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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Bruno Maia Caros homens

(Bruno Maia é neurologista no Centro Hosptalar de Lisboa Central)
É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.
esquerda.net, 28 de Outubro de 2017
É-nos muito difícil falar sobre emoções. Eu sei. Desde bebés que nos dizem que os homens não choram. Que todo e qualquer sentimento que não seja regozijo numa qualquer vitória ou domínio sobre outro ser humano, não é aceitável. Talvez não nos tenham dito explicitamente mas estava lá implícito, nos contos de crianças, na banda desenhada, nos videojogos, nas conversas de recreio, no campo de futebol. Afinal histeria e choradeira são só para meninas. E aprendemos inconscientemente que há deveres que não são nossos: quando a mãe nos dispensava de arrumarmos o quarto, quando a professora “tolerava” o nosso lixo porque “éramos rapazes”, quando a namorada da adolescência passou a escolher a roupa por nós, quando a casa que partilhamos com outros rapazes na faculdade tinha que estar imunda, ou não era uma casa de rapazes. Os mais velhos diziam com frequência que tinham a esperança de um dia encontrarmos uma rapariga com a cabeça no lugar para “tomar conta” de nós (dos tais deveres que aos rapazes não assistem).
Lembram-se dos primeiros dias de vida? Claro que não. Mas vários investigadores já demonstraram que o tom de voz com que os pais tratam os meninos recém-nascidos é muito diferente daquele com que se dirigem às meninas. E lembram-se daquele tio, ou amigo do pai, que se ria e divertia sempre que dizíamos asneiras? Ou que nos incentivavam, ainda com 3 anos, quando agarrávamos a menina lá no infantário para dar um “inocente” beijo, quer ela quisesse ou não?
Lembram-se de todas aquelas vezes em que, para nos insultarem, os outros rapazes diziam: “pareces uma menina”? E certamente lembram-se do que pensávamos todos de uma rapariga com muitos namorados… E um rapaz com muitas namoradas? Era o quê? Lembram-se?
Todos crescemos para sermos campeões. Bem-sucedidos. Décadas nisto tornaram o nosso inconsciente impermeável a “emoções frágeis” e o nosso ego imbatível. Convenceram-nos (consciente e inconscientemente) que nós “temos direito” a uma série de coisas. Os privilégios de sermos homens. De vivermos com regalias das quais nem temos noção no dia-a-dia que elas existem! Já participaram em reuniões certamente – do trabalho, políticas, qualquer coisa onde estejam homens e mulheres. Na próxima reparem no número de vezes que os homens falam por cima delas e ninguém se importa – afinal temos a voz mais grossa, impomos a nossa presença, enfim, somos homens! E sempre que uma mulher fala mais alto reparem naquela vossa voz interior que vos diz: “é uma histérica” – porque nem pensar aceitar que uma mulher pode simplesmente ter razão.
Por tudo isto é tão difícil que alguém venha pôr em causa estes nossos privilégios. Mexemos na cadeira, ficamos incomodados, espumamos de raiva, sentimo-nos frustrados. Mas não podemos chorar que isso não é de homem – temos de bater em alguém, insultar, provocar, assediar uma rapariga qualquer que esteja por ali a passar. Chorar e falar sobre as nossas emoções é que não. Gritar não dá porque é para “histéricas”. Que coisa mais efeminada.
Tudo isto poderia ser apenas um problema nosso – uma coisa que nós resolvêssemos com o tempo, com a mudança de mentalidades. Mas não é um problema só nosso por esta pequena mas importantíssima razão: os nossos privilégios existem à custa das mulheres!
Façam agora um pequeno exercício: invertam tudo o que está descrito acima para nós homens e ponham-se no lugar das mulheres! Já se colocaram? Pois, não chega! Porque para termos sequer um vislumbre do que é ser mulher nesta sociedade não bastam 2 minutos de pensamento solidário – é preciso viver como mulher todos os dias desde o momento em que nascemos. É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.
Para terminar deixo dois conselhos:
Ah e já me esquecia: feminismo quer dizer igualdade entre os géneros. Por isso, se não és feminista és um porco machista e estás na mira para ser aniquilado a curto prazo! Passem bem!
Daniel Oliveira A perda de quadros e os amanhãs que cantam
Publicado no Expresso online em 23 de Janeiro de 2014
O secretário de Estado da Inovação explicou que pode ser positivo os portugueses mais qualificados emigrem. Dita a enormidade, em Paris, explicou-se ao Expresso: "A exposição dessas pessoas no estrangeiro é positiva para Portugal e, depois, elas podem regressar ainda mais qualificadas e experientes, é bom que elas saiam do país, embora o devam fazer por livre vontade e não por necessidade". E deu como exemplo Carlos Tavares, que dirige a Peugeot-Citroen. Um dia destes dedicar-me-ei ao curioso facto de, para o grupo de gestores que dirige este governo, Portugal se resumir aos seus pares e, vá lá, para o povo, a futebolistas. Mas adiante.
Vou tentar explicar isto muito devagarinho. Não foi Pedro Passos Coelho que inventou a globalização. Os nossos quadros já partiam e regressavam. Já estudavam e trabalhavam cá dentro e lá fora. Começavam logo nas licenciaturas, com o Erasmus. Continuam nas suas carreiras, desde que há liberdade de movimentos na Europa. Uns regressavam, outros não e outros regressam e voltam a partir. Em alguns casos, até trabalham cá dentro e lá fora ao mesmo tempo. Portugal não era um país cercado por um muro antes destes senhores chegarem ao governo. Era, pelo menos para os cidadãos mais qualificados, um país moderno, aberto ao exterior e com relações permanentes e intensas com o resto da Europa.
Obviamente, não é essa partida e chegada, esse intercâmbio, que preocupa os portugueses. É a perda de quadros. Vou repetir: a perda. E essa perda resulta não apenas do facto desta emigração resultar da necessidade, mas de ser altamente improvável, com a aposta que este governo está a fazer em salários baixos e com o desinvestimento na educação e na investigação, que tenham para onde voltar. E isso faz com que o investimento que fizemos na sua formação não seja aproveitado por nós.
Responder ao drama que é a fuga em massa de trabalhadores qualificados com as vantagens de ir trabalhar para fora e regressar com melhores redes profissionais e ainda mais qualificado faz tanto sentido como chamar à atenção das vantagens do turismo para falar do drama dos refugiados.
Com o apelo à emigração e a que os portugueses saíssem da sua "zona de conforto", é a terceira vez que um governante se mostra baralhado em relação às funções que desempenha. Não são gestores de carreiras. Não são conselheiros profissionais. São ministros e secretários de Estado. Não tenho dúvida que, no estado em que o País está, o melhor que alguém qualificado tem a fazer é pirar-se daqui. E voltar ou não voltar, dependendo do que por cá aconteça. E não tenho dúvidas que a sua partida é má para Portugal, no seu conjunto. E é com isso que o governo se deve preocuar. Claro que tem, como se vê, uma vantagem para o governo: quantos mais forem embora menores serão os números do desemprego. E, como sabem, nos tempos que correm já só se governa para a estatística.
Sejamos justos. Pedro Gonçalves explica que o seu ponto de vista se baseia num enorme otimismo: "eu acredito que o recuperar da economia portuguesa vai trazer também oportunidades e teremos uma parte das pessoas que saíram a voltarem mais qualificadas". Depois dos comunistas, temos os liberais a governarem sempre e só com os olhos postos nos amanhãs que cantam. Se tudo parece mau é porque é bom. Porque, já se sabe, o que não mata engorda.
Maré da Educação
A concentração no Porto é em frente à DREN, às 15h e em Lisboa em frente ao MEC, às 14,30h
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