteúdo de uma bomba, mas não é como uma bomba que explode aos ouvidos e olhos dos cidadãos mundiais, duvida-se até que chegue ao conhecimento da maioria deles.

O memorando de Powell revela que um ano antes de a invasão do Iraque se ter iniciado os Estados Unidos e o Reino Unido já tinham decidido que a fariam. Prova-se assim que as sanções contra o povo do Iraque, os arremedos de negociações e as célebres provas sobre a existência de armas de destruição massiva em território iraquiano – que o mesmo Powell se encarregou de fabricar e levar à ONU – foram manobras e mistificações para servirem de pretexto a uma decisão já tomada. A reunião das Lajes, que o governo barrosista de Portugal se dispôs a acolher, adquire, a esta luz, contornos ainda mais vergonhosos para a diplomacia portuguesa e europeia, porque se fez para fingir ao mundo que ia tomar-se uma decisão já tomada. Um faz-de-conta que, daí a dias, proporcionou o início de uma chacina de milhões de seres humanos, ainda longe de estar concluída.

Nesse mês de Março de 2002 já as tropas da NATO se atolavam no conflito do Afeganistão para supostamente combater os talibãs, que por sua vez acolhiam o terrorista Bin Laden, um criminoso criado pelos serviços secretos dos Estados Unidos e que este mesmo país identifica como responsável pelo 11 de Setembro de 2001. Ao virar a mira contra o Iraque, os gangsters de Washington – versão engravatada dos pistoleiros do velho Oeste para consumo do novo Oeste – chegaram a acusar Saddam Hussein de ser cúmplice de Bin Laden e respectiva Al-Qaida, quando os dois eram inimigos fidagais, como não demorou muito a provar-se. Mal os Estados Unidos e os seus mais sonantes aliados da NATO tomaram Bagdade e enforcaram Saddam, o território iraquiano tornou-se base de uma miríade de grupos terroristas na qual não apenas medraram muitas variantes da Al-Qaida como nasceu o famigerado Estado Islâmico.

Documentos como este “memorando secreto” de Collin Powell ajudam a perceber como se promovem as guerras de hoje. Para lançar as da Líbia e da Síria nem terá sido necessário um qualquer escrito de um qualquer secretário de Estado: a porta da mentira estava escancarada.

O Médio Oriente, que já era um barril de pólvora nesse mês de Março de 2002, degenerou num foco de instabilidade militar no meio do qual é fácil detectar rastilhos mais do que suficientes para uma guerra global. Os responsáveis são conhecidos e deveriam estar a contas com tribunais que punem crimes contra a humanidade. Porém, George W. Bush e Collin Powell vivem reformas douradas; de Barroso conhecemos o rasto, desde as malfeitorias à cabeça da Comissão Europeia até ao Grupo de Bilderberg, areópago da conspiração imperial, onde ganhou assento permanente.

E Blair? Treze anos depois te ter comunicado que “seguiria o líder” na devastação do Médio Oriente é o chefe do Quarteto para o mesmo Médio Oriente, entidade burlesca que, fiel aos interesses israelitas e aglutinando os Estados Unidos, a União Europeia, a ONU e a Rússia, finge que a chamada comunidade internacional continua à procura de uma solução para o conflito israelo-palestiniano.

Não só por causa dessa burla, mas também, assiste-se à situação cínica e revoltante de ver a bandeira da Palestina ondular nos mastros da sede da ONU numa altura em que o povo palestiniano está cada vez mais distante do seu Estado independente e viável.

Somos governados por gangsters e mentirosos.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 15.10.15

O conspirador - José Goulão

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José Goulão  O conspirador

 

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Mundo Cão, 14 de Outubro de 2015

 

   Os portugueses ganham menos, trabalham mais e correm riscos mais elevados de despedimento.

Quem o diz? A CGTP? O PCP ou o Bloco de Esquerda? O “radical” António Costa? Se o leitor respondeu de acordo com alguma destas óbvias alternativas errou redondamente.

Quem o diz é a insuspeitíssima OCDE, entidade neoliberal por essência e definição, concluindo assim que a vida dos portugueses está cada vez pior. As motivações do desabafo só os próprios a conhecerão, mas agora que, segundo a coligação que nos deixou neste lindo estado, as coisas iam tão bem, esta conclusão parece traiçoeiramente combinada entre a dita OCDE e as diligências de António Costa para fazer um governo contra a austeridade.

Ao mesmo tempo, imagine-se a amplitude da conspiração, a Global Wealth Report, uma das várias entidades que avaliam a saúde das finanças dos mais ricos do mundo, deduziu que Portugal tem menos milionários, mas mais ricos.

Isto é, por um lado os portugueses ganham menos, trabalham mais e vivem na corda bamba do desemprego; por outro, os milionários portugueses são em menor número, helas!, mas estão mais ricos.

Surge então o ex-presidente da Comissão Europeia, um indivíduo que devia estar a prestar contas ao Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade, e adverte os militantes do PS que nem se atrevam a permitir um governo de aliança entre o seu partido e os partidos à esquerda, porque isso irá trazer elevados custos aos portugueses. A quem? Aos que carregam o peso da austeridade ou àqueles pobres milionários, coitados, que estão menos ricos, quiçá até aos que estão mais ricos?

Depois das quedas na bolsa provocadas pela “instabilidade política” conjugada com a “ameaça de um governo de esquerda”, depois das insistências de Bruxelas para que o governo – em minoria – envie rapidamente o “projecto de orçamento” do próximo ano, depois dos recados dos bancos segundo os quais, como “motores da economia”, exigem uma célere e estável “solução política”, depois das mensagens cifradas do rei de Boliqueime, faltavam-nos as ameaças silvadas pelo ex-presidente da Comissão.

O homem nem hesitou em interromper o seu repouso sabático, talvez correndo o risco de perder o telefonema capaz de o projectar para novos e altíssimos voos, tão empenhado está em acudir aos portugueses assim ameaçados de ganharem ainda menos, de trabalharem ainda mais, de alongarem a interminável fila dos desempregados. Ele, o ex-presidente da Comissão Europeia que não hesitou em fazer das mentiras guerra e assim provocar a perda de milhões de vidas humanas – é verdade, a ordem de grandeza das vítimas mortais das guerras por ele apoiadas já se avalia em milhões; ele, que depois do desmantelamento do Iraque e da Líbia também tem as mãos sujas do sangue dos sírios, pois sabe-se como a União Europeia contribuiu e contribui para esta tragédia; ele, que está na origem da via-sacra dos refugiados a caminho da Europa e que, enquanto presidente da Comissão, nada fez – antes pelo contrário – para que a Europa tivesse uma política de imigração.

Dir-se-á: pois sim, o homem será isso tudo mas também é um patriota. Ainda muito novinho, revolucionário em folha, impediu que os portugueses tombassem nas mãos do tenebroso “social-fascismo”. Depois, como primeiro-ministro de Portugal, foi o anfitrião ideal da tal cimeira dos grandes democratas Bush, Aznar e Blair que iria levar a democracia a cada recanto do Médio Oriente e só não o conseguiu devido às tramoias do “terrorismo”. A seguir, já como presidente da Comissão Europeia, defendeu bravamente os interesses dos portugueses enviando-lhes a troika, protegendo os agiotas que lhes sugam os bens, colocando-se ao lado da benemérita Merkel, que só por um triz não ganhou o Nobel da Paz, contribuindo para que aos seus concidadãos fossem impostos tratados e outros artifícios austeritários, de modo a instaurar a ordem nas benditas finanças públicas. É certo que a dívida continua a crescer, os números fintam os discursos oficiais, mas há que dar tempo ao tempo e espaço à minoria governamental.

Enfim, o homem que fez tudo o que esteve ao seu alcance para que os portugueses ganhem menos, trabalhem mais, emigrem muito mais e vivam cada vez mais à beira do desemprego é a voz segura e certa para advertir os mesmos portugueses de que irão ganhar menos com um governo à esquerda. Ele sabe do que fala; sobretudo, sabe como se conspira.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 01.06.15

Balsemão, Barroso & Cia - José Goulão

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José Goulão  Balsemão, Barroso & Cia

 

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Mundo Cão, 31 de Maio de 2015

 

   Anuncia a comunicação dita “de referência”, que nestas coisas do chamado arco da governação tem obrigação de saber do que fala, que o senhor Pinto Balsemão, luso-imperador da comunicação social com sotaque global do comendador Marinho, escolheu sucessor na comissão permanente do universo conspirador conhecido por Grupo de Bilderberg. E esse sucessor é: o inefável Durão Barroso, pois quem havia de ser? De conspirador militante anti-25 de Abril, via mrpp, a intérprete dos desejos dos barões da especulação financeira a quem foi confiado o cutelo da austeridade, passando por anfitrião da cimeira de grandes mentirosos que acelerou o caos em que se encontra o Médio Oriente, o seu currículo merece tão valiosa recompensa como insigne distinção. Barroso não passa apenas a fazer parte do núcleo dos grandes conspiradores que, numa clandestinidade aristocrática, definem como deve funcionar a “democracia transparente” em todo o mundo; assume também funções executivas, isto é, empunha o facho com a chama acesa entre conclaves anuais e, por inerência, convida os portugueses a quem serão atribuídas as missões estratégicas a desempenhar nos próximos tempos.

Esta interpretação de factos tão relevantes que aqui vos transmito emana, como não podia deixar de ser, dos sinistros antros da teoria da conspiração. O senhor Balsemão foi um corajoso dissidente do fascismo, até integrou a Ala Liberal, uma engenhosa manobra de regeneração do marcelismo através do manto diáfano da democracia para que o capitalismo continuasse a ser o que sempre foi; foi apanhada em contrapé pelos militares, é verdade, mas logo se recompôs reencarnando em forma PSD. O senhor Balsemão foi até primeiro-ministro durante a longa marcha contra a herança do 25 de Abril conduzida juntamente com o dr. Soares e o prof. Freitas, sob a batuta ágil e enérgica do embaixador Carlucci, para devolver o país à essência da Ala Liberal, que hoje tanto pode chamar-se ala neoliberal como arco da governação. No entanto, a vocação autêntica do senhor Balsemão é a propaganda, tendo encontrado no Grupo de Bilderberg o lugar certo para desempenhar a missão que lhe foi outorgada, com vantagens inegáveis para o próprio e quem o escolheu e danos vultosos para a democracia. Danos vultosos estes que não são colaterais, mas sim a essência dos objectivos a atingir.

Quanto ao senhor Durão Barroso, uma geração abaixo, é a sucessão natural do agora fatigado guerreiro Balsemão, merecedor de repouso e de uma enxurrada de condecorações. De feroz inimigo da “educação burguesa” traulitando a eito contra o 25 de Abril a enfático presidente da Comissão Europeia com um pé ou os dois sempre em Washington – lembre-se a cruzada pelo “acordo de comércio transatlântico” lançada a todo o gás e com as urgências máximas no último ano do seu mandato - ele tem energia, contactos e experiência para dar e vender nos areópagos da conspiração mundial. Parece ser o homem certo no lugar certo porque nos últimos anos poucos dirigentes políticos têm conseguido ser tão eficazes contra a democracia e os direitos humanos em nome da democracia e dos direitos humanos. O senhor Barroso – há que reconhecer-lhe esse talento - tem o savoir-faire, a intrepidez e a flexibilidade de manobra fundamentais para executar missões e trabalhos de sapa encomendados pelos padrinhos, que assim conservam as mãos limpas e impolutas. Das Lages ao desempenho à cabeça da Comissão Europeia não faltam exemplos ilustrando uma tal vocação que lhe vem da meninice e à qual soube puxar o lustro exigido pela elegância da especulação financeira.

Neste mês de Junho, que promete ser quente, dar-se-á a passagem do testemunho de Balsemão para Barroso em mais um conclave anual de Bilderberg. Com as ondas de choque do acordo entre os Estados Unidos da América e o Irão no horizonte, os magnatas, generais, barões da propaganda, super-espiões, estrategos, ex-governantes, imperadores das telecomunicações vão formatar os acontecimentos do próximo ano e daí canalizarão as ordens a cumprir pelas múltiplas versões de arco da governação implantadas através do globo. Lá estarão também os portugueses, escolhidos quiçá a quatro mãos por Balsemão& Barroso, para serem instruídos nas missões a desempenhar, sejam quais foram os resultados das eleições, para que a lusitana versão do arco da governação prossiga no caminho em que deve prosseguir para que os ricos sejam cada vais mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e mais numerosos.

Interpretação esta que não passa, como sempre, de mal-intencionada teoria da conspiração.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 04.11.14

A condecoração de Durão Barroso - Carlos Esperança

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 Carlos Esperança  A condecoração de Durão Barroso

 

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        Depois de estender o cachaço à venera que o venerando PR lhe dependurou, à guisa de belfa que segurava o cambão que os solípedes rodavam para elevar os copos da nora, no vaivém que os enchia no poço e os despejava na caleira agrícola, o agraciado regougou:

"Nenhuma distinção podia dar-me maior satisfação do que esta (...) por significar para mim o reconhecimento do meu país, por significar para mim também que foi correta a decisão que tive de t...omar em 2004".

Barroso, o homem cuja pituitária cheirou gases tóxicos, no Iraque, a partir de Londres, que trocou o governo, que se desfazia e não sabia remodelar, pela sinecura de Bruxelas, confundiu Cavaco com o País, o reconhecimento com a cumplicidade e «a decisão que teve de tomar» com a fuga ansiosa que a mentira de Aznar, contra a ETA, lhe abriu.

A decisão a que alude, numa frase prenhe de narcisismo, onde repete a primeira pessoa à exaustão, carregada de pronomes, o dissimulado mordomo dos Açores, que declarava que o seu Governo estava a procurar que António Vitorino fosse ocupar o lugar, tinha o compadre Martins da Cruz, demitido por querer colocar a filha em Medicina, por ínvio diploma feito à medida, a tratar do emprego e a preparar-lhe a fuga.

Era agradável poder dizer-se do mais alemão dos portugueses, e do mais americano dos europeus, que tivesse sido outro Jacques Delors, um homem de Estado, um político com consciência social, o estadista que cuidasse a Europa solidária dos pais fundadores, uma comunidade coesa no aprofundamento político, social e económico, que não deixasse naufragar os países pobres nas ondas da crise das dívidas soberanas e dos malabarismos do capital financeiro.

Barroso não é um europeu amigo de Portugal, é o americano que acabou a comissão de serviço na Europa, iniciada ao serviço de Bush e de Blair e finda como guarda-costas da senhora Merkel junto dos países que humilhou e ajudou a empobrecer.

A criatura que Cavaco embalou na venera é o presente envenenado que vai andar por aí, hoje a deixar que o mestre da banalidade, como lhe chamou Saramago, fizesse prova de vida a atá-lo na fita colorida e, no futuro, à espera da desmemória do povo donde fugiu.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 27.06.14

Estados Unidos e Barroso atacam gasoduto importante para toda a Europa - Pilar Camacho e Urzula Borecki

 http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

Pilar Camacho (Bruxelas), Urzula Borecki, (Sófia)  Estados Unidos e Barroso atacam gasoduto importante para toda a Europa

 

 

13 de Junho de 2014

 

   Os Estados Unidos, com “a cumplicidade” do presidente da União Europeia, Durão Barroso, impuseram ao governo da Bulgária o cancelamento da construção do gasoduto South Stream, um projecto transnacional criado há quase dez anos para abastecer a Europa com gás natural russo através de uma rota integrando parte do Mar Negro.
A decisão do governo búlgaro foi anunciada horas depois de ter estado em Sófia uma delegação norte-americana chefiada pelo senador republicano John McCain, um dos grandes artífices do golpe de Estado na Ucrânia e que foi informar as autoridades búlgaras sobre “o modo de respeitar as sanções impostas à Rússia”, de acordo com uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Bulgária. Esta delegação rumou a Sófia depois da visita do presidente Obama a Bruxelas.
Pouco tempo antes, em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia tinha informado a Bulgária do levantamento de um processo contra este país por alegadas “irregularidades” nos concursos para construção do South Stream.
“É a cumplicidade lógica do funcionamento da Comissão Europeia”, reconhece um veterano funcionário do Conselho Europeu. “Barroso faz sempre em primeiro lugar aquilo que interessa aos Estados Unidos, basta ver o forcing pelo tratado de comércio livre (TTIP) com que pretendeu assinalar o último ano do seu último mandato”, acrescentou a mesma fonte.
“Barroso vai ficar nos anais das instituições europeias, pelo menos para consumo de bastidores, como um homem dos americanos e para isso nem é preciso ir às suas origens maoístas à moda das conveniências americanas”, declarou o alto funcionário do Conselho. “Ignoro o seu futuro, mas até ao último instante, como acontece agora com o gasoduto, Barroso guarda uma fidelidade absoluta, como quem espera alguma boa recompensa de Washington pela carreira que lhe dedicou”.
O gasoduto South Stream nasceu de uma estratégia desenhada em 2006 pelas empresas russa Gazprom e pela italiana ENI, depois adoptada, em 2007, pelos governos dos dois países. Nos termos dos planos e acordos estabelecidos até 2011, o South Stream tem um troço submarino de 930 quilómetros no Mar Negro, em águas territoriais russas, búlgaras e turcas; segue-se um troço terrestre atravessando a Bulgária, a Sérvia, a Hungria, a Eslovénia e a Itália até Tarvisio, no Norte deste país.
As obras iniciaram-se em 2012, ano em que se associaram ao projecto a empresa alemã Wintershall e a francesa EDF, com o objectivo de começar o fornecimento de gás em 2015.
Com a crise da Ucrânia e as sanções impostas pelos Estados Unidos contra a Rússia, as pressões contra o South Stream “incidiram sobre um dos elos mais vulneráveis, a Bulgária”, denuncia o diplomata búlgaro.
Citando meios empresariais e patronais da Bulgária, a mesma fonte afirma que o gasoduto e os trabalhos com ele relacionados são considerados “um balão de oxigénio para as empresas búlgaras”. Meios políticos búlgaros que sustentam o governo de Plamen Oresharski afirmam que o projecto é “de uma importância vital para o país”.
No entanto, horas depois de ter recebido a delegação de Washington chefiada por McCain, o primeiro ministro de Sófia anunciou a decisão de “suspender os trabalhos do gasoduto”, tornando o seu futuro dependente de “consultas com Bruxelas”.
Consultar Bruxelas, antecipa o alto funcionário do Conselho Europeu, “é o mesmo que colocar-se nas mãos de Barroso para que este confirme as ordens de Washington. É apenas mais uma prova de que a Europa é a parte que mais sofre com as sanções americanas à Rússia, que pelo seu lado encontrou de modo fulminante importantes alternativas através dos acordos com a China e outros que está a desenvolver também na Ásia, como é o caso das Coreias”.
Em Itália, por exemplo, os prejuízos pelo cancelamento do gasoduto poderão ser da ordem dos milhares de milhões de euros, como se admite em Roma.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 27.05.14

Barroso Quer Prostituição e Droga no PIB

 

Barroso Quer Prostituição e Droga no PIB

 

   Inteligência Económica, 26 de Maio de 2014

   É uma das últimas da Comissão de Barroso e façam o favor de não se rir: Como Bruxelas quer o PIB da Europa a subir (para poder falar de retoma…), a Comissão manda integrar no cálculo do PIB a “facturação” da droga, prostituição, contrabando de álcool, jogo clandestino, contrabando de tabaco e outros tráficos e actividades criminosas. É uma inovação fabulosa, pela primeira vez, desde que existe o índice de PIB, a actividade criminosa passa a contar para a criação da riqueza nacional! Nada pára a Europa! A Itália será um dos primeiros Estados a cumprir as novas regras, a pedido de Bruxelas. Gian Paolo Oneto, o patrão da direcção de contabilidade nacional do INE italiano já avisou que o PIB italiano vai disparar, com as novas contas (que serão, obviamente, meras estimativas…) e tenta defender-se atirando a responsabilidade para Bruxelas. O Eurostat, diz ele, já lhe deu as “guide lines” que agora “temos de aplicar” e que vão ser “as mesmas para todos os Estados da União Europeia”… Gian Paolo Oneto lamenta-se, contudo, das dificuldades que vai encontrar pois aplicar as “guide lines” do Eurostat não vai ser nenhuma pera doce “pela razão evidente que essas actividades ilegais não são declaradas”. Para tornar esta invenção europeia ainda mais cómica, o INE italiano fez sair um comunicado oficial em que alerta para o facto de que “o conceito de actividade ilegal está sujeito a diversas interpretações”… Quanto ao PIB português, nesta nova contabilidade criativa de Bruxelas, é evidente que também irá subir. Mas o nosso INE ainda não fez qualquer comunicado sobre o assunto e o perfil católico conservador do ministro da Economia deve criar-lhe fortes pudores para mexer na matéria da prostituição, droga, jogo clandestino e outras novas componentes do PIB português. Por esclarecer está também o caso BPN: em que coluna vão ser colocados os milhares de milhões gerados pelo banco de Oliveira e Costa e amigos? E as comissões que os alemães dizem ter pago no caso dos submarinos, também vão ser contadas? Com certeza que sim… Com esta contabilidade, vale a pena multiplicar os BPNs e os submarinos, deixar as máfias da prostituição e do jogo tomar o freio nos dentes e talvez até, para aumentar a produtividade, mandar prender a polícia… Parabéns ao dr. Barroso! Mesmo se a coisa já encontrou um primeiro escolho: a França rebelou-se, mandou Bruxelas bugiar e recusa-se a aplicar a “directiva das putas”, como já lhe chamam.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Terça-feira, 10.12.13

A União Europeia e o Caso Nito Alves - Rafael Marques de Morais


Rafael Marques de Morais  A União Europeia e o Caso Nito Alves 



Publicado em Maka, 4 de Desembro de 2013 


   Recentemente, a 19 de Novembro, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, encarregou a Alta Representante da União Europeia e vice-presidente da Comissão, Baronesa Catherine Ashton, a responder, em seu nome, sobre questões relacionadas com a detenção e as acusações contra o activista angolano Manuel Chivonde Baptista Nito Alves.

Durão Barroso é bastante uma figura bastante conhecida e controversa em Angola, pelo seu papel na promoção do primeiro acordo de paz no país, em 1991, ratificado pelo presidente José Eduardo dos Santos e o malogrado líder rebelde Jonas Savimbi. Nessa altura Durão Barroso era o Secretário de Estado para os Negócios Estrangeiros e Cooperação. Desde então tem cultivado uma estreita relação de amizade com o presidente Dos Santos e tem-no favorecido na arena internacional.

O presidente Dos Santos tem alistado, também, outros políticos portugueses de relevo para o ajudarem a encobrir os actos de corrupção e de violação dos direitos humanos do seu governo. Em troca, o presidente angolano apoia a economia portuguesa.
A família Dos Santos, os seus acólitos e a Sonangol são os maiores investidores externos, por país, em empresas listadas na Bolsa de Valores em Portugal, nas quais têm investido mais de € 2,86 biliões nos últimos anos. Em salários e honorários, os portugueses residentes em Angola enviaram mais de € 270,6 milhões de Angola para Portugal.
Estas considerações podem ser a única explicação para o facto da carta de Durão Barroso nunca ter mencionado a causa real da detenção de Nito Alves: o presidente José Eduardo dos Santos.
 
A Carta


Em resposta às questões levantadas pela eurodeputada portuguesa, Ana Gomes, a Alta Representante referiu que os seus serviços estavam a seguir o caso de perto. “Fui informada que a acusação inicial contra ele [Nito Alves], de injúria ao abrigo da Lei dos Crimes contra a Segurança de Estado, foi alterada para uma acusação menor de ‘incitação à desordem pública’”, disse.
Na correspondência, a Baronesa Ashton explicou ainda que a delegação da União Europeia, em Luanda, tem estado em contacto com a família do activista, com o seu advogado e com a Associação Mãos Livres, que patrocina a sua defesa.
A monitoria do caso pela delegação da União Europeia foi uma iniciativa louvável. Por conseguinte, Durão Barroso devia estar melhor informado.
Contudo, a correspondência do presidente da Comissão Europeia, endereçada através da Baronesa Ashton, distorceu os factos, fez comentários políticos desnecessários e, de forma grave, omitiu a causa da detenção, da prisão e das acusações contra Nito Alves, um menor.
Durão Barroso declarou, na sua correspondência, que a situação do Nito Alves estava, de algum modo, relacionada com um assunto que nunca foi levantado pelas autoridades angolanas.
“Como provavelmente deve saber, as t-shirts produzidas por Nito Alvez (sic) tinham impressas, nas costas, a seguinte expressão: “Povo angolano, quando a Guerra é necessária e urgente”. Este slogan é, com certeza, bastante sensível num país que teve uma longa história de guerra civil”, argumentou Lady Ashton.
Tal comentário político é flagrantemente distorcido, como os factos demonstram.
Nito Alves foi raptado a 12 de Setembro, por 15 agentes armados e não identificados, em trajes civis. Os agentes não tinham um mandado de captura e levaram o prisioneiro para as instalações de uma unidade policial desactivada, onde o sujeitaram a ameaças de morte por causa do slogan impresso na parte frontal das 20 camisolas: “Zé-Dú/Fora/Nojento Ditador”.
O rapto de Nito Alves apenas se tornou publico porque uma testemunha alertou imediatamente a Rádio Despertar. A referida rádio divulgou de imediato o sucedido. A exposição pública forçou os agentes envolvidos na operação a transferir Nito Alves para a esquadra policial do Capalanca, em Viana.
No ano passado, um operação similar, levada a cabo por agentes policiais e de segurança, resultou na execução dos activistas Alves Kamulingue e Isaías Cassule.
Sobre a expressão “Povo angolano, quando a guerra é necessária e urgente”, impressa nas costas das camisolas, a explicação é simples. Esta expressão é o título de um artigo publicado a 8 de Agosto de 2009, no Folha 8, pelo jornalista e docente universitário Domingos da Cruz. Um ano mais tarde, a 20 de Agosto de 2010, o referido autor publicou um livro, no Brasil, com o mesmo título.
O livro é uma colecção de ensaios sobre uma variedade de assuntos, incluindo pornografia, sexualidade, desobediência civil, catolicismo, paz, pensadores africanos, a morte na cultura Bantu, Barack Obama, e a fome no mundo. No baralho de temas, Domingos da Cruz apelou à juventude para o uso do direito constitucional de manifestação para a defesa dos direitos humanos e da justiça.
A Procuradoria-Geral da República acusou Domingos da Cruz de ter cometido o “crime de incitação à desobediência colectiva”. Contudo, a Lei dos Crimes contra a Segurança de Estado (Lei n° 7/78), que tipificava o referido crime, já havia sido revogada. Por essa razão, a 6 de Setembro de 2013, O Tribunal Provincial de Luanda absolveu Domingos da Cruz, por inexistência do crime de que era acusado, na legislação nacional.
Entre Junho e Setembro, quando Domingos da Cruz foi notificado, pela primeira vez, para comparecer em tribunal, que jovens activistas adoptaram o título do seu livro como um slogan, como forma de lhe prestar solidariedade.
Apesar disso, na noite do rapto de Nito Alves, a Televisão Pública de Angola (TPA) desencadeou uma campanha de propaganda de tom apocalíptico. A TPA concentrou-se exclusivamente no título do livro de Domingos da Cruz, impresso nas costas das camisolas, para desviar as atenções da operação de rapto mal-sucedida, e da inscrição na parte frontal das camisolas “nojento ditador”. Aparentemente, a delegação da União Europeia, em Luanda , baseou o relatório, que entregou a Durão Barroso, na propaganda da TPA, uma vez que não há qualquer referência a esta informação nas acusações contra Nito Alves.
 
As Acusações Contra Nito Alves
 
Apresentem-se os factos.
O Ministério Público tomou a liberdade de mudar, quatro vezes, as acusações contra Nito Alves. No primeiro processo Nito Alves não era acusado de nenhum crime específico, enquanto nos processos seguintes foi acusado de insultar o presidente, embora com base em argumentações legais diferentes.
Finalmente, a 8 de Novembro, de forma contenciosa, a Procuradoria-Geral da República recorreu à revogada Lei dos Crimes contra a Segurança de Estado (Lei nº 7/78) para formular a acusação final contra o jovem activista. A Procuradoria citou o artigo referente ao Atentado contra o Chefe de Estado (Art. 16º, 3º). A Lei nº 7/78 é a mesma que foi usada contra Domingos da Cruz.
O Ministério Público acusou Nito Alves do “crime de injúrias contra titular de órgão de soberania”. Esta acusação foi feita no mesmo dia em que o jovem foi libertado sob termo de identidade e residência.
Os argumentos do Ministério Público são bastante claros. Na acusação explica que, durante o interrogatório, Nito Alves reiterou que “não retira a palavra ‘nojento’, [que havia mandado estampar nas camisolas] e que ‘se o presidente se sentir ofendido com isto é porque presume cometer tais erros’ ”.
De acordo com a PGR, “as referidas palavras visaram insultar e ofender moralmente o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, popularmente conhecido por Zé Dú, órgão de soberania que deve ser tratado com todo o respeito e reverência”.
Não há acusações contra Nito Alves por “incitação à desordem pública”, como afirma a Baronesa Ashton. Essa afirmação é simplesmente falsa. Falei com o advogado Salvador Freire, da Associação Mãos Livres, que se encontrou com a delegação da União Europeia em Angola. Negou ter prestado tal informação.
 
Oh, Durão Barroso!
 
Se Durão Barroso e os seus serviços estão a acompanhar o caso de perto, então, estão a enganar a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu.
O Parlamento Europeu deve instar Durão Barroso e a Baronesa Ashton a corrigirem este baixo acto de diplomacia e a apresentarem a verdade dos factos.
Há um ditador em Angola que encarcerou um menor por ter mandado imprimir 20 camisolas nas quais é descrito como “nojento”. O mesmo ditador está a julgar um menor através de uma lei, dos Crimes contra a Segurança de Estado, revogada há três anos. O menor é obrigado a apresentar-se, quinzenalmente, numa esquadra policial. Estes são os factos.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 19.11.13

Barroso, o mordomo - Daniel Oliveira

 

Daniel Oliveira  Barroso, o mordomo

 

 

 

   Publicado no Expresso online em 18 de Novembro de 2013

   Quando João de Deus Pinheiro abandonou o cargo de ministro dos  Negócios Estrangeiros, sendo chutado para a Europa e terminando assim a sua  carreira política nacional, o seu ambicioso secretário de Estado da Cooperação,  entrado na política com o alto patrocínio de Santana Lopes, teve, na sombra, um  papel decisivo. Chegou a ministro, uns anos mais tarde a líder do PSD e, graças  à inesperada demissão de Guterres, a primeiro-ministro.  

A história deu ao ex-maoista Durão Barroso uma dessas  oportunidades históricas que muda a vida dum homem. George Bush precisava de  exibir os seus aliados europeus na injustificável ocupação do Iraque que se  preparava, baseada num conjunto de mentiras. Aznar e Blair foram os únicos que  aceitaram participar numa encenação que pretendia esconder o quase absoluto  isolamento dos EUA nesta aventura. Era necessário um palco longe do mais que  seguro protesto popular - uma ilha era o ideia -, onde houvesse uma base militar  americana que garantisse a segurança do presidente - as Lajes, perdidas no meio  do Atlântico, eram excelentes -, num país com pouca relevância política e  militar - Portugal encaixava - e com um governo disposto a oferecer a sua imagem  a uma guerra absurda só para mostrar serviço. Para o primeiro-ministro  português, era a oportunidade de aparecer na fotografia, mesmo que apenas como  mordomo - na maioria das fotos publicadas nos principais jornais internacionais  ele ficou de fora. E foi nesse momento, pela porta de serviço, que Barroso  conseguiu o sonho de qualquer bom mordomo: ser igual aos senhores que bajula.   

Quando foi preciso escolher um presidente para a Comissão  Europeia, as potências europeias procuraram alguém que, pela sua irrelevância  política, não viesse a ser um perigo para o poder alemão e francês. Como segunda  ou terceira escolha, encontraram o primeiro-ministro que tão bem recebera nas  Lajes. A posição que tivera sobre o Iraque era indiferente. O que contava era a  sua disposição para moldar todas as suas convicções aos interesses de quem  pudesse alimentar as suas ambições. Ao contrário doutros, Barroso aceitou  interromper o seu mandato no governo português, entregando o poder ao seu  companheiro Santana Lopes. Chegado a Bruxelas, não desiludiu. Até do apelido que  sempre usara (Durão), por não ser de pronuncia conveniente, ele abdicou.  

Em Portugal, muitos foram os que apelaram ao provincianismo  nacional, dizendo que viria a ser benéfico para Portugal ter um português a  presidir a Comissão. Isso dificilmente seria verdade, se o presidente cumprisse  a sua função, que era a de zelar pelos interesses da Europa e não dum Estado em  particular. Mas seguramente não aconteceria com Barroso. Ele trabalharia para  quem tem poder e as suas origens seriam a ultima das suas preocupações. O  mordomo interioriza os valores dos seus senhores e quase sempre se envergonha do  lugar de onde vem. O seu orgulho é servir. Por isso mesmo Barroso foi o líder  europeu mais arrojado (mais do que a própria troika ou FMI) na pressão ao  Tribunal Constitucional português. Alguma vez Barroso se atreveria a dizer  coisas semelhantes sobre o sempre ativo Tribunal Constitucional alemão?  

O último vez que José Manuel Barroso mostrou a sua vontade de  servir quem manda foi na semana passada. Perante a abertura de um processo de  análise à Alemanha, obrigatório por esta ter ultrapassado os excedentes  comerciais permitidos pelos tratados (6,5% em vez de 6%), o presidente da  Comissão tentou diminuir o alcance daquilo que parecia um acontecimento  interessante: as regras europeias também se aplicam à Alemanha, ideia peregrina  que causou algum incómodo em Berlim. Barroso desfez-se em desculpas: "Isto não  deve ser entendido como se a Europa estivesse contra a competitividade da  Alemanha. Pelo contrário, é muito bom para a Alemanha e para a Europa, sendo a  sua maior economia, que a Alemanha se mantenha como um país tão competitivo e  níveis de exportação e crescimento destes. Se posso dizer, gostaríamos até de  ter mais 'Alemanhas' na Europa".  

Apesar da Alemanha fingir que não o compreende, ninguém terá  de explicar a Barroso o absurdo deste desejo. Por um lado, os excedentes  comerciais alemães, pelo menos na proporção dos últimos anos, criam uma pressão  para a valorização do euro, o que é uma tragédia para muitos países europeus,  impedindo qualquer ajustamento económico. Ou seja, são, para o euro, um problema  tão grave como o oposto. Por outro, o mercado interno europeu não é compatível  com excedentes nacionais destas dimensões. Por uma razão simples: para alguém  vender é preciso que alguém compre. Como nenhum Estado europeu pode abdicar do  enorme mercado em que está integrado, se todos decidirem que só vendem e poupam,  a economia paralisa e ninguém vende nem poupa. Este excedente comercial alemão,  é sabido, é, a par da absurda arquitetura do euro, um dos maiores problemas  económicos atuais da Europa. Que, como avisaram já tantos economistas, ou é  rapidamente resolvido (através do fim da política de contenção salarial,  inibidora do consumo, há anos imposta aos trabalhadores alemães) ou destruirá o  euro, a União Europeia e, por consequência, a própria Alemanha. Tratar, como  Barroso tratou, esta questão como um mero pormenor técnico diz tudo sobre a  forma como as instituições europeias há muito desistiram de representar os  interesses de toda a Europa.  

Esta vergonha em tentar que a Alemanha, por uma vez, cumpra os  tratados que impõe aos outros, que em tudo contrastam com a vigorosa chantagem  sobre os juízes do Constitucional português, são o retrato da Europa e das suas  instituições. Barroso, pela sua fraqueza de princípios, pela ausência de coragem  política e pela sua subordinação ao poder dos mais fortes é, ele mesmo, nas  funções que ocupa, um retrato do estado da União. Diz-se que, depois de ter  abandonado o País por um melhor emprego, quer regressar para ser eleito  Presidente da República portuguesa. Tal desejo só me deixaria muito espantado se  não olhasse para Belém e não encontrasse lá um dos poucos políticos que  ultrapassa Barroso na subordinação de todos os valores à sua própria ambição  pessoal. Mas, mesmo assim, até esta direita, deprimida com o estado em que os  dois partidos que a representam estão a deixar o país, é capaz de encontrar  melhor do que isto.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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