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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 09.03.16

Europa: deitem abaixo essas cercas - Gauri van Gulik

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Gauri van Gulik  Europa: deitem abaixo essas cercas

 

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Público, 7 de Março de 2016

 

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

 

   A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia.

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornaram-se em guardas fronteiriços da Europa, forçando migrantes e refugiados a recuarem, às vezes disparando contra eles.

Com quase todas as fronteiras terrestres da Europa seladas, mais de um milhão de refugiados e migrantes que se lançaram rumo à Europa em 2015 arriscaram a vida nas travessias por mar. Mais de 3770 pessoas morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em 2015, e mais 410 morreram já este ano. São vítimas directas da nova Cortina de Ferro da Europa e do que ela representa: a Fortaleza Europa. Em contraste, 138 pessoas morreram a tentarem passar o Muro de Berlim ao longo dos 28 anos em que este existiu.

Para aqueles que conseguem sobreviver à travessia, o sofrimento está longe de chegar ao fim, antes têm frequentemente de caminhar durante dias a fio, viajando através de numerosos países, a dormir ao relento, ao frio, até alcançarem a segurança num país com um sistema de asilo que funciona.

A Amnistia Internacional entrevistou refugiados em fuga da guerra e da perseguição no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque e na Síria. Preferiam não ter partido das suas casas, mas a maior parte teve de fugir para salvar a vida.

Como nos disse um homem oriundo do Afeganistão, sentado na Praça da Vitória, em Atenas, junto com a mulher grávida: "A minha família foi ameaçada pelos taliban. A minha mulher está grávida de oito meses. Não temos escolhas nenhumas... não sabemos o que nos vai acontecer a seguir".

É por isso que a nova Cortina de Ferro da Europa é tão irreflectida e de improvável sucesso como o foi a antiga. Enquanto houver violência e guerra, as pessoas vão continuar a vir. Até pode parecer que fechar fronteiras é uma resposta forte e firme dos políticos, mas verdade é que é ingénua e falta-lhe visão.

Sem dúvida que os números de pessoas a chegarem à Europa são altos. Mas apesar da retórica sobre "enxames" usada pelos políticos, o facto é que a Europa está a esquivar-se às suas responsabilidades internacionais, debilitando a Convenção sobre os Refugiados e deixando países mais pobres a carregar o peso da crise de refugiados. A verdade é que 85% dos 20 milhões de refugiados que existem no mundo vivem em países em desenvolvimento.

Governos totalmente dissociados de muitos dos seus próprios povos, os quais querem que os refugiados sejam bem acolhidos, andam a jogar à política do medo. Falam em "defender" as fronteiras mesmo quando estamos a ver famílias inteiras com pessoas de todas as idades, de bebés a idosos, nas costas da Europa.

Tal como com a antiga Cortina de Ferro, as cercas e muros de hoje são um sinal de políticas falhadas. E isto está a criar uma crise humana na Grécia, agora mesmo. Enquanto não existem soluções estruturais iminentes, a Europa está a pressionar os países dos Balcãs a fecharem aquela rota. Os países dos Balcãs estão a encerrar totalmente as suas fronteiras ou a abri-las só a sírios e iraquianos. Com o sistema de relocalização de refugiados da Grécia para outros países da UE a funcionar pouco e mal, aquele país está a transformar-se muito depressa numa armadilha, deixando dezenas de milhares de refugiados encurralados em condições de desespero e sem nenhuma informação sobre o que lhes vai acontecer.

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 24.02.16

A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza - José Goulão

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José Goulão  A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza

 

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Mundo Cão, 24 de fevereiro de 2016

 

   Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.

Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.

As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.

Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.

Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.

A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.

Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.

O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.

Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.

A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.

Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.

 

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por Augusta Clara às 16:20

Segunda-feira, 01.02.16

Europa perde o rasto de 10 mil crianças registadas como refugiados - José Goulão

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José Goulão  Europa perde o rasto de 10 mil crianças registadas como refugiados

 

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Foto de Darko Vjinoviv (AP)

 

 

 

Mundo Cão, 31 de Janeiro de 2016

 

  Dez mil crianças que chegaram à Europa fugidas dos conflitos no Médio Oriente despareceram sem deixar rasto, podendo muitas delas estar a ser exploradas como escravas sexuais e laborais no âmbito de uma sofisticada “rede criminosa pan-europeia”, admite a Europol, agência policial da União Europeia. Os desaparecimentos ocorrem já depois de as crianças serem registadas pelas autoridades dos Estados europeus.

Mais de cinco mil das crianças desparecidas foram registadas em Itália; pelo menos mais mil na Suécia. A Europol começa agora a aperceber-se de gangs para “exploração do fluxo migratório” actuando, designadamente, na Alemanha e na Hungria, conhecimento decorrente da ocorrência frequente de “conflitos cruzados” entre grupos de criminosos que estão particularmente activos na chamada “rota dos Balcãs”. “Há prisões na Hungria e na Alemanha onde a maioria dos detidos são membros de redes de exploração de refugiados”, revela Brian Donald, director da Europol, agência de polícia europeia.

Segundo Donald, cerca de 27 por cento de um milhão de refugiados entrados na Europa durante 2015 são crianças, o que significa 270 mil. “Nem todas viajam sozinhas”, acrescenta, mas o número das que chegam nessa situação e estão dadas como desaparecidas é aproximadamente dez mil, de acordo com “perspectivas conservadoras”. Donald admite que muitas ter-se-ão reunido a membros da família, outras não, mas em todos os casos “não sabemos onde estão, o que fazem ou com quem”.

O jornal britânico The Observer, o único dos chamados “jornais de referência” europeus que dedica especial atenção a esta tragédia humanitária, relata, por exemplo, o caso das mil crianças chegadas em Setembro passado ao porto sueco de Trelleborg. Todas elas desapareceram durante o mês seguinte e um relatório oficial revelado há uma semana reconhece que as autoridades têm “muito pouca informação sobre o que acontece depois de desaparecerem”. No Reino Unido duplicou em 2015 o número de crianças desaparecidas depois de registadas pelos serviços de asilo.

“Estamos perante a forma mais tenebrosa de tráfico de seres humanos e constatamos que, na prática, a resposta comunitária a tal fenómeno está muito longe de corresponder à sua gravidade”, afirma um funcionário da Comissão Europeia em Bruxelas. “Nunca como agora foi tão forte a fiscalização dos cidadãos e a cooperação entre os serviços de informações mas, ao que parece, as prioridades são outras que não a preocupação com as mais vulneráveis das vítimas de conflitos nos quais a União Europeia tem inegáveis responsabilidades”, sublinha a mesma fonte.

Maryian Berket, responsável da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), reconhece exactamente isso: “os menores desaparecidos das regiões de conflito são, de longe, a população mais vulnerável”, afirma.

O director da Europol revelou que agência já possui provas de que um dos destinos das crianças desaparecidas depois de registadas é o circuito das redes de exploração sexual de menores. Ainda segundo Brian Donald, os motivos mais fortes para as guerras de gangs exploradores de refugiados são as disputas de menores para a escravatura sexual e laboral.

“Aqueles que estão nas nossas bases de dados como responsáveis por tráfico de seres humanos começam agora a aparecer também como envolvidos em tráfico de refugiados”, admite o director da Europol. Fontes em Bruxelas salientam que a existência prévia dessas informações e a falta de protecção inerente à condição de refugiado em busca de asilo devia ter suscitado a adopção de medidas prévias pelas autoridades. “Era inevitável que as redes de tráfico de seres humanos iriam tirar proveito do maná oferecido pela vaga de refugiados”, afirma um alto quadro do Conselho Europeu. “Como é possível falar-se tanto na defesa do nosso civilizado modo de vida e permitir-se que milhares de crianças que buscam refúgio no espaço da União encontrem trágicos destinos depois de registadas pelas autoridades em países europeus?”, interroga-se.

Brian Donald admite que a estrutura criminosa “sofisticada” tem vindo a desenvolver-se durante os últimos 18 meses, o período em que o fluxo migratório atingiu a maior intensidade, visando precisamente “tirar partido” dessa circunstância.

O chefe da Europol considera agora que é indispensável a “vigilância da comunidade” perante este fenómeno. “Estas crianças estão na comunidade e se são vítimas de abuso são-no dentro da comunidade”, diz. “Elas não se esfumaram no ar e foram levadas para o meio da floresta; estão no interior da comunidade. As populações devem estar alerta para isso”.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 07.12.15

Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo

 

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   Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.

 

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por Augusta Clara às 18:45

Segunda-feira, 23.11.15

O caos desce sobre a Europa - José Goulão

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José Goulão  O caos desce sobre a Europa

 

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       Olhemos para a Europa de hoje.

Estado de emergência em França pelo menos durante três meses, no país onde a privacidade dos cidadãos deixou de ser um direito fundamental e o chefe de Estado pretende alterar a Constituição invocando a versão mais recente da chamada “guerra contra o terrorismo”, formulação de péssima memória.

Instauração de comportamentos próprios de Estados policiais em vários países da União Europeia, assim se informando os terroristas de que os seus objectivos de intimidação se estendem bem para lá dos atentados, instalando-se pela coacção psicológica e através da atemorização imposta pelos meios ditos de resposta, estratégia em que o comportamento da comunicação oficial alinhada nada tem de inocente.

Reforço das tendências xenófobas, racistas e persecutórias contra minorias, cada vez mais agravadas, e a ritmo exponencial, pela chegada massiva de refugiados e o modo como é encarada pelos governos e respectivos megafones. Vaga de refugiados que chega dos países artificialmente desmantelados com a colaboração de dirigentes europeus e de onde brota também o terrorismo.

Multiplicação de muros e barreiras através do espaço europeu como parte do combate aos refugiados e reforço dos controlos de fronteiras ao compasso da falsa dicotomia entre segurança e serviços de espionagem, absolutizados estes em sintonia com os venenosos sound-bites que pregam a necessidade de um big brother para garantir “o nosso civilizado modo de vida”.

Institucionalização do revanchismo nazi com a cumplicidade da NATO, o que é evidente em países como a Estónia, a Letónia, a Ucrânia – onde o regime foi instalado com a cumplicidade da União Europeia – Hungria, Polónia, Eslováquia, Bósnia, Croácia, território do Kosovo, a par de ameaças concretas de se tornar poder em países como a França.

Desagregação irreversível da União Europeia, enredada na teia de erros impostos arbitrariamente para combater erros, tudo em defesa do austeritário neoliberalismo, da ditadura financeira e de uma moeda cruel num cenário generalizado de catástrofe social que as desumanas políticas governamentais aprofundam.

A lista de factos poderia continuar e está na mente e nas reais inquietações dos cidadãos. Esta é a Europa que temos, nas mãos de irresponsáveis insensíveis, robots tecnocráticos cujas políticas militaristas e de agressão, com recurso comprovado ao terrorismo, estão na origem do ricochete que vitima civis inocentes já de si inquietos com as limitações à sobrevivência num duro dia-a-dia.

Muitos dos poucos que conhecem a “teoria do caos” idealizada nos anos setenta pelo lobista israelita de nacionalidade norte-americana Leo Strauss, depois recriada e aplicada por Paul Wolfowitz, Cheney, Powell, Rumsfeld e outros membros do gang neoconservador, consideram-na o suprassumo da “teoria da conspiração”.

Acham irrelevante que Wolfowitz seja igualmente um lobista israelita de nacionalidade norte-americana; omitem que ele mesmo, como membro da administração Bush filho, ajudou a criar as condições para a invasão e desmantelamento do Iraque; não admitem que esta operação seja a fonte original do caos gerado no Médio Oriente, escorrendo agora para a Europa enquanto os Estados Unidos se barricam contra as consequências.

Recordando: a “teoria do caos” estabelece que nenhuma potência mundial pode ter condições para rivalizar com os Estados Unidos da América, devendo a União Europeia manter-se sob o controlo político, económico e militar norte-americano. Nem que, para tal, seja preciso nela instalar o caos.

No estado a que as coisas chegaram, porém, o menos importante é concluir se estamos ou não perante uma “teoria da conspiração”. Porque poucos terão dúvidas de que o caos desce sobre a Europa perante uma União Europeia em agonia. Os dirigentes europeus foram no engodo e, um após outro, engoliram todos os sucessivos iscos lançados por Reagan, Bushes, Clintons, Obama e demais padrinhos de Washington que daí lavam as suas mãos enquanto continuam a fingir que nada têm a ver com o Estado Islâmico, a Al-Qaida, al-Nusra e outras comunidades de assassinos a soldo onde também pode encontrar-se o dedo sangrento dos serviços secretos israelitas.

 

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por Augusta Clara às 17:30

Quinta-feira, 10.09.15

Uma aterradora trama de crises - José Goulão

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José Goulão  Uma aterradora trama de crises

 

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Mundo Cão, 8 de Settembro de 2015

 

   Desde que se tornou pasto da tenebrosa máquina de manipulação em que se transformou a comunicação social dominante, a chamada “crise dos refugiados” está a ser deliberadamente desfocada do seu centro nevrálgico, a questão humanitária, mediante o recurso aos artifícios habituais onde se movem os pescadores de águas turvas, os oportunistas de grosso calibre e, sobretudo, os barões político-militares para quem o mundo é um vasto tabuleiro de guerras e rentáveis oportunidades.

Nas últimas horas, aviões de guerra franceses e britânicos, os mesmos ou gémeos dos que há três anos deixaram a Líbia no caos, começaram a sobrevoar a Síria com o objectivo proclamado de combater simultaneamente o regime de Bachar Assad e o Estado Islâmico, coisa em que ninguém acredita, nem os próprios. A prová-lo está o caricato anúncio de um exercício de tiro britânico já realizado em território sírio para liquidar terroristas que, imagine-se, projectavam abater essa nobre dama que é a rainha de Inglaterra. Em suma, à boleia da “crise dos refugiados”, a NATO entrou directamente na guerra contra a Síria, como os mais falcões dos atlantistas há tanto desejavam.

Descodifiquemos os factos. Depois de o presidente francês Hollande ter declarado que acolher todos os refugiados seria “fazer a vontade ao Estado Islâmico”, aviões franceses e ingleses, logo da NATO (por inerência) entraram em acção num país soberano, sem mandato da ONU nem autorização do governo legítimo, para intimidarem não apenas esse governo como (alegadamente) um grupo que o combate, neste caso o Estado Islâmico, protegido e criado por países aliados de França e do Reino Unido como são Israel e os Estados Unidos da América. Continuando a descodificação, lembro que esse mesmo Estado Islâmico não é mais do que uma consequência directa do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra civil síria. Prosseguindo ainda a descodificação, recordo que países como o Qatar e a Arábia Saudita, tão aliados de França, do Reino Unido e da NATO como são os Estados Unidos e Israel, desempenham papéis preponderantes nas situações de caos que geraram a avalanche de refugiados na Europa, sendo que nenhuma dessas monarquias torcionárias do Golfo está disposta a acolher um único refugiado que seja.

Apesar de a teia ser complexa, não é impossível detectar que a actual crise dos refugiados tem o dedo dos Estados Unidos da América e da NATO, como reconhecem, aliás, os serviços de informações militares da Áustria, pelo que, assim sendo, não será novidade para qualquer país da União Europeia.

Porém, não se vejam apenas desvantagens europeias neste fluxo de seres humanos desesperados, fugindo a guerras fomentadas também por potências europeias. Ouçamos o senhor Ultich Grillo, todo-poderoso patrão dos patrões alemães, à cabeça da Federação da Indústria (BDI). “Como país próspero e também pelo amor cristão ao próximo a Alemanha deve permitir-se acolher refugiados”, declarou. Tal como está a acontecer, e logo a um ritmo que permite prodigalizar enfáticos e universais elogios à senhora Merkel. “Devido à nossa evolução demográfica”, acrescenta o senhor Grillo, “asseguramos o crescimento económico e a nossa prosperidade graças à imigração”. Descodificando – será que é mesmo preciso? – desgraçados maduros para aceitar trabalho escravo como quem entra no paraíso são como pão para a boca para os barões da indústria alemã e pangermânica, como outrora foram tão úteis os degredados em campos de concentração.

Assim sendo, nestes dias observamos países que criaram guerras e desmantelaram nações, dando origem a uma vaga de refugiados para a Europa - compartimentando este continente entre cercas e muros com tonalidades concentracionárias -, partirem para novas fases das mesmas guerras, agora sob o pretexto de travarem o movimento de fuga combatendo grupos terroristas que são seus cúmplices e em cuja criação e desenvolvimento participaram. São assim, senhoras e senhores, os dirigentes políticos, militares e económicos que nos governam. Mentirosos irresponsáveis ao serviço de patrões e interesses que ganharão sempre com a tragédia de milhões de seres humanos, sejam quais forem os desfechos das sucessivas crises.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 08.09.15

As lágrimas de crocodilo - Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves  As lágrimas de crocodilo

 

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Expresso, 5 de Setembro de 2015

 

   Os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegar aqui. Para trás ficaram os condenados à morte

E de repente toda a gente se comove. Em quatro anos de guerra, o sofrimento e as mortes na Síria, e no Iraque, não comoveram muitos jornalistas ou espectadores sentados por essa Europa fora. No último inverno, vi crianças ranhosas e friorentas, pés roxos e nus nas neves do Monte Líbano. Vi mulheres sírias e órfãos a prostituírem-se nas ruas de Beirute, vi a superpopulação dos campos de refugiados palestinianos, incapazes de acolherem mais um ser humano por falta de espaço. E vimos as imagens dos corpos despedaçados por barrel bombs, as fomes de Yarmouk, os ataques químicos. Não foi por falta de filmes online, colocados por combatentes, resistentes e sitiados sírios, que deixámos de ver no que a Síria se tornou. Ou o Iraque, onde todos os dias há mortos. O ISIS mobiliza-nos as atenções com a barbaridade do dia, que usa como instrumento de terror e propaganda, e cobre com esta cortina negra o resto do Médio Oriente. O Iraque está a desfazer-se. A Síria já se desfez. O Líbano está por um fio. A Jordânia aguenta-se com esforço. O Egito é um Estado falhado. E a Turquia aproveita para destruir os curdos. Em todos estes conflitos, para não falar do desastre da intervenção na Líbia ou no Iémen, a Europa comportou-se de um modo egoísta e indiferente. Pagou resgates e deixou aos americanos a tarefa de limpar os estábulos de Aúgias. Na verdade, se a invasão do Iraque em 2003 foi um trabalho americano, a Europa foi o parceiro da coligação. Sobretudo o entusiástico Tony Blair, originário de um país que recusa receber mais migrantes, refugiados ou todos os nomes que se vão inventar para os milhões de apátridas e desgraçados que trepam as muralhas e se rasgam nos arames farpados. O horror sírio, ou iraquiano, não motivou uma negociação de fundo, uma cimeira capital, uma mesa-redonda, um diálogo, um princípio. Os americanos decidiram bombardear o ISIS, a Europa não decidiu nada para variar.

De repente, a Alemanha é a campeã dos migrantes e refugiados. O cinismo pessimista tende a ver nestes pronunciamentos mais propaganda do que pragmatismo. A Alemanha sabe que a crise grega a fez ficar mal aos olhos do mundo e tem a oportunidade histórica, a sra. Merkel tem-na, de se reabilitar. E de forçar o resto dos europeus. A Alemanha tem a única liderança forte numa Europa fraca e tem a capacidade industrial para absorver mão de obra barata porque ainda precisa dela.

Há anos que criámos os novos campos de concentração, onde concentrámos os africanos, que vieram antes dos sírios e afegãos e iraquianos, e ninguém se comoveu. Os cadáveres nas praias de Tarifa, os condenados a morrer no deserto, recambiados, não provocaram uma lágrima. A crise destas migrações existe há anos e é preciso perceber que os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegarem aqui. Para trás ficaram os condenados à morte, as vítimas de conflitos que ajudámos a provocar e das “primaveras” árabes que o jornalismo e as correntes sociais promoveram com sentimento. Ninguém se lembra de perguntar aos países ricos do Golfo, irmãos da mesma fé, quantos refugiados sírios receberam. O Qatar? Zero. Os Emirados, sobretudo os ricos Dubai e Abu Dhabi? Zero. A Arábia Saudita? Zero. O Kuwait? O Bahrain? Omã? Zero. E são estes sunitas que atiçam a guerra perante a nossa apatia. E por que razão a Europa e os Estados Unidos não os pressionam sabendo que manipulam a guerra para hegemonias e demonstrações regionais de força? Duas respostas. Venda de armas, um dos grandes negócios ocultos da recomposição dos mapas, e um negócio onde os estados legítimos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Alemanha, etc., têm fontes prodigiosas de financiamento. A Alemanha e os Estados Unidos bateram recordes de venda de armas no Golfo em 2014. E petróleo, a moeda de troca e o pão nosso de cada dia. Um dia, os drones que o Ocidente vende serão uma arma terrorista.

A situação do Médio Oriente é hoje a mais explosiva e volátil e com mais repercussões de sempre. Composta pela nova guerra fria com a Rússia de Putin. Os imparáveis fluxos migratórios vão forçar e reforçar partidos de extrema-direita, acender racismos, distorcer demografias, criar máfias, alimentar o extremismo e terrorismo islâmicos e as suas subculturas identitárias e criminais, mudar o mapa político da Europa e o espaço Schengen. Não vão apenas criar riqueza e contribuir para a economia europeia, como dizem os académicos. Uma integração séria custará biliões. É, de longe, o problema mais grave da Europa, acumulado com a anemia económica e com a condenação da população jovem a migrar dos países europeus em austeridade. Bater no coração e proclamar o amor ao próximo nada resolve na frente da batalha. É a retaguarda imoral da piedade virtual.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 31.08.15

"Observando la foto de decenas de náufragos libios ..." - Carlos Di Palma

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Carlos Di Palma  "Observando la foto de decenas de náufragos libios ..."

(o autor é uruguaio, licenciado em História e vive em Granada)

 

 

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   Observando la foto de decenas de náufragos libios flotando en el mar a punto de morir ahogados que ha publicado el diario El País de España, yo, Carlos Di Palma, asumo mi condición de profesor de Historia, para decir avergonzado que nuestra “civilización”, “cultura” o como quiera definirse, Occidental y Cristiana, pasará a la historia como la más cruel, sanguinaria y terrorista que jamás haya conocido la Humanidad. Eso será lo que enseñen mis colegas en sus clases dentro de unos cien, o a lo sumo 200 años en sus clases (si antes no nos cargamos el Mundo entero) No conozco culturas ,o imperios que hayan sobrevivido más de 2.000 años. Nosotros estamos en ese límite. Empezamos a molestar y matar a esta pobre gente ya en tiempos de las Cruzadas. No queríamos solo matar a los infieles, sino lo que buscábamos era robarles sus riquezas. Hubo pueblos como los chinos que hicieron murallas para no ser invadidos, pero nosotros teníamos el espíritu de invadir y saltar esas murallas .Los pueblos que construyen muros o murallas para separarse de otros pueblos son siempre necios, o simplemente no han aprendido nada de la Historia. Mandamos a gente como Marco Polo que era nada más que un espía para informar que había de robable en tan lejanas tierras. Lo mismo hicieron los exploradores ingleses en la India y en el África. Luego de sus informes, venían los ejércitos.

A principios del siglo XX se despertó la necesidad del petróleo, y ahí fuimos a robar el oro negro. Casta que se doblegaba, le perdonamos la vida y la llenamos de lujo como Arabia Saudí, y los que se rebelaron fueron exterminados. Últimamente hemos visto como hemos destruido sociedades como la afgana, la iraquí, la libia etc, etc, etc. Nos mostraban los noticieros a la hora de la cena como nuestra maravillosa tecnología bélica podía hacer volar una aldea, un barrio entero colocando una cámara de TV en la punta del misil, destruyendo familias enteras, rebaños, cultivos considerándolos simplemente “daños colaterales” Ahora tenemos los Drones, que matan por control remoto… ¿es esto terrorismo? No sé ustedes, pero a mí me produce mucho terror. No recordemos las bombas atómicas sobre Japón , ni las de napalm sobre Viet-Nam. Ellos no tienen “drones”, pero la desesperación los lleva a un arma aún más terrible y precisa: los “drones humanos”. Hemos destruido Libia que era un país estable y próspero. Era necesario eliminar al dictador Kadafi para “regalarles “ la democracia. Francia formó parte de la coalición y luego firmó contratos petroleros con las nuevas “autoridades” quedándose con el 40% de la producción. Pues que ahora el país de la “libertad, igualdad y fraternidad” se haga cargo del 40% de los refugiados. Una importante funcionaria de la ONU ha propuesto bombardear los puertos de salida de estas embarcaciones precarias, y da igual si los barcos están vacíos o llenos de gente. Los refugiados, los desplazados, los desesperados se están agolpando en nuestras fronteras. Será imposible frenarlos porque le hemos destruido todo y solo les queda lanzarse al mar. Estamos pagando las consecuencias de los estragos que hemos cometido para lograr “espacio vital”. Nuestra civilización es un barco que se hunde… pronto estaremos como estos desgraciados de la fotografía de la vergüenza.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 29.08.15

Os campos, novamente - António Guerreiro

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António Guerreiro  Os campos, novamente

 

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        Ípsilon, 28 de Agosto de 2015

   Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção. Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido. Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis. A imensa bibliografia sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, tanto os testemunhos dos sobreviventes como as descrições e análises historiográficas, mostram que uma biopolítica humanitária, como aquela que se tenta difundir na projecção pública dos campos actuais, também esteve presente nos campos de retenção nazis, antes da instauração dos campos de extermínio. A fé na história e na razão, como sabemos, é a última religião de doutos muito imprudentes.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 28.08.15

A Europa só tem um problema: os seus bancos! - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  A Europa só tem um problema: os seus bancos!

 

 

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   Refugiados? Um caso de polícia. As coisas são como são. Prioridades de atuação traduzem opções de vida, carácter e moral. Política.

Em 2011, a Europa teve de enfrentar a possibilidade de falências dos seus bancos, os seus especuladores estavam aflitos. A União Europeia sobressaltou-se e tomou medidas de emergência, nomeando um ditador para as finanças: Schauble. Estabeleceu um programa: austeridade para os povos e transferência de riqueza pública para os privados. Montou uma Inspeção Geral de Finanças: a troika, com um banco europeu, um cônsul da União e uma entidade de controle mundial, o FMI.

O assunto das finanças, da manutenção do sistema de especulação, da transferência de riqueza era o problema sério da União Europeia e tinha de ser tratado pelos melhores especialistas e com os melhores remédios. Schauble passou a ser o senhor Europa, acolitado por uma corte, o Eurogrupo.

A União Europeia concentrou os seus meios no objectivo principal: finanças.

Em 2015, a Europa enfrenta a maior onda de refugiados desde a IIGM. Em parte pela política de extracção de matérias primas em bruto de África e do Médio Oriente que praticou desde a Conferência de Berlim, no século XIX, em parte pelos ventos que semeou desde a invasão americana do Iraque, já no século XXI. Os resultados das brilhantes acções no Iraque, na Síria, na Líbia surgem agora nas fronteiras da Europa. Os Estados Unidos, entretanto, tiraram o seu cavalinho da chuva. Para qualquer pessoa de algum senso trata-se de um complexo e gigantesco processo político, que tem origem no modo como o Ocidente se relaciona com outras áreas do planeta, que afeta a segurança presente e futura da Europa.

Para a União Europeia, estas massas humanas são números, números de afogados, número de resgatados, número de migrantes, divididos por regiões de origem. São insetos em movimento. A questão é grave? Parece que não. A mesma União Europeia que nomeou o senhor Schauble ditador das finanças tem tratado o assunto como um caso de ordem pública e assistência social. Umas reuniões dos ministros das polícias de França e de Inglaterra, em Calais, umas reuniões com os ministros das polícias da Grécia e de Itália. Umas barreiras de protecção. Uns muros. Uns ouriços de arame farpado. Umas bastonadas e umas granadas de fumos. Umas patrulhas no Mediterrâneo.

A União Europeia criou algum Eurogrupo de ministros do interior, ou dos negócios estrangeiros, ou da defesa? Os chefes de governo já reuniram para tratar do assunto? Talvez lá para Novembro. A União Europeia já chamou os Estados Unidos para assumirem a parte da responsabilidade que lhes cabe nesta tragédia? Há algum Schauble nomeado para os refugiados? Há algum Schauble nomeado para enfrentar a ameaça do ISIS? Entretanto, a NATO, que reúne a força militar dos Estados Unidos e da Europa, está hirta, atenta e vigilante, em alerta, de olhos no inimigo russo! Ou faz exercícios em Portugal, que tem bom clima e fica longe dos conflitos. Cuidado com os russos!

 

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por Augusta Clara às 08:00



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