Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:15

Quarta-feira, 21.08.13

O catolicismo, o islamismo e a democracia - Carlos Esperança

 

Carlos Esperança  O catolicismo, o islamismo e a democracia

 

 

 

   Pio IX, a quem a epilepsia impediu uma carreira militar, seguiu o caminho da teologia, e foi, mesmo para a época, o exemplo do extremismo reacionário. A encíclica «Syllabus errorum» é um catálogo de condenações, desde o panteísmo ao  naturalismo, do racionalismo ao socialismo, sem esquecer o comunismo, a maçonaria e o judaísmo.

O roubo de uma criança, Edgardo Mortara, aos pais judeus, com a alegação de que uma criada a batizara em segredo, para ser educada na religião católica, não o impediu de ter um milagre adjudicado por João Paulo II, que o promoveu a beato, mas ficou como uma das nódoas mais negras da Igreja católica. Não o salvam do opróbrio os dogmas criados: a infalibilidade papal e a virgindade de Maria.

Para Pio IX, a Igreja católica era incompatível com a liberdade, a democracia e o livre-pensamento, valores aprovados no concílio Vaticano I, uma reedição do de Trento. A História acabou por desmenti-lo e a excomunhão da modernidade é um mero detalhe na nódoa do seu pontificado.  Sabemos hoje que a repressão sobre o clero e a imposição da laicidade transformou os países cristãos em berço da democracia.

O Islão vive hoje os piores preconceitos do catolicismo de há 150 anos. No Egito, onde, enquanto escrevo, ardem igrejas, assiste-se a uma orgia de sangue. Depois do golpe de Estado de 3 de julho, que pôs termo a 1 ano de governo dos Irmãos Muçulmanos, nunca mais houve paz e a Irmandade Muçulmana, que tinha ganho as eleições, está em vias de ser proibida, voltando à situação a que Nasser a remetera em 1954, à clandestinidade e à repressão, situação de que tem larguíssima experiência, com uma imensa e sólida rede de proteção médica, assistência social e educação, organizando-se de novo através das mesquitas e universidades donde tinha saído da clandestinidade para a vitória eleitoral.

A pressa na imposição da sharia e o aumento da violência contra cristãos que resistiam à islamização, bem como contra a sociedade urbana, laica e secularizada, foi a detonadora do movimento militar que derrubou o presidente Mohamed Morsi, que jamais respeitou os limites que a constituição lhe impunha. Não era, aliás, pessoa para compreender que a democracia é também, e sobretudo, o respeito pelas minoria, minudência inaceitável para o Islão, totalitário e prosélito.

Curiosamente, o presidente turco, Tayyip Erdoğan, que a Europa e os EUA teimam em considerar um islamita moderado, seja isso o que for, não teve um conselho para Morsi durante a sua deriva islamizadora, mas não lhe fata agora com o apoio na sua defesa.

No Egito repete-se a dolorosa experiência argelina de 1994 quando o governo derrotado declarou guerra à Frente Islâmica de Salvação (FIS), com a débil condenação da Europa e dos EUA, que respiraram de alívio.

Não sei o que nos reserva o futuro, onde o terrorismo religioso não pode ser consentido nem a fé do crentes reprimida. Para já, sob os auspícios da esquizofrenia da fé, o medo e a desconfiança vão miando a possibilidade de uma democracia onde o Islão alastra. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 23.07.13

O EGIPTO - José Goulão

 

José Goulão  O EGIPTO

 

   Foi o maior cenário do movimento a que convencionou chamar-se, com a precipitação inerente aos interesses da propaganda, a “Primavera Árabe”. Basta fazer uma curta viagem de memória através dos resultados actuais dos acontecimentos aglutinados nesse conceito, pela Síria, pela Líbia, pelo Bahrein, pela própria Tunísia, pelo Egipto, para percebermos que se é de “Primavera” que falamos então as conjunturas meteorológicas não podem ter calhado mais tempestuosas, trágicas, sangrentas.

Vejamos o caso do Egipto, exemplo da incapacidade da chamada “comunidade internacional”, designação cada vez mais resumida ao poder de decisão dos dirigentes imperiais e neocoloniais, para se comportar de maneira coerente perante as consequências de políticas que ela própria recomenda, isto é, impõe.

Depois de longos anos convivendo em cumplicidade com a ditadura militar, primeiro de Anwar Sadat, depois de Hosni Mubarak, essa “comunidade internacional” moldou-se ao vigor do movimento popular no Egipto exigindo a mudança e geriu a implantação do modelo padronizado de democracia, o único que considera válido para que um país seja aceite no círculo dos bem comportados. Como seria de esperar, o radicalismo islâmico sunita, “moderado” ou extremista, na sua vertente salafita, venceram de maneira arrasadora todas as eleições, actos esses que, apesar da sua complexidade por se realizarem no mais populoso entre os países árabes, não se caracterizaram pelas manipulações e falsificações praticadas, por exemplo, no “democrático” Afeganistão.

Assim sendo, os fundamentalistas – Irmandade muçulmana, com grande vantagem, e os salafitas – apoderaram-se de três quartos do Parlamento do Cairo e fizeram sentar o seu confrade Mohammed Morsi na cadeira ainda quente que pertencera a Mubarak. Foram essas as consequências da aplicação da democracia padrão, aquela que é encaixada às cegas em sucessivas nações sem ter em conta a história, tradições, relações étnicas e regionais, características de organização social, desde as tribais às religiosas.

Um ano depois, e perante a acelerada islamização da vida social decorrente do poder exercido pelas organizações confessionais egípcias, vastos sectores da população voltaram às ruas protestando contra a situação, contra os vícios autoritários próprios da incompatibilidade natural entre liberdades políticas e a obediência aos estatutos comportamentais impostos por qualquer cadeia hierárquica religiosa. Por definição, o confessionalismo não pode ser democrático.

Perante um país imenso, estratégico e paupérrimo em convulsão, a dita “comunidade internacional” admitiu na prática que as eleições democráticas não valeram porque não deram os resultados desejados e toleraram um pronunciamento militar que instalou no governo e na presidência figuras bem vistas nos círculos estrangeiros de poder e sem peso político e eleitoral dentro do Egipto. As forças armadas egípcias, um braço da presença norte-americana no Médio Oriente, ficaram a tutelar este sistema dito “transitório” e foi então que, num acto de crua hipocrisia, os Estados Unidos fingiram distanciar-se dos acontecimentos ameaçando reduzir a cooperação com o exército enquanto pediam, juntamente com a Alemanha e outros países da União Europeia, não a restauração das instituições democráticas mas apenas a libertação de Mohammed Morsi, detido num quartel sem acusação nem julgamento.

Morsi é um democrata? Não é e jamais será. Tal como o islamita turco Erdogan, também ele um islamizador de uma sociedade laica, lesto em recorrer à violência para dissolver protestos populares, mas de pedra e cal porque é um bom aliado na guerra que a tal “comunidade internacional” conduz contra a Síria ao lado de grupos e grupinhos extremistas islâmicos. A mesma Síria onde o regime de Assad apoiou o pronunciamento militar no Egipto, em sintonia com os mesmos governantes ocidentais que apoiam os seus inimigos internos.

A “comunidade internacional” repetiu no Egipto o mesmo comportamento de rejeição dos resultados democráticos que já adoptara na Argélia e na Palestina, neste caso quando o Hamas ganhou eleições livres em 2007.

Percebem-se assim muito bem as razões pelas quais os próprios regimes democráticos de países como os Estados Unidos e os seus aliados europeus se aproximam cada vez mais dos autoritarismos pré-fascistas. Porque o que verdadeiramente está em causa são relações de domínio e de poder exercidas por interesses e mercados para os quais os mecanismos democráticos representam estorvos a arrasar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:00

Sexta-feira, 05.07.13

O Egito, o Islão e a democracia - Carlos Esperança

 
Carlos Esperança  O Egito, o Islão e a democracia
 
   Os berberes já habitavam o território da atual Argélia dez mil anos antes da era vulgar e, quando a lepra islâmica alastrou como mancha de óleo, no século VIII, ainda resistiram, mas acabaram por converter-se ao mais primário e belicista dos monoteísmos.
 
A sedução dos cinco pilares islâmicos é ajudada pelo assanhado proselitismo e profundo constrangimento social. O monopólio da educação, assistência médica e distribuição de alimentos, em sociedades saídas do colonialismo, ajudam à difusão do manual terrorista que dá pelo nome de Corão.
 
Junte-se a fanatização, que começa na infância, nas madraças e mesquitas em países que não conheceram o Iluminismo e vivem numa civilização falhada – a civilização árabe –, e temos a perversão que teimamos em julgar paradigma de grupos isolados, sem darmos conta das ambições prosélitas prosseguidas à bomba por voluntários que esperam ter 72 virgens a aguardá-los no Paraíso.
 
Foi assim que, em dezembro de 1991, a Frente Islâmica de Salvação (FIS) teve uma vitória estrondosa  na 1.ª volta das eleições e, perante o terror da sharia, a Frente de Salvação Nacional (FSN) cancelou a 2.ª volta. Perante a ditadura, a Europa sossegou e desinteressou-se dos 150 a 200 mil mortos da guerra civil que se seguiu.
 
Recordo aos mais desatentos o que está a suceder no Egito e ao que acontecerá, a prazo, na Turquia, os dois maiores e mais influentes países de maioria islâmica, que a vontade de Maomé pretende submeter à vontade de Alá, tendo a sharia como horizonte.
 
No Cairo, cristãos, democratas e diversos grupos sem consistência ou até antagónicos, motivados pela crise económica, uns, e pelo medo da sharia, quase todos, expuseram-se à repressão numa corajosa resistência à liturgia das 5 orações diárias e à imposição de se virarem para Meca.
 
Uma vez mais triunfou a ditadura que estava escrita nos astros. Um golpe militar nunca garante a democracia, mas adia a consolidação da teocracia. Muitas vidas se perderão na guerra civil que se adivinha e os muçulmanos não são piores do que os cristãos ou ateus. O que é efetivamente pior é o Islão, na sua obstinada demência, comum ao cristianismo, de tentar impor aos outros o Deus que deviam guardar para si.
 
Os países democráticos, mais interessados no mercado de matérias primas, sobretudo do petróleo, descuram a exigência do respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. E a laicidade continua a ser adiada onde se erguem mesquitas e almenaras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Agradecia que se identificasse. Quem escreveu este...

  • Anónimo

    Gosto substancialmente de pessoas que dizem bem ou...

  • Anónimo

    Texto e foto deliciosos, parabéns!

  • Anónimo

    Palavras como dinamite.E passados 50 anos sobre os...

  • Anónimo

    Lindo!


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos