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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 23.05.19

"Educar é um acto de amor" - Eva Cruz

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Eva Cruz  "Educar é um acto de amor"

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labor.pt, 23 de Maio de 2019

Entrevista conduzida por Gisella Nunes

 

Não há dúvida que o ensino é um dos grandes amores da vida de Eva Cruz. Que o digam os milhares de alunos, a maioria de S. João da Madeira, que lhe passaram pelas mãos. Esta professora de Inglês e Alemão orgulha-se de, em 36 anos de profissão, nunca ter sido alvo de má educação nem de ter marcado uma falta disciplinar

Agora com 77 anos e já aposentada há quase 20, como se sente?

Não tenho razões de queixa de saúde nem tampouco de vida. Acho que levei uma vida bem preenchida, uma vida de que não me arrependo absolutamente de nada.

Resido em S. João da Madeira (SJM), mas vou várias vezes para a nossa casa nas Figueiras [Vale de Cambra], um sítio realmente magnífico onde ouço o murmúrio do rio. É um refúgio onde realmente gosto muito de estar, mesmo no inverno.

Estou lá à lareira, a maior parte das vezes, com alguns amigos do meu tempo de criança, pessoas que têm muito a ver comigo afetivamente. Tenho uma amiga que é muito engraçada, com quem passo as tardes, tomo chá.Lá chamam-me Evinha, sabe?

“Tenho um irmão de ouro”

Sempre quis ser professora?

A minha paixão foi ser sempre professora. Já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava os alunos, contrariando o meu pai, que gostava muito que fosse advogada.

Era boa aluna em tudo menos no desenho. Tive sempre pouco jeito para desenho, assim como para a música. A minha mãe bem queria que aprendesse música e ainda cheguei a andar no seminário, com os jesuítas, a aprender a tocar órgão, para tocar nas missas. Mas era para fazer mesmo música a martelo, não dava.

Sabe que naquele tempo tirávamos um curso para ter uma vida melhor. Os meus pais não tinham formação académica, mas mandaram a mim e ao meu irmão estudar. E fizeram sacrifícios nesse sentido, porque o curso do meu irmão [Medicina] era caríssimo. E o meu também foi um curso caro, tirado em Coimbra longe de casa.

Antes de ir para Coimbra, fui para o Liceu CarolinaMichaëlis, no Porto, cidade onde o meu irmão já estava a estudar. E a minha mãe, na altura, alugou uma casa para nós os dois, com uma empregada, porque ficava mais barato.

Eu e o Adão fomos sempre muito unidos. Toda a gente se admira da nossa amizade. Há uma cumplicidade muito grande entre nós. Posso dizer que tenho um irmão de ouro.

Como é que uma adolescente de uma aldeia de Vale de Cambra deixa tudo para trás e vai para o Porto e, ainda por cima, para um liceu como o CarolinaMichaëlis?

Foi difícil! Ainda me lembro da minha primeira aula de Filosofia, com uma professora que tinha o cabelo “tipo regueifa” e umas unhas muito compridas, pintadas de vermelho, a dizer, com as mãos viradas para mim, “porque o homem é um microcosmo dentro do macrocosmo” [risos].

O CarolinaMichaëlis era um liceu de meninas de bem. A maioria era da Foz. A única que vinha do campo era eu e depois havia mais três que vinham da beira-mar, da Póvoa.

Mas isso não foi obstáculo. Integrei-me muito bem e fui sempre boa aluna.

“Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]”

Mas, na altura, já queria seguir línguas?

Bem… Gostava mais de ciências do que línguas. Mas como as ciências tinham desenho escolhi línguas germânicas. Além disso, houve um senhor da Oliva, que era economista, que disse ao meu irmão que “o melhor curso para a tua irmãzita era germânicas, porque vem para aqui uma senhora formada em germânicas que ganha quanto quer”.

E não se arrepende?

Não, não me arrependo. Gostava de ter tirado um curso de ciências, mas não me arrependo. Porque a língua também é uma ciência. No caso do Alemão, é uma língua de estrutura superior, rígida, muito difícil, mas muito racional, de que gosto muito.

Acabei até por me dedicar mais ao Alemão do que ao Inglês. Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]. Depois que saí, desapareceu o Alemão da escola. Acho que durou apenas mais um ou dois anos.

Ao ir estudar para Coimbra, como foi o “corte umbilical” com o seu irmão?

Não foi fácil. Imagine o que era uma miúda com 17 anos, naquele tempo, ir para Coimbra. Só vinha de três em três meses a casa.  As estradas eram terríveis. De Coimbra a Vale de Cambra demorava-se quase um dia. Naquelas curvas e contracurvas de Águeda vomitava quase sempre.

Mas, tirando isso, Coimbra foi um fascínio, de facto. Adorei Coimbra. Gostei mais de Coimbra do que do Porto.

“Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo”

Tem algum professor de quem ainda hoje se recorda?

Tenho pena, mas não. Não tive um professor que me marcasse. Não sei, talvez pela rigidez que encontrei no ensino da “velha escola”. Na primária, apanhei uma vez dois “bolos” porque dei quatro erros e só podia dar dois. Mas foram dados devagarinho, de forma diferente dos que eram dados a outros meninos.

Já em Coimbra, gostei, por acaso, de um professor de Fonética, mas também não foi assim uma coisa que me marcasse por aí além.

Mas, curiosamente, lembro-me de muitos alunos. Até tenho uma saudade e uma relação afetiva muito grande com todos eles. Há alunos que me marcaram de uma maneira excecional. No entanto, só dei dois 20 na minha vida, um a Inglês e o outro a Alemão.

Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo.  Claro que havia sempre brejeirices e marotices da parte deles. Mas nunca tive uma falta de educação de um aluno meu. Pelo contrário. Tive sempre manifestações de muito carinho.

Acabou o curso com que idade?

Com 22 anos, idade com que vim para a Molaflex, para S. João da Madeira.

Veio fazer o quê para a Molaflex?

Estava na altura a fazer a tese e fui para a Molaflex como tradutora de Alemão, com o Sr. Rui Moreira, pai do atual presidente da câmara do Porto, e com o engenheiro Mário Moreira, considerado uma das melhores cabeças que tinham passado pela FEUP.

Já na Molaflex, fui mandada para a Suíça alemã, com três operários. Fomos para uma fábrica de fazer molas e eu fui para o meio dos operários, sentadinha numa cadeira a traduzir a língua para os nossos trabalhadores. Ganhei ali relações muito interessantes. Foi um período muito interessante.

Entretanto, acabei a tese e concorri, sabendo que era muito difícil a colocação nos liceus, porque o número de alunos era reduzido. Havia poucos liceus. Concorri praticamente para todo o Norte do país e fui parar a Braga onde trabalhei durante cinco anos.

Fui para Braga ganhar três contos e setecentos e cinquenta escudos como professora, declinando um convite do engenheiro Mário Moreira, que estava na Siderurgia Nacional, que me queria como secretária. Davam-me na altura quatro contos e quinhentos para ficar aqui.

Fui ganhar muito menos e para longe de casa, mas era o ensino que queria. Entretanto veio a “Reforma Veiga Simão” que abriu as portas ao estágio. Mas para isso tinha de ir fazer as chamadas pedagógicas a Coimbra. E fui. Nesse ano ia ter o meu filho em maio.

Se voltasse atrás no tempo voltaria a ser professora?

Sem dúvida!

Como é que veio viver para SJM?

Quem me trouxe para SJM foi o meu marido que era engenheiro e veio trabalhar para a Quimigal. Ele era de Vizela. Quando fui para Braga, apaixonei-me por lá [risos].

Casámos e viemos viver para SJM. Tinha 27 anos, na altura, e o meu irmão, que dava consultas no Santo António [Hospital] e em Vale de Cambra, vivia também neste prédio, no andar de baixo.

Entretanto, já com um filho, fui fazer o estágio para o Carolina Michaëlis, com uma orientadora “de gancho”. Tinha aulas até às 18h00 e tinha de sair às seis da manhã, porque era a estrada velha. Não havia autoestradas.

Entretanto, no final do estágio, efetivou em SJM.

Sim, foi uma sorte. Efetivei em SJM, numa secção do Liceu de Vila Nova de Gaia que abriu aqui. Inicialmente, no Palácio dos Condes. Depois, num edifício para os lados do campo de futebol, com condições muito más. Depois fui para o Colégio Castilho, em frente à escola Serafim Leite.

A escola que é hoje João da Silva Correia foi designada Escola n.º 2, a seguir ao 25 de Abril. Mas eu já não cheguei a dar aulas onde ela é hoje [Rua da Mourisca].

Tem noção que ao ser professora mudou vidas?

Sim. Acho que sim. Por acaso, ainda há dias, tive uma aluna que se abraçou a mim a chorar e a dizer exatamente isso. Cheguei a fazer cursos pós-laborais porque sentia que para evitar determinados “desvios” tinha de os motivar para outros campos. As próprias viagens realizadas para o estrangeiro a custo zero, por mim e pela Dr.ª Clara Reis [antiga colega de profissão e hoje uma grande amiga], foram precisamente para isso. Eu e a Clara fomos muito cúmplices neste trabalho de projeto, de motivação dos alunos.

Ou seja, a Eva não se limitava a dar o programa curricular. Não ensinava apenas Inglês e Alemão, mas também princípios e valores?

Sim. Acho que sim. Embora tivesse de cumprir o programa, nunca abdiquei do meu papel de educadora. E, sabe, julgo que deixei marcas e tenho muito orgulho nisso. Continuo a pensar que educar é um ato de amor.

“Orgulho-me de ter contribuído muito para a ‘nova escola’”

A escola do seu tempo é muito diferente da escola de agora?

A “velha escola”, antes do 25 de Abril, era uma escola muito diferente da escola que foi criada depois [da Revolução de 74]. Orgulho-me de ter contribuído muito para a Nova Escola.

Orgulho-me mesmo, porque fui sempre muito ativista. Sempre me interessei por todas as reformas. Sempre fui muito empenhada para que houvesse uma escola nova. Uma escola em que acreditava e que acho que ajudei a construir.

Ultimamente, de há uns anos para cá, a Escola foi perdendo muitas regalias conquistadas no Pós 25 de Abril. Também reconheço que é muito provável que houve muito atropelo, muita coisa que se calhar não foi feita devidamente nem com o tempo devido.

Sim, perdeu-se muito nestes últimos tempos. Mas, apesar de tudo, a escola que temos hoje nada tem a ver com a escola de antes do 25 de Abril. É muito melhor!

Espero que professores, alunos, toda a gente que está ligada ao ensino, lutem para que estas conquistas de Abril não se percam mais. Se bem que hoje a profissão de professor está muito pouco dignificada, está mesmo desconsiderada, quando devia ser a profissão mais digna. Sim, porque pelas nossas mãos passa tudo. Passam, inclusive, os próprios governantes da nação.

Ainda há dias, fui à João da Silva Correia, porque queriam que fosse lá uma pessoa de sucesso que tivesse passado por aquela escola falar com alunos do 11.º ano. Achei piada por me acharem uma pessoa de sucesso.

Mas, sim, disse-lhes que se uma pessoa de sucesso é uma pessoa que realmente fez aquilo que fez, que gostou daquilo que fez e que não se arrepende daquilo que fez então eu era uma pessoa de sucesso.

Na ocasião, perguntei qual dos alunos que estavam no anfiteatro queria ser professor e não houve um único que levantasse o dedo, o que me deixou a pensar, sou sincera.

E isso deve-se a quê?

Não sei ao certo. Mas vejo tanta gente desmotivada no ensino que se tivesse oportunidade de se pôr a andar fazia-o.

Para se ser professor, para além do saber e do sentido pedagógico, tem de se ter aquilo a que chamo “arte”. Algo que não sei explicar. Tem de se ter uma empatia imediata com os alunos. Fui orientadora de estágio e olhe que “apanhei” muitos estagiários profissionais, competentes, mas não houve muitos em quem tivesse notasse a tal “arte”.

Se lecionasse hoje continuaria a não pôr alunos fora da sala de aula?

Não gosto muito de fazer afirmações sem vivências. Tenho ouvido queixas de gente que considero muito e que acho que devem ser boas profissionais que me impressionam. Mas olhe que no meu tempo também havia alunos que cuspiam na cara dos professores e que chamavam “filho desta” e “filho daquela” nos corredores. A seguir ao 25 de Abril não foi nada fácil.

A mim, felizmente, nunca me aconteceu tal coisa. Como lhe disse, nunca tive uma falta de respeito de um aluno nem tampouco atrevimento. Nunca pus um aluno fora da porta.

Chegada a altura da aposentação, a sua vida mudou?

Mudou. Passei a ter mais liberdade, a sair mais com o meu marido. Foi um bom período da nossa vida. Como os filhos já estavam formados, tínhamos mais tempo um para o outro, mas, entretanto, tive de passar a cuidar da minha mãe. Cuidei dela quase 20 anos, até ela falecer com 101 anos.

Depois de me aposentar, também passei a ir mais para Vale de Cambra, onde continuei com a minha função pedagógica junto dos miúdos da minha aldeia.

Quantos livros tem publicados?

Este [“O Leprechaun e a Bailarina”] é o meu sexto livro. O primeiro – “Era uma vez, Future Kids” – foi publicado em abril de 2004 e é sobre a minha infância.

“Aurora Adormecida”, o meu segundo livro, retrata o pós-guerra, a exploração do volfrâmio nas minas de Arouca, pedaços da vida da minha mãe, Aurora. Além destes, escrevi também “Era uma vez em Outubro” (2010), “Corconte” (2012), “Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)] e agora “O Leprechaun e a Bailarina” (2019).Embora não sejam escritos à toa nem de ânimo leve, nos meus livros, não tenho preocupação histórica. Aborrece-me pesquisar. Há sempre um fundo histórico, mas não há valor documental.

Mas começou a escrever antes de se reformar?

Sim. Sempre gostei de escrever. Quando fui para o CarolinaMichaëlis a professora de Português mandou fazer uma redação sobre o primeiro dia de aulas. Entregámos as redações e passadas algumas aulas a professora perguntou quem era a menina n.º 2 [naquele tempo eram chamadas pelo número em vez de pelo nome] e disse-me que tinha esperança que viesse a ser alguém na vida.

Leu a minha redação em voz alta e chamou a atenção para o título que tinha dado [“Esse primeiro de outubro”]. Ela achou piada ao demonstrativo.

Eva Cruz lança sexto livro esta sexta-feira nos Paços da Cultura”, com o apoio do jornal labor

Amanhã lança o seu sexto livro, “O Leprechaun e a Bailarina”

Olhe, comecei-o a escrever ainda o meu marido era vivo, há dois anos. Ele ainda chegou a ler 10 capítulos, porque, embora fosse engenheiro, tinha sentido crítico e a sua opinião era muito importante para mim. Aliás, faço-lhe uma dedicatória neste livro.

Ele gostava do que eu escrevia, mas estava sempre a dizer-me que devia puxar mais pela história porque as pessoas gostam muito de enredo. Só que acho que nunca tive nem tenho espírito de romancista.

“O Leprechaun e a Bailarina”é uma história de amor, uma história de sucesso de emigração que tem como pano de fundo a emigração dos anos 60. É um testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia ou nos boulevards da grande cidade.

Funcionou, para mim, como uma catarse. O falecimento do meu marido foi o período mais negro da minha vida. E eu agarrei-me a isto. Fui escrevendo, escrevendo, escrevendo, porque escrever era uma forma de me apaziguar, de controlar a saudade.

Mas não fazia conta de o publicar?

Não. Foi a Dr.ª Graça, da Biblioteca Municipal, uma das grandes motivadoras para que o publicasse. Ela e o marido, o Dr. Pedro, são os dois causadores da publicação. “O Leprechaun e a Bailarina” conta com a edição do jornal labor.

E agora está motivada?

Sim, estou. Dei-o, inclusive, já a ler às minhas quatro apresentadoras da sessão de amanhã, que, curiosamente, também apresentaram o meu primeiro livro: professoras Carmina, Clara Reis, Isilda e Nelly.

Obra é “uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos”

Qual a mensagem deste seu livro?

Este livro pode ser considerado uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos.

A “bailarina” é uma menina que batizei [a madrinha e narradora] a quem eu dei em criança um “Leprechaun” [figura mitológica do folclore da Irlanda], que a acompanhou pela vida toda. Ela agarrava-se ao duende e à bênção da madrinha convencida que eram eles que lhe davam força para perseguir o sonho. Por vezes, uma palavra certa pode ser determinante. Pode alimentar o sonho. Cá está o meu espírito otimista a falar mais alto.

Acredita que o “Leprechaun”dá mesmo sorte?

O meu primeiro “Leprechaun” foi-me oferecido por uma amiga irlandesa há muitos anos. E agora no Natal do ano passado a Clara Reis deu-me outro, longe de imaginar que ia publicar um livro intitulado “O Leprechaun e a Bailarina” [risos]. Coincidências ou talvez não…

Mas respondendo à sua pergunta, as crenças e superstições valem o que valem. Com esta “bailarina”, cujos “Leprechaun” e a bênção da madrinha sempre a protegeram pela vida fora, quero simbolizar todos os meninos da aldeia que tirei do insucesso. Ensinava-lhes tudo o que sabia. Fui espalhando essa influência pedagógica, afetiva.

Tem outro livro na forja?

Tenho muitas ideias. Tenho muita coisa escrita, para aí dispersa, na matriz da poesia. Mas acho que este é mesmo o meu último livro.

 

Eva Cruz

Eva Cruz nasceu em Vale de Cambra nas Figueiras – um “lugarzinho mágico” perto do Pinheiro Manso, quem vai para Oliveira de Azeméis (OAz) – a 6 de janeiro de 1942, precisamente, no Dia de Reis.  Daí a sua mãe, Aurora, lhe dizer que naquele dia tinha nascido uma “rainha”. A família na altura não era numerosa, sendo composta apenas pelos pais e um irmão, Adão Cruz, com quem teve sempre uma cumplicidade muito grande.

“Evinha”, como ainda lhe chamam na sua aldeia, fez a quarta classe na Escola Primária dos 2 e, depois, foi para o Colégio de Oliveira de Azeméis, onde o irmão, cinco anos mais velho, já andava. Em OAz concluiu o último ano de liceu, seguindo-se uma nova fase da vida no Porto, uma cidade grande que nada tinha a ver com o “paraíso” onde vivia. Na “Invicta” frequentou o Liceu CarolinaMichaëlis, “considerado na altura o liceu mais difícil do país”. Entretanto, prosseguiu os estudos em Coimbra tendo em vista o ensino de Inglês e Alemão.

O pai gostava que fosse advogada, mas Eva Cruz que, “já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava alunos”, sempre quis ser professora. E, de facto, foi professora durante 36 anos, a maior parte do tempo na Escola João da Silva Correia.

Após a aposentação em 2001, dedicou-se mais a sério à escrita. Já tem publicados cinco livros e tem um outro que está a poucas horas de “ver a luz do dia”. Com edição do jornal labor, “O Leprechaun e a Bailarina” é lançado amanhã, dia 24, pelas 21h30, nos Paços da Cultura.

 

Livros de Eva Cruz

 “Era uma vez, Future Kids” (2004)

“Aurora Adormecida” (2006)

“Era uma vez em Outubro” (2010)

“Corconte” (2012)

“Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)]

“O Leprechaun e a Bailarina” (2019)

 

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por Augusta Clara às 16:44

Domingo, 28.04.19

Entrevista completa de Lula da Silva à TV Folha e ao El País

 

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por Augusta Clara às 20:29

Quarta-feira, 29.08.18

MANUEL SOBRINHO SIMÕES “VIVEMOS DE TRUQUES PARA SOFRER O MENOS POSSÍVEL”

  

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 Expresso - Revista, 25 de Agosto de 2018

 

Luciana Leiderfarb (texto) e Rui Duarte Silva (fotografias)

   Entra na sala, os óculos, a afabilidade, o sorriso de sempre. Mas há um elemento novo, um caderninho que pousa na mesa antes de iniciar a conversa. “Você desculpe, agora tem de ser assim.” E foi. Escreveu muitas palavras a fim de as descodificar devidamente, algumas só para ter a certeza, que isso de errar não está no seu ADN. Manuel Sobrinho Simões, patologista português, em 2016 eleito pelos pares o mais influente do mundo, autoridade no cancro da tiroide, tem 70 anos e vai a caminho dos 71, mas ainda não assumiu a reforma. “Não a ponho na biografia”, diz. Nem a inscreve no quotidiano, continuando a ir todos os dias para o seu escritório no IPATIMUP, o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto que fundou há quase 30 anos e que é um dos centros de excelência mundiais no que toca à investigação do cancro. É nessa paisagem que nos recebe, não fosse um homem de hábitos — que, no entanto, nunca ficou no mesmo lugar. Casado com a pediatra Maria Augusta Areias, pai de três e avô de seis, domina “o paleio” biológico mas sabe, cada vez mais, que não é isso o que o define. Afinal, quem é? Um homem com medo, racional e emotivo, “competitivo e orgulhoso”, “a ver a descida”, a aprender a descer, que valoriza mais as chegadas do que as partidas, que procura — e encontrou — uma forma de eternidade. E que, pragmático, vira para si mesmo a pergunta: “Para quê?”

Para que serve esse caderno?

Agora ando sempre com ele atrás. Por causa da minha chatice. Como sabe, tive um AVC.

E tê-lo ajuda-o de que forma?

Ajuda-me a separar as sílabas de certas palavras. Por exemplo, só consigo dizer ‘sussurrar’ ou ‘helicóptero’ se o escrever. Na verdade, poderia não ter o caderno, mas faço gosto de ter. É uma forma de disclosure: meus amigos, eu tive esta chatice, não sou um atrasado. Tenho só mais dificuldade.

Que dificuldade é essa?

Falo inglês e francês, e um pouco de espanhol. Agora, quando tenho de fazer relatórios, não sei se estou a escrever em inglês ou em francês. Se falar de coisas técnico-científicas, o inglês continua fluente. Mas se conversarem comigo a um outro nível, mais pessoal, fico perdido. Não consigo fazer small talk.

 (RE)APRENDER A 13 de maio, Sobrinho Simões teve um AVC. Desde então leva sempre consigo um caderninho onde aponta, sílaba a sílaba, as palavras que mais lhe custa pronunciar

(RE)APRENDER A 13 de maio, Sobrinho Simões teve um AVC. Desde então leva sempre consigo um caderninho onde aponta, sílaba a sílaba, as palavras que mais lhe custa pronunciar

A ‘chatice’, quando aconteceu?

Foi a 13 de maio. O que tem graça, porque a minha mãe é devota de Nossa Senhora de Fátima e quando fiquei melhor pensou que era um milagre. Estava no Porto, em casa, era de manhã. Levantei-me e percebi que não estava a conseguir ler o Expresso. A Gu [Maria Augusta Areias, a mulher], que é médica, disse logo que eu tinha qualquer coisa. Ainda resolvi ir comprar vinho e ver a pressão dos pneus. Já estava a ter um AVC. Quando voltei a casa, enfiaram-me na ambulância para o São João.

Não se apercebeu de nada?

Não, porque não dói. A dor seria um grande sinal. O que senti foi uma dificuldade, um trocar os nomes. Descobriu-se que tive um ‘embolismo paradoxal’: a formação de trombos mínimos que se acumulam na aurícula direita e que poderiam não dar problemas, mas um deles passou para a esquerda e encravou numa arteriazinha cerebral muito periférica. A 8 de junho fecharam-me esse canal, e agora está tudo bem. Em setembro já me deixam voltar para o circo, tenho quatro viagens marcadas. É um desafio.

E ser um desafio é bom.

Há um elemento que não é só a vontade, é o risco. Eu, que nunca decorei nenhum número, mas que sempre decorei todos os nomes, perdi isso, esqueço-me. Tenho também parafasias, o que tem a sua graça. Ia oferecer três garrafas a uns homens que nos arranjaram uns pinheiros e eu disse que tinha três ‘gravatas’ para lhes dar.

Professor, eu acho graça a que ache graça. Muitos no seu lugar teriam ficado aterrorizados.

É a única forma de lidar com isto. Repare que, quando acordo no primeiro dia, os médicos mostram-me um cão. Eu digo “cão”. Mostram-me um gato e eu digo: “Não é tigre, mas não sei o nome.” Mostram-me uma caneta e eu sei o que é — é uma esferográfica, mas quero a outra palavra. E não a tenho. É um susto tremendo.

O susto de não ter palavras para nomear.

Apanha-se um susto porque são palavras que você sabe, só não as consegue dizer. No fundo, tinha uma lesão. E tive sorte. Por acaso isto também tem graça. Sou médico, e os meus amigos dos AVC dizem-me que, em Portugal, o AVC torna as senhoras mais faladoras enquanto os homens ficam patos mudos. Eu sou um tipo da biologia, tenho todo este paleio do cancro, mas para isto não tenho explicação. Dizia ao meu filho: “Traz-me o jornal”, e ele respondia: “Pai, porque é que me pede o elevador?” O que posso dizer é que depois do susto comecei a fazer esforços, a aprender. Às três da manhã acordava com o apelido ‘Wilde’ na cabeça, sem me lembrar do nome. Escrevia ‘Oscar’ e pensava: não reconheço isto. Ora, não reconhecer as palavras por escrito é estranhíssimo.

Pode ser mais confuso para um leitor, para um homem que lê.

Eu leio muito depressa, mas se agora me pedir para ler alto vou cometer muitos erros. Se tiver de dizer um poema, a preocupação por pronunciar bem as palavras faz-me deixar de o perceber.

Como é adaptar-se a uma realidade em que as palavras não são o que sempre foram?

Posso dizer-lhe o que faço: ponho-me à prova constantemente. Se às duas da manhã não me lembrar de quem era o mordomo no anúncio do Ferrero Rocher, não descanso até o encontrar. Vinha-me à cabeça Tenório ou Gervásio — era Ambrósio.

Qual a sensação de resolver o mistério? Alívio?

Arranja-se uma justificação. Afinal, os nomes tinham relação entre eles. As pessoas acham que fiquei muito bem, e estou bem. Mas se começar a ficar confortável baixo a defesa e os erros aparecem.

Que tipo de paciente é?

Sou muito fácil, faço tudo o que me mandam. Faço fisioterapia da fala, decoro lengalengas, gravo-me a ler em voz alta e verifico os erros... Todos os dias de manhã. E também tenho dito poemas cada vez mais difíceis. Porque sinto sempre, a todo o momento, esta nova fragilidade.

E não está habituado a falhar.

Sempre fui um performer. E já fiz o estudo suficiente para perceber onde é que me engano, quais são os sons que me levam a errar. Então procuro um sinónimo, para isso não acontecer.

“A minha grande descoberta foi que as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou”

Uma vez disse que o seu maior medo é “ser menos eu”. Perder-se.

O AVC simboliza essa possibilidade. Já passei por outras situações-limite. Em 2003 estava em Oslo, onde recebi uma medalha do rei, e ia para Londres. Como sou um workaholic, levantei-me às 6h, não almocei e apanhei o avião. Na viagem, desmaiei. Ao chegar ao Porto descobriram um aneurisma congénito na ilíaca primitiva esquerda. Deram-me uma aspirina e pronto. Em 2017 tenho uma dor horrível, penso que é a anca e a artrose. Encontram um tumor que, afinal, era sangue proveniente da rotura do aneurisma. Mas fizeram-me o diagnóstico de cancro. E claro que me assustou, embora não fosse a mesma coisa.

Porquê? O que distingue o risco das duas situações?

Conheço a lógica do cancro. E o sofrimento. Mas não senti o medo de deixar de ser eu. Tinha pena, não queria morrer. Desta vez, a pergunta era: quem é que vou ficar a ser? Tenho muita curiosidade e acho graça às pessoas, e a minha grande descoberta foi que as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou.

Não somos só genética.

Se contarmos a história da nossa família, o que é que isso tem de genético? É uma outra dimensão sobre a qual sabemos muito pouco. Cada vez mais percebemos que a divisão entre o lado natural e o cultural é ilusória e que as duas coisas estão ligadas. Mas, por estranho que pareça, tudo o que é psicológico ou sociológico escapa-me, não o domino — dominando o resto.

E isso que lhe escapa é o fundamental?

Não consigo explicar coisas como o gosto pela música, percebe? Dou-lhe um exemplo: com esta chatice toda, começaram-me a crescer as unhas mais depressa. Cortava-as uma vez por semana e agora faço-o a cada três dias. Tentei ver se isto já me aconteceu no passado. E de facto, quando ia para África ou para a Ásia demoravam a crescer. Mas quando ia para os Estados Unidos cresciam imenso. Era o stresse, tal como agora.

Afinal, o que lhe aconteceu não teve assim tanta graça.

Passei por um stresse brutal. E ainda estou nele, mas não tenho alternativa a não ser tentar perceber. E perceber que o stresse não me atinge de uma forma que eu possa explicar. Acontece, ponto.

Diz que a maior dificuldade é definir-se fora do biológico, mas também escreve: “A família aperta-nos como uma tenaz.” É toda uma definição.

O que sinto é que a definição do que sou é cada vez mais cultural e menos genética. Sabe o que acho extraordinário em Portugal? Não há país mais homogéneo geneticamente, porque estamos afastados do centro — e assim nos mantivemos. Porque é que ficamos diversos? Porque começamos a sair e a trazer genes. No entanto, as outras coisas que trouxemos — religiões, cultura, costumes — definem-nos mais do que os genes. Os portugueses são uns tipos que tiveram uma escravatura horrorosa, que não se pode contar a ninguém. E o problema do valor do trabalho em Portugal vem daí, não é genético.

Acha que Portugal tem um problema com o trabalho?

Estou a exagerar, mas durante muitos anos incorporámos formas alternativas ao trabalho. Como somos periféricos e não tínhamos facilidade de criar riqueza e competir, fomos para o Atlântico. Isso não é trabalho da forma como hoje o concebemos. Por outro lado, tínhamos escravos, dez por cento da população era negra. Nunca dizemos isso. E continuamos a ter uma tradição de pequenas tribos familiares, agora partidos políticos ou a maçonaria, que são fórmulas para substituírem a questão da competência.

No livro “Os Portugueses” [Ed. Gradiva] , publicado em dezembro, diz que “Portugal só evoluirá se partir do concreto para as grandes sínteses; se partir das pessoas, da sua literacia, para a sociedade”. Quer explicar?

Em Portugal pergunta-se pouco ou não se pergunta. Mas o aspeto mais negativo é a burocratização da sociedade, desde o Parlamento — em que os partidos não representam realidades comuns — ao ministério que não percebe nada do hospital. Temos uma tradição de centralização assustadora. E há uma ausência de mecanismos de recompensa. Não temos a tradição de recompensar o mérito. Por outro lado, vinha agora a ouvir na rádio que há 12 mil professores em baixa prolongada. E, nos hospitais, o absentismo de técnicos atinge os 50%. Não temos, portanto, qualquer controlo do sistema. E não só não perguntamos porquê como começamos por cima em vez de começar por baixo.

‘Porquê’ é a pergunta-chave?

Não, a grande pergunta é ‘para quê’. E a maior parte das pessoas não sabe responder. Existe a tradição de ter uma camada de capatazes que se misturam de forma promiscua com os edis, e essa gente não está a responder a esta pergunta. Está a responder a uma necessidade de cima para baixo que tem a ver sobretudo com benefícios eleitorais, informalidade e corrupção. Não temos hierarquia nem mérito, somos todos primos e cunhados, ou membros do mesmo clube. Pergunte-me porque é que Portugal é um país tão assimétrico.

 CORRER Mesmo jubilado, o patologista vai todos os dias ao IPATIMUP, de que foi fundador há quase 30 anos. E mantém um escritório no Hospital São João para atender os alunos

CORRER Mesmo jubilado, o patologista vai todos os dias ao IPATIMUP, de que foi fundador há quase 30 anos. E mantém um escritório no Hospital São João para atender os alunos

Considere a pergunta feita.

É a periferia, a pobreza, era a religião, o clima, ninguém casava connosco. E hoje é o rescaldo de tudo isso, a que se acrescenta uma organização tribal e de capelas que mantém tudo na mesma.

Há pouco falou do “paleio do cancro”, como se fosse simples. Não imagina a estranheza dessa frase para um leigo.

É simples. À medida que tivermos uma intervenção mais precoce, o problema vai desaparecer. O mesmo não se pode dizer do Alzheimer, das demências cognitivas, das falências do sistema. Não vamos morrer do coração nem de cancro, mas de doenças degenerativas, de infeções. No cancro, as células são filhas da mesma mãe e hoje compreendemos bem os seus mecanismos. Não sabemos é como tratar doentes em que o cancro já deixou de ter fronteiras e recriou um novo organismo.

Em que se torna um ‘outro’, um invasor.

E que é muito parecido connosco, e mais eficiente do que nós. Então, o problema é tratar — mas perceber, percebemos.

“Células com uma perturbação nos mecanismos de regeneração, que se tornam mortais.” A frase é sua e há nela um toque de admiração. O cancro como algo admirável.

Mas é admirável! Por isso é difícil de curar. Se as células fossem proliferativas, tratávamos com venenos. Mas não é tão fácil tratar pessoas com uma reserva de células que são mantidas sem dividir e que são extremamente resilientes. Como é que ganhamos isto? Quando começamos a estudar os animais, percebemos que, à exceção do homem, a maioria não tem muita capacidade de sobreviver. Onde há essa capacidade? Nas plantas. Basta lembrar os plátanos, que voltam a crescer após podas mutilantes todos os anos, e que desenvolveram mecanismos extraordinários para serem quase imortais. E repare que são proteínas muito próximas das nossas, não são outras. Não são alien.

As plantas e o cancro têm algo em comum?

Há uma grande semelhança entre todos os organismos que tenham como grande aspiração não morrer. A proliferação das plantas é um espanto: o crescimento faz-se com respeito das fronteiras e só temos de colher ou fazer podas. E não há nada no reino animal que seja mais proliferativo que um novo ser a partir do ovo. Esse crescimento, do qual sairão jovens que mais tarde vão ter crianças, é um processo que se faz com regras: não há invasão, isto é, respeitam-se as fronteiras dos tecidos, e as células dividem-se, crescem e morrem. O cancro aparece porque se acumulam proteínas que bloqueiam o suicídio natural das células. E estas, uma vez em número aumentado, migram para outros sítios — deixam de respeitar fronteiras. Tanto os seres vivos como os cancros são organismos únicos, daí ser tão difícil passar um cancro para outro ser vivo. Um ser vivo, assim como o seu cancro, tem uma identidade.

Quer dizer que o cancro é algo de muito pessoal.

É a prova de que ainda temos capacidade de evoluir. No fundo, se pudéssemos evoluir, poderíamos ter mecanismos seletivos mais eficientes. O cancro gostaria de ser mais eficiente, mas quando fica mais eficiente perde a capacidade de respeitar fronteiras. Se não nos metermos em guerras, resta-nos a ocorrência cada vez mais frequente de cancro. E se os homens viverem 100, 120 anos, teremos todos um ou mais do que um cancro. Somos cada vez mais superprotetores do homo sapiens, embora estejamos a engordar demasiado, a ficar diabéticos, hipertensos, com problemas da coluna... São dezenas de anos de exposição a agressões físicas, químicas, microbiológicas. Sabe, o homo sapiens rebentou com tudo. A passagem do homem coletor e caçador para o agricultor e domesticador, com um cérebro de 1500 cm cúbicos, fez-se à custa da destruição absoluta de tudo o resto. E vai acabar por morrer quando esgotar tudo — o desafio será a revolução da genética germinativa, não o cancro. O homo sapiens não tem grande imaginação, há é alguns tipos geniais. Os poetas, os músicos. Isso, sim, é algo que me deixa espantado. Como é que uma pessoa treina para ser pianista?

Como é que alguém treina para ser um patologista, um médico?

Isso tem um output que é medido pela sua aplicabilidade. E essa é a diferença entre o material e imaterial. No domínio material, introduzimos muita coisa que é facilmente mensurável. A arte não é mensurável. A beleza.

Mas em qualquer domínio existe o elemento surpresa. Mesmo na ciência.

Claro, por isso existem as ordens e as corporações. Indecentes, porque servem para defender os profissionais e não os desgraçados que os procuram.

Já cometeu algum erro?

Muitos, até demais. Conto-lhe um. Há muitos anos, o meu chefe tinha um doente do esófago. Fez-se uma biopsia e achei que era cancro. Entretanto, fui para férias e, ao voltar, ele tinha tirado o esófago ao doente — uma cirurgia horrível à qual por acaso sobreviveu. Afinal, não havia cancro nenhum, era um processo inflamatório grave e eu tinha feito sobre­diagnóstico. O que se faz hoje? Pede-se segunda opinião. Sempre.

Foi para não correr riscos desses que decidiu não fazer clínica?

Sim, pela incerteza. Vejo-me à rasca, tenho medo. É um equilíbrio muito frágil entre a dificuldade de arriscar e o não resolver por excesso. Porque a prática médica é sempre baseada na noção de que as pessoas, perante a dúvida, devem ser tratadas. Há uma tendência horrível para o sobretratamento, que assenta no sobrediagnóstico.

Falou muitas vezes nas IDLE [indolent lesions of epithelial origin]. Lesões que, se forem vistas, são consideradas cancro. Como se lida com isto?

A evolução atual nos países civilizados é o watchful waiting. É poder dizer à pessoa para voltar daqui a três meses para ver se a lesão aumentou. Os japoneses estão a fazê-lo maravilhosamente. Nós não. Nós não resistimos a enfiar uma agulha. E desde o momento em que enfiamos a agulha encontramos lá células. São células atípicas ou malignas, mas com possibilidades ínfimas de virem de a ser clinicamente um cancro, de se espalharem.

Como não querer arrancar esse maligno que está em nós?

Repare, seria mutilante. Dávamos cabo de toda a gente. Todos nós temos sempre células deste tipo, sobretudo nos sistemas digestivo, respiratório e urinário, na mama e na próstata — na maior parte das vezes, conseguimos destruí-las. Não sei se sabe isto mas, em Portugal, o norte tem oito vezes mais cancro da tiroide do que o centro e o sul. E a mortalidade é a mesma. Isto quer dizer que há sobrediagnóstico no norte — cancros muito pequeninos nos quais não deveríamos mexer, nem deveríamos sequer nomeá-los como tal.

O mero nome leva à ação. O médico tem o direito de não nomear?

É uma discussão em aberto. Propusemos que se chamassem ‘microtumores’, mas os americanos não quiseram, argumentando que há um risco. Pois há: um em dez mil. Respondendo à pergunta, uma vez que se encontra um cancro não se consegue ignorar. Nem pelo médico nem pelo doente. E os processos acabam sempre com a mutilação, com custos brutais em todos os sentidos.

Há uma pulsão de vida que nos leva a agir, mesmo que não seja necessário.

Só que nós agora temos capacidades extraordinárias de diagnóstico de coisas minúsculas. E se me pedirem para jurar que aquilo nunca vai ser um cancro, não o posso fazer. Continuo a pensar que o problema em Portugal é termos senhoras a quem não são diagnosticados cancros do colo do útero porque não fazem os exames ou os fazem tarde demais. Nos países subdesenvolvidos, ainda temos a questão do cancro demasiado avançado e da falta de acesso. No entanto, temos já uma população substancial com excesso de tudo, até no acesso aos mais avançados meios de diagnóstico. O português adora fazer TAC — somos, depois da Grécia, o país com mais aparelhos de TAC da Europa.

Afirmou que o cancro é a prova de que ainda temos capacidade de evoluir. E já o tinha ouvido dizer que é “o preço que temos a pagar por mantermos a espécie viva”. Em que sentido?

É que nós não temos nenhuma razão para acabar. Quando eu era estudante, vigorava uma lógica muito linear: o homem pôs-se de pé porque desenvolveu o cérebro. A descoberta de hominídeos que se puseram de pé antes do homo sapiens significa que a espécie, tal como os lobos e os cavalos, teve uma grande variedade. A evolução foi fruto de uma competição entre diversos hominídeos, e isto significa que a espécie continuaria a evoluir. O cancro significa que o homem tem células capazes de evoluir. No limite, só temos capacidade de progredir se tivermos células de reserva capazes de ir mais longe do que foram até agora. Nós não deveríamos ter parado no sapiens.

O cancro é uma espécie de sintoma evolutivo que nos mata?

Não, é um sintoma da existência de dinâmica evolutiva — que já não conduz a evolução nenhuma. Ponha a questão desta forma: porque é que não há mais cancros no cão ou no gato? Primeiro, eles não vivem tanto como nós. Segundo, o cancro neles não é um mecanismo que tenha algo para selecionar. Temos cancro porque temos a possibilidade de gerar instabilidade genética, e esta é a única maneira de evoluir. Ainda temos essa energia. O cancro é o preço que pagamos por isso.

“Nunca assumi que me jubilei. Porque para alguém com uma atividade intelectual, essa palavra tem qualquer coisa de humilhante”

Então, a energia do cancro é a mesma que nos mantém vivos.

Exatamente a mesma. E o homem nisto é a grande novidade. As outras espécies têm a fase reprodutiva e depois morrem. Nós esticamos a vida, e isso é cultural. Mas sobre isso não sei o suficiente.

Vai fazer 71 anos em setembro. Sentiu os 70 como uma fronteira?

Apanhei um susto. Nunca tinha percebido que isso me ia acontecer. No dia seguinte fui para o [Hospital] São João, pus o dedo no scanner para entrar e o sistema começou a apitar. “Nome desconhecido”, veja lá. Foi muito humilhante. Eles tinham-me estimulado a concorrer a emérito, coisa que fiz. Agora tenho um gabinete pequeno, não recebo ordenado, mas faço as reuniões com os alunos.

Que outras idades foram marcantes para si?

De longe, o momento mais sério de todos foi o nascimento da minha neta mais velha. Foi quando percebi que eu ia morrer.

Porque é que essa compreensão adveio de um nascimento?

Em geral, eu percebia que as pessoas morriam. Fazia autópsias, lidava com a morte. O que nunca tinha percebido é que eu próprio ia morrer. E este sentimento que tive em relação à minha neta até nem foi triste, foi de ternura.

Era a segunda geração depois de si, aquela que ia abandonar a meio.

Provavelmente era isso, sim. Já não os ia ver formados, crescidos. Outra fase terrível foi quando o meu pai morreu. Tinha 71 anos e um cancro. O processo não foi fácil, e aí sim houve muita tristeza, porque eu adorava o meu pai. Mas o interessante é que não percebi que aquilo tinha a ver comigo, que me falava diretamente. Se quiser, há aqui alguma inconsciência. Uma negação da evidência.

E mais para trás?

Éramos quatro irmãos — três irmãs e eu. Quando a mais nova teve uma criança também foi uma surpresa. Já ser eu a tê-los era natural. É inexplicável, porque ter uma criança faz sentido nos dois casos.

Os filhos não o confrontam com a sua mortalidade e sim com a sua eternidade.

É a fase boa. Eu safei-me sempre por ter alunos e ter internos, jovens que são treinados por mim. Ter uma escola tem um toque de eternidade.

E ter uma neta é ser um avô.

É ser aquele que fica para trás, que já está noutra fase. Esse futuro que ela representa você já não vai ver. Enquanto antes andava inebriado e não pensava no futuro, era um pai com crianças, com filhos, de repente com a neta olho para a frente e há menos caminho. O caminho está curto.

Inebriado é uma palavra bonita aplicada aos filhos.

Tive sempre uma relação muito engraçada com eles. Nunca fui muito atento, mas tive muita proximidade ao longo do seu desenvolvimento. O crescimento deles era paralelo ao meu, eu também estava a crescer. A diferença é que um avô está a descer. Está a ver a descida. É uma pena, tenho pena.

Pouco antes de se jubilar, disse: “Estou a correr aquela coisa do fim.” É isso?

E com uma fuga em frente do caraças! Acho até que tive esta chatice pelo exagero. O número de coisas que aceitei era obsceno, parecia doido. Não conseguia parar.

Nem sequer deu a última aula.

Não, e tenho vergonha disso. No limite, aquilo é aldrabar.

Aldrabar ou aldrabar-se?

Claro, só a mim, a mais ninguém. Nunca assumi que me jubilei, não o ponho na biografia. Porque para alguém com uma atividade intelectual, essa palavra tem qualquer coisa de humilhante. Há uma associação com a perda de qualidades, com dar barraca. Sou muito orgulhoso, o meu grande medo é perder.

Mas isso não é inexorável?

É. Só que eu fiz por me esquecer sempre, está a ver?

Um dia contou a história de um ratinho muito inteligente que não aprende porque não consegue esquecer-se. O grande truque é o esquecimento.

Esse foi sempre o meu truque. Eu vivo muito de histórias, porque acho graça. Podem não ter significado nenhum, mas é o mais humano que há. E a gente só lhes acha graça enquanto não tem a pressão de que tudo vai acabar. Ora, eu estou a achar cada vez mais graça. Mas sei que estão a acabar.

Vem todos os dias ao Instituto?

Venho, só que em vez de chegar às 8h, chego às 11h, porque de manhã faço os exercícios de linguagem. Demoro mais tempo a fazer as coisas, porque perdi eficiência. E estou a tentar recuperar. Sou muito competitivo, sou assustador.

Um assustador assustado.

Muito assustado, e não era. Embora esteja a reagir. Desde o início soube que esse era o caminho.

Qual é a sua primeira memória?

Não tenho. Só consigo reconstruir a memória a partir de fotografias. Com os avós, com os meus pais, as minhas irmãs. Não tenho memórias muito minhas, tenho sempre uma reconstrução. É mau e bom, torna-me um contador de histórias. Em vez de factos, tenho a interpretação. Mesmo agora, tenho tido cenas muito cómicas. Tudo quanto é antigo está presente — até com alguma tonalidade sépia, alterada. Continuo a fazer diagnósticos, e isso faço bem. É uma coisa muito autoritária fazer um diagnóstico, não tem nada de científico. E estou mais à vontade nessa área do que no resto. Tenho dificuldade em pensar noutras direções, otherness. Ou se calhar tenho menos tempo. Se calhar não vou ter tempo para viver tanto tempo.

Há um otherness que também foge desta conversa. Como se não se deixasse apanhar nesse outro lado.

Porque deste lado está o palpável, o utilitário. Uma colega sua perguntou-me o que me faz correr e eu não sei, talvez o medo da morte. A única coisa que é verdadeira para mim, e que agora se tornou mais nítida, é o medo da morte.

E o amor?

Foi muito bom, mas não me resolve esse problema. E até sou muito afetivo, gosto muito de pessoas. Mas já não me sossegam.

É como se de repente houvesse só presente.

É interessante quando penso, por exemplo, na ligação com os meus filhos. Somos muito próximos, andavam sempre comigo nas minhas viagens. No entanto, não me lembro deles até os dez anos. E eu fazia tudo, tomava conta, e não me lembro. O que é estranho.

Onde estava para não se lembrar?

Exatamente, onde estava? Eram três crianças, eu mudava fraldas, dava banho, dava de comer. Uma vez por semana ficavam por minha conta. E durante a infância deles alternávamos as férias, e passavam um mês sozinhos com um de nós, enquanto o outro ia só ao fim de semana. Já agora, em relação ao que não me lembro, isso acontece-me também com as casas. Lembro-me da dos meus avós, mas não das casas onde eu vivi.

“Andei por todo o lado, mas tinha sempre a certeza de que ia lá voltar. Agora, sei que isso pode não acontecer. E não é amargo, é doce”

O que tem a casa dos avós?

Não sei, mas é mesmo marcante, profunda.

Em “Os Portugueses” coloca muito esta questão: “De onde vimos?”

É o ovo. No outro dia, numa reunião em que estava o Presidente Marcelo, disse-lhe: “Já viu que o Sr. Presidente foi um ovo?” Já viu o que é ter duas células, que se subdividem em quatro, oito, até ficarmos isto?

Nunca o pensamos, de facto.

Fomos uma célula! Agora, eu sou muito bom a pensar em termos biológicos, mas não percebo nada sobre como é que a gente aprende. Sabe-se muito pouco disso.

Mas sabe de onde vem, quem o influenciou.

Claro! Tenho o meu pai, o professor Daniel Serrão, o Vincents Johannessen, um génio que se doutorou comigo. São pessoas com quem aprendi muito. Mas nunca percebi o que é que nos faz mudar. Que as unhas cresçam mais rapidamente por causa dos nervos é extraordinário. Do ponto de vista biológico percebo, mas não chega. Toda a minha vida quis ser melhor aluno, melhor professor, melhor médico. Nunca tive é uma aproximação filosófica às coisas. Agora, neste mundo em que sou muito bom, eles não me topam.

Parece que abre a porta mas afinal é só um centímetro, é isso?

É, sim. E esperam que diga coisas do caraças sobre o que é o homem, percebe?

Sente que há muita expectativa sobre si?

Sou um profissional e faço muitas conferências. Dou muita atenção às pessoas e às suas perguntas, mas não sei se me dou a conhecer. Não tenho uma aproximação teleológica nem ontológica. Sou um animalzito.

Mas uma coisa é não saber o que é o homem, outra é saber quem se é. Quem é?

Voltamos sempre ao mesmo. Descrevo-me sempre pelo output, o mensurável. Sou um tipo sério, decente, bom profissional... Sou muito mais o que é possível caracterizar de fora, do que o que eu possa dizer de mim a partir de dentro.

Um homem racional que chora e que tem medo. Estamos no bom caminho?

Admito que sim. Tenho muito medo e é verdade que choro, mas sem sofrer. Choro muito por estímulos primários de ternura. Emociono-me mais a ver chegar uma pessoa do que a ver um barco a afastar-se. No aeroporto, comove-me mais a vinda de alguém do que a despedida. Agora vai perguntar-me porquê. E eu acho que se deve a mecanismos meus de defesa, para não sofrer.

Ia perguntar isso, sim. Pelo tal truque de que falou antes.

Todos vivemos de truques para sofrer o menos possível. Nunca fiz medicina clínica, e uma das razões é o medo de lidar com doenças. Eu sei que posso diagnosticar uma coisa muito má, mas sou mediado pelo médico que me traz o relatório. Agora estou a pensar que, se calhar, a razão por que me emociono quando uma pessoa chega é porque é mais seguro e bom. Não acho graça nenhuma à incerteza.

Ao irreversível?

Ao ‘posso não voltar a ver esta pessoa’.

O sentimento de não voltar a atrás afeta-o?

Mais recentemente, sim. Passei muito tempo da minha vida a circular. Andei por todo o lado mas tinha sempre a certeza, mesmo na Patagónia, de que ia lá voltar. Agora, quando vou, sei que posso não voltar. E não é amargo, é doce.

Tem sempre a memória — ou uma fotografia que a ative.

Tenho sempre os outros. No início era a minha mulher que me acompanhava, depois foram os filhos. Agora são os netos, levo-os comigo, adoro. Porque eu só vivo por interposta pessoa. Sabe que nunca me sentei num restaurante sozinho? Nunca na minha vida. E com os netos há aquela coisa que já houve com os filhos, embora menos consciente: mostrar-lhes as coisas. Irmos à Noruega e vermos a neve.

Fazer parte das primeiras experiências de alguém.

E se quiser, a tentativa de refazermos as coisas, de voltarmos a elas. Eu não vou a sítios novos, vou é com pessoas diferentes. Detesto sítios novos. Sou daqueles que vai ao mesmo barbeiro, aos mesmos restaurantes, aos mesmos hotéis. Porque gosto e porque receio as experiências negativas.

Dizia que leva os netos consigo, o que quer refazer por meio deles?

Uma ligação, que é uma ligação com eles. Aquilo a que chamamos a eternidade.

Criar com eles uma memória de si?

No limite, construir neles uma ideia de mim. É como um espelho: vejo-os e, algures, sou também eu. Se calhar é uma recherche du temps perdu.

E o tempo ainda por perder? Em setembro vai fazer quatro viagens, é esperado por muita gente.

Sabe qual é a minha grande dúvida? É se continuo a ter vontade. Capacidade posso ter mais ou menos, mas... E se deixasse de me apetecer? Isso é que tinha graça. É o meu pavor. Esta coisa de ir para as conferências, para o circo, ainda terei paciência? Quão importante será para ti ir? É a minha pergunta.

Para quê?

Para quê.

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por Augusta Clara às 00:48

Quinta-feira, 19.07.18

Adão Cruz em “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro”, por Diana Familiar

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labor.pt, 19 de Julho de 2018

 

Obras podem ser visitadas até 30 de julho em Espinho

O médico cardiologista Adão Cruz começou a pintar por volta da década de 80 e nunca mais parou. “Ainda tenho umas coisitas dessa época muito ingénuas”, relembrou o pintor e escritor durante a conversa com o labor na Galeria Zeller, em Espinho, onde tem patente a exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro”.

Adão Cruz teve três ateliers que deveriam ter sido o refúgio dele e das suas telas brancas e onde a sua arte não teria fim, mas apenas o quarto e último atelier perdurou até aos dias de hoje. E esse quarto atelier é precisamente junto ao seu quarto de dormir. Por muitas vezes “levantava-me e pintava até de madrugada” em momentos que considera ser “momentos de necessidade espontânea de exprimir o que está cá dentro”, confidenciou o pintor.

Sempre que começa uma nova obra até pode ter “umas ideias na cabeça, mas nada é predefinido. A minha pintura não tem nada de académico, nada de esquemas, é de um amadorismo total de um autodidata, é gestual, espontânea, muitas vezes grosseira, mas não estou preocupado com nada disso”, revelou Adão Cruz ao labor.

Para o médico, pintor e escritor, “qualquer obra de arte, seja um poema ou um quadro, qualquer artista ou qualquer pessoa introduz dentro da obra, quer de forma consciente, inconsciente ou subconsciente, toda a sua vida, cultura, ilusões e desilusões, alegrias e tristezas e a sua visão das coisas e do mundo” e “qualquer pessoa que vá ver a obra não a vai ver com os meus olhos e vivências, mas segundo a sua própria visão e vivências”.

A obra de arte é “um estímulo que vai despertar, às vezes, muita coisa que está hibernada dentro de nós. Muitas vezes nem sabemos até nem conhecemos muita coisa que está cá dentro”, considerou Adão Cruz.

O título desta exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro” “parece uma coisa sem sentido nenhum, mas não é”, responde o pintor à questão do labor.

“Nunca fiz nada na minha vida quer do ponto de vista da poesia, da arte e até do ponto de vista profissional que no fim me satisfizesse completamente. Agora transplantando para a poesia e para a arte nunca fiz uma obra em que chegasse ao fim e dissesse isto é o melhor que consegui fazer, cheguei sempre ao fim com uma desilusão”, explicou.

Nesta procura pela obra prima que começa sempre por ser cativante, continua incessante e acaba sempre por ser frustrante, algo que “não me parece ser só meu, mas parece que é comum à maior parte dos artistas”, sempre ficou com “a sensação de que estava sempre agarrado às grades de uma prisão a olhar para uma belíssima paisagem e da qual não podia usufruir. Sempre essa sensação”, confessou Adão Cruz ao labor.

O médico, pintor e escritor chegou a uma idade, 81 anos, em que “não me apetece fazer exposições”, assumiu ao nosso jornal.

A prova disso está nos dois convites que recebeu para realizar exposições individuais em Madrid e na Galiza, em dezembro do ano passado, e que declinou porque tem uma vida muito ativa e ocupada em grande parte pela família.

Esta exposição apenas foi feita devido à “picardia” de muitos amigos e por a Galeria Zeller ser uma espécie de família.

As centenas de obras de sua autoria estão expostas em sete países desde Portugal, Espanha, França, Berlim, Irlanda, Croácia, Suíça até ao Brasil.

Os refugiados, a inocência e a infância

 

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Entre as cerca de 40 obras da exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro”, estão cinco quadros com três aspetos em comum. Um barco, pessoas e o mar. Num deles existe a uma grande distância uma cidade. O que nos levou a questionar se de alguma forma estariam ligados ao drama vivido por milhares de refugiados. E estávamos certos.

“Foram todos feitos de seguida exatamente numa altura em que o problema dos refugiados me estava a tocar muito. Está relacionado sem dúvida. Sou uma pessoa que penso muito e tenho necessidade de muitas vezes exprimir os meus pensamentos quer através da poesia, da literatura e da pintura”, assumiu Adão Cruz ao labor.

Um outro quadro que chamou a nossa atenção tem um menino a olhar para duas pombas brancas que “não é nada de especial”, mas é “um quadro que o meu filho Manuel Cruz (ex-vocalista dos Ornatos Violeta) gosta muito, é muito simples, é um momento de inocência”, indicou o artista. Outro fator que constatamos é que pelo menos três obras têm casas isoladas com árvores e vegetação. Essas obras têm “uma ligação à parte rural. Eu cresci e vivi numa aldeia (em Vale de Cambra). A única verdadeira saudade que tenho é da minha infância passada em contacto com os animais e a natureza e do luar e das estrelas no campo. Eu vivi ligado a tudo que era a natureza”, admitiu Adão Cruz, confirmando, assim, a influência da sua infância nos seus quadros e que inclusive teve pessoas que o chamaram à atenção sobre isso.

Todas as obras são em acrílico porque é “muito mais fácil em termos técnicos” do que o óleo que chegou a usar, explicou o pintor que usa “uma técnica mista tanto com pincéis, farrapos, esponjas, mãos e tudo que tiver à mão para dar efeito”.

Neste momento, não está a trabalhar em nenhum quadro novo. “Tenho uma tela preparada para começar quando esta exposição acabar”, adiantou Adão Cruz ao labor.

A exposição “…como um dia de Primavera nos olhos de um prisioneiro” de Adão Cruz pode ser visitada até ao dia 30 de julho na Galeria Zeller em Espinho.

Próximo livro poderá ser publicado em 2019

Até ao momento, o médico já publicou 12 livros de pintura, poesia e contos. “Tenho um livro de poemas, uns 30, que ainda não foram publicados. Vamos ver se é lá para o princípio do ano”, contou Adão Cruz.

Continua a dar consultas em S. João da Madeira

O médico cardiologista continua a dar consultas, duas vezes por semana, às terças e às quintas-feiras, no seu consultório em S. João da Madeira.

Além disso, marca sempre presença todas as terças-feiras, às oito da manhã, na reunião de serviço de cardiologia de intervenção de Gaia.

O médico cardiologista continua a ter um número considerável de doentes. “Alguns deles são muito antigos e outros, ao contrário daquilo que pensava, são doentes de primeiras consultas” o que estará relacionado com o facto de a saúde estar “muito mal. As pessoas são tão mal atendidas e as pessoas procuram mais do que o ato médico em si. Elas procuram um bocado de conforto, carinho e a explicação daquilo que têm porque qualquer doente percebe desde que seja usada uma linguagem simples”, constatou Adão Cruz.

O que sobra do seu tempo e tem que ser muito é absorvido pela família. “Dá-me um gozo muito grande dedicar-me à família”, concluiu Adão Cruz ao labor.

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por Augusta Clara às 14:55

Sábado, 19.05.18

João Salaviza ganha o Prémio Especial do Júri ‘Un Certain Regard’ do Festival de Cannes 2018

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‘Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos’, de João Salaviza e Renée Nader Massaro

 

 

 

 

ENTREVISTA FESTIVAL DE CANNES 2018

“Sabíamos que tínhamos de fazer um filme com a paciência do mundo”
Era uma vez o cinema… inventado junto dos krahô, povo indígena do Brasil. João Salaviza e Renée Nader Messora foram à procura de algo que só podia nascer sobre os restos de uma maneira de produzir e de filmar de que Montanha, que ele realizou e em que ela foi assistente, foi para eles o estertor. Fugiram. Encontraram.
Vasco Câmara
VASCO CÂMARA 16 de Maio de 2018, 7:40

Talvez se entre para Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos com medo do que se vai encontrar. Como se uma parte de nós estivesse em perda com a ruptura que João Salaviza – "sequestrado" por Renée Nader Messora – fez com o cinema e a vida que antes quis e conheceu.

Este filme, que os dois apresentam esta quarta-feira na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, foi o resultado de anos de vida com os krahô, povo indígena do Brasil, no estado de Tocantins, que Renée conhece há dez anos e ao qual expôs João na ressaca da produção de Montanha, a anterior longa do realizador.


A “brincadeira” dos índios krahô com João Salaviza e Renée Nader Messora
João e Renéé viveram com eles, assistiram à chegada da luz eléctrica à aldeia. Foram tirando a câmara de filmar de dentro da caixa. Foram à procura de algo que só podia nascer sobre os restos de uma maneira de produzir e de filmar de que Montanha, filme que ele realizou e em que ela foi assistente, para eles foi um estertor. Salaviza fala do esgotamento da experiência com uma "parafernália" – equipas, luz, actores, produção. Falou até da sensação de fim do seu percurso temático pela adolescência: Montanha teria sido a súmula de luz e escuridão do percurso de Arena (2009), Rafa (2012), Cerro Negro (2012). O que iríamos encontrar, em terrenos em que não raras vezes o cinema cede lugar à antropologia – e nem é o maior dos riscos –, era uma incógnita. As curtas Alta Cidades das Ossadas (2017) e Russa (2018) pareciam filmes incertos, sem encontrar um lugar. Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos é, por isso, uma surpresa.

Salaviza reencontra uma potência a céu aberto, a aldeia da Pedra Branca com as suas pessoas, os elementos, os animais (e efeitos especiais), onde fabricou o mundo. Foi assim este "era uma vez o cinema": "... pôr a câmara no tripé, esquecer a câmara, ir buscar a malta que vai entrar na cena e que está a três quilómetros dali, pedir a quem vai trazer as tochas com fogo que não se esqueça delas, pedir ao tradutor que, enquanto coloca e aponta o microfone, nos ajude a explicar o que queremos – cenas em que a câmara é uma câmara-espírito porque não há ninguém a operar, eu estou com um reflector para a luz do sol, a Renée a fazer vento para o fogo aumentar, a câmara a filmar..."

O filme da fuga impossível do jovem índio Ihjãc, personagem perseguida e atordoada pela "realidade" e pelos "fantasmas" (como antes os jovens de Arena, Rafa ou Cerro Negro nas suas deambulações pela luz e pelas trevas), é o filme da fuga impossível de João Salaviza. Que foi incitado a mudar para, de alguma forma, o essencial ficar na mesma. Fugiu do cinema, encontrou o cinema. E nós encontrámos um dos mais bonitos filmes de Cannes

PÚBLICO -Foto
"O filme está indissociável de uma mudança radical na minha vida, o meu encontro com a Renée, e com este sequestro que ela me fez de me levar a conhecer os krahô NUNO FERREIRA SANTOS
A surpresa, João, é reencontrá-lo no mesmo ponto de fulgor clássico em que o deixámos na anterior longa-metragem e a personagem principal ser de novo um adolescente entre a luz e as sombras, como em Montanha ou Rafa (2012).
João Salaviza — O filme está indissociável de uma mudança radical na minha vida, o encontro com a Renée, e com este sequestro que ela me fez de me levar a conhecer os krahô. A Renée há vários anos que ia lá. Na rodagem do Montanha, as coisas que ela me ia contando sobre a vida dos krahô era um contraponto absurdo à forma como o filme estava a ser feito – obviamente que estava a ser feito como eu queria, com estrutura grande, equipa, luz, maquinaria, steadycams, toda a parafernália que hoje se calhar não me interessa. Montanha é um filme melancólico, nostálgico. Há um peso dramático que estava ligado às coisas que eu vivia na altura e a uma sensação de esgotamento.

Coincidência ou não, fomos ao Brasil, quase para me libertar. E foi nessa altura que começámos a pensar em mudarmo-nos para a aldeia e com o cinema pelo meio. O trabalho que a Renée tem feito com os krahô, mesmo sem ser de ficção e sem sair do indigenismo, tentava trabalhar as questões da imagem, as implicações políticas, sociais e estéticas da imagem. O cinema tem esta coisa incrível que é podermos ir para um lugar sem as coisas ficarem envenenadas pela condição de turista, porque temos um ofício – como uma companhia de circo que pode conhecer o mundo porque tem algo para fazer.

O facto de termos filmado com o Ihjãc pode parecer relacionado com Montanha, mas isso nunca nos passou pela cabeça. A Renée conhecia-o desde pequeno e houve um período de dois anos em que olhávamos para ele e pensámos...

João Salaviza recomeça em Cannes junto dos índios krahô
João Salaviza recomeça em Cannes junto dos índios krahô
Renée Nader Messora — ... será?

Desde cedo ele estava na vossa mira?
R.N.M. — Na verdade tínhamo-nos apaixonado por outro menino da aldeia, mas era difícil aproximarmo-nos. E o Ihjãc estava ali. Quando se chega à aldeia, passamos a fazer parte de uma família que nos acolhe, e o Ihjãc era do meu núcleo. Ele estava sempre ali, e chamava a atenção porque tinha 12 anos e tinha uma namorada sempre com ele: curioso a rondar a minha câmara, os trabalhos e as oficinas que fazíamos. Quando começámos a imaginar Chuva..., começámos a prestar atenção nele, ele foi crescendo e deu certo.

J.S. — A história do filme é inspirada na história real de um outro miúdo durante uma primeira visita que fizemos. Começou a sentir-se fraco, doente. Há todo um sistema de diálogo entre os pajés [feiticeiro e intermediário espiritual] que enfeitiçam, mas também podem proteger; é uma narrativa quotidiana da aldeia, as disputas, hierarquias e segredos. Aquele miúdo começou a sentir-se mal e um pajé descobriu que tinha sido enfeitiçado por outro pajé. Era um miúdo deslumbrado, curioso pelo menos pelo mundo dos brancos, da tecnologia, e acabou por fugir para uma cidade a 30 quilómetros. Nessa tentativa de fuga começou a sentir a impossibilidade de diálogo entre a medicina dos krahô, que é holística, e a dos brancos, e foi um desencontro de mundos, ontológico, filosófico.

Como a dinâmica de fuga era assumida, pensaríamos que a exuberância da ficção abrandaria. O filme aliás é anunciado como documentário. Mas há um deslumbramento enorme, a aldeia e as pessoas são como um estúdio a céu aberto onde se fabrica um mundo. Numa conversa anterior, contou que havia dias em que nem pegavam na câmara; o mais importante era viver. Como é que o cinema aconteceu assim?
R.N.M. — O João ficou obcecado com aquela crença na feitiçaria, com aquele miúdo que fugiu, que se matriculou na escola e que passou por todo o mundo institucional brasileiro. Começámos a imaginar caminhos dentro daquele universo, fomos juntando peças.

Para além de Salaviza, Lars von Trier, Terry Gilliam ou Nuri Bilge Ceylan reforçam a selecção oficial de Cannes
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J.S. — O guião foi um mapa que permitia que não nos perdêssemos e que fôssemos filmando seguindo os nossos desejos. Há muitas coisas que são pura fruição lúdica dos gestos, das pessoas, de estarmos com elas. As cenas em que os miúdos brincam com o fogo, à noite: pegámos na câmara e fomos filmar, sem som. Ou a cena em que a rapariga pinta as unhas dos pés, sinal de elementos exteriores a invadir a comunidade.

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R.N.M. — Foi uma reorganização de coisas que fomos vendo e vivendo, eu ao longo de dez anos, o João ao longo de quatro...

Como uma longa repérage ainda sem o objectivo declarado de fazer um filme...
R.N.M. — Exactamente. Aquele momento em que o Ihjãc está no carro dos serviços de saúde e pergunta o que é “hipocondríaco” – foi uma pergunta que um dia o miúdo me fez. Eu expliquei que ele não estava doente, ele dizia que sim... Foi uma conversa impossível que transitou desta forma para o filme.

Para os krahô, o que era isso de terem pessoas entre eles com uma câmara, diálogos, o “acção” e “corta”?
J.S. — Com o Ihjãc foi preciso algum tempo para explicar que era uma história, que queríamos filmá-lo durante bastante tempo. Ele quis estar no filme, mas quando tinha de ir para a roça ceifar ou buscar um parente doente, durante três dias não havia rodagem. Percebemos que havia um lado lúdico. Divertiam-se. Ao terceiro mês de rodagem, ouvimos uma conversa e percebemos que eles se referiam ao acto de filmar como “a brincadeira”.

R.N.M. — O filme não era importante, importante era a brincadeira. Cortavam o cabelo, pintavam o cabelo...

J.S. — O que nos causava problemas de raccord. Um dia que os calções do Ihjãc desapareceram, tivemos que comprar outros e guardá-los – ao fim de três dias, nada é de ninguém, há um sistema que faz com que os objectos circulem.

R.N.M. — A certa altura, o Ihjãc estava assustado por mexer com o universo da feitiçaria, de forma lúdica, e achámos que tínhamos de ter uma reunião com um pajé que todos respeitavam. E ele disse: “Não se preocupem.” Tínhamos explicado a história e o que queríamos, mas só entenderam o que propúnhamos quando chegaram as primeiras imagens do laboratório. Quando pedíamos para eles repetirem um gesto, uma acção, eles não percebiam porquê. Quando viram a montagem, perceberam...

J.S. — Às tantas o Ihjãc começou ele próprio a dizer “corta” a meio das cenas, quando se enganava.

R.N.M. — Antes de começarmos a filmar mostrámos-lhes A Cidade de Deus [Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002] e o making of. Eles não tinham ideia dos dois universos, realidade e ficção. Ficaram chocados, não percebiam como é que aquelas crianças do filme estavam vivas porque viram o sangue.

Lateja no filme a enorme fragilidade de um mundo, gente ameaçada de todos os lados, por aquilo a que chamamos "real" e por aquilo a que chamamos "espíritos".
J.S. — Nunca tínhamos explicitado isso dessa forma, mas a resposta é: totalmente. Os povos indígenas vivem um cerco que está a estrangulá-los cada vez mais.

R.N.M. — Há um conflito, uma impossibilidade de circular, está muito presente. Há muitos preconceitos em relação aos índios naqueles povoados.

J.S. — Há uma coisa transversal a todos os regimes desde a chegada dos portugueses, monarquia, ditadura militar, nova democracia: transformar o índio em cidadão brasileiro, logo, em pobre brasileiro.

R.N.M. — Essa necessidade é só a face maquilhada do esbulho das terras. À medida que se transforma o índio em brasileiro, ele já não precisa de ver os seus direitos indígenas cumpridos. Mas o índio não se reconhece como brasileiro. Nem como índio. Vê-se como membro da sua etnia – e no Brasil há 280.

Essa sensação de fragilidade, de ameaça, é táctil, como na sequência do reflexo de Ihjãc na água.
J.S. — Há uma palavra: mecarõ. É o duplo. A imagem na água, a sombra, o espírito...

R.N.M. — ... a fotografia, o cinema, o reflexo no espelho... Isso tudo é uma imagem, isso é mecarõ. Quando vêem um filme, eles dizem que viram um mecarõ, tal como se se referissem a um espírito.

J.S. — Como são animistas, o mundo dos animais, das pessoas, dos espíritos são universos paralelos dispostos horizontalmente. A divisão entre os mundos físico e metafísico não existe, é uma multiplicidade de existências no mesmo patamar.

Interpretar uma personagem, repetir gestos, é o quê?
R.N.M. — Todos os rituais dos krahô são encenação. Parece aleatório quando vemos pessoas a chorar. Mas é um rito supercoreografado. Há milhões de festas com personagens, pessoas que adquirem papéis.

J.S. — Começámos a perceber que o gesto de filmar passou a ser um ritual. O nosso ritual era colocar a câmara no tripé, esperar pela luz e pedir que repetissem coisas quando elas não estavam bem.

De que é que fugiram? Que outra vida é esta?
R.N.M. — Esta relação tão próxima que tivemos com a vida, estarmos ali com uma câmara e não haver ninguém a dizer-nos nada... Tudo tem a ver com o tempo. Numa rodagem normal, tudo é feito para cumprir um plano. O que tira o prazer de estar com uma câmara apontada a uma presença que se quer capturar, porque é preciso tempo para que aconteça e para digerir o que aconteceu. Conseguimos desapegar-nos da parafernália de uma rodagem comum. Há um filósofo krahô que diz que o branco perdeu a paciência do mundo. Sabíamos que tínhamos de fazer um filme com a paciência do mundo.

Mas a experiência não é replicável. Ou é?
J.S. — Vão ser precisos ajustes. Acabámos a rodagem à beira da exaustão. Houve problemas de saúde. Foi duro andar duas horas pelo mato com aquele calor, os nossos corpinhos branquinhos não estão preparados. Não sei se vamos continuar a querer filmar com cobras a aparecer. Uma das cenas mais bonitas é aquela, no fim, em que estão todos a cantar numa casa, a câmara a andar da esquerda para a direita. Na noite em que ia acontecer essa festa, que esperávamos há meses, adoeci, 40 graus de febre. A cantoria ia começar, a Renée foi ter comigo a dizer que não ia dar. Disse-lhe, “vai filmar”. “Ok, não morras aqui”. Fiquei a ouvir cantorias ao longe, estava já em delírio, só me lembro que horas depois a Renée voltou, não sabia o que tinha feito, tinha andado com a câmara para a direita e para a esquerda, não sabia se fazia sentido algum, porque estava sozinha. Quando vimos as imagens, é o momento mais incrível.

Não há sequência em que se sinta o trabalho formal abandonado ou ultrapassado pelas circunstâncias.
R.N.M. — Isso tem a ver com a nossa conexão com tudo aquilo...

J.S. — ... com o facto de estarmos inebriados. Houve cenas filmadas contra tudo o que fazia sentido. E todas as mais pensadas ficaram fora do filme. Ainda pensámos afirmar mais a nossa presença, com câmara à mão, sujar o filme. Filmámos várias coisas assim, mas não resultou justo. Há a sensação de trabalhar com as limitações no máximo e perceber a essência: pôr a câmara no tripé, esquecer a câmara, ir buscar a malta que vai entrar na cena e que está a três quilómetros dali, pedir a quem vai trazer as tochas com fogo que não se esqueça delas, pedir ao tradutor que, enquanto coloca e aponta o microfone, nos ajude a explicar o que queremos – cenas em que a câmara é uma câmara espírito, porque não há ninguém a operar, eu estou com um reflector para a luz do sol, a Renée a fazer vento para o fogo aumentar, a câmara a filmar...

Isso é quase studio system, Hollywood...
R.N.M. — [risos] E tivemos efeitos especiais krahô, fumaças e tudo.

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por Augusta Clara às 18:07

Quarta-feira, 09.12.15

Marcelo leva um porco às costas - Augusta Clara

 

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Augusta Clara  Marcelo leva um porco às costas

 

 

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   A ouvir a entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa à SIC Notícias lembrei-me daquela anedota do tipo que roubou um porco, o levava às costas e, quando foi descoberto, exclamou: - Ai, um bicho!

No caso dele o bicho será o conjunto PSD/CDS cujo apoio explícito o incomoda perante a opinião pública, ante a qual quer manifestar a imparcialidade ideológica que o Presidente da República deve assumir no exercício das suas funções.

Marcelo afirma que a sua é "uma candidatura solitária", embora não rejeite nenhuns apoios, e que não tenciona colar cartazes nem afixar qualquer tipo de propaganda nas ruas.
Seriam intenções muito louváveis se toda a comunicação social não se lhe referisse já como o futuro novo inquilino de Belém.

Toda a entrevista foi uma cuidadosa fuga à crítica ao anterior governo, a Cavaco Silva e às questões mais polémicas relacionadas com o poder presidencial sobre a manutenção do actual governo em funções, na eventualidade da existência de reveses de governação.

Marcelo Rebelo de Sousa é uma falácia, Maria de Belém é outra.

A esquerda precisa de unir-se em torno do candidato mais forte que, na minha opinião, é Sampaio da Nóvoa, se quiser evitar uma possível dissolução da Assembleia da República e o grande desastre que seria o regresso da direita ao poder.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 25.09.15

"Maravilhosa lição de filosofia de vida do Manel Cruz" - Adão Cruz

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 Porto Olhos nos Olhos (facebook), 23 de Setembro de 2015

 

[Manel Cruz - Músico e artista plástico] © Por Manuel Roberto (fotografia) e Mariana Correia Pinto (texto) Portugal, Porto, 23 de Setembro de 2015

 

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 (Foto de Porto Olhos nos Olhos)

 

   “As primeiras memórias que tenho são coladas pelos filmes Super-8 que o meu pai tinha. Nasci em 74, em São João da Madeira, e as lembranças que tenho de lá são reconstruídas assim, porque vim para o Porto muito cedo. Tinha dois anos. Fui o último de três filhos. O meu pai é médico, a minha mãe professora. Ele começou por praticar medicina na aldeia, onde os recursos eram muito limitados e onde, também pela profissão, era uma pessoa muito querida. Sempre gostou de poesia. Esteve na Guiné e documentava muito as vivências dele através da escrita. Pelos 30 anos, começou também a pintar. Teve sempre muita ligação às artes e quando sentiu que eu também tinha puxou-me muito para aí. A minha mãe, sendo professora, tinha também relações sociais fortes e um lado pedagógico muito premente. Havia uma abertura considerável para esse mundo — apesar de serem tempos de ressaca de ditadura. Os meus irmãos tinham boas notas, eu andava sempre na lua, só tinha boas notas a educação visual e educação física. Também por ter sido o terceiro e ter, por isso, mais liberdade. Puseram-me no piano quando era puto e detestei. Tinha de estudar e só queria fazer as coisas de ouvido. A professora batia-me nas mãos. Para mim, música eram os discos dos meus pais e dos meus irmãos — desde Jacques Brel passando pelos Beatles e Sérgio Godinho. Havia muita música portuguesa em casa e, talvez por isso, nunca tenha sequer pensado em escrever e cantar em inglês. De resto, estava sempre a desenhar. Até aos 15 anos, os meus cadernos de escola eram essencialmente desenhos. A música surge já na Soares dos Reis, quando conheci os meus amigos. Talvez por isso a música continue ainda hoje a ser um bocadinho esse sítio onde se brinca com os amigos. Profissionalizei-me, mas continuo a sentir alguma luta em relação à profissionalização. Isso no desenho não me é tão difícil porque desde puto que me pediam coisas. Aos 15 anos já trabalhava e já fazia livros para crianças. Era uma coisa muito natural vender aquele produto. Com a música isso custou mais. Na escola, mostraram-me os Violent Femmes e fiquei louco com aquilo! Depois foi aquela coisa do ‘também temos de ter uma banda’. Todas começam assim: a brincar às bandas. Discutíamos sobre quem ia fazer o quê. E eu nem ia cantar. Era guitarra ritmo. Decidimos que o Kinörm ia tocar bateria, porque o Peixe já sabia tocar guitarra e o Nuno já dava uns toques de baixo. E eu não sabia fazer nada. Aprendi uns acordes e fiquei maluco. Fiz logo duas ou três músicas com os acordes das Dunas e então fiquei o guitarra ritmo. Aí comecei a dedicar mais tempo à música, o que foi um sacrilégio na família. O meu pai apoiava-me muito no desenho e tinha um orgulho imenso — e a música era uma vontade meio irresponsável de puto. Foi um choque para ele. Fiz o secundário todo na Soares dos Reis e foi ainda lá que iniciámos os Ornatos Violeta. Em 1991. Tínhamos o nosso clube de namoradas e amigos que nos aturava e éramos nós que fazíamos o nosso sucesso: éramos uma banda incrível que ninguém conhecia. Tínhamos uma data de músicas, depois deitávamos tudo fora, fazíamos outras... Fomos num intercâmbio para Montpellier, onde conhecemos os Red Wings Mosquito Stings, uma banda de lá, incrível. Conheci o Nico, que veio viver para Portugal e agora está a tocar comigo. Mais uma vez, deitamos tudo fora porque olhávamos para o trabalho deles e era incrível. Eles ensaiavam todos os dias, eram super dedicados. Nós, pelo contrário, éramos uns baldas. Fomos para a Carvoeira, para a casa do meu pai. Para um sítio onde quase não nos podíamos mexer e não tinha ar: de 40 em 40 minutos tínhamos de abrir a porta. Mas ensaiávamos todos os dias para fazer o ‘Cão’. O disco saiu em 97. E foi aí que os Ornatos se tornaram mais conhecidos. No Porto, já havia algum pessoal que nos curtia antes, mas só depois a coisa se alastrou. Começamos a ter produtor, a olhar para certos aspectos mais profissionais que nos fizeram dar novos passos. A parte má é que se perdeu alguma da inocência que se tinha e de que gostava muito. O ‘Cão’ marca esse momento de mediatização. Mas mesmo assim acho que só ficamos mesmo mesmo conhecidos depois de acabarmos. Tivemos o grande ano imediatamente antes disso. Foram uns 60 concertos só nesse ano — e podiam ter sido mais. Mas sentia-me um ácido ambulante de andar sempre na estrada e não gostava da repetição. Às vezes, entrava em palco e não me apetecia estar lá. Paralelamente ao nosso crescimento como pessoas, foram acontecendo discussões sobre as autorias das músicas e outras que colocavam muita coisa em jogo. Coisas que rapidamente se resolviam, mas que, no momento, eram complicadas. O que me inspira é um pouco de tudo. Sentimentos que tenho em determinados momentos e depois reciclo. O próprio processo é, para mim, muito inspirador. Uma parte grande das ideias que tive apareceram quando estava a fazer trabalhos mais técnicos, como ilustrações para livros infantis. Uma coisa que sempre fui é um questionador. Não consigo ver a minha identidade marcada. Sou inconstante, insatisfeito, inquieto. Qualquer coisa que faço, passado uma semana parece-me completamente afastada do que quero fazer. Portanto, a inspiração surge sobretudo dessa inquietação. O Hugo, irmão da minha mulher, disse-me uma vez que o disco ‘O Monstro precisa de amigos’ era Porto Porto Porto. Fiquei super contente, porque adoro esta cidade e adoro que uma coisa minha faça lembrar o Porto. Não escrevo letras sobre. Mas a melancolia e a maneira de pensar do Porto — que não é uma cidade grande mas é uma grande cidade —, a forma como as pessoas se relacionam, o facto de os sítios serem mais nossos do que do mapa: acho que isso está inevitavelmente presente nas minhas músicas. Para mim, o fim dos Ornatos foi um alívio muito grande. As coisas já não estavam a ser vividas com o prazer que deve existir. E aquele fim abriu-me a porta para fazer novas coisas, inclusive com as pessoas com quem fazia os Ornatos e com as quais tenho uma química tremenda que dificilmente se ganha com outras, porque está associado à virgindade da cassete. As coisas que foram impressas com eles são muito fortes. Portanto, com aquela saída pude partir do zero. Uma das coisas mais difíceis das bandas é a expectativa que os outros criam em relação ao que fazemos e, acima de tudo, a expectativa que projectámos sobre aquilo que as pessoas pensam de nós. Quando os Ornatos acabaram, pude também ver o outro lado: pessoas que me davam palmadinhas nas costas e diziam que era muito bom, de repente já não gostavam assim tanto. Um dia, tive uma conversa com o Kiko Serrano, o produtor, no Hard Club por causa da minha depressão à conta do fim da banda. Sentia nas minhas costas um grande peso, porque muita gente achava que era eu o complicado que queria terminar. Sentia-me um respigador com o casaco cheio de tralha que não conseguia dispensar. Nessa conversa, estava eu a lamentar-me quando o Kiko me diz: ‘Caga nisso, isto foi a melhor coisa que te aconteceu. Parte para coisas novas.’ Finalmente tudo o que queria ouvir. Comecei, nessa fase, a mexer no computador. Já tinha tido um gravador de pistas, mas poder gravar tudo era magia absoluta. E não havia aquela coisa de expectativa. Foi aí o começo do Bandido. Ainda tive os Pluto e os SuperNada, os dois iniciados em 2002, e foram casos tão fixes que muita gente me pergunta porque acabaram. É precisamente porque acontece um fenómeno de as pessoas gravarem um disco, irem tocar e depois ficarem um período enorme sem fazer música. Não gosto disso. O pessoal gosta muito de tocar ao vivo — coisa que eu gosto muito de fazer mas não gosto de fazer muito. O que me move é a parte de criar. Isso desmotivou-me um pouco para as bandas. E depois o ciclo normal: um gajo cresce, começa a ter casa, família, filhos. Comecei a sentir que, quer quisesse quer não, influenciava a vida de outros. E essa pressão é desconfortável. Preferia o descompromisso. Como o que existe neste projecto Estação de Serviço, onde tenho músicas minhas e algumas dos SuperNada e dos Pluto, feitas sozinho ou com outros. Estava há uns tempos sem tocar — depois do disco dos SuperNada, parido com ventosas — quando se dá o regresso dos Ornatos, em 2012. Era uma coisa muito irreal para mim no início, mas acabou por ser fantástica. Depois desse ano intenso, voltei ao silêncio. O Jorge Guerra e Paz — que tem um dom de me convencer incompreensível—, falou-me de um projecto no Silo-Auto e convidou-me para ir lá tocar. No fim de 2014 lá fomos. Ficou aquele trabalho todo que tinha soado bem. Então, decidimos continuar e fazer uma coisa. Mas com princípio, meio e fim. O fim é Setembro. Fiz a música do Ovo e agradou-me muito aquela ideia de fazer a música, gravá-la num sítio e aquilo ficar editado assim. Fazer e disponibilizar, sem necessidade de fazer um disco. Foi um tubo de ensaio para novas maneiras de fazer as coisas. Acima de tudo, o que pus de novo nesse concerto e no projecto Estação de Serviço foram coisas com uma estética um bocadinho diferente, muito mais minimal, a ir beber à portugalidade. Aquela coisa das rezinhas e das mnemónicas, pelas quais ando muito apaixonado. Não numa perspectiva de investigação de raízes de música popular, mas numa de deixar que saia essa inspiração. O que se segue não é uma banda. Duvido que algum dia venha a ter outra banda — pelo menos naquele sentido de ‘casa’ e ‘família’. As bandas têm coisas muito boas e, às vezes, ainda sonho: e se fizesse uma agora? Mas percebo que é quase um vício infantil. A minha vontade agora, sinceramente, é inverter as coisas: ganhar dinheiro com o desenho e ver a música noutra perspectiva. Se calhar, fazer bandas sonoras ou spots. Pegar em valências e fazer coisas para clientes. Esta ideia de ser vendido é um equívoco tremendo na cabeça de muita gente e ninguém sabe explicar muito bem o que significa. Sempre me senti um vendido, porque sempre vendi o que faço — e isso não me faz confusão nenhuma. Só nos vendemos a nós quando contrariamos a nossa essência e vendemos a nossa dignidade. Agora que tenho filhos penso bastante mais no futuro. Tendo sido sempre um irresponsável do caraças, agora começo mesmo a pensar. Provavelmente, vou continuar a fazer música — umas vinte num ano ou dois — e depois, como as tenho, farei outra fornada de concertos... Sei lá. Se tivesse de apostar, acho que diria que a minha vida vai ser sempre igual ao que foi. Em Portugal, é urgente as pessoas pensarem que votar é a primeira oportunidade que temos de mudar as coisas. E não deixar que o facto de o voto não resolver tudo nos leve a desistir. Votar é um direito. Mais do que um dever — porque acho que ninguém tem deveres. E não acredito que os partidos sejam todos iguais. Apesar de ser um bocado bicho do buraco, de não ter Facebook e ter imensa dificuldade em gerir o e-mail, tenho consciência de que, culturalmente, tem acontecido muita coisa no Porto. E que muita me passa ao lado. A sensação que tenho é a de que vivemos um bom momento criativo, de grande consciência do que se passa lá fora, com grande comunicação com o mundo. O tempo de absorção é muito rápido, mas antes a mais do que a menos. Um sinal de futuro pode ser precisamente o de as pessoas deixarem de ter a angustia de não apanharem tudo. O facto de acontecer muita coisa é sinal de que há meios para tal. As pessoas podem gravar e editar sem uma editora, um produtor ou um orçamento de uma multi-nacional. Há muito espaço para a criatividade. No fundo, está a cumprir-se um pouco uma crença que tinha de que a arte não é exclusiva dos profissionais da arte e das elites. E essa é uma democracia que me agrada.”

 

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Sexta-feira, 18.09.15

Ricardo Araújo Pereira entrevista Catarina Martins do Bloco de Esquerda

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Segunda-feira, 31.08.15

O neurologista Oliver Sacks morreu este domingo e deixa-nos os seus livros que, descrevendo casos clínicos, são verdadeiras obras literárias

 

Leia, também, aqui um trecho da sua autobiografia Sempre em Movimento.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Quinta-feira, 23.07.15

Hannah Arendt - Pensar apaixonadamente

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por Augusta Clara às 08:00



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