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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 21.11.13

"E quem não compreender isto" - Jorge Silva Melo

 

Jorge Silva Melo  "E quem não compreender isto"

 

 

 

   "E quem não compreender isto perdeu o sentido da História" escreve Anna Larina Bukharina no seu Bukharine, Minha Paixão (Terramar).

A viúva de Bukharine refere-se ao entusiasmo dos anos 30, à certeza de um mundo novo, ao sentido de aventura e risco, à pequenez do destino individual perante o turbilhão da vida. Lido fugazmente, o livro (são quinhentas páginas) parece um impressionante memorial a  Mikhail Bukharine, às vanguardas do pensamento e da acção dizimadas pelo stalinismo, um relato na primeira pessoa das muitas desventuras dos implicados nos Processos de Moscovo, um testemunho, um aflitivo "porquê?".

Publicado em 1989, um ano após a "reabilitação" de Bukharine, não terá tido o impacto internacional que muitas obras, menos próximas, tiveram nos anos da surpresa. Só terá conhecido tradução francesa, e conta-nos o editor que a custo descobriu edição americana. Mas o peso da edição portuguesa é ainda outro.

Quem, nos anos 90, descobriu a edição da Gallimard, se impôs o dever de o traduzir, mesmo sem contrato algum, por imperiosa necessidade pessoal, quem solicitou a amigos e familiares apoio nos con­tactos com editores e solicitou revisões, quem teimou para que esta edição surgisse, foi Ludgero Pinto Basto, comunista. Que, aos noventa anos, andou para trás e para a frente, mergulhou fundo neste pesadelo, quis que, também entre nós, em português, fosse contada esta história, esta fulcral monstruosidade não ficasse por dizer. Para, como diz no lacónico prefácio, "esclarecer as raízes do processo de degenerescência que levou a Rússia, depois União Soviética, da situa­ção revolucionária [...] para a situação de ditadura burocrática que, asfixiando a revolução, lenta mas progressivamente, criou as condi­ções que precipitaram o desmoronamento". Este livro é, assim, um duplo e angustiante testemunho: aquele que as linhas negras da tinta escrevem no papel branco e relatam o terror dos anos 30, mas tam­bém aquele, secreto, entrelinhas, militante, de quem, mantendo-se comunista até ao fim, não quer que este terror seja esquecido, o quer pensar e, com ele, advertindo, rever a vida e o percurso político.

É um livro duplamente vivo: pelo que conta e pelo que não conta. pela densidade do seu relato e pelo peso que sentimos cada linha ter tido para quem tão activamente o leu que até o traduziu. Ludgero Pin­to Basto morreu há menos de um mês, aos 96 anos, havia de andar em provas o livro que tanto quis, seu secreto testamento, numa edição que se foi atrasando por motivos que o editor bem explica, edição cuidada e enriquecida com anexos de Alberto Freire. Mas, perante este livro precioso, não posso deixar de ter pena, ao sentir que ficou por contar, que ficou soterrado entre estas linhas todo o peso de uma vida tão aqui ao pé de nós.

Por que terá Pinto Basto gasto os últimos anos da sua vida com esta história longínqua, por que não contou ele a sua vida, as suas dúvidas, as suas previsões, as suas certezas, ele que terá sido, dentro do PCP, um dos primeiros a suspeitar do monstro stalinista que, a partir da Guerra de Espanha, ficava patente, que pena não nos con­tar de Togliatti, que conheceu nas Brigadas Internacionais, de Angra e da prisão em que esteve, da Medicina, da Maçonaria, da clandesti­nidade, das rupturas que muitos dos seus mais próximos — e que ele foi acompanhando — iam fazendo com o Partido. Que pena tudo isso ter ficado apenas na marca de água deste livro, submerso.

Mas a verdade é que um militante não tem biografia. E, ao entrar para o partido nos anos 30, Ludgero Pinto Basto terá vivido (para sempre) o fim do indivíduo, a violenta assunção do colectivo que, nes­ses anos, Bertolt Brecht celebrava em Um Homem é um Homem, Fatzer ou A Decisão. E que Francesco Maselli analisou com cruel precisão nesse filme extraordinário e extraordinariamente esquecido que é Il Sospetto. (Uma semana no Estúdio 444, eu vi-o, e diria que mais umas vinte pessoas, não terão aparecido mais que isso naquelas bilheteiras.)

É assim que este livro crucial nos chega, como duplo testemunho com o peso do relato aflitivo de Anna Larina e o peso do silêncio militante, activo, de um velho comunista português que tudo viveu e, desta maneira, não quis calar a História. Mas escolheu calar-se a si, militante.

 

Público, Mil Folhas, 18 de Junho de 2005

 (in Século Passado, Cotovia)

 

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por Augusta Clara às 15:00



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