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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 10.11.16

Para que nos entendamos, si esto es todavía posible - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  Para que nos entendamos, si esto es todavía posible

 

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   Como hombre de izquierda sé que uno de los males mayores de cierta izquierda -la más ruidosa- es entender lo que quiere y no lo que debe. En política la imposición del deseo por sobre el análisis se llama voluntarismo, y ese vicio siempre conduce a confundir la realidad con la fantasía.

Leo muchas opiniones que, en lugar de preocuparse por entender las razones del triunfo de Trump, condenan no sólo a quienes lo votaron sino también a los que intentan entender lo ocurrido.

Para que nos entendamos voy a poner un ejemplo real, y se llama Detroit, una ciudad del estado de Michigan y que fue la capital mundial de la industria automotriz. Detroit era la ciudad de Ford; Chrysler y General Motors entre otras marcas. Hasta 1973 llegó a tener un millón y medio de habitantes, empleo pleno, hospitales, universidades, bibliotecas, transporte público y, desde luego, viviendas muy caras.

Hoy, en Detroit, una ciudad arruinada que se declaró en bancarrota hace dos años, malviven unas seiscientas ochenta mil personas y de ellas, unas doscientas cincuenta mil viven en la extrema pobreza . Y no hay universidades, salvo sus ruinas, ni hospitales, salvo sus ruinas, ni teatros, salvo sus ruinas, ni industria automotriz, salvo sus ruinas, ni bibliotecas ni transporte público, salvo sus ruinas.

¿Qué ocurrió? Sería fácil decir que simplemente las industrias se " deslocalizaron" y se marcharon a producir en otros países más "competitivos". También sería fácil decir que todo es consecuencia de la "globalización", pero sin explicar qué es y cómo actuó esa globalización.

Esencialmente, la globalización de la economía es la unión de los grandes capitales que forman un poder paralelo y superior al poder de los Estados. Más simple aún, son el 1% poseedor del 99% de la riqueza del planeta que decide las reglas del juego de la economía al margen de cualquier consideración social o de respeto a los derechos conquistados.

En el caso de Detroit, los dueños, los accionistas de la industria del automóvil , trasladaron sus capitales a países de mayor flexibilidad laboral e impositiva. No hay marcas de autos "nacionales", en los directorios de todas las empresas que fabrican autos se cruzan nombres de accionistas de todas las marcas. La patria no existe en la economía globalizada.

Hasta Detroit, hasta los jodidos, los pobres, los parados, los sin esperanza , los que sobreviven entre las ruinas de la que fuera una ciudad espléndida, llegó el discurso abstracto, comprensible sólo para ciertas élites, profesores de Berkeley o Harvard, que no hacía la menor referencia a lo ocurrido en esa ciudad y al por qué. Y llegó también el discurso populista, simplón de Trump , pero que explicó por qué Detroit esta en ruinas, culpó directamente a la globalización -ocultando que como empresario es parte de ella-, y ofreció algo llamado "proteccionismo", conjunto de medidas que, en una economía absolutamente globalizada, no es más que un intento de regreso a una fase del capitalismo superada por el mismo capitalismo, pero que a los jodidos, a los pobres, a los parados, a los desesperanzados sonó como música celestial. Sonó a trabajo.

Trump no ganó por ser un machista, un misógino, un racista, un intolerante. Ganó porque, siendo sin duda todo lo anterior, supo construir un discurso convincente para los jodidos, los parados, los sin esperanza.

Y esos jodidos, parados, hambrientos y sin esperanza aceptaron un discurso que tiene cualquier cosa menos "corrección política" y se aferraron a él.

Así de simple, y así de complejo.

Foto de Luis Sepúlveda.
Foto de Luis Sepúlveda.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 02.02.16

Cromolândia - César Príncipe

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César Príncipe  Cromolândia

 

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 Beppe Grillo, senador-cromo

 

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Mário Jardel, deputado-cromo.

 

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 Marcelo Rebelo de Sousa, presidente-cromo.

 

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 Ilona Staller/Cicciolina, deputada-cromo(AR, 19/11/1987)

 Novo busto da República?

Recepcionista do Palácio de Belém?

 

         As recentes eleições para a Presidência da República ampliaram o efeito e demonstraram a eficácia das campanhas de imagem. Venceu, como era das previsões político-climáticas, o candidato mais vendível a públicos tele(visados). A promoção de ícones não é um monopólio das tevês, mas os restantes meios são subsidiários ou retrógrados. No Ocidente, uma grande televisão tem mais força do que uma grande religião. Os fanáticos ou fiéis do écran são formatados pelo sistemicamente catalogado e homologável. Milhões de telespectadores são diariamente alimentados por via auditiva e visual. Jazem ligados à máquina. Só algumas minorias têm capacidade de autodefesa nacional e global. As fábricas de moldes e modas operam em laboração contínua. O processo de captura e persuasão de audiências conta, à partida, com inúmeros complacentes e cúmplices, viciados em tablets em vez de tabuadas, instados a trocar convicções por caras. O culto do padroeiro, dos posters da realeza, das vampices e vipices aburguesadas, dos cromos futebolísticos, das beldades de passarela e dos galãs e barbies do cinema, dos ídolos da canção – assenta no indivíduo-show, no iluminado-bafejado pelos holofotes. Os programadores de atracções fazem entrar pelas nossas casas dentro profissionais da demagogia e fantoches da diversão. Ocupam, em tempo real, o centro das salas e a parede nobre dos dormitórios. São armas apontadas a alvos. Procuram e conseguem rebaixar os níveis de atenção e selecção. Objectivo: transformar cabeças humanas em cabeças de gado. O poder mediático, pouco a pouco, torna o bicho ou a bicha num familiar, e assim canoniza qualquer criação ou criatura com recorte e potencial para servir os donos disto tudo. Para culminar os toques e retoques dos tevê-eleitos, irrompem, de canal em canal, dezenas de comentadores, quase todos abalizados e quase todos simuladores de independência, provindos de universidades católicas e laicas e de outras linhas de montagem e lavagem de cérebros.

Haverá ainda e por aí quem se espante? É a sociedade do espectáculo como modelo de sequestro psicopcional, de infantilização e degradação do espaço cívico e cultural. Exemplos triunfantes: Cicciolina e Grillo, a actriz pornográfica e o comediante da Itália das berlusconices, a concubina feita rainha, o bobo feito rei; Jardel (Brasil), antigo futebolista, analfabeto relapso, teve direito a puta-secretária e a conexões com corleones locais. E por aí adiante, Deus meu! A lista seria abundante, exuberante. A democracia burguesa é inclusiva: jamais excluirá ladrões de estirpe, criminosos de guerras convencionais e assimétricas, truões sem noção das cenas que fazem, safadinhas de anúncios classificados, fala-baratos de cátedra, dealers de interesses, ideias ou ideais (grossistas e retalhistas).

Marcelo tirou cursos de cadeirão académico, de líder partidário, de conselheiro de presidente da República e de candidato a presidente da Câmara e a presidente da República. E, além de ter ido repetidamente à praça como professor-opinador de todas as matérias, foi protagonizando rábulas de engraçadinho da turma. Pelos vistos, o chamado povo gosta do género: 24 de Janeiro dixit. Marcelo ganhou à primeira, com apoio maciço e massivo dos equipamentos mediáticos e apoiado nas suas graças. Que de muitas é ornado. Rezam os boletins. Recebeu um embaixador em cuecas. Fugiu dos fotógrafos em mota de água. Lançou-se ao Tejo para um banho de poluição e saiu limpo e vivo. Guiou um táxi pelas mourarias, com mini-saia no banco traseiro. Travestiu-se de gentil coiffeur de balzaquianas. Estacionou num lugar reservado a deficientes. Sabe-se lá que mais lhe debitam ou virão a averbar no currículo. Mas não foram nem serão as traquinices-marcelices o grande risco para as barreiras constitucionais e para as expectativas dos portugas em geral e dos seus votantes em particular, muitos provavelmente distraídos, levados na onda hertziana.

O que advirá? Aguentem, aguentem! O entertainer seduziu e poderá abandonar, na primeira e apertada curva, milhares ou milhões de teledependentes-telede(votos). Mas a decepção não será universal: neste preciso momento, há um cidadão feliz em Portugal e que dificilmente se arrependerá de haver apostado no filho do ministro de Salazar e putativo afilhado de Caetano: Ricardo Salgado (o do banco sólido e confiável) terá um amigo do peito em Belém. Preocupante será que Marcelo, como Cavaco e Passos e Portas, abdique de ser presidente dos portugueses e se trespasse, no meio das travessias e travessuras, como presidente-delegado de Bruxelas, do BCE, do FMI e de corporações autóctones de idêntico jaez.

Pior do que Cavaco não será possível. Diz-se. Assevera-se. Jura-se. Arrenega-se. Mas Marcelo deu uma cabazada nas eleições e, em termos de conservadorismo táctico-militante e da carteira de compromissos, era o mais enfeudado dos dez candidatos. Há muitos anos que, na Cromolândia, não vencem os melhores. Que mais, caríssimos?

Temos o Santo Marcelo entre nós. Obrigado, portugueses!

César Príncipe

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 25.01.16

A propósito da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa - Carlos de Matos Gomes

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   A propósito da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Primeiro: parabéns a Marcelo. Quis e conseguiu. Foi premiado. Segundo: parabéns aos portugueses: quiseram e tiveram o que quiseram. Terceiro, parabéns à democracia que permitiu a Marcelo ser eleito e aos portugueses elegerem quem quiseram. Estamos todos de parabéns. Assim é que é bonito!
Sou, desde que me conheço, adepto e praticante do princípio (herança materna) de que, em boa parte, temos o que merecemos e somos capazes de alcançar.

Como povo fomos tendo ao longo da História o que conseguimos. Temos uma História que nos diz que somos mais assim - como a primeira ilustração: obedientes e servis e só raramente como os da segunda ilustração, os assado que se revoltam. O resultado desta eleição é apenas mais um acto de mansidão. Venham a mim os mansos, poderia Marcelo dizer.

Hoje, mais uma vez, fomos mais assim e digo-o sem qualquer azedume, nem tristeza, do que assado.

Guterres, aquele que poderia ser o presidente em vez de Marcelo, também pensa assim como os portugueses: não lhe agrada muito pertencer ao rebanho dos servos, dos assim, mas ainda lhe agrada menos meter-se em assados de revolta e contestação. Prefere um trono de dar bons conselhos sem consequências, como o da ONU. É o melhor exemplar de português que refila mas amouxa.

É fácil, neste quadro de assim, contra assado(S), perceber a ausência de jovens da política nacional e a sua fuga para o emprego no estrangeiro. Nem são assim, dispostos a serem servos, nem querem ser obrigados aos assados de uma revolta. Os pais e os avós já se queimaram por isso e até as pensões lhes levaram.

Marcelo escolheu para palco da sua proclamação aos súbitos a Faculdade de Direito, o local que forma os guardiões da lei, da ordem, da conservação. A sede do império dos desafectos, que todas as faculdades de direito são. Escolheu o local da impostura em que assentamos a nossa vida colectiva: a de que a de que a lei promove a justiça, quando de facto promove a ordem e defende o poder.

Para ser coerente, Marcelo deveria ir a Fátima agradecer e tomar posse em Mafra. Os locais em que os portugueses celebram a fé e a crença no divino para a realização dos seus desejos e derrota dos seus temores. É essa política que Marcelo nos promete: ordem e fé, O mesmo que prometeu o seu padrinho e homónimo Caetano aos portugueses ao tomar posse: fé no futuro porque temos um passado abençoado. Funcionou até à revolta dos descamisados…

Assim e assado

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 22.01.16

Vamos lá!

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 19.01.16

Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura - César Príncipe

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César Príncipe  Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura

 

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Fernando Correia

O que não faltam no quotidiano das salas de redacção são professores – isto é, antigos ou actuais docentes dos vários níveis de ensino – sejam eles directores, comentadores, analistas, cronistas, jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, informáticos, etc. Mas conhecido por “o professor” só há um. Ele. Só que o currículo do mestre na sua ligação aos media tem muito pouco de magistral – antes pelo contrário.

“O professor”

Apesar de o cognome de Marcelo Rebelo de Sousa (M.) se dever em grande parte à sua assumida intenção de explicar a política aos outros, julgo interessante registar o depoimento de uma jornalista que foi sua aluna há duas décadas na Faculdade de Direito de Lisboa. Eis extractos de um recente texto online de Mafalda Anjos, directora adjunta da Visão.

“Gostava de dar boas notas e, também assim, ‘comprar’” a popularidade que granjeava na Faculdade. Fazia questão de corrigir algumas dezenas de testes, para sentir o pulso à classe. Mas era tão mãos-largas nas notas que até os próprios assistentes subalternos consideravam tal generosidade estupidamente despropositada, e não o escondiam. Para quem quisesse perceber, ficava logo ali bem claro que, com Marcelo, as coisas nunca são o que parecem. Elogiar não é o mesmo que apoiar? Fumar não é o mesmo que inalar? Na cabeça de Marcelo, claro que não. É possível, de facto, dizer tudo e o seu contrário, sempre com um enorme sorriso na cara. (…) Embora adorado pelos alunos, e de longe o professor mais popular da Faculdade no meu tempo (…) nunca foi uma referência entre a doutrina em matéria de direito constitucional. (…) Sempre que me lembro de Marcelo e dos tempos da faculdade, recordo o elogio mais demolidor que alguma vez ouvi sobre alguém: ‘Gosto muito de o ouvir. Costumo concordar sempre com ele, sobretudo nos assuntos que não conheço bem’”.

“Teria de ser muito estúpido”

A relação próxima de M. com a tv tem sido muito falada, tendo em conta, nomeadamente, os últimos anos de presença dominical na TVI. Mas é preciso lembrar que o seu contacto com o público através da palavra e da imagem vem dos anos 90, com presença regular aos microfones da Rádio Renascença e da TSF. Depois veio a tv, entre 2004 e 2005 na TVI, entre 2005 e 2010 na RTP e logo a seguir novamente na TVI, assim consumando uma longa utilização dos media enquanto instrumento de notoriedade e de promoção pessoal. A sua acusação aos candidatos adversários de que, ao contrário do que acontece com ele, não se lhes conhece a posição sobre esta ou aquela situação ocorrida no passado, reveste-se de pouca seriedade e muita hipocrisia.

O apego de M. ao megafone televisivo não tem nada de desinteressado e tem muito de interesseiro. Interrogado, em devido tempo, sobre a sua permanência na tv na hipótese de vir a ser candidato, M. não hesitou na resposta: “teria de ser muito estúpido, e apesar de tudo as pessoas reconhecem-me alguma inteligência, para, podendo ter uma tribuna, até ao verão ou Outono do ano que vem, sendo as eleições em Janeiro de 2016, decidir abandonar essa tribuna um ano antes”. O certo é que só nas vésperas do anúncio da candidatura viria a deixar a preciosa “tribuna” (“lugar elevado de onde falam os oradores” e “os pregadores”, diz o Houaiss).
Realmente, estúpido não será; mas fica à liberdade do leitor escolher outros termos definidores do perfil da criatura.

O vergonhoso caso do Semanário

A ligação mais profunda de M. com os media foi na imprensa, desde logo no Expresso. Num texto tido como elogioso (Sol, 2.1.16) recorda-se que o semanário “era muitas vezes uma arma política” e que “Marcelo chegava a escrever notícias sobre si mesmo”; “inova na forma como se faz jornalismo em Portugal”, pondo, por exemplo, no verão de 1979, “jornalistas a percorrer praias e festas em busca de intrigas sociais.” Em 1981 entra para o governo presidido pelo dono do Expresso, e então, já “do outro lado da barricada do jornalismo político, servia de porta-voz de Balsemão e promovia fugas de informação selectivas para os jornais. Era uma das fontes do então jovem jornalista Paulo Portas.”
Terminemos com a evocação – e não é a primeira vez que o faço, praticamente com as mesmas palavras – de uma história edificante sobre a ligação de M. à imprensa.

Em Novembro de 1983 saía o primeiro número do Semanário (criado por M. e, entre outros, Daniel Proença de Carvalho e José Júdice) em cujo Estatuto Editorial se fazia solene profissão de fé na “liberdade”, na “Pátria”, na “bondade e dignidade do Estado”, na “unidade nacional”, na “iniciativa privada”, na “sociedade das ideias”, no “orgulho da História”, no “reencontro de um sentido espiritual como forma de ter fé na vida”, numa “informação que seja o resultado do rigor no profissionalismo” e numa “opinião que seja livre e tenha mérito”.

Mas as coisas não eram bem assim.

Treze anos volvidos, numa prosa evocativa da efeméride (“Semanário, 13 anos”, in Semanário, 30.11.96), o presidente do conselho de administração no tempo da fundação – M., pois claro – veio confessar e vangloriar-se de que, afinal, por detrás daquelas palavras estava “um projecto político militante”; que o que se pretendia com o jornal era “contestar o Bloco Central e preparar uma alternativa de centro e direita ao Partido Socialista liderante e ao Presidente da República em funções”; e que, “politicamente, o Semanário cumpriu a sua missão”, na medida em que, nomeadamente, “contribuiu decisivamente para a queda do Bloco Central, para a ‘Nova Esperança’ e a subida ao poder de Aníbal Cavaco Silva”, e “em 1987 viu completado o seu desígnio na maioria absoluta do PSD, corolário da luta de anos”.

Manipulação pura e dura, pois, de um candidato a Belém que, sabiamente, Paquete de Oliveira classificou como “um sagaz malabarista que faz do sofisma a maneira mais hábil para esconder a mentira ou a contradição” (Público, 16.1.16).

 

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por Augusta Clara às 15:30

Segunda-feira, 18.01.16

Há um gajo que me irrita solenemente na política portuguesa - Marcos Cruz

  

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   Há um gajo que me irrita solenemente na política portuguesa. Há vários, mas hoje há um em especial: o Assis. E não é por não ter sobrancelhas, é mais por não ter vergonha. Achei repugnante a forma como abandonou o barco do PS após os resultados eleitorais, pondo o eu à frente do nós, sob o pretexto de uma alegada autonomia de pensamento assente em valores e princípios ideológicos para si inalienáveis. Então o que era assim tão mau? Simples: a viragem à esquerda de um partido que vinha evoluindo em sentido contrário, tal como ele, Assis. Ainda me lembro de o considerar uma voz progressista dentro do PS. Pelos vistos, tem mais ginga o partido, com a complexidade logística e humana que o habita, do que o militante, em abono de cuja inflexibilidade se podem apenas invocar uns quilos a mais. A verdade é que ele previu um futuro para o PS e, quando se deu conta, já nem no presente cabia – mais uma vez, não pela gordura. Fora ultrapassado. Daí achar cómico que ele agora, como cronista do Público, cite Faulkner a propósito do "tempo novo" de Sampaio da Nóvoa: “The past is never dead. It’s not even past”. É contra a "demagogia da beatitude" que Assis se insurge. Para ele, se o sistema corrompe as pessoas, torna-se muito mais perigoso embarcar em discursos purificadores, porque a história demonstra que "dão mau resultado", do que seguir visões pragmáticas. Especulando com um exemplo: a McDonald's, segundo a Elisa Ferreira, passou anos a fio sem pagar impostos sobre os lucros; ora, eu imagino que, para Assis, a necessidade de captação de investimento se sobreponha ao capricho de fiscalizar o investidor. Como avisava Nuno Melo no caso da Wolkswagen, o fervor justiceiro da esquerda pode afastar as empresas. Mas o que eu acho mais revelador é o facto de Assis ter escolhido Sampaio da Nóvoa para alvo do seu ressabiamento, assumindo, pelo caminho, o papel de advogado de defesa de Maria de Belém. Realmente, se de um lado está o tempo novo, mas esse tempo novo não foi concebido por si e muito menos para si, e do outro está o tempo velho, ele apoia este último na medida em que com ele partilha a dor de corno. Porque se o problema de Assis é o ímpeto saneador dos pretensos impolutos então a sua mira deveria estar apontada a Paulo Morais. Ou de Morais. Ou talvez Demorais, porque ele realmente demora a identificar os casos concretos de corrupção que apregoa. Mas não. A luta de Assis é contra quem lhe tirou o tapete. Porque a tudo isto subjaz, fundamentalmente, uma coisa: o desejo de poder.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 14.01.16

Sampaio da Nóvoa é o único que tem hipótese de vencer o candidato da direita Marcelo Rebelo de Sousa

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por Augusta Clara às 15:10

Sexta-feira, 08.01.16

MARCELUX - César Príncipe

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César Príncipe  MARCELUX

 

 

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Cartaz retro MRS 

 

   Há razões nacionais e internacionais, regionais e sociais, culturais e de género para obrigar Marcelo a ir à segunda volta e aí ser derrotado e devolvido ao altar-cátedra da TVI (empresa audiovisual dita independente), onde regularmente o lente de Direito celebrou anos a fio missa dominical vespertina. De resto, assaz concorrida e generosamente paga. Segundo a mediatest, contabilizou mais fiéis do que a eucaristia matinal transmitida pela mesma estação. Tratemos, pois, da vaga marcelista (2ª edição). O marcelismo retomou as agendas. Não será assunto instantâneo. O caso remete-nos para o séc. XX. Para milhões de cidadãos – será oportuno recordar - bastou Marcelo I, o que ficou nos documentários, o abandonado pela GNR, cercado pelas tropas e pelo povo, saído in extremis do Quartel do Carmo, encafuado num blindado a caminho do exílio. Que o Supremo Magistrado do Juízo Final o conserve no purgatório como professor e no inferno como ditador. E agora? Brevemente o país será chamado a eleger o inquilino do Palácio Cor-de-Rosa. O Marcelo de 2016, afilhado do Marcelo de 1974, assume-se como vencedor antecipado. O showman conta com o favor dos oráculos da Grei.

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Saboaria PAF 

Defendemos outro perfil para a Presidência:

1. Os portugueses precisam de um presidente que jure e de facto cumpra e faça cumprir a Constituição. Programa Comum da Democracia. Ponto irrenunciável. Linha intransponível. Marcelo é um sofista da palavra e um retalhista das leis da República. Pratica jurisprudência à la carte. Tem, no entanto, um roteiro de sangue: o dos interesses nacionais e internacionais da alta burguesia. O seu trajecto é o da evolução na continuidade. Pretende-se, com um apagão histórico-dinástico, retirar Marcelo da linha parental de Cavaco. Cavaco Silva e Marcelo de Sousa são estirpes evolutivas de Oliveira Salazar, Américo Tomás e Marcelo Caetano. Estirpes que foram e são apoiadas por idênticas forças económico-financeiras e matrizes ideológicas. A dupla Cavaco-Marcelo, com as suas peculiaridades, (um) hirto e iletrado, (outro) lesto a disparar comentários e a despachar livros, sinaliza o legado do autoritarismo e do elasticismo conservador possíveis num país que passou por uma revolução. Uma ruptura extensa e profunda que forçou o antigamente a esmerar-se em miméticas de hiber(nação), arremedos tiranossáuricos, inflexões tácticas, modulações discursivas. Mas, no essencial, a direita reagrupa-se e cerra fileiras. Por regra, só diverge entre si no episódico e secundário. Com tais performances de ruído e diversão (sociedade plural oblige), a direita, além da prossecução de latos e lautos desígnios, envia um sinal alienatório e instrumental aos insatisfeitos ou revoltados com a sua política: é possível dizer mal e votar nos causadores do mal. A direita (clássica ou pós-moderna) é useira e vezeira a ocupar fortalezas institucionais e privadas, a montar redes de influência, a improvisar coberturas, a estilizar imposturas, a assessorar regressos das castas, a concretizar retrocessos civilizacionais. Tem os cursos todos: os da ditadura real e os da democracia formal.
2. Numa Europa onde cresce a repulsa pelo gangsterismo bancário e pelos fundos-abutres, pelo assalto a patrimónios públicos e rendimentos colectivos e pela degradação dos serviços básicos, nesta Europa que dá múltiplos sinais de resistência e viragem e neste mundo a procurar alternativas ao processo de globalização imperial, precisamos de um chefe de Estado que seja mais amigo de Portugal (Povo Português) do que dos Ricardos Salgados, que provadamente se afirme defensor da nossa soberania, da nossa independência e da nossa honra, com visão multilateral e multifocada, advogado dos nossos legítimos interesses nos centros de representação, legislação e decisão.
3. Os portugueses precisam de um presidente que patrocine a instituição das regiões administrativas e rompa a fatalidade das assimetrias e da discriminação dos investimentos e da desertificação do interior e Marcelo liderou a campanha anti-regionalização que introduziu a figura do referendo no ordenamento constitucional e lançou toneladas de propaganda negra contra a electiva e efectiva descentralização.
4. Precisamos de um presidente que assuma o corpo de valores do trabalho, da segurança social, da saúde, do ambiente, da cultura, da paz, da igualdade e liberdade cívicas e de género e Marcelo é um cultor e difusor de direitos elitistas, machistas e patriarcais: na sua fase de liderança, o PSD votou contra a criação do Serviço Nacional de Saúde e Marcelo gabou-se de haver tido um papel determinante na manutenção da penalização da IVG. No ano da graça de 2016, os utentes em geral do SNS (desorçamentado, onerado de taxas, despovoado de servidores, esvaziado de valências e avaro nas prescrições, fisicamente extinto ou afastado das populações – isto é - sabotado pelos partidos do candidato das II Conversas em Família) e as mulheres em particular deveriam replicar e fazer abortar as pretensões de MRS a Belém. Fazer abortar Marcelo. Passa-palavra. A comunidade feminina portuguesa pagou uma farisaica e vexante factura marcelista: teve de esperar 10 anos para não incorrer em prisão, enquanto as fêmeas da burguesia (abonadas de carteira e informadas dos circuitos) sempre puderam dar ou não à luz ou ao interruptor uterino conforme o seu arbítrio, nem que tivessem de se deslocar a Londres e a outras praças da especialidade. E MRS sabia. E bem. Sempre foi um sensor ambiental.
5. MRS é um músico-geringonça a tocar para grandes públicos, principalmente para as vítimas dis(traídas) do sistema. O sistema deu-lhe corda e visibilidade. É versátil e cativante. Cultiva as artes cénicas. Tanto mergulha na poluição do Tejo como conduz um velho táxi na velha Lisboa. Tem roupeiro para cada saison. Enverga peles de jogador de salão e jongleur de écran. Preza os espaços lux. Sempre frequentou a corte: a corte do capital e a corte da capital. Também não desdenha da corte na aldeia. De quando em vez toma ares de província. Come uns petiscos e inaugura a sua biblioteca e goza o foguetório e aplaude a banda e beija a criancinha ataviada. À moda de personagens reais, aristocráticas e afidalgadas. É a sua regionalização.
6. MRS teve berço estado novo. Ainda jovem escreveu cartas de confidente a Salazar e a Caetano. Numa delas denunciava os comunistas como sombra tenebrosa acobertada na Oposição. Sanhas de mocidade portuguesa, com certeza. Epistolografia adulatória de quem naturalmente (estaria nos horóscopos) idealizava uma carreira na senda paterna. Não há que carregar demasiado na parte juvenil do cadastro. MRS até já cumpriu pena de serviço cívico: passeou pela Festa do Avante!

Rangel, outrora regente da SIC, alardeou ser capaz de eleger um presidente da República com o marketing de um sabonete. O homem era ambicioso e jactante mas tinha queda para o negócio. Há quem não lhe fique atrás: recentemente, a TVI, da multinacional PRISA, lançou a bomba do encerramento/colapso do BANIF. A cacha desencadeou uma corrida aos depósitos, operando-se uma sangria imediata de 1.000 milhões de euros. Ante o descalabro induzido, o Banco Central Europeu fechou a torneira. O Santander, accionista da PRISA, abocanhou o Banco Internacional do Funchal a preço de ocasião. Operação coordenada? Prodigiosa coincidência? De qualquer modo, a TVI mostra o seu instinto matador e o seu faro jackpot. Não há dúvida: facilitou a saída do El Gordo português ao Santander e mantém a expectativa de sucesso da sua candidatura: a marcelista. A confirmar-se o êxito da aposta belenense, a saboaria Judite de Queluz lograria bater a fábrica de sabonetes de Carnaxide, e - voilà - com um produto de largo espectro, já que viria reanimar a direita tecnofórmica e submarinista, ultimamente bastante flácida e cabisbaixa, a precisar (rapidamente e em força) de viagra PAFoda.

Que Deus tenha atempada misericórdia dos portugueses e das portuguesas em idade de votar e procriar.
Reprise do marcelismo, não.
Oremus.

César Príncipe
(01/01/2016)

 

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por Augusta Clara às 14:20

Quarta-feira, 09.12.15

Marcelo leva um porco às costas - Augusta Clara

 

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Augusta Clara  Marcelo leva um porco às costas

 

 

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   A ouvir a entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa à SIC Notícias lembrei-me daquela anedota do tipo que roubou um porco, o levava às costas e, quando foi descoberto, exclamou: - Ai, um bicho!

No caso dele o bicho será o conjunto PSD/CDS cujo apoio explícito o incomoda perante a opinião pública, ante a qual quer manifestar a imparcialidade ideológica que o Presidente da República deve assumir no exercício das suas funções.

Marcelo afirma que a sua é "uma candidatura solitária", embora não rejeite nenhuns apoios, e que não tenciona colar cartazes nem afixar qualquer tipo de propaganda nas ruas.
Seriam intenções muito louváveis se toda a comunicação social não se lhe referisse já como o futuro novo inquilino de Belém.

Toda a entrevista foi uma cuidadosa fuga à crítica ao anterior governo, a Cavaco Silva e às questões mais polémicas relacionadas com o poder presidencial sobre a manutenção do actual governo em funções, na eventualidade da existência de reveses de governação.

Marcelo Rebelo de Sousa é uma falácia, Maria de Belém é outra.

A esquerda precisa de unir-se em torno do candidato mais forte que, na minha opinião, é Sampaio da Nóvoa, se quiser evitar uma possível dissolução da Assembleia da República e o grande desastre que seria o regresso da direita ao poder.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 31.10.15

Entrevista da António Sampaio da Nóvoa à TVI no passado dia 27

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por Augusta Clara às 11:00



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