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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Goulão Europa à deriva
Mundo Cão, 21 de Junho de 2015
Ao contrário das aleivosias debitadas pelos escribas de serviço aquém e além-fronteiras, o que se passa com a Grécia não é uma “tragédia grega”, é um processo de deriva da União Europeia que envolve todo o continente, porque um abalo como este não reconhece fronteiras.
E por muito que se busquem bodes expiatórios, habilidade que serve recorrentemente para fugir à essência dos problemas, a culpa não é inteirinha do senhor Schauble, ou da senhora Merkel, ou da senhora Lagarde, ou do senhor Juncker, de todos juntos ou das supostas intransigências dos senhores Tsipras ou Varoufakis.
O que se passa com a Grécia é o fracasso rotundo do chamado “projecto europeu”, da moeda única, da estafada lenga-lenga do espaço comunitário “democrático e solidário”. Não se venha igualmente com o argumento de que estes políticos não prestam, bons sim eram os “pais fundadores”, todos eles homens de Estado cheios de boas e nobres intenções, muito amigos dos pobres e desvalidos. Tretas.
A União Europeia, se é ou foi um “projecto”, nasceu inquinado, proclamou como objectivos mirabolantes aquilo que nunca passou de propaganda, enquanto a realidade era outra. A Comunidade Económica Europeia - e os seus sucessivos arranjos - nasceu e desenvolveu-se como uma forma de reorganização do capitalismo e da exploração do trabalho na Europa, como instrumento da guerra fria, a par da NATO. E foi em paralelo com este braço armado que enveredou pela lógica sociopata do neoliberalismo quando teve condições para isso, a seguir ao descalabro soviético. Ao ritmo frenético, eufórico, sem freios imposto pela anarquia própria do casino financeiro, a Comunidade foi queimando etapas, cresceu como um monstro sem consolidar esses supostos avanços, convenceu-se da impunidade absoluta e chegou aonde não contava chegar, fiada na eficácia do rolo compressor: ao momento em que o rei vai nu. Se ele tem a cara de Scheuble, ou Merkel, ou Lagarde são pormenores. Não são seres isolados, como Hitler não era um lunático sozinho. Por detrás deles espreitam os de sempre, neste momento muito, mas mesmo muito mais fortes que há sete décadas, assentes em suportes tecnológicos de capacidades incalculáveis, na concentração monopolista e monstruosa de marcas e empresas, na universalização ditatorial do mercado, na dimensão global do casino financeiro, que especula ao segundo com muito mais riqueza virtual do que a real, a que resulta de actividades produtivas.
A Grécia é o grãozinho na engrenagem que chegou contra a corrente e se transformou num enorme pedregulho. Afogada por uma crise que se arrasta, a União Europeia vê-se perante um inesperado frente-a-frente, um risco que julgava ter banido durante a triunfal cavalgada: o ajuste de contas entre a democracia e a gula sem limites do império económico-financeiro, representada pela tropa de choque dos seus agiotas.
Tratados como escravos, verbos de encher, peões descartáveis da estratégia da especulação que tem na União Europeia germanizada o seu braço político operacional no continente, os gregos mostraram, quando não se esperava e para surpresa dos carrascos financeiros, que o que ainda resta da democracia pode servir para furar o cerco do arco da governação.
Este frente-a-frente, uma espécie de duelo de David contra Golias, pode ter até o resultado que ficou inscrito na lenda. Basta que a Grécia não ceda e poderá chegar o dia das surpresas. Sair do euro não é, para os gregos – e assim seja igualmente para o seu governo –, uma mera questão de dignidade. Apesar das dúvidas que existem quanto às consequências, será um mal menor em que terão de contar – isso diz-nos respeito a todos – com a solidariedade activa dos povos do mundo e dos governos não sintonizados com o poder imperial. A cedência, pelo contrário, seria um revés para a resistência democrática que sobra, o triunfo exemplar à escala europeia da ditadura do arco da governação e dos agiotas que a teleguiam.
A saída da Grécia do euro será como tirar uma pedra da base de um castelo que parece imponente, assustador, soberbo, inexpugnável e que a partir daí se desmoronará sem apelo, apurando-se que fora construído sem alicerces nem argamassa. Não bastará dizer que a União Europeia nunca mais será a mesma. O mais certo é, mais-dia-menos-dia, é a União Europeia deixar de o ser. O que para os povos, verdade seja dita, não será nenhuma tragédia.
Augusta Clara A armadilha antecipada
Cada vez mais considero a criação da União Europeia e, em sequência, a do euro como as maiores armadilhas que nos arruinaram a soberania e nos destruiram os vários tipos de património: roubaram-nos a agricultura a favor da agricultura francesa e exerceram influência para a substituição de espécies florestais típicas das várias regiões nacionais. Tudo isto levou à desertificação do interior do país. Reduziram as pescas e a frota pesqueira segundo distribuições feitas ao belo critério das instâncias europeias a favor de outros países, da Espanha por exemplo, induziram o abandono da marinha mercante, da construção naval com a consequente ruína dos estaleiros, alguns deles classificados aos melhores níveis mundiais, cuja actividade foi desviada para outros quadrantes do planeta.
Com o eclodir dos novos dirigentes perfeitamente sintonizados com a política alemã o saque passou a ser feito já sem grandes malabarismos justificativos. Às descaradas vão-nos desmembrando, vendendo tudo o que tem valor financeiro e simbólico, enxotando a juventude mais dotada daqui para fora - até agora já emigraram 300.000 jovens, muitos deles tão necessários ao desenvolvimento da investigação científica - "rebentaram com tudo" segundo as palavras do Prof. Sobrinho Simões. E, de malefícios aos portugueses em geral, é este governo pródigo.
Mas, na actual tragédia, há uma personagem central: Cavaco Silva que teve rédea solta para começar a destruição ainda como primeiro ministro e se investiu, depois, em guardião dos incompetentes recrutados nos viveiros das juventudes partidárias e a quem deu, igualmente, toda a liberdade para exercitarem a incompetência e a insensibilidade social que lhes permitiu tratar o povo português como números, não como pessoas.
E, disto, nós os portugueses temos que nos livrar sem qualquer hesitação, a fim de recuperarmos a soberania perdida nas mãos da Alemanha.
Carlos Matos Gomes Uma vinha vindimada
Uma vinha vindimada. A frase consta de um texto de Luís Salgado de Matos de 4 de novembro, no seu excelente blogue “O economista Português”, a propósito da venda em hasta pública da PT (das razões que conduziram a empresa àquela situação) e de um abaixo-assinado a contestar a barganha. Escrevia Salgado de Matos: “Será que a nossa pertença ao euro e a política atual da União Europeia são estranhas à crise da nossa economia e à da Pt? Depois do euro e com mais uns anos da política financeira de bloco central, que felizmente nos rege, a economia portuguesa será vinha vindimada. O abaixo assinado esquece estas realidades e semipropõe-se semieliminar uma consequência respeitando amorosamente todas as causas.”
Numa penada, a propósito da PT, somos levados ao centro da história recente. Ao tripé em que assenta o nosso actual sistema de vida: euro, União Europeia e governo de bloco central. Não há saída para o impasse em que nos encontramos sem atacar estas três questões e decidir sobre elas. Isto é, se respeitarmos (mais ou menos amorosamente) estas causas não escaparemos ao destino traçado de despojamento e miséria, quando muito de mão de obra para as tarefas que ainda não possam ser realizadas por robôs.
Há que começar por algum lado e julgo que devemos começar pelo bloco central. Temos de mudar cá dentro. A rutura tem (a meu ver) que iniciar-se internamente. A mudança interna tem dois protagonistas: o PS e os movimentos sociais. Ou o PS lidera a rutura (infelizmente não o vejo com energia e disposição para isso, apesar da ajuda das primárias…) ou os movimentos sociais o ultrapassam, criando um novo centro político e social. Restam no sistema político formações conservadores, instaladas na dualidade direita-esquerda que tem a sua matriz no século XIX.
Se surgir, o novo ator progressista terá de se articular com os novos movimentos políticos e sociais que estão a emergir no sul da Europa, para encarar os problemas do euro e da UE. Para a velha direita o problema coloca-se de igual modo, com os neofascismos e neonacionalismos. Curiosamente os problemas são os mesmos, com iguais questões e perguntas: O euro mantém-se, acaba, muda, desdobra-se? A UE evolui para uma federação, regressa a um espaço de livre comércio, desagrega-se com a formação de várias outras pequenas uniões (Escandinavos, Germânicos, Latinos)?
Como estão, é que as coisas não podem ficar – por mim, a Europa não pode ser a vinha vindimada que os neoliberais criaram.
http://www.jornalistassemfronteiras.com
José Goulão Vem aí a guerra do euro
(com Sylvie Moreira e Lourdes Hubermann)
7 de Maio de 2014
O recente encontro entre os primeiros ministros francês e italiano, Manuel Valls e Matteo Renzi, pode ter sido um prenúncio da passagem à fase seguinte de um conflito anunciado no interior da União Europeia: a guerra do euro, isto é, por um euro menos forte, "mais amigo das exportações de todos e não apenas das alemãs", segundo um funcionário governamental de Paris.
O assunto está em cima da mesa e será fulcral; daí o protagonismo que as questões associadas aos bancos centrais e ao mandato do Banco Central Europeu têm vindo a ganhar no cenário europeu. "Isto é tanto verdade", afirma o mesmo funcionário, "que os burocratas europeus consideram útil e favorável interferir ilicitamente nas eleições europeis organizando uma conferência de alto nível para Portugalnos dias das votações".
Os dados estão lançados, isso é inegável. Valls e Renzi, jovens turcos de uma "versão de socialismo ainda mais moderna do que a terceira via porque se pretende institucionalizar de vez como bloco de poder em paralelo com a direita conservadora", segundo Pierre Blanc, jovem advogado da esquerda do PS francês, estão a procurar uma estratégia para enfrentar o imobilismo e a ortodoxia alemã da Srª Merkel em torno do Banco Central Europeu versão Bundesbank. Para isso contam com uma aliança discreta com os sociais democratas alemães, no próprio governo alemão, fazendo eco de um alegado descontentamento que grassa em meios empresariais alemães quando aos continuados efeitos da à estratégia "de euro forte".
"Estão a vestir-se as armaduras nos dois campos e a ensaiar-se as estratégias para a segunda metade do ano, uma vez realizadas as eleições europeias", reconhece em Frankfurt um funcionário do Banco Central Europeu (BCE), que pediu anonimato devido às funções que desempenha.
"O governo alemão está confortável com esta política do Banco entral Europeu", afirma o mesmo funcionário. "Ela corresponde à tradição alemã herdada do pós-guerra e muito motivada pelos combates ao défice e à inflação e à recordação dos pesadelos que levaram à guerra; além disso, funciona bem em termos comerciais, para a Alemanha, e razoavelmente para alguns dos seus protegidos, por exemplo Áustria, República Checa e Eslováquia".
O outro campo está a definir-se um pouco melhor através da convergência de objectivos entre Valls e Renzi: eles têm as suas economias com problemas e os próprios cargos à mercê dos "indicadores estatísticos", mais até do que da revolta social uma vez que "pelo menos Manuel Valls sabe como manejar os instrumentos dependentes do Ministério do Interior e não hesitará em servir-se deles", afirma Blanc.
"Talvez a dinâmica para esta converência tenha sido criada pelo ambicioso Renzi", considera o funcionário do BCE. "Ele trouxe como ninguém para a cena europeia uma certa tese 'obamista' e, no fundo, da economia americana de gestão de crises, que diz que a crise europeia já não tem a ver com a crise americana de 2008 e transformou-se numa crise comercial motivada pelo euro forte".
Em que assenta a tese norte-americana treproduzida por Renzi, segundo o nosso interlocutor de Frankfurt? "Nas diferenças entre os estatutos e procedimentos do BCE em comparação com a Reserva Federal e do Banco Central do Japão, por exemplo. O défice americano na altura da crise chegou praticamente aos 10%, enquanto a Alemanha, na prática, impunha ao BCE a pressão para que os défices dos Estados da Zona Euro tendessem à força para os 3%. Resultados: algum regresso ao crescimento nos Estados Unidos, sem quaisquer riscos de crescimento descontrolado da inflação; e, na Europa, recessão, desemprego, risco iminente de deflação e muitas bolsas de tragédia social".
Os diferentes cenários aquém e além Atlântico são agora poderosas armas de arremesso na anunciada batalha do euro, por um euro menos forte, mais competitivo e capaz de aliviar as amarras económicas que prendem os governos europeus, sobretudo do Sul, França e Itália incluídos.
"Diferenças ideológicas não as vejo", afirma Pierre Blanc. "Para os socialismos à moda de Valls e Renzi e de vários outros, o poder dos mercados não se discute devido ao modo como as grandes empresas mundiais e o sistema financeiro que lhes está associado gerem o mundo. Mas para ser poder institucional há mais a fazer do que ajustar as leis eleitorais de modo a garantir a bipolaridade, dominar instrumentos de propaganda e tudo fazer para desacreditar o que seja realmente esquerda e social - há que sobreviver quando se governa. Por isso, Renzi, Valls, com uma ajudinha clandestina dos sociais democratas alemães e transportando Rajoy e o seu governo como contrapeso, vão dar batalha à ortodoxia da Srª Merkel em defesa do BCE à sua medida".
O BCE, pela mão de Draghi tem feito alguns movimentos, tem comprado dívida, é considerado o obreiro das "saídas limpas" da Irlanda e de Portugal das tutelas da troika. "Pobre Portugal, pobre Irlanda, sobretudo pobres portugueses e irlandeses com tais saídas limpas", comenta Pierre Blanc.
"Mas isso não chega para os objectivos de crescimento económico e de combate ao desemprego que motivam os governos com maiores dificuldades, convictos de que não existe risco de inflação no horizonte.Eles querem um BCE mais à moda da Reserva Federal americana", explica o funcionário do BCE.
As coisas, porém, não nasceram assim. O euro forte e um BCE à imagem do Bundesbank são inerentes à criação da moeda única europeia. "É aqui que a batalha tende a travar-se", prossegue o nosso interlocutor de Frankfurt, "e tal teria que ter implicações em tratados europeus, normas e procedimentos instalados. Mudanças só se existir mesmo inquietação no poderoso tecido económico alemão quanto a um excesso de peso do euro". Caso contrário, acrescenta o funcionário do BCE, que não é alemão, não é a Srº Merkel que continuará inamovível; é a Alemanha que continuará inamovível, ancorada na sua obra: o Tratado de Maastricht e o euro. Onde a marca dos sociais democratas também lá está, inteira".
A Volta à Europa dos Economistas Progressistas
Conferência de Lisboa no Pequeno Auditório da Culturgest
11 de Dezembro às 18h - Entrada gratuita
© Bernard Bouton
Levantamento de senha de acesso 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis. Máximo: 2 senhas por pessoa.
Conferência em português e francês com tradução simultânea.
A conferência será gravada e transmitida em direto neste site.
Informações
21 790 51 55
Mais opiniões sobre Culturgest.
Organização Economistas Progressistas e Economistas Aterrados
Coordenação
João Cravinho
Conferencistas
João Ferreira do Amaral, Para uma nova solução monetária para a Europa
Christophe Ramaux, A crise europeia e o futuro do euro
Comentadores
Joaquim Ventura Leite e Jorge Reis Novais
Os Economistas Progressistas é uma organização internacional que agrupa economistas de nove países europeus, por país ou em rede, como a EuroMemo Group e a Transform, e os Economistas Aterrados é um agrupamento de economistas com origem em França e que se estendeu depois a todos os apoiantes do seu Manifesto.
Face à crise europeia e à impossibilidade de se criar uma saída para ela no quadro do sistema e do modelo de políticas que a geraram, decidiram estes dois grandes grupos de economistas organizar em vários países europeus uma série de conferências onde se pretende refletir sobre o discurso dominante relativo à crise, sobre as consequências devastadoras que se estão já a sentir, sobre a forma de as combater, em suma, sobre a forma de se sair da crise. São nove os países onde os grandes temas que afligem a Europa de hoje estarão em debate conforme texto abaixo e com eles é o futuro da Europa e do euro que estará igualmente em discussão. Dito de um outro modo, o objeto central destes debates é indagar sobre outras políticas, um outro modelo, uma outra visão da Democracia, que não esteja assente numa dinâmica de desigualdades crescentes, numa subserviência aos mercados financeiros, numa inversão da própria democracia. Entendem estes economistas que atualmente são os mercados que controlam os Estados ao invés de serem os Estados e as suas organizações regionais, como a União Europeia, a controlarem, a regularem os mercados. Um outro modelo significa necessariamente uma outra visão do euro e dos mecanismos e das regras que o suportam. Esse é o tema que será tratado em Portugal, nas cidades de Lisboa e de Coimbra, sob a organização de um conjunto de docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes), signatários quer do manifesto dos Economistas Aterrados quer do EuroMemorandum.
A Volta à Europa dos Economistas Progressistas
Conferências na Europa
A maioria das políticas económicas aplicadas desde há três décadas e, mais particularmente, desde a crise aberta em 2008, só fazem com que a situação económica, social e ecológica da Europa se continue a degradar ainda mais. Acreditamos, no entanto, que para restabelecer a situação financeira das administrações públicas, para criar empregos de qualidade para todos e iniciar imediatamente a transição ecológica, outras políticas são necessárias. Elas teriam por finalidade promover uma distribuição mais equitativa da riqueza e o fim da dominação dos mercados financeiros sobre o financiamento das empresas e dos Estados europeus.
Na base desta nossa convicção, enquanto Economistas Progressistas organizamos uma Volta pela Europa que será realizada em nove etapas. A Volta iniciar-se-á na Bélgica, em Bruxelas, e irá colocar em evidência como é que a desindustrialização, que está na origem do desemprego e da precariedade, tem como origem a financeirização das grandes empresas industriais europeias e as políticas europeias da concorrência, centradas unicamente sobre a competitividade do território. A segunda etapa terá lugar em Madrid. Incidirá sobre a importância da redução das desigualdades para encarar uma saída credível da crise. A terceira etapa terá lugar em Portugal, em Lisboa e Coimbra. Ela evocará o futuro do euro. A moeda única europeia, a principal realização da União Europeia, tem acentuado as disparidades económicas entre os países e enfraquecido o financiamento de Estados. A questão do seu futuro deve, portanto, ser levantada. Roma e a Itália serão a quarta etapa, que incidirá sobre a juventude e a crise. Os jovens são particularmente atingidos pela crise que, degradando o emprego, impede todas as perspetivas de inserção social de toda uma geração. Isto contribui para o aumento das desigualdades. As políticas de “deflação salarial competitiva” atingem hoje a grande maioria dos Estados europeus. Desde o início do século XXI, a pressão sobre os salários na corrida para a competitividade foi particularmente forte na Alemanha. A etapa de Berlim incidirá sobre os salários na Europa. As políticas de austeridade são não só um erro social como também um erro económico e foram conduzidas desde muito cedo e de modo muito intenso na Grã-Bretanha. Elas estarão no centro do debate durante a etapa de Londres. A Grécia é, definitivamente, o país que mais sofreu com a crise europeia. Os auxílios ao Estado grego foram condicionados à aplicação de políticas de redução exorbitantes e antissociais das despesas públicas. Assim, os serviços públicos gregos, em particular, a educação e a saúde, estão hoje exangues. Na Irlanda, discutiremos o papel do sistema bancário, todo ele virado para os mercados financeiros assim como o papel da especulação na crise económica e das dívidas públicas. Por fim, a última etapa será em França, em Paris. Queremos mostrar que um verdadeiro projeto de transição ecológica assente num outro modo de produção e de consumo é possível e é, sobretudo, urgente, sendo certo que não pode passar pelas atuais políticas europeias de mercantilização dos direitos de poluir.
João Cravinho
Engenheiro formado pelo Instituto Superior Técnico; MA Economics pela Yale University; estudos-graduados na Oxford University; funcionário público; diretor do GEBEI; Professor convidado de economia no ISEG, ISCTE e Universidade de Coimbra; deputado; vice-presidente do Parlamento Europeu; Ministro da Indústria e Ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território; membro do Conselho de Administração do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento.
João Ferreira do Amaral
Professor Catedrático aposentado do ISEG/UTL, Presidente da Direção da Associação para a Competitividade da Indústria da Fileira Florestal. Membro do Conselho Económico e Social. Foi membro do Conselho Superior de Estatística, Diretor-geral do Departamento Central de Planeamento, membro do Comité de Política Económica da então CEE e assessor da casa civil do Presidente da República.
Autor de vários livros sobre temas económicos, sendo o mais recente Porque devemos sair do euro (Lua de Papel, 2013).
Christophe Ramaux
É Professor Auxiliar de Economia na Universidade de Paris I (Centro de Economia da Sorbonne). Investiga sobre o Estado Social, a Europa, a proteção social e a política económica. É membro do coletivo dos Economistas Aterrados.
Joaquim Ventura Leite
Licenciado em Finanças pelo ex-ISCEF (Lisboa); quadro do Estado em Moçambique até 1984; quadro do Estado Português desde 1986 até ao presente. Foi Deputado à Assembleia da República entre 2005 e 2009.
Jorge Reis Novais
Constitucionalista, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, especialista e autor de variadas obras sobre sistema de governo e sobre direitos fundamentais, antigo Consultor para Assuntos Constitucionais do Presidente Jorge Sampaio e do Primeiro Ministro José Sócrates, no seu primeiro governo.
http://www.culturgest.pt/actual/03/24-volta-a-europa.html
Jorge Bateira Permanecer no euro é o suicídio da nação
Por estes dias, já muitos portugueses perderam as ilusões quanto à mudança que acreditavam poder acontecer na Europa após as eleições alemãs. O embaixador da Alemanha em Lisboa não podia ser mais claro: “De todos os modos, teremos sempre no governo um leque de partidos pró-europeus e apoiantes dos programas de assistência, como o que está em curso em Portugal” (“Jornal de Negócios”, 16 Set. 2013). À medida que nos aproximamos de mais uma ronda de negociações com a troika, torna-se evidente que o essencial da austeridade não é negociável. Salta à vista que, pelo menos no caso da Comissão Europeia e do BCE, a troika está determinada a impor uma reconfiguração do Estado social para que este deixe de ser o eixo de uma sociedade que aspira a níveis mais elevados de justiça social. O princípio neoliberal da “livre escolha”, na saúde e na educação, é agora abertamente defendido pelo governo e os países onde esta matriz ideológica alcançou o poder são apontados como os bons exemplos que deveríamos seguir. De facto, a chamada “assistência financeira” ao país não visa colmatar um problema temporário de tesouraria. Tendo constatado os sintomas de um impasse no modelo de desenvolvimento do país, sobretudo desde que se integrou na UEM (défice externo persistente, acumulação da dívida externa, desindustrialização, desemprego elevado), o Memorando impôs-nos uma mudança inspirada nos princípios do Consenso de Washington e no ordoliberalismo alemão. Ao contrário das anteriores ajudas do FMI, esta intervenção da troika atropela a Constituição da República Portuguesa porque condiciona o financiamento à consagração de um modelo social e político de matriz neoliberal que, na sua institucionalização, viola princípios constitucionais basilares. Ou seja, do ponto de vista do eixo Berlim-Frankfurt, Portugal ainda pode ser um caso de sucesso. Apenas precisa de colocar na Constituição o Tratado Orçamental para impedir políticas orçamentais contracíclicas, reconverter o Estado social num pobre Estado para pobres, destruir a classe média e os mecanismos de ascensão social que a mantêm, reduzir ainda mais 30% aos salários do sector privado (excluindo gestores e administradores), fazer da emigração uma válvula de escape das tensões sociais e, sobretudo, impregnar a sociedade portuguesa de uma sensação difusa, misto de culpabilidade e inevitabilidade. Quando tivermos chegado aí, a economia entrará numa estagnação duradoura, alternando pequenas recessões com períodos de crescimento sem criação de emprego. Portugal será então um país simpático e (ainda mais) barato para os reformados da Europa rica. Não terá dinheiro para manter as infra-estruturas públicas em todo o país, mas cuidará das zonas de acolhimento dos turistas, como se faz em Cuba.
Se continuarmos à espera dos resultados das eleições alemãs, ou das que virão a seguir para o Parlamento Europeu, é este o futuro que nos espera. Um futuro que trai miseravelmente o esforço de sangue, suor e lágrimas das gerações que nos precederam e tornaram Portugal uma comunidade, um Estado-nação com uma cultura de que nos orgulhamos e que enriqueceu a Europa e o mundo. Após décadas de ditadura, o país ainda anda à procura do seu modelo de de-senvolvimento, talvez mesmo da sua identidade, possivelmente a de ser um elo de confiança entre a Europa e outros continentes, mas é um país profundamente solidário. Apesar de traído pelas suas elites, europeístas a qualquer preço, talvez Portugal ainda encontre energia para recusar tornar-se numa Detroit do extremo ocidental da Europa. Talvez sejamos capazes de recusar o estatuto de autarquia local europeia que nos preparam, um território empobrecido e sem instrumentos relevantes de política económica. Talvez sejamos capazes de construir uma alternativa política que nos devolva a esperança. Talvez.
Economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
José Ferrer [*] Porque devemos sair do Euro, um livro indispensável
Tive a sorte, ainda na minha adolescência, de conhecer, pela mão do Jorge de Sena, o poema Cena do ódio , do Almada Negreiros.
Entre outras passagens do poema, nunca esqueci a seguinte:
Ó Horror! Os burgueses de Portugal têm de pior que os outros o serem portugueses! [1]
Está claro que a passagem pouco esclarece para além de si mesma, mas o certo é que ela se aviva na minha memória sempre que tento perceber os motivos profundos pelos quais Portugal não atingiu, ou atingiu mal e tardiamente, muitos desenvolvimentos sócio-económicos logrados pela generalidade dos países da Europa Ocidental na sequência da Revolução Industrial.
Isto, apesar da histórica abertura de Portugal ao Mundo, em força desde o século XV, da implantação da Maçonaria entre nós desde o fim do século XVIII, da chegada das ideias socialistas (geração de 70) pouco depois da publicação do Manifesto Comunista no século XIX.
Um exemplo, que me é pessoalmente caro: a indústria siderúrgica, entendida modernamente, chegou com atraso da ordem de um século a Portugal; pois bem, passadas quatro décadas após o arranque (em 1961) do único alto-forno que explorámos, Portugal viu reduzir a sua siderurgia ao tipo da dos chamados países subdesenvolvidos, que iniciam logicamente a actividade industrial pela adopção das produções industriais menos complexas. Digamos que Portugal chegou tarde, e saiu cedo da siderurgia.
O exemplo da siderurgia é o que se vê, apesar de Ferreira Dias, o então ministro da Economia de Salazar, ter afirmado décadas atrás: "País sem siderurgia, não é um país, é uma horta". Temos assim, por ora, uma siderurgia menor e, ao que vemos, sequer tivemos a sorte de constituir uma horta (entenda-se, agricultura) que nos pudesse alimentar capazmente.
João Ferreira do Amaral (JFA), em livro assaz resumido mas de leitura instrutiva que acaba de lançar [2] , analisa muitos dos sérios problemas económicos em que nos vêm mergulhando, em particular desde a adesão ao Euro. Não é que JFA mitifique a economia que tínhamos antes, o problema que coloca, e, a meu ver, muito bem, é que o enquadramento criado pela integração de Portugal na zona do Euro – mesmo que não tivesse aparecido a chamada crise financeira em 2007/2008 – ter-nos-ia igualmente conduzido a uma crise deste tipo (desmantelamento do aparelho produtivo, elevado desemprego).
O FEDERALISMO DOS ENDIVIDADOS...
JFA rejeita tanto a deriva neoliberal em curso como a suposta alternativa do federalismo europeu. Desta via é cáustico ao ponto de comentar: os "nossos federalistas – que se lembraram que o eram quando começou a ser preciso que alguém nos pagasse as dívidas" (p.116).
Daí que proponha a saída do Euro como medida indispensável à saída da crise em que estamos mergulhados.
Um aspecto importa realçar: JFA não resiste a criticar os responsáveis pela condução da política e da economia que nos levaram à integração na moeda única, justamente porque invoca, e nisso não foi o único, os alertas que emitiu atempadamente contra os elevados perigos para a economia portuguesa que resultariam daquela opção. Mas, no fundo, e apesar de agora apontar responsáveis dirigentes da política e economia, é manifesto que a JFA terá custado a entender o motivo pelo qual, não obstante se viver em regime dito democrático, as coisas evoluíram como se sabe.
JFA denuncia e exprime o seu desencanto:
"Chamei frequentemente a atenção para o conceito de bens transaccionáveis (…) e para o risco que estávamos a correr com a redução do peso da produção desses bens no total da economia. Repeti a mensagem vezes sem conta em intervenções orais e escritas. Sem qualquer resultado.
Lamento dizer que fiquei desde essa altura com uma péssima impressão das nossas elites, impressão que infelizmente tarda a desvanecer-se. O espesso manto de iliteracia económica que as afecta (mesmo de muitos supostos economistas), a suficiência bacoca e a total ausência de sentido crítico que as caracteriza fazem certamente de Portugal um dos países da Europa com piores elites". (p.106).
Assim, uma vez mais, e da parte de pessoas que sequer se reivindicam do ideal comunista, quando se atira para o aprofundamento das raízes dos nossos problemas, aí temos a mesma ideia central: a burguesia portuguesa nem do patriotismo de outras é capaz. Eis por que, sobre a tarefa de tratarmos da saída do Euro, importa também avançar na substituição da burguesia pelas classes trabalhadoras. Ponto é que estas se compenetrem de que chegou a hora da sua intervenção e que se libertem dos atávicos receios de conquistar e exercer o poder ao mais alto nível. Portugal precisa delas.
[1] Líricas Portuguesas (Antologia), Selecção, Prefácio e Notas de Jorge de Sena, Portugália Editora, (1958), Lisboa, p.111.
[2] Lisboa, Editora Lua de Papel , Abril de 2013, 128 p., ISBN 978-989-23-2314-5
Ver também:
[*] Engenheiro.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
Ana Fernandes Fundador do euro pede fim da moeda única para deixar o Sul recuperar
Publicado no jornal Público em 5 de Maio de 2013
Ex-ministro das Finanças alemão critica política salarial de Merkel, acusando-a de ser uma das responsáveis da crise na Europa.
Oskar Lafontaine, um dos fundadores do euro quando era ministro das Finanças da Alemanha, pediu o fim do euro para deixar os países do Sul recuperarem. E sublinha que "os alemães ainda não perceberam que o sul da Europa, incluindo a França, será forçado pela sua miséria actual a lutar, mais cedo ou mais tarde, contra a hegemonia alemã“.
Numa comunicação colocada no site do Partido de Esquerda do Parlamento alemão, na semana passada, Lafontaine não deixa de apontar o dedo à Alemanha por ter baixado os seus salários para proteger as suas empresas exportadoras. Uma crítica que vários subscrevem, a ponto de a Bélgica ter feito queixa junto da Comissão Europeia acusando Berlim de “dumping social”, numa alusão à venda de bens abaixo do custo de produção que é proibida na UE.
Na Alemanha não existe uma política de salário mínimo e é possível aos trabalhadores com salários mais baixos não pagar impostos nem contribuir para a segurança social ou outro sistema de pensões. Ou seja, há várias empresas que pagam aos seus funcionários três a quatro euros por hora.
“Merkel vai despertar do seu sono hipócrita quando, a sofrer por causa da política salarial alemã, os países europeus unirem forças para fazer um ponto de viragem na crise penalizando inevitavelmente as exportações alemãs”, avisa Lafontaine.
Por estas razões, o espírito do euro foi minado e não tem condições para prosseguir, diz o ex-ministro, porque não foi possível nos países do euro ter uma política de salários coordenada em função da produtividade.
Por isso, deve ser retomado um sistema como aquele que foi precursor da união monetária, o Sistema Monetário Europeu, que permite fazer “desvalorizações e valorizações controladas” das moedas nacionais, defende, o que exigira um controlo muito apertado sobre os fluxos de capitais. Os países em situação mais débil cujas moedas seriam necessariamente desvalorizadas teriam, num período de transição, de ser ajudados pelo Banco Central Europeu, por exemplo, para evitar o colapso.
Uma condição essencial para o funcionamento de um sistema monetário europeu seria a reforma do sector financeiro assim como a sua regulação. "O casino tem de ser encerrado", escreve. Esta transição teria de ser gradual começando, por exemplo, pela Grécia e Chipre.
As políticas de austeridade estão a levar ao desastre, considera, juntado a sua voz às várias que se têm levantado na Europa contra este "aperto de cintos" e que ele próprio cita, como Barroso e Enrico Letta, em Itália. Durante o fim-de-semana, o ministro das Finanças francês Pierre Moscovici proclamou o fim da austeridade e um triunfo da política francesa.
"A austeridade está concluída. Esta é uma viragem decisiva na história do projecto europeu desde o euro", disse Moscovici à TV francesa. "Estamos a ver o fim do dogma austeridade. É uma vitória do ponto de vista francês." Descartando a hipótese de cortes adicionais, Paris vai, no entanto, manter as políticas de corte de despesa pública.
João Ferreira do Amaral deu uma entrevista a Nuno Ramos de Almeida sobre a saída do euro
Foi um dos poucos que no tempo das vacas gordas torceram o nariz ao euro. João Ferreira do Amaral fez na altura uma previsão que muitos acharam catastrofista. Passado o desastre, lançou recentemente o livro “Porque Devemos Sair do Euro”, em que diz que não nos resta outro caminho para sair da austeridade sem fim.
Quais foram os sectores sociais e políticos que em Portugal ganharam com a integração no euro?
Os sectores sociais e económicos que ganharam com a adesão ao euro foram todos aqueles que produziam bens e serviços não transaccionáveis: imobiliário, comércio, distribuição e uma quantidade de serviços pessoais. Tudo o que estava em sectores protegidos da concorrência internacional ganhou com o euro. Também os bancos, em que foi possível pedir muito mais dinheiro barato, e por isso tiveram mais clientes, nomeadamente famílias que acediam ao crédito à habitação e ao consumo.
Mas continuam a ganhar ou mesmo para esses sectores isso já acabou?
O que ganharam, ganharam, mas neste momento a maioria desses sectores passa por dificuldades: o imobiliário entrou em crise, mesmo antes da crise financeira de 2008. O sistema bancário acabou por ter perdas muito grandes por causa da crise internacional e também porque emprestou dinheiro com spread demasiadamente baixo, nomeadamente o crédito à habitação, e agora necessita de recursos que têm um spread superior.
Não havendo aparentemente sectores políticos, sociais e económicos que estejam a ganhar com o euro, como se percebe que tanto por parte dos decisores políticos, como da população ou dos agentes económicos a saída do euro seja um tabu?
É sobretudo por receio. Nunca houve uma saída do euro e as pessoas têm medo do que possa suceder. Sobretudo as pessoas que têm aplicações financeiras em euros temem que o valor desses depósitos se reduzam se passarem para uma moeda nacional. Depois há aqueles que temem que isso seja uma catástrofe económica.
Fala no seu livro de uma saída controlada do euro: negociada, anunciada previamente sem segredo, com um conjunto de medidas que vão ao ponto de parte das aplicações financeiras se manterem em euros. É possível uma saída controlada?
É, mas para isso é imprescindível que haja um acordo com as autoridades comunitárias, quer o Banco Central Europeu, quer a Comissão Europeia. Isso é possível porque a nossa saída beneficiará também os países que estão no euro, já que fará desaparecer um factor de instabilidade que é ter uma economia que não aguenta estar na moeda única.
Há economistas que consideram impossível uma saída calma da zona euro, e exemplificam com o crédito à habitação: se os empréstimos ficarem em euros, as famílias vão à falência, se os empréstimos passarem a escudos, os bancos que pediram dinheiro ao estrangeiro em euros vão à falência...
A minha sugestão é que as dívidas, nomeadamente as do crédito a habitação, mantenham o seu contravalor em euros, mas que a diferença resultante da desvalorização seja assumida pelo Estado, que ele substitua o devedor nessa parte, financiando-se o Estado através de empréstimos do Banco de Portugal.
Mas não há sempre um problema? Sendo a dívida ao estrangeiro, sempre que emitimos moeda ela desvaloriza e continua o Estado obrigado a pagar essa diferença aos bancos estrangeiros...
Quanto mais desvalorização, desde que seja nos limites do aceitável, mais receitas obteremos do exterior, mais exportaremos e menos importaremos. A desvalorização cambial é feita pelos países que estão endividados em relação ao exterior, justamente para terem mais receitas em moeda estrangeira. Na situação actual é que nós nunca pagaremos a dívida porque não geramos, a não ser artificialmente, uma balança de pagamentos equilibrada. Neste momento isso só é possível porque foi esmagado o consumo interno e a actividade produtiva.
Não existe alternativa? Não pode o euro ser uma moeda menos alemã e ter instrumentos que permitam corrigir as assimetrias?
Não acredito num euro mais fraco, a Alemanha nunca o aceitará e faz todo o sentido que não o queira: a condição que pôs para estar na moeda única foi ela ser semelhante ao marco alemão, e por outro lado não o aceitará porque a Alemanha tem um excedente na balança de pagamentos, e para isso quer uma moeda forte. Não faz sentido ter um excedente e querer uma moeda fraca. Sendo um país investidor no estrangeiro, com uma moeda forte pode comprar mais coisas no estrangeiro. A outra solução que tem sido falada é haver dois euros, um forte e um fraco. Claro que em comparação com a situação actual seria menos mau, mas não resolveria o nosso problema justamente porque continuaríamos a não ter emissão monetária própria.
Um dos exemplos de uma zona monetária unificada são os Estados Unidos da América. Aí há estados profundamente endividados, como a Califórnia, mas no entanto a moeda não entra em crise, nem esses estados vão à falência, porque existe um orçamento federal. Não é possível colmatar estas diferenças de desenvolvimento no quadro do euro com mecanismos orçamentais europeus?
Mas vegetam, é um cenário que eu não gostaria de ter para o meu país. Visitei há uns anos uma zona dos EUA em que tinha havido dificuldades financeiras e as autoridades locais tinham deixado de ter dinheiro. O que sucedeu? A população foi obrigada a sair dali. Deixou de haver polícias, deixou de haver serviços, deixou de haver bombeiros.
Mas isso não é bem o caso da Califórnia. Se fosse um país independente, estaria na nona posição em termos de desenvolvimento económico...
Mas está sistematicamente a viver à custa de subsídios, e eu não quero que isso suceda a Portugal. Tem sentido o apoio do orçamento comunitário, numa situação de dificuldade de um país, quando se trata de uma situação conjuntural. Agora o nosso problema é estrutural, temos um aparelho produtivo que não está de acordo com a inserção no processo de globalização. Não faz sentido sermos permanentemente apoiados por subsídios comunitários.
Mas esse processo de globalização não vai desaparecer por estarmos no escudo, e não vamos passar a ter indústria e agricultura competitiva de repente.
Com uma desvalorização cambial seremos mais atractivos do ponto de vista do investimento para a produção de bens transaccionáveis, aumentando a nossa capacidade produtiva para termos uma estrutura minimamente equilibrada: actualmente temos 13% do PIB gerado na indústria e pouco mais 2% no sector primário. Isso não faz sentido. Nenhum país sobrevive assim. O recurso que nós temos para tentar tornar mais atractivo o país é fazer essa desvalorização cambial. Ela não é feita para reduzir os salários, ao contrário do que alguns dizem; ela torna é mais atractivos os investimentos nos bens transaccionáveis. É este choque que é preciso, para levar portugueses e estrangeiros a investirem nos sectores que interessam, de bens transaccionáveis. Posso ser demasiado optimista, mas penso que com um empurrão desse género tínhamos condições para ser uma espécie de novo tigre europeu: temos uma mão-de-obra com qualificação razoável e infra-estruturas de qualidade, falta-nos é um incentivo para que haja investimento nesses sectores.
No seu livro o euro aparece como uma espécie de banha da cobra utilizada pelas as elites como solução milagrosa, mas também aparece como causa quase única dos nossos males. Quando aderimos à moeda única o dinheiro tornou-se mais barato, ninguém nos impedia de ter utilizado esse crédito bem...
Falo disso quando digo que o Banco de Portugal poderia ter tentado minorar essas más práticas, mas acho que isso não seria suficiente. Havia incentivos de mercado praticamente impossíveis de conter. Se as pessoas obtêm crédito barato investem em casa própria, é muito difícil evitar que haja um enorme crescimento da construção civil e a respectiva bolha imobiliária. Podia-se ter dito aos bancos que limitassem o crédito imobiliário, mas é difícil porque provavelmente as pessoas recorreriam aos bancos estrangeiros. O Banco de Portugal poderia ter feito muito mais, mas isso não seria suficiente. Nos anos 90 e no início do século, o Banco de Portugal publicava um índice que comparava o preço dos bens transaccionáveis com o índice de preços dos bens não transaccionáveis. O índice dos não transaccionáveis subiu 50% mais que o dos transaccionáveis. Significa que eram 50% mais rentáveis. Nestas condições é impossível evitar isso. Um país que tem uma moeda demasiadamente forte para a sua estrutura produtiva praticamente não tem instrumentos para compensar isso.
Mas isso não é apenas parte do problema? Houve um endividamento dos particulares, mas também houve um crescimento abissal da dívida pública, camuflada por mecanismos de suborçamentação, para se cumprirem todos os critérios de Maastricht. Não acha que atribuir todas as culpas à moeda é tirar responsabilidades às nossas elites e governos?
Tirando a desorçamentação, que foi generalizada, recentemente, em vários países, o desequilíbrio da nossa balança de pagamentos já vinha muito de trás: no final da última década do século já estávamos a gerar défices da balança de pagamentos da ordem dos 10% do PIB, que são insustentáveis. A dívida pública portuguesa na altura podia ser muito menor, mas o que estava a suceder em termos externos era impossível de manter. Eu estava convencido que íamos ter uma crise própria por volta de 2014-2015, mas entretanto houve a crise internacional, que acelerou o processo. Mas sem ela teríamos na mesma uma crise por causa do endividamento externo.
Mas não acha que a lógica desse processo é anterior ao euro e que ele apenas vem potenciar as linhas desencadeadas pelas lógicas da integração europeia? A adesão pressupôs a destruição dos sectores produtivos, o abandono de qualquer política de substituição de importações...
Num certo sentido tem razão, já antes as coisas não estavam nada de especial, mas no início as coisas funcionavam melhor porque a adesão de Espanha, juntamente connosco, fez aumentar o comércio e deu um grande impulso à actividade exportadora. Os fundos comunitários foram sobretudo para infra-estruturas e alguma formação profissional, em geral má. É certo que não se estava a dar atenção suficiente à actividade produtiva, mas não me parece que fosse uma situação comparável com a introdução do euro. O problema começa a existir a sério quando as grandes empresas e as outras deixam de se interessar pela produção de bens transaccionáveis e passam a virar-se mais para o mercado interno, para os sectores protegidos, e isso coincide com o caminho para a introdução da moeda única, em meados dos anos 90, quando o escudo se estabiliza num valor relativamente alto.
Mas isso coincide também com a destruição de sectores produtivos em troca de subsídios, com a aceitação de um processo de globalização que retirou barreiras alfandegárias em relação aos nossos competidores dos países emergentes...
Houve uma acumulação de erros. Não tínhamos nada que antecipar a destruição de parte do sector agrícola, houve erros graves, mas a moeda única ultrapassou-os a todos. Não tínhamos de pôr o país numa trajectória que era insustentável. Se fizermos uma lista da forma como encaramos o processo de integração europeia, verificamos que houve erros bastante graves, por exemplo a forma como encarámos a adesão dos países de Leste em 2004. A Comissão Europeia, que fez o estudo do impacto do alargamento nos outros países mostrou que a economia portuguesa era das mais afectadas, mas isso não impediu as autoridades portuguesas de dizerem alegremente que estavam muito satisfeitas com o alargamento a Leste, e quando muito terem exigido meia dúzia de patacos de compensação. Não íamos bloquear o alargamento, mas poderíamos ter exigido condições muito diferentes para poder compensar o impacto negativo.
Por que razão a entrada no euro foi precedida de uma quase unanimidade dos sectores políticos e académicos?
Temos de ver que a teoria económica dominante na época defendia que a taxa de câmbio não tinha impacto económico a longo prazo, tinha apenas efeitos conjunturais pouco importantes, porque tudo se reajustaria naturalmente. Olhavam apenas para o suposto benefício da moeda única, que era um aumento de credibilidade dos países que estavam nela, com a correspondente redução da taxa de juros. Uma espécie de almoço grátis. De facto, ao aderirmos ficamos com uma taxa de juro mais baixa, mas o que eu digo no livro é que, por si só, um preço de dinheiro menor não é obrigatoriamente uma benesse. Se a taxa cambial não for adequada, esse dinheiro vai para sectores não produtivos e depois mais tarde surge a factura, que é o endividamento excessivo. É espantoso que não houve um critério para aderir à moeda única que tivesse a ver com a economia real e com a competitividade dos países. Dá ideia que adoptar uma moeda, fosse isto no Bangladesh fosse na Suécia, era tudo a mesma coisa.
Parece que o erro dos economistas persiste ao defenderem a existência de uma “austeridade expansionista”...
As políticas de austeridade fazem sentido quando o problema é estritamente financeiro. Veja-se o caso da Irlanda, em que o problema não estava na estrutura económica, mas no facto de os seus bancos se terem metido em coisas em que não deviam ter metido. Aí faz sentido que as medidas sejam financeiras, embora graduais: há um erro em tentar equilibrar tudo de um dia para o outro. Agora quando o desequilíbrio, como o nosso, é devido a uma situação estrutural do próprio tecido produtivo, a gente pode fazer os sacrifícios financeiros que quiser que os problemas vão continuar lá. E os sacrifícios não vão servir para nada. Foi esse o grande erro da Comissão Europeia, que tinha a responsabilidade de conhecer a situação. Costumo dar este exemplo: se os Estados Unidos tivessem encarado a situação na Europa após a Segunda Guerra Mundial como a Comissão Europeia encara esta crise, ainda hoje a Europa estava destruída. Tiveram o génio de perceber que o plano Marshall tinha como objectivo, não o equilíbrio orçamental, mas o investimento nos sectores produtivos.
Se continuarmos com o Memorando da troika onde acha que vamos parar?
Vejo muito mal a situação. Uma das coisas que eu acho muito preocupantes é que hoje nenhuma entidade política abre um horizonte de futuro. O Presidente da República fez aquele discurso no 25 de Abril – não me interessa ver se ele está mais ligado ao PSD ou não – e veio dizer que depois da ida aos mercados vocês vão continuar basicamente na mesma. Esta política de austeridade não está a dar resultados e pode prolongar-se durante uma década ou duas. A questão é até onde o país aguenta. Eu acho que não aguenta muito. Um dia teremos uma ruptura inevitável.
Vista desta forma, esta política é uma soma de incompetências. Não é possível olhar para ela como um programa claro de destruir o modelo social europeu para reforçar os lucros de alguns sectores no processo de globalização?
Se fosse assim deveria ser dito, porque isso só se pode fazer com uma grande mobilização social. Se eles quisessem dizer: estamos a fazer isto porque a Europa não aguenta a concorrência crescente dos países emergentes na economia global, então o melhor seria criar uma base de apoio para fazer este programa.
Mas há uma base de apoio para esse tipo de declaração?
Se não há, também não vai haver desta forma. Têm de se encontrar outras soluções, eventualmente voltar a proteger o espaço europeu. Se os europeus querem ter o seu modelo social – e eu acho que devem ter porque é uma grande conquista civilizacional –, então têm de ter uma economia que o sustente. Pode passar por regular mais a globalização, nomeadamente a parte comercial. O que não se pode ter é uns iluminados, nomeadamente na Comissão Europeia, que tomam medidas que não fazem sentido nenhum a tentar forçar um caminho que ninguém compreende. Porque a estrutura produtiva vai continuar a estar desequilibrada e com os mesmos problemas.
Mas alguém está a ganhar com esta política?
Quem está a ganhar, mas penso que é um ganho temporário sem sustentação, é a Alemanha, na medida que a dívida Alemã com esta instabilidade no Sul da Europa se tornou um refúgio, e a Alemanha paga taxas muito baixas ou até não paga pelo dinheiro depositado.
Então é um milagre: como é possível estar a ser executada uma política que não beneficia ninguém? No seu livro dá-se nota de que pelo menos durante os reinados dos Filipes em Portugal havia uma nobreza corrupta que ganhava com o domínio espanhol...
Neste momento não se possa dizer que haja sectores significativos que ganhem com esta política. A questão fundamental é que a Alemanha ganhou um poder que não tinha com o Tratado de Maastricht e quer uma Europa à sua medida, o que significa ter uma moeda forte. Se os países do Sul não aguentam, pior para eles. E vai-se-lhes dando umas migalhas para eles não saírem, mas isso não é sustentável. Penso que o discurso do 25 de Abril do Presidente tem isso como pano de fundo, esta política foi vendida como sendo essencial para o país voltar a ter condições de crescimento. O grande drama vai ser quando as pessoas se aperceberem de que, feitos os sacrifícios todos, não estamos melhor. Um dos momentos que tornarão visível a situação vai ser voltarmos aos mercados. Depois do regresso triunfante aos mercados teremos no dia seguinte mais austeridade em cima. E quando as pessoas se aperceberem de que todos os sacrifícios pedidos foram em vão vai haver um tumulto sério no país. Será provavelmente o fim desta política. Não sei o que virá depois.
Mas não acha que, se Mario Draghi disser, como deu a entender, que liga a impressora, este regresso aos mercados pode ser feito com taxas de juros favoráveis?
Mas isso, como o Krugman muito bem disse, só sustenta a manutenção da austeridade. Esta política apenas esconde os efeitos da austeridade. Nós podemos financiar-nos a juros mais baixos, mas isso dá apenas a sustentação na agonia porque continuamos a aumentar o desemprego e a recessão. O problema é que o país não tem sustentação demográfica assim: se saem 110 mil jovens por ano, como o ano passado, ao fim de uma década são um milhão e tal – e como é que o país vai aguentar, com o envelhecimento que tem à partida, esta autêntica sangria? Não vai. Nos anos 60 saiu um milhão e tal de pessoas activas, mas o país era jovem, a estrutura demográfica não tinha nada a ver com a que temos hoje. A sustentabilidade demográfica do país, que é a condição básica para o país existir, ficará totalmente em causa se esta política durar dez anos.
Acha que podemos assistir a curto ou a médio prazo a uma ruptura política?
Penso que sim, podemos assistir a uma ruptura política grave. Vai ser um choque muito grande as pessoas perceberem que esta situação está para durar. Prometeram-lhes que se cumpríssemos este programa as coisas iam mudar e os resultados não aparecem, nem podem aparecer, porque estes programas estão mal concebidos.
Mas não acha que é difícil sair do euro quando o único partido político que manifesta dúvidas em relação ao euro é o PCP?
Sim, mas mesmo que os outros tenham dúvidas não o podem dizer. Nenhum político pode dizer que é a favor da saída do euro. No dia em que o disser já não pode ir para o governo, porque, se for para o governo, dir-se-á que vamos sair do euro, e aí o pânico e a especulação vão gerar-se. Mesmo que haja políticos convencidos de que devemos sair do euro, nunca o poderão dizer, para não causar pânico nos mercados.
Então se ninguém pode dizer, como é possível conseguir o consenso político e social para sair?
Aquilo que devia ser feito, não quero dizer que possa ser feito, não tenho grandes ilusões em relação às elites portuguesas, era decidir a saída a um nível muito restrito para manter o segredo e depois, no dia em que fosse anunciado o período transitório, em que seriam tomadas medidas de excepção, tomadas essas medidas a decisão devia ser ratificada pelo parlamento. Para mim não está em causa que tenhamos de sair do euro, de uma forma ou outra vamos ter de sair, a não ser que aconteça um milagre de iluminação na zona euro. O que está em causa é a forma de sair. Ou preparamos a saída ou seremos forçados a fazê-lo com custos muito maiores para a população.
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