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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 23.05.19

CONVITE

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Fios enlaçados de realidade e sonho na fragilidade de uma textura
que a morte acaba por romper. Vivências dolorosas, dramas
sentidos, sonhos compreendidos, desilusões partilhadas.
Este livro não é mais do que uma mão cheia dessas realidades
semeadas nas suas páginas, onde muitas vidas se misturam,
sem que as personagens sê identifiquem. Cada uma
delas é apenas uma semente que a liga à realidade da emigração
de tantas famílias portuguesas nos anos sessenta. Dessas
sementes nasce uma seara de gente regada pelo sonho, onde
cresce uma flor rara. Flor rara que é também ela o símbolo da
minha acção educativa e da minha relação sentimental com
muitas crianças da aldeia que me viu nascer.
Foi essa vivência tão próxima guer no meu país quer nos países
de emigracão, que motivou a escrita deste livro. Pintado a
preto e branco, as corês da verdade, pouco tem de fantasía.
Testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia
ou no brilho ofuscante da cidade e seus boulevards, é também
ele uma homenagem à luta pelo sonho que pode levar à conquista
da mais nobre ambição do homem, a arte., EVA CRUZ

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por Augusta Clara às 19:04

Quinta-feira, 23.05.19

"Educar é um acto de amor" - Eva Cruz

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Eva Cruz  "Educar é um acto de amor"

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labor.pt, 23 de Maio de 2019

Entrevista conduzida por Gisella Nunes

 

Não há dúvida que o ensino é um dos grandes amores da vida de Eva Cruz. Que o digam os milhares de alunos, a maioria de S. João da Madeira, que lhe passaram pelas mãos. Esta professora de Inglês e Alemão orgulha-se de, em 36 anos de profissão, nunca ter sido alvo de má educação nem de ter marcado uma falta disciplinar

Agora com 77 anos e já aposentada há quase 20, como se sente?

Não tenho razões de queixa de saúde nem tampouco de vida. Acho que levei uma vida bem preenchida, uma vida de que não me arrependo absolutamente de nada.

Resido em S. João da Madeira (SJM), mas vou várias vezes para a nossa casa nas Figueiras [Vale de Cambra], um sítio realmente magnífico onde ouço o murmúrio do rio. É um refúgio onde realmente gosto muito de estar, mesmo no inverno.

Estou lá à lareira, a maior parte das vezes, com alguns amigos do meu tempo de criança, pessoas que têm muito a ver comigo afetivamente. Tenho uma amiga que é muito engraçada, com quem passo as tardes, tomo chá.Lá chamam-me Evinha, sabe?

“Tenho um irmão de ouro”

Sempre quis ser professora?

A minha paixão foi ser sempre professora. Já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava os alunos, contrariando o meu pai, que gostava muito que fosse advogada.

Era boa aluna em tudo menos no desenho. Tive sempre pouco jeito para desenho, assim como para a música. A minha mãe bem queria que aprendesse música e ainda cheguei a andar no seminário, com os jesuítas, a aprender a tocar órgão, para tocar nas missas. Mas era para fazer mesmo música a martelo, não dava.

Sabe que naquele tempo tirávamos um curso para ter uma vida melhor. Os meus pais não tinham formação académica, mas mandaram a mim e ao meu irmão estudar. E fizeram sacrifícios nesse sentido, porque o curso do meu irmão [Medicina] era caríssimo. E o meu também foi um curso caro, tirado em Coimbra longe de casa.

Antes de ir para Coimbra, fui para o Liceu CarolinaMichaëlis, no Porto, cidade onde o meu irmão já estava a estudar. E a minha mãe, na altura, alugou uma casa para nós os dois, com uma empregada, porque ficava mais barato.

Eu e o Adão fomos sempre muito unidos. Toda a gente se admira da nossa amizade. Há uma cumplicidade muito grande entre nós. Posso dizer que tenho um irmão de ouro.

Como é que uma adolescente de uma aldeia de Vale de Cambra deixa tudo para trás e vai para o Porto e, ainda por cima, para um liceu como o CarolinaMichaëlis?

Foi difícil! Ainda me lembro da minha primeira aula de Filosofia, com uma professora que tinha o cabelo “tipo regueifa” e umas unhas muito compridas, pintadas de vermelho, a dizer, com as mãos viradas para mim, “porque o homem é um microcosmo dentro do macrocosmo” [risos].

O CarolinaMichaëlis era um liceu de meninas de bem. A maioria era da Foz. A única que vinha do campo era eu e depois havia mais três que vinham da beira-mar, da Póvoa.

Mas isso não foi obstáculo. Integrei-me muito bem e fui sempre boa aluna.

“Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]”

Mas, na altura, já queria seguir línguas?

Bem… Gostava mais de ciências do que línguas. Mas como as ciências tinham desenho escolhi línguas germânicas. Além disso, houve um senhor da Oliva, que era economista, que disse ao meu irmão que “o melhor curso para a tua irmãzita era germânicas, porque vem para aqui uma senhora formada em germânicas que ganha quanto quer”.

E não se arrepende?

Não, não me arrependo. Gostava de ter tirado um curso de ciências, mas não me arrependo. Porque a língua também é uma ciência. No caso do Alemão, é uma língua de estrutura superior, rígida, muito difícil, mas muito racional, de que gosto muito.

Acabei até por me dedicar mais ao Alemão do que ao Inglês. Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]. Depois que saí, desapareceu o Alemão da escola. Acho que durou apenas mais um ou dois anos.

Ao ir estudar para Coimbra, como foi o “corte umbilical” com o seu irmão?

Não foi fácil. Imagine o que era uma miúda com 17 anos, naquele tempo, ir para Coimbra. Só vinha de três em três meses a casa.  As estradas eram terríveis. De Coimbra a Vale de Cambra demorava-se quase um dia. Naquelas curvas e contracurvas de Águeda vomitava quase sempre.

Mas, tirando isso, Coimbra foi um fascínio, de facto. Adorei Coimbra. Gostei mais de Coimbra do que do Porto.

“Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo”

Tem algum professor de quem ainda hoje se recorda?

Tenho pena, mas não. Não tive um professor que me marcasse. Não sei, talvez pela rigidez que encontrei no ensino da “velha escola”. Na primária, apanhei uma vez dois “bolos” porque dei quatro erros e só podia dar dois. Mas foram dados devagarinho, de forma diferente dos que eram dados a outros meninos.

Já em Coimbra, gostei, por acaso, de um professor de Fonética, mas também não foi assim uma coisa que me marcasse por aí além.

Mas, curiosamente, lembro-me de muitos alunos. Até tenho uma saudade e uma relação afetiva muito grande com todos eles. Há alunos que me marcaram de uma maneira excecional. No entanto, só dei dois 20 na minha vida, um a Inglês e o outro a Alemão.

Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo.  Claro que havia sempre brejeirices e marotices da parte deles. Mas nunca tive uma falta de educação de um aluno meu. Pelo contrário. Tive sempre manifestações de muito carinho.

Acabou o curso com que idade?

Com 22 anos, idade com que vim para a Molaflex, para S. João da Madeira.

Veio fazer o quê para a Molaflex?

Estava na altura a fazer a tese e fui para a Molaflex como tradutora de Alemão, com o Sr. Rui Moreira, pai do atual presidente da câmara do Porto, e com o engenheiro Mário Moreira, considerado uma das melhores cabeças que tinham passado pela FEUP.

Já na Molaflex, fui mandada para a Suíça alemã, com três operários. Fomos para uma fábrica de fazer molas e eu fui para o meio dos operários, sentadinha numa cadeira a traduzir a língua para os nossos trabalhadores. Ganhei ali relações muito interessantes. Foi um período muito interessante.

Entretanto, acabei a tese e concorri, sabendo que era muito difícil a colocação nos liceus, porque o número de alunos era reduzido. Havia poucos liceus. Concorri praticamente para todo o Norte do país e fui parar a Braga onde trabalhei durante cinco anos.

Fui para Braga ganhar três contos e setecentos e cinquenta escudos como professora, declinando um convite do engenheiro Mário Moreira, que estava na Siderurgia Nacional, que me queria como secretária. Davam-me na altura quatro contos e quinhentos para ficar aqui.

Fui ganhar muito menos e para longe de casa, mas era o ensino que queria. Entretanto veio a “Reforma Veiga Simão” que abriu as portas ao estágio. Mas para isso tinha de ir fazer as chamadas pedagógicas a Coimbra. E fui. Nesse ano ia ter o meu filho em maio.

Se voltasse atrás no tempo voltaria a ser professora?

Sem dúvida!

Como é que veio viver para SJM?

Quem me trouxe para SJM foi o meu marido que era engenheiro e veio trabalhar para a Quimigal. Ele era de Vizela. Quando fui para Braga, apaixonei-me por lá [risos].

Casámos e viemos viver para SJM. Tinha 27 anos, na altura, e o meu irmão, que dava consultas no Santo António [Hospital] e em Vale de Cambra, vivia também neste prédio, no andar de baixo.

Entretanto, já com um filho, fui fazer o estágio para o Carolina Michaëlis, com uma orientadora “de gancho”. Tinha aulas até às 18h00 e tinha de sair às seis da manhã, porque era a estrada velha. Não havia autoestradas.

Entretanto, no final do estágio, efetivou em SJM.

Sim, foi uma sorte. Efetivei em SJM, numa secção do Liceu de Vila Nova de Gaia que abriu aqui. Inicialmente, no Palácio dos Condes. Depois, num edifício para os lados do campo de futebol, com condições muito más. Depois fui para o Colégio Castilho, em frente à escola Serafim Leite.

A escola que é hoje João da Silva Correia foi designada Escola n.º 2, a seguir ao 25 de Abril. Mas eu já não cheguei a dar aulas onde ela é hoje [Rua da Mourisca].

Tem noção que ao ser professora mudou vidas?

Sim. Acho que sim. Por acaso, ainda há dias, tive uma aluna que se abraçou a mim a chorar e a dizer exatamente isso. Cheguei a fazer cursos pós-laborais porque sentia que para evitar determinados “desvios” tinha de os motivar para outros campos. As próprias viagens realizadas para o estrangeiro a custo zero, por mim e pela Dr.ª Clara Reis [antiga colega de profissão e hoje uma grande amiga], foram precisamente para isso. Eu e a Clara fomos muito cúmplices neste trabalho de projeto, de motivação dos alunos.

Ou seja, a Eva não se limitava a dar o programa curricular. Não ensinava apenas Inglês e Alemão, mas também princípios e valores?

Sim. Acho que sim. Embora tivesse de cumprir o programa, nunca abdiquei do meu papel de educadora. E, sabe, julgo que deixei marcas e tenho muito orgulho nisso. Continuo a pensar que educar é um ato de amor.

“Orgulho-me de ter contribuído muito para a ‘nova escola’”

A escola do seu tempo é muito diferente da escola de agora?

A “velha escola”, antes do 25 de Abril, era uma escola muito diferente da escola que foi criada depois [da Revolução de 74]. Orgulho-me de ter contribuído muito para a Nova Escola.

Orgulho-me mesmo, porque fui sempre muito ativista. Sempre me interessei por todas as reformas. Sempre fui muito empenhada para que houvesse uma escola nova. Uma escola em que acreditava e que acho que ajudei a construir.

Ultimamente, de há uns anos para cá, a Escola foi perdendo muitas regalias conquistadas no Pós 25 de Abril. Também reconheço que é muito provável que houve muito atropelo, muita coisa que se calhar não foi feita devidamente nem com o tempo devido.

Sim, perdeu-se muito nestes últimos tempos. Mas, apesar de tudo, a escola que temos hoje nada tem a ver com a escola de antes do 25 de Abril. É muito melhor!

Espero que professores, alunos, toda a gente que está ligada ao ensino, lutem para que estas conquistas de Abril não se percam mais. Se bem que hoje a profissão de professor está muito pouco dignificada, está mesmo desconsiderada, quando devia ser a profissão mais digna. Sim, porque pelas nossas mãos passa tudo. Passam, inclusive, os próprios governantes da nação.

Ainda há dias, fui à João da Silva Correia, porque queriam que fosse lá uma pessoa de sucesso que tivesse passado por aquela escola falar com alunos do 11.º ano. Achei piada por me acharem uma pessoa de sucesso.

Mas, sim, disse-lhes que se uma pessoa de sucesso é uma pessoa que realmente fez aquilo que fez, que gostou daquilo que fez e que não se arrepende daquilo que fez então eu era uma pessoa de sucesso.

Na ocasião, perguntei qual dos alunos que estavam no anfiteatro queria ser professor e não houve um único que levantasse o dedo, o que me deixou a pensar, sou sincera.

E isso deve-se a quê?

Não sei ao certo. Mas vejo tanta gente desmotivada no ensino que se tivesse oportunidade de se pôr a andar fazia-o.

Para se ser professor, para além do saber e do sentido pedagógico, tem de se ter aquilo a que chamo “arte”. Algo que não sei explicar. Tem de se ter uma empatia imediata com os alunos. Fui orientadora de estágio e olhe que “apanhei” muitos estagiários profissionais, competentes, mas não houve muitos em quem tivesse notasse a tal “arte”.

Se lecionasse hoje continuaria a não pôr alunos fora da sala de aula?

Não gosto muito de fazer afirmações sem vivências. Tenho ouvido queixas de gente que considero muito e que acho que devem ser boas profissionais que me impressionam. Mas olhe que no meu tempo também havia alunos que cuspiam na cara dos professores e que chamavam “filho desta” e “filho daquela” nos corredores. A seguir ao 25 de Abril não foi nada fácil.

A mim, felizmente, nunca me aconteceu tal coisa. Como lhe disse, nunca tive uma falta de respeito de um aluno nem tampouco atrevimento. Nunca pus um aluno fora da porta.

Chegada a altura da aposentação, a sua vida mudou?

Mudou. Passei a ter mais liberdade, a sair mais com o meu marido. Foi um bom período da nossa vida. Como os filhos já estavam formados, tínhamos mais tempo um para o outro, mas, entretanto, tive de passar a cuidar da minha mãe. Cuidei dela quase 20 anos, até ela falecer com 101 anos.

Depois de me aposentar, também passei a ir mais para Vale de Cambra, onde continuei com a minha função pedagógica junto dos miúdos da minha aldeia.

Quantos livros tem publicados?

Este [“O Leprechaun e a Bailarina”] é o meu sexto livro. O primeiro – “Era uma vez, Future Kids” – foi publicado em abril de 2004 e é sobre a minha infância.

“Aurora Adormecida”, o meu segundo livro, retrata o pós-guerra, a exploração do volfrâmio nas minas de Arouca, pedaços da vida da minha mãe, Aurora. Além destes, escrevi também “Era uma vez em Outubro” (2010), “Corconte” (2012), “Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)] e agora “O Leprechaun e a Bailarina” (2019).Embora não sejam escritos à toa nem de ânimo leve, nos meus livros, não tenho preocupação histórica. Aborrece-me pesquisar. Há sempre um fundo histórico, mas não há valor documental.

Mas começou a escrever antes de se reformar?

Sim. Sempre gostei de escrever. Quando fui para o CarolinaMichaëlis a professora de Português mandou fazer uma redação sobre o primeiro dia de aulas. Entregámos as redações e passadas algumas aulas a professora perguntou quem era a menina n.º 2 [naquele tempo eram chamadas pelo número em vez de pelo nome] e disse-me que tinha esperança que viesse a ser alguém na vida.

Leu a minha redação em voz alta e chamou a atenção para o título que tinha dado [“Esse primeiro de outubro”]. Ela achou piada ao demonstrativo.

Eva Cruz lança sexto livro esta sexta-feira nos Paços da Cultura”, com o apoio do jornal labor

Amanhã lança o seu sexto livro, “O Leprechaun e a Bailarina”

Olhe, comecei-o a escrever ainda o meu marido era vivo, há dois anos. Ele ainda chegou a ler 10 capítulos, porque, embora fosse engenheiro, tinha sentido crítico e a sua opinião era muito importante para mim. Aliás, faço-lhe uma dedicatória neste livro.

Ele gostava do que eu escrevia, mas estava sempre a dizer-me que devia puxar mais pela história porque as pessoas gostam muito de enredo. Só que acho que nunca tive nem tenho espírito de romancista.

“O Leprechaun e a Bailarina”é uma história de amor, uma história de sucesso de emigração que tem como pano de fundo a emigração dos anos 60. É um testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia ou nos boulevards da grande cidade.

Funcionou, para mim, como uma catarse. O falecimento do meu marido foi o período mais negro da minha vida. E eu agarrei-me a isto. Fui escrevendo, escrevendo, escrevendo, porque escrever era uma forma de me apaziguar, de controlar a saudade.

Mas não fazia conta de o publicar?

Não. Foi a Dr.ª Graça, da Biblioteca Municipal, uma das grandes motivadoras para que o publicasse. Ela e o marido, o Dr. Pedro, são os dois causadores da publicação. “O Leprechaun e a Bailarina” conta com a edição do jornal labor.

E agora está motivada?

Sim, estou. Dei-o, inclusive, já a ler às minhas quatro apresentadoras da sessão de amanhã, que, curiosamente, também apresentaram o meu primeiro livro: professoras Carmina, Clara Reis, Isilda e Nelly.

Obra é “uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos”

Qual a mensagem deste seu livro?

Este livro pode ser considerado uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos.

A “bailarina” é uma menina que batizei [a madrinha e narradora] a quem eu dei em criança um “Leprechaun” [figura mitológica do folclore da Irlanda], que a acompanhou pela vida toda. Ela agarrava-se ao duende e à bênção da madrinha convencida que eram eles que lhe davam força para perseguir o sonho. Por vezes, uma palavra certa pode ser determinante. Pode alimentar o sonho. Cá está o meu espírito otimista a falar mais alto.

Acredita que o “Leprechaun”dá mesmo sorte?

O meu primeiro “Leprechaun” foi-me oferecido por uma amiga irlandesa há muitos anos. E agora no Natal do ano passado a Clara Reis deu-me outro, longe de imaginar que ia publicar um livro intitulado “O Leprechaun e a Bailarina” [risos]. Coincidências ou talvez não…

Mas respondendo à sua pergunta, as crenças e superstições valem o que valem. Com esta “bailarina”, cujos “Leprechaun” e a bênção da madrinha sempre a protegeram pela vida fora, quero simbolizar todos os meninos da aldeia que tirei do insucesso. Ensinava-lhes tudo o que sabia. Fui espalhando essa influência pedagógica, afetiva.

Tem outro livro na forja?

Tenho muitas ideias. Tenho muita coisa escrita, para aí dispersa, na matriz da poesia. Mas acho que este é mesmo o meu último livro.

 

Eva Cruz

Eva Cruz nasceu em Vale de Cambra nas Figueiras – um “lugarzinho mágico” perto do Pinheiro Manso, quem vai para Oliveira de Azeméis (OAz) – a 6 de janeiro de 1942, precisamente, no Dia de Reis.  Daí a sua mãe, Aurora, lhe dizer que naquele dia tinha nascido uma “rainha”. A família na altura não era numerosa, sendo composta apenas pelos pais e um irmão, Adão Cruz, com quem teve sempre uma cumplicidade muito grande.

“Evinha”, como ainda lhe chamam na sua aldeia, fez a quarta classe na Escola Primária dos 2 e, depois, foi para o Colégio de Oliveira de Azeméis, onde o irmão, cinco anos mais velho, já andava. Em OAz concluiu o último ano de liceu, seguindo-se uma nova fase da vida no Porto, uma cidade grande que nada tinha a ver com o “paraíso” onde vivia. Na “Invicta” frequentou o Liceu CarolinaMichaëlis, “considerado na altura o liceu mais difícil do país”. Entretanto, prosseguiu os estudos em Coimbra tendo em vista o ensino de Inglês e Alemão.

O pai gostava que fosse advogada, mas Eva Cruz que, “já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava alunos”, sempre quis ser professora. E, de facto, foi professora durante 36 anos, a maior parte do tempo na Escola João da Silva Correia.

Após a aposentação em 2001, dedicou-se mais a sério à escrita. Já tem publicados cinco livros e tem um outro que está a poucas horas de “ver a luz do dia”. Com edição do jornal labor, “O Leprechaun e a Bailarina” é lançado amanhã, dia 24, pelas 21h30, nos Paços da Cultura.

 

Livros de Eva Cruz

 “Era uma vez, Future Kids” (2004)

“Aurora Adormecida” (2006)

“Era uma vez em Outubro” (2010)

“Corconte” (2012)

“Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)]

“O Leprechaun e a Bailarina” (2019)

 

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por Augusta Clara às 16:44

Sexta-feira, 29.09.17

O pássaro de todos os tempos - Eva Cruz

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Eva Cruz  O pássaro de todos os tempos

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(Bridgette Guerzon Mills)

 

Arrefecem os dias nas tardes pardas e nas manhãs claras. O sol vai

baixo no céu, perdendo o brilho sob um véu de neblina com reflexos

de púrpura, lá para os lados do mar. A brisa da tarde faz trocar a

solidão da mesa e da cadeira no cantinho do pátio pelo aconchego da

lareira.

 

Os pássaros ainda por lá andam à solta, em pios desgarrados de

partida e em jeito de despedida das árvores e dos restos da colheita

 

No topo de um abeto muito alto, tão alto que quase toca o céu, há

sempre um passarinho que fica, saudoso como eu. O pássaro de todos

os tempos. Nunca envelhece, nunca morre e canta sempre a canção

da vida, sem  chegada nem partida.

 

No Outono, antes que a Natureza complete mais um ciclo, o

passarinho, sempre criança como todas as crianças, pede muito à

Primavera que volte. Vem querido Maio e traz de novo rouxinóis e

lindos cucos. Acima de tudo, traz muitas violetazinhas contigo! “ O

komm, lieber Mai, wir kinder, wir bitten gar zu sehr! O komm und

bring´vor allem uns viele Veilchen mit! Bring´auch viel Nachtigallen

und schöne Kuckucks mit!“

 

E a música suave de Mozart desce do bico esguio do abeto, enche o

pátio de nostalgia, acompanha o cantar da água da mina, e por ali

fica, a amansar a saudade, até que volte a Primavera enquanto a

eternidade deixar. 

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 24.08.17

O álbum a preto e branco - Eva Cruz

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Eva Cruz  O álbum a preto e branco

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(Gracinda Candeias)

 

Abre-se um leve sorriso fora do tempo

no cair da tarde de um dia sem nome

entre as folhas amarelecidas

de um velho álbum a preto e branco.

De retrato em retrato

na brancura do  vestido

na grinalda de um véu

nos bagos de arroz

nas pétalas das rosas esquecidas

renasce um caudal de sonhos

por entre as folhas amarelecidas.

No álbum a preto e branco

caem lágrimas perdidas

e na memória longínqua

só resta o sonho esquecido

da cor de tantas vidas.

 

23 de Agosto

 

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por Augusta Clara às 18:56

Terça-feira, 04.07.17

Qu'é da Santa Bárbara?! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Qu'é da Santa Bárbara?!

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(Camille Pissarro)

 

 

A conversa fluía, entrelaçada como as cerejas.

- Morreu Sicrano, Beltrano já se divorciou, ainda há dois dias cum casamento de arromba para dar em nada, este anda metido co aquela, aquela anda metida co este...

Por tristes razões, era difícil o pensamento concentrar-se, e tudo  soava a uma ladainha desafinada. Apenas quando foi interpelada, acordou do torpor mental.

- Você sabe o que aconteceu à Santa Bárbara?

A capela fora sempre o pequeno tesouro da aldeia. O sino só  repicava a baptizado e tinha um som tão fresco e alegre que sabia sempre a festa. Caiada de branco, com uma torre em bico a desenhar-se na serra negra, vestia-se de sol por dentro e por fora, de tão arejada que era. Granito e azulejos enriqueciam as paredes, e a madeira nobre entrelaçava-se no varandim do coro, do púlpito e na grade que separava o lugar das mulheres do lugar dos homens. Lindos altares, muito sóbrios, com belas imagens provavelmente valiosas, airosas, bem vestidas e bem talhadas. Tirando o Sr. dos Passos, vestido de roxo, coroado de espinhos, a sangrar por todos os lados, metendo medo a quem dele se abeirasse, todas as outras santas e santos tinham um ar de felicidade, apesar de estarem para ali especados, sempre de pé no seu recanto. Nunca mostravam caras de enfado ou cansaço, bem pelo contrário, tinham um rosto sorridente e sereno, caras de santidade.

- No fim da missa, o Sr. Prior acenou-me e fiquei aflita. O que é que ele me quererá?

Ela era a principal zeladora da capela e a mais responsável por tudo o que lá dentro se encontrava.

- Qu´é da Santa Bárbara? Você sabe onde está a Santa Bárbara?!

- Eu não, Sr. Prior, ainda na semana passada lhe limpei o pó.

Qual o seu espanto, quando olhou para o altar e viu o lugar da santa, vazio!

- Mas esteja descansado, Sr. Prior, que eu vou descobrir quem a levou. E andei, andei... fui a missas a outras capelas da freguesia, a capelas de outras instituições, e que Deus me perdoe, se não prestei atenção a nada. Os meus olhos e pensamento estavam unicamente concentrados na Santa Bárbara. E, sabe que a descobri! Vou-lhe dizer onde é que ela estava, mas é segredo. Na missa seguinte, esperei pelo Sr. Prior e disse-lhe: Já sei onde está a Santa Bárbara. Está em tal sítio.

O prior percebeu logo o que se passava. A Santa era muito valiosa. Fez muitos milagres mas não foi capaz de se livrar do rapto. Pobre santa! Foi resgatada e voltou para a capela, para o seu devido lugar.

Quando o ribombar do trovão faz tremer os céus, e o relâmpago fulmina a serra negra de lés-a-lés, lá continua a Santa Bárbara, na serenidade do altar, a fazer milagres, a desterrar a trovoada para monte maninho, onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira, nem bafinho de menino.

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por Augusta Clara às 16:31

Segunda-feira, 26.06.17

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento - Eva Cruz

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Eva Cruz  Sento-me ali mesmo à beira do pensamento

 

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(A. Gadeh)

 

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

A água cansada e frouxa vai correndo devagar, ensopando com o tempo o fundo do rego feito lama ou cama onde crescem ervas e lírios que floriram em Abril.

As formosas flores partiram e ficaram as hastes saudosas. Vieram os lilases e as rosas. Uma a uma caindo, deixaram depenados os rancos esgalhados.

E as hidrângeas enchem-se de flores de todas as cores. Cobrem o campo e o pensamento que por tormento não deixa reter o momento.

O tempo não dá refrigério na contenda. "Ai que prazer não cumprir um dever!"

A natureza é livre de nascer, criar e morrer.

No calor intenso da batalha , floresce a vida em plenitude, e a quietude de um momento trai a liberdade e faz da vida um tormento.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Tudo o que nasce morre. Mais tarde, mais cedo, à frente, atrás, tanto faz.

Se morrer fosse renascer, tinha descanso o guerreiro.

E a batalha perdida nunca seria vencida.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Dou à liberdade todas as asas para voar. A natureza tem muito a ensinar.

Partir, ficar... são apenas pontos finais nas frases concluídas.

E nada mais.

Tudo faz sentido e nada também faz.

Só que a vida anda para a frente e nunca para trás.

 

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento.

E volto a ver os lírios, as rosas e os lilases.

Mas é tudo tão fugaz que o olhar não é capaz de reter a cor.

A cor do amor.

Nem por um momento.

Se morrer fosse viver, tudo havia de renascer ainda que em pensamento.

 

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por Augusta Clara às 17:26

Terça-feira, 06.06.17

Quem deu a mão a quem? - Eva Cruz

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Eva Cruz  Quem deu a mão a quem?

 

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(Fotografia de Adão Cruz)

 

   A tarde caía lenta sob um sol coado de nuvens brancas. Uma tarde de fins de Maio com  algum orvalho  temporão a anunciar o fim do dia.

Alguns pássaros voavam de copa em copa. Outros mergulhavam certeiros no ventre  da hera e dos arbustos. Tempo de ninhos e ovos a chocar vida nova, de tenros cachos nas videiras.

No convívio habitual do fim do dia,  na mesa do pátio junto ao tanque, os amigos de sempre saboreavam a merenda  improvisada. A conversa fluía à medida do cantar da água da mina que corria. Arrefecia.

Entre a ramada e a varanda nascera poesia. A delgada leveza de um rebento de glicínia da varanda enroscava-se no talo comprido de uma videira da ramada. Tudo isto sobre o vazio nu da largura do pátio, através do ar, no vazio do nada.

Tão distanciadas, sem mão humana de permeio, assim entrelaçadas,  quem terá dado a mão a quem? Como foi possível este abraço, este nó que nenhuma força desatou?

Artes mágicas da natureza!

Algum serafim ou querubim ali passara. Um duende, um gnomo, qualquer força de moderna mitologia, sabe-se lá. E o pensamento abriu as asas e em toda a liberdade voou.

Terá sido o vento?

O vento tem coração?

O vento tem asas de poesia e sentimento?

Sim. Talvez o vento. Só pode ter sido a força do vento ou apenas uma brisa leve que tenha levado àquela união impossível, de amor tão natural.

Na  sua complexa simplicidade, a natureza é misteriosamente sábia. É um poço sem fundo e no silêncio mais profundo, no silêncio do absoluto, ensina a pensar. Basta ver e escutar.

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por Augusta Clara às 17:17

Segunda-feira, 29.05.17

Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio - Eva Cruz

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Eva Cruz  Há setenta e nove anos a vinte e nove de Maio

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(Gustav Klimt)

 

 

   Nasceu uma criança. Havia de crescer, fazer-se menino , jogar à bola, decorar o caminho da escola.

De combóio chegava ao destino, esse menino ainda sem rumo, crescendo nos olhos e no  sonho dos pais como futuro moldado  de amor e trabalho duro. 

Partiu um dia para mais longe, para mais perto do futuro. Chamaram-no as águas do Mondego, rio de lágrimas e fado, de trovas, baladas  e capas negras. Cidade do amor, da nostalgia e da saudade, de serenatas à luz da lua espreitando o mundo na estreiteza da rua.

Conheceu a força do amor e com ele encheu o peito da alegria e da dor que a vida impõe a quem ama. Nem tudo na vida são rosas, mas eram mimosas as palavras e as mãos entrelaçadas.

O sonho fez-se vida pela vida fora e deu vida  a outros sonhos  meninos que cresceram à medida do amor.

Hoje, na dor de um sonho perdido, apenas ficou inteiro o amor que deixaste comigo.

  

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por Augusta Clara às 16:03

Segunda-feira, 15.05.17

São de lágrimas os olhos das andorinhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  São de lágrimas os olhos das andorinhas

 

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(Augusto Peixoto)

 

 

Acordo com a luz da Primavera

foram-se os cheiros e as cores

a alegria do verde e o azul do céu.

Uma brisa suave leva-me  onde amei

dentro de um sonho que perdeu o futuro.

Não me dou com o malvado do tempo

que nada corrige e a nada obedece.

Fico à espera da manhã azul

e o  tempo adormece.

Os pássaros enamorados

não sabem que o Outono cinzento volta.

Julgam-se donos do mundo.

Tenho vontade de lhes contar a verdade.

Que vivam na ilusão! A Primavera volta sempre, ou talvez não...

Acordo com a luz da Primavera, mas ela vem despida de

azul e são de lágrimas os olhos das andorinhas.  

 

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por Augusta Clara às 15:57

Quinta-feira, 11.05.17

Peregrina da saudade - Eva Cruz

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Eva Cruz  Peregrina da saudade

 

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(Tara Turner, "The same but different")

 

 

   A estrada é de maias amarelas. Solitário, o asfalto cinzento guia os olhos por detrás das lágrimas. Os montes caem em socalcos desdobrando a verdura sob o brilho do sol, coado por núvens brancas a delir-se. As maias são o tempo passado  que há-de voltar. O tempo, tal como o rio, não é de parar.

Os plátanos soltam as plumas e no rio de sombras e brumas  cai o sol a brilhar. Para tràs ficaram as maias amarelas e parte da vida com elas. O Maio há-de voltar de novo,  a florir, quer deseje cá estar, quer deseje  partir.

O rio, negro e fundo, corre manso e frágil sob as águas trémulas, cobertas de algodão branco, como manto de neve no calor da tarde.  Nem o  algodão branco, nem os pássaros vestidos de céu devolvem ao rio da vida  o brilho que a vida perdeu.

Peregrina da saudade, percorro os mesmos caminhos e atravesso as mesmas pontes, segurando-te a mão. Lá em baixo, o rio  reflecte o mesmo céu, mas as  aves nada me dizem, não sabem de ti.

Oiço apenas o eco dentro de mim, o eco da serenidade e da partilha , para o bem e para o mal, naquele cantinho enfeitado com o meu chá e o teu jornal.

Escrevo-te da varandinha do quarto para te dizer que  os plátanos estão enormes. São dois, entrelaçados, abraçando o céu. Como nós, se a noite não fosse vazia e a mão estendida não fosse apenas a coberta branca e macia. 

No banco, à beira do rio, o cantar das rãs rompe a saudade. Tenho tanta inveja do rio, sempre vivo, sem idade!

Peço às estrelas que escrevam no céu, ao lado  de Corconte, a lenda do Palácio cor-de-rosa, que no silêncio daquela tarde, reflectido nas águas do rio, retoma lentamente e  para sempre a cor da pedra.

 

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por Augusta Clara às 17:43



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