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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Edvard Munch


Eva Cruz Peregrina da saudade
(Tara Turner, "The same but different")
A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.
Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo, a florir, quer deseje cá estar, quer deseje partir.
O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde. Nem o algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida o brilho que a vida perdeu.
Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio reflecte o mesmo céu, mas as aves nada me dizem, não sabem de ti.
Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.
Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia.
No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!
Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e para sempre a cor da pedra.
Lídia Jorge "Cai a chuva no portal"
(Edvard Munch)
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.
Fernando Assis Pacheco Sem que soubesses
(Edvard Munch)
Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.
Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.
Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
(in Musa Regular)
Ana Goês Outono
(Edvard Munch)
O bicho que eu sou
sinto-o mover-se em cada outono
à flor húmida
da terra molhada
e reciclada
dos sentidos de mim.
Nos poros me respiro
no sangue me menstruo
e os meus cabelos incham
de fumo e nevoeiro.
Quero sair para a bruma
abafada enrolada
numa gola de peles
luminosos os lábios
escovados os cabelos
pintadas magoadas
as pálpebras de azul.
Grávida está a minha pele
prenhes os sulcos que vão ser as rugas
dói-me a malha que movo entre as agulhas
ardem-me as veias entre a raiz dos dedos.
Nascida no outono
em cada outono me redôo
e me reparo.
(in Convida-me só para jantar, Edição da autora)
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