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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 01.08.16

"O calendário não mente ..." - Ethel Feldman

ao cair da tarde 5b.jpg

Ethel Feldman  "O calendário não mente ..."

 

zao wou-ki (1921-2013), 1959a.jpg

(Zao Wou-Ki) 

 

   O calendário não mente, acho eu que esse nunca mente. Os dias definidos como data de nascimento são celebrados ainda que sem corpo presente. Assim sempre foi, diz-se.

Como me canso, rareio. Faz um ano e tanto, e eu tola narro as novidades de meses sem descanso. O mundo? Porque raio quererás tu saber deste presépio, se em boa hora disseste:

- Basta, que estou farto!

Há mais atentados, sabias? E notícias que se repetem à exaustão. Telemóveis aos milhares sempre prontos para a ação. Sem cortes, são os chamados instantâneos da realidade. Uns explodem-se para detonarem em estranhos. É a pouca vergonha deste tempo, que em boa hora disseste:

- Estou farto, basta!

A praia, essa continua quase igual. As árvores também - a floresta que vias da minha sala de jantar. Pelo menos parece ser assim. Meus olhos não conseguem dar conta de uma mudança tão subtil. Um verde que se enamora do amarelo, a raiz que desponta da terra, o xixi dos cães de toda a vizinhança que não sei se queima ou aduba o que nasce sem a mão do homem.

Talvez o clima, com certeza o clima altera-se de dia para dia. Mas quem liga a isso?

Outras notícias? São tão iguais. Aquela miúda foi despedida, apesar de estar a trabalhar há já 5 anos a recibos verdes. O valor da indemnização? Vê-se bem, que já cá não moras há imenso tempo. Um adeus e passe bem. É assim o trabalho hoje em dia. Um enorme favor do patronato.

Mas tu adivinhaste o cenário, ou não terias em boa hora dito:

- Basta, que estou farto!

Do outro lado, por onde vivemos ambos, o rebolado é o mesmo e o povo continua penando. Por lá o gerúndio canta a vida como ela é.

O amor? Há cupidos em todas as estações do ano, anjinhos desnudos sedentos de alvos. Deus deve estar velho, ensinou-os a enviar setas para o céu, onde ninguém que é vivo mora.

Ainda que farto, não podias ter esperado mais um pouco?

Talvez me ajudasses a entender porque há homens nas ruas à caça de bonecos virtuais. É este o hospício de que falavas?

Ok, estavas farto. Eu também.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 25.07.14

"Quando a noite chega ..." - Ethel Feldman

  

Ethel Feldman  "Quando a noite chega ..."

 

 

 

   Quando a noite chega, Francisco conversa em silêncio com cada estrela.

Mira senta-se a seu lado e faz escalas numa caixa de madeira velha.

O corpo acomoda o compasso e relaxa. Aprende a gostar da demora e da palavra devagar. Saboreia-a como se a soletrasse. Cada sílaba pronunciada por dentro com tempo de se fazer acompanhar sem que seja atropelada na língua.

- Avó, o galo canta e o gato reclama!

- Conversas de bichos, Ana.

- Avó, olha o Tareco no ombro do avô!

- O Tareco sabe que já foi pássaro. De vez em quando descansa no ombro do avô, porque o conheceu quando ele era uma amendoeira.

Com os olhos muito abertos Ana desata-se a rir.

- O avô foi uma amendoeira!

Um dia o sol aqueceu o corpo de Francisco e convidou-o a partir. Antes, deixou que ele descansasse o olhar onde a sua vista pudesse alcançar.

Então ele viu onde acaba e começa o mundo.

 

No fim da serra há uma amendoeira que tem sempre flor.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 23.01.13

Entre touros e porcos ... - Ethel Feldman

 

Ethel Feldman  Entre touros e porcos ...

 

(Autor desconhecido)

 

Entre touros e porcos - sangue
O homem trabalha todos os dias
Num só, mata a sede e a fome
O corpo treme e fode

Aquele morreu de morte matada
Na cela o grito seco, calado
No corpo, a dor não revelada
Um buraco na terra
Dentro dela, a mulher adúltera
No rosto, a vergonha explorada
Na mão do justiceiro, pedras
Na procissão, um anjo de cera
Nas costas, o peso

Entre touros e porcos - sangue
Ordena a tradição, submissão
Grita o porco por compaixão
Na mão do homem - faca afiada
De morta matada
Morreu apedrejada
Um é preto, outro pobre
Criança sem nome, com fome
Na rua, a procissão
Nas costas, um anjo
Pobres de espírito
Pobres, sem nome

Dia de festa

Dá-me teu corpo suado, em nome do Homem
Rega meu ventre de vinho, em nome do Homem
Rasga-me por dentro, em nome do Homem
Amanhã parte, em nome da Liberdade

  

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 24.12.12

Portugal. Natal 2012 - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Portugal. Natal 2012

 

(Piero Della Francesca)

 

 

No Natal
Dorme na rua
desagalhado
Pede a Deus
Uma noite de calor

Na minha infância o Natal era tropical, feito de chuva e calor. Em casa, um bonsai replicava um pinheiro ancião. Mil passarinhos feitos de papel manteiga, vestiam-no de branco, inventando o inverno. Naquele pedaço de mundo, a neve era tão quente como o nosso coração.

Só muitos anos depois é que eu soube que o bonsai é planta que cresce presa. Cria raízes no sofrimento. Modificada, ganha a dimensão da natureza numa bandeja. Mil passarinhos vestiam o nosso pinheirinho desejando longa vida. Como o nosso bonsai, os tsurus viviam para além dos dias. Memória dos nossos corações de criança.

Um sorriso
simula um abraço
a quem na rua
tem o seu abrigo.

Quando me contaram que o Pai Natal não passava de um conto de fadas, entendi o meu desconforto. Tantos anos a entrar pelas chaminés, com renas e neve, sempre no mesmo dia, em todos os lugares do mundo, beneficiando uns e esquecendo outros. Pedi então, que Deus existisse, mesmo que eu não soubesse como, porque nos dias difíceis só ele poderia me valer.

uma mãe deu à luz
uma criança sem casa
Não houve Reis Magos
a proteger a cria

Em cada esquina encontro uma luz que se apaga, dando conta do tempo que vivo. Mais um amigo sem emprego, mais uma criança com fome. Em cada cada esquina, padeço de tristeza, porque o Natal hoje, em Portugal, é tão mentiroso como o Pai Natal.

Possa o meu coração ser suficiente para aquecer a criança que acaba de nascer.

 

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por Augusta Clara às 17:00



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