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Jardim das Delícias


Terça-feira, 23.02.21

Recordar Zeca Afonso - Eva Cruz

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Eva Cruz  Recordar Zeca Afonso

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(Dorindo Carvalho)

   Faz anos a 23 de Fevereiro que morreu Zeca Afonso. Surgiu na vida académica de Coimbra duas gerações antes da minha passagem por lá. No entanto, tive a sorte de o ouvir cantar ao vivo, ainda novo, numa serenata monumental no largo da Sé Velha, junto à casa onde viveu. Lá está o azulejo a lembrar: “ Nesta casa viveu o trovador da liberdade José Afonso (o Zeca)”. Juntamente com ele cantou Luiz Goes (Luís Góis), o inesquecível trovador de Coimbra, com a sua inconfundível voz de barítono.
 
Há momentos que a memória nunca apaga, como o último concerto do Zeca no Coliseu do Porto, quando as forças já lhe faltavam, e se viu obrigado a sentar-se num banquinho à boca de cena. Invadiu-nos a tristeza, mas todos cantámos. A última memória viva do Zeca para quem lá esteve. Inesquecível foi também o seu funeral, milhares e milhares de pessoas acompanhando a urna envolvida num pano vermelho sem símbolos como pedira, levada pelos amigos cantores até à campa rasa.
 
O Zeca, ainda no Liceu, já era conhecido pelo “bicho que canta bem”. “Bicho” era o nome dado aos estudantes do Liceu que também estavam sujeitos à praxe. O cantar bem livrou-o das maldades das trupes. O Zeca viveu intensamente a vida académica, as farras, as praxes, a boémia coimbrã. Tal como Adriano e Góis fez parte do Orfeão Académico. Foi balador, trovador, cantor, compositor notável. Soube adaptar a música popular portuguesa, os temas tradicionais e a poesia à palavra de protesto com a mestria de um génio. Juntamente com Adriano encarna a lenda coimbrã do combate ao fascismo e ao salazarismo na luta pelos ideais da liberdade, tendo sido o mentor da canção de intervenção em Portugal. Trilhou sempre um percurso de coerência até que uma doença incurável lhe roubou a vida, tão novo, quando tinha ainda tanto para dar à vida.
 
Pelo seu talento e genialidade, Zeca Afonso está acima do ser humano comum e devia ser lembrado sempre, não só em Abril. Com mais convicção e frequência é homenageado, celebrado, lembrado e cantado fora do nosso país. Não foi por acaso que disse um dia:” A Galiza é para mim uma espécie de Pátria espiritual”.
 
Por toda a Galiza há associações culturais e musicais recheadas de espólio do Zeca. Em Ourense, onde actuou ainda durante a ditadura de Franco, no célebre Liceo Ourensano, é admirado como um dos seus melhores músicos e cantores. “Cantigas de Maio” é uma espécie de tesouro que alguns dos nossos amigos guardam em disco por ele autografado. Na Sardenha, curiosamente, o dia Vinte e Cinco de Abril é também o dia da libertação do regime fascista de Mussolini. Um grupo de cantoras costuma entoar “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso em sardo ou sardenho “Grândola Bidda Morisca”.
 
A minha admiração por Zeca Afonso leva-me a pensar que as gerações mais novas deviam ser ensinadas, na Escola, a aprender com a sua grandeza e coragem a perseguir o sonho e a utopia. Na riqueza das suas letras, na beleza da sua música, na força da sua palavra há um mundo de aprendizagem que vai da poesia e da música à Literatura, à Filosofia, à História, à Vida político-social e à Fraternidade. José Afonso foi também professor e até por isso devia ser lembrado. Para além do que ensinou aos seus alunos, deixou-nos a todos uma grande lição de vida. Por isso, nunca devia ficar atrás de outros escritores e poetas que fazem parte dos currículos escolares.
 
Zeca Afonso morreu… mas… “a sua voz perdurará para lá de todos os chacais.”

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por Augusta Clara às 00:28

Segunda-feira, 22.02.21

Cuidemos do nosso jardim - Eva Cruz

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Eva Cruz  Cuidemos do nosso jardim

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(Adão Cruz)

 

   “Cândido ou o Optimismo” de Voltaire, um dos maiores vultos do Iluminismo, é uma obra notável que foi publicada clandestinamente no século XVIII, o que lhe valeu nos séculos posteriores milhares de edições. Romance picaresco ou Bildungsroman, conto filosófico ou sátira tornou-se inspirador de vários autores, artistas, músicos, cineastas, não só pela crítica mas também pela filosofia que encerra. Debruça-se sobre a metafísica do Mal, sobre a utopia e a distopia da Vida e do Mundo. Não vou entrar por considerações académicas ou filosóficas, pois não é essa a minha área nem o meu propósito.

Cândido é um jovem que vive num mundo paradisíaco, recebendo de seu mestre ou tutor Pangloss ensinamentos de optimismo, essencialmente baseados na filosofia de Leibniz. Abruptamente, este seu mundo edénico é cortado quando Cândido toma contacto com a realidade. A sua vida sofre imensos reveses e ele acaba convencido de que se não tivesse passado por tudo isso não estava a comer doce de cidra e pistache. “Tudo isso está muito bem dito - mas devemos cultivar o nosso jardim”. 

A propósito de Optimismo, as palavras mais marcantes da minha vida de professora foram ditas por um aluno, hoje um grande senhor e um grande amigo. “Obrigado, professora, por ser optimista.” Na verdade, nunca, por mais básico que fosse o conhecimento de algum aluno, eu deixei de ter para com ele uma palavra de esperança ou entusiasmo. Por isso, quero deixar aqui o meu apreço às palavras do virologista Pedro Simas, o qual, no meio desta arrasadora pandemia, deste tenebroso confinamento, aparece sempre com um rosto calmo e tranquilizante, com palavras de esperança transmitindo algum do ansiado optimismo que tanto escasseia. Pedro Simas dá-nos a todos uma excelente lição de pedagogia. A sua expressão e a sua voz inspiram confiança e optimismo, aquilo de que neste momento mais precisamos. É uma voz eloquente, sábia, serena, credível e muito simples. Das poucas que não assustam. Todos o entendemos e todos nos animamos ao ouvi-lo dizer, sem demagogias, que Portugal está a ter uma redução abrupta de contágios, resultante do confinamento, o que poderia colocar o país entre os melhores do mundo a controlar a terceira vaga da pandemia. 

Todos os dias nos entra em casa a comunicação social, com imagens de enfermarias a abarrotar de doentes em estado deplorável, de ambientes quase surreais, seringadelas em braços mil vezes repetidas, de INEMS e ambulâncias com luzes de alarme e sirenes de emergência, de telejornais abarrotados de recordes de mortes e infectados como se de resultados de jogos se tratasse. Recuperados, sempre no fim da lista, como notícia secundária. Se porventura, alguma melhoria se nota aqui ou ali, vem logo um “mas…” ou “ o pior está para vir… “ou” já se atingiu o limite…!” E como se não bastasse, vêm a seguir políticos e comentadores que nada têm a ver com profissionais de saúde, a assustar com gráficos, opiniões e poses de quem sabe tudo e mais alguma coisa. “ Quem está fora racha lenha” diz o nosso povo. Curiosamente, os menos críticos, mais reservados e serenos são os da linha da frente, aqueles que fazem o mais difícil, estóico, único e exemplar. 

É muito importante estarmos informados, é muito importante passar a mensagem da gravidade da situação que todos estamos a viver, mas também é muito importante a forma, a sabedoria e a pedagogia com que essa informação se faz. E, acima de tudo, que não se critique de ânimo leve quem está a fazer o melhor que pode, com todas as carências que não são só de agora, no meio de um labirinto de científicas e humanas dúvidas e incertezas. Todos acham que fariam melhor, todos querem tirar dividendos políticos desta triste situação, e é isto que leva à saturação e ao descrédito e dá muitas vezes vontade de dizer ”put yourself on the other side.” 

Cândido foi perdendo ao longo da vida o optimismo exagerado, mas chegado ao fim, aceitou os ensinamentos de Pangloss “ tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Sem maniqueísmos, aprendamos a dizer “ tudo isso é muito bem dito, mas cuidemos do nosso jardim”

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por Augusta Clara às 16:14

Terça-feira, 02.02.21

Sobre um texto de Adão Cruz - Eva Cruz

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Eva Cruz  Sobre um texto de Adão Cruz

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(Adão Cruz)

 
  

   É difícil encontrar o caminho rectilíneo da objectividade no mundo de memórias e sentimentos que me ligam ao meu irmão. Percorrendo os corredores do tempo, numa vivência de total cumplicidade de ideais e de valores, somos árvores irmãs, nascidas da mesma semente, enraizadas no mesmo ventre que cresceram afagadas pelo mesmo sol, fustigadas pela mesma chuva e pelo mesmo vento. Vestiram-se de rosas e espinhos, e nos seus ramos cantaram todos os pássaros que ali fizeram ninho. Deram frutos feitos de sonhos, tanta vez roubados às estrelas. Na sua folhagem nasceu a Primavera, que a vida foi lentamente murchando até o Inverno chegar. “Não há volta a dar-lhe”. A Primavera vai e volta sempre, mas a vida não volta mais. O sonho verde, levando o mundo pela frente, toma agora as cores do fim da tarde. O tempo rodou, e a vida foi-se encurtando deixando cada vez mais  longe a Primavera.

Grande parte da vida de meu irmão cruzou-se com a minha e também por esta terra passou. As alegrias e as tristezas que o ligam ao seu velho consultório também por mim e pelos meus foram partilhadas. Também nós sentimos a falta dos curtos momentos da hora de almoço, das breves e sãs conversas, das trocas de opinião, do alívio, ainda que momentâneo, do stress que o trabalho a todos nos trazia.

Resta dizer que fica para trás uma doce e amarga saudade. Numa análise o mais objectiva possível, e num julgamento criterioso e autêntico, foi o dever  cumprido. Fica, porém, a nudez daquilo que não foi feito.

Esperando que me desculpem a influência da amizade e dos laços familiares, não ficaria bem com a minha consciência se, nesta fase da vida, deixasse de dizer que a imagem que se impõe do meu irmão é de força e confiança, de inteligência, de espírito combativo, de coragem e audácia, de emoções fortes e sentimentos sãos, de nobreza e generosidade. Numa irrequietude constante, persegue a ciência e a arte à procura da sua essência e faz dela a sua crença. Aí assenta todo um exemplo de vida, na tentativa de agregar a humanidade na mudança para um mundo melhor, mais justo e entendível. A mão que cura é a mesma mão que pinta, que escreve, que acarinha, que afaga. A mão da sabedoria do médico, a mão poética da pintura, a mão colorida do poeta e do escritor, a mão solidária na firmeza do amigo.  

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por Augusta Clara às 19:24

Sexta-feira, 15.01.21

Trova do vento que passa - Eva Cruz

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Eva Cruz  Trova do vento que passa

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   A lareira a crepitar, a árvore de Natal ao lado a tremeluzir, e a saudosa voz de ADRIANO libertando-se de um antigo LP de vinil, a rodar no velho gira-discos Dual, trazido da Alemanha pelos amigos Margitte e Jürgen.

Trova do vento que passa…!

Deixei-me levar nas asas do vento que passa, e no infindo écran da memória vi-me a percorrer a calcetada e estreita Rua do Loureiro, na velha Alta Coimbrã, tão estreita que nela mal cabia a largura de um carro. Os peões tinham de se enfiar na ombreira das portas para lhe dar passagem. Na esquina com a travessa da Matemática, lá estava o número 16, a casa da Dr.ª Virgínia Gersão, tia da escritora Teolinda Gersão e como ela também escritora e interventora parlamentar com trabalhos sobre o Ensino. Fora a grande paixão do Menano. Ficara solteira para criar dois sobrinhos que cedo se tornaram órfãos de pai e mãe. Recebia como hóspedes meninas universitárias. Paralela à Rua do Loureiro, na Rua da Matemática, morava o ADRIANO, no número 6, na Real República do RásTe parta. Com ele várias vezes me cruzei e lembro-me de ter votado na lista para a Associação Académica que incluía o seu nome. Ainda a Velha Academia era perto das Escadas de Minerva, iniciando-se a sessão com três pancadas de martelo. Acompanhava-me sempre a grande amiga Lídia Gama que infelizmente já partiu. Minha companheira de quarto, foi mais tarde  médica pediatra no Hospital da Estefânia. Mais velha do que eu, muito com ela eu aprendi. Uma personalidade que se impunha naquela sociedade machista dos anos sessenta, em que as estudantes ficavam queimadas se eram vistas duas vezes na Baixa. A Lídia era um exemplo de inteligência, sabedoria, ética e estética. Uma mulata esguia, linda, de olhos amendoados, angolana, filha de pai branco da alta sociedade. Era da JUC, mais tarde do Graal, sendo através dela que conheci a engenheira Lurdes Pintassilgo.

Trova do vento que passa…!

Na Rua do Loureiro, para além da nossa casa, havia de um lado a casa mãe, onde tomávamos banho e eram servidas as refeições, e do outro lado os quartos das estudantes. Havia ainda a casa de um médico, o Dr. Castela, primo da Lídia, e a casa de um explicador de matemática de cujo nome já não me recordo. Entre os restantes havia gente humilde e pobre. O Sr. Luís sapateiro que me fazia o nó da gravata sempre que eu vestia o traje académico e a pobre Sofia, com uma ninhada de filhos de um amante, que herdaram o sobrenome do marido. No casebre do rés-do-chão lá estava sempre uma chupeta de pano atada com um cordel, e ao lado uma pequena malga com açúcar para a adoçar e calar o mais pequenito. A própria Lídia, pessoa muito respeitada, ao passar a caminho da Faculdade, se via o puto a chorar, entrava, metia a chupeta no açúcar, enfiava-lha na boca e a criança calava-se. No nosso quarto havia um gira-discos que tocava para a rua toda. Logo pela manhã, a Lídia abria a janela e punha o som no máximo. No quarto, quase não nos ouvíamos, de tão alta a música. Édith Piaf, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, André Claveau, Jacques Brell, Yves Montand. Canções  como La vie en rose, Milord, Mourrir d´Aimer, Et maintenant, Dominó, La chanson des vieux amants, Les feuilles mortes voavam pelo ar enchendo a rua de lés-a-lés.

Trova do vento que passa… !

Na travessa da Matemática morava a Hermengarda, mesmo em frente a uma das janelas do nosso quarto, uma das conhecidas prostitutas da Alta Coimbrã. A Lídia chegou a ir a casa dela dar-lhe injecções. A Hermengarda punha um vaso à janela sempre que estava ocupada. Nas noites cálidas de Verão, quando só era possível estudar de noite, ouviam-se vozes aqui e além, sem se saber de onde, a ler e reler as velhas páginas da sebenta. A Hermengarda, de vestido de veludo preto sem mangas, saía com um cântaro de barro à cabeça a buscar água à Torre de Anto, perto do célebre Quebra Costas e dizia: - Boa noite doutor. Como ninguém lhe respondia, ela replicava: - Ai UniversidadeUniversidade, que educação dás tu a esta gente!

Coimbra foi e é realmente Uma lição de sonho e tradição…  

Trova do vento que passa…!

A lareira crepitava cheia de lume, e o disco ainda rodava como que tocado pelo vento. Ouvi então a serenata na Rua do Loureiro, tangida por um grupo de capas negras, iniciada pelo estilhaço provocado por uma pedra que alguém atirou ao lampião, ficando a rua às escuras, apenas com o luar bem aberto no céu negro. Era da praxe apagarem-se as luzes, e assim fizemos na nossa casa. Um sussurro nas escadas e um murmúrio de vozes no nosso quarto aos primeiros acordes da guitarra. Reconheceram na noite a voz do ADRIANO amparada pela guitarra do OCTÁVIO. O Octávio Sérgio, brilhante guitarrista de Zeca Afonso era amigo daquele que um dia veio a ser o meu marido. Cantaram, entre outras canções, a Senhora do Almortão. Quando se ouviu minha maçã camoesa criada no Paraíso, todas disseram que a serenata era para a Eva. Mais tarde vim a confirmar que sim. Um estudante algarvio, de medicina, que me perseguia quase há um ano e que muito me intrigava fora o autor da proeza. Muito alto, de olhos verdes, sempre de capa e batina, fumava cachimbo Mayflower, escrevia versos para a Via Latina e Briosa. Diziam que era do reviralho. Falava-me em cortina de ferro e eu só conhecia cortinas de pano, dizia-se ateu, e eu era menina da JUC, de comunhão diária. Ele achava-me uma criança e dizia que o atraía o meu ar angelical. Para mim, ele era o diabo em figura de gente. Anos mais tarde voltou a Coimbra, telefonou lá para casa e logo reconheci a sua voz quente e meiga. Disse-me que viera a Coimbra em romagem de saudade e que ia partir para a guerra de Angola. - Peço-lhe que me deseje boa sorte. Se morrer, lá a encontrarei nesse céu em que a Eva acredita e eu não. Constou que mais tarde fora parar ao Tarrafal.

Trova do vento que passa…!

…Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.

…e o vento passou… e com ele levou o ADRIANO, mas o vento não teve força para enfrentar  a força da melodia dessa voz que nunca nos deixou. 

 

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por Augusta Clara às 16:32

Quarta-feira, 30.12.20

O açude - Eva Cruz

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Eva Cruz  O açude

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(Adão Cruz)

 

   De regresso a casa depois do Natal, vivido como sempre no meu cantinho da aldeia, entre memórias, aletrias, rabanadas e lareira, parei o carro no cimo de um mato que nos pertence, ao ver que alguma coisa me havia despertado inesperadamente a atenção. Na margem da estrada, no local onde toda a vida se erguera uma cortina cerrada de árvores e arbustos, surgiu uma ampla clareira que deixava a descoberto uma paisagem que nunca dali se avistara.

Os meus olhos poisaram de imediato no rio que ao fundo corria por entre os lameiros, dobrando-se sobre um farto açude que ao brilho do sol poente tomava a cor da prata. O riacho, pouco mais largo do que uma ribeira em dias de Verão, levava agora tanta água que parecia um grande rio, todo vaidoso do seu caudal engrossado pelas chuvas abundantes deste Inverno.

Por ali me vi e me revi, pequenita, pela mão de meu pai, que de vez em quando ia ver as terras que tínhamos ao longe, arrendadas e feitas pelos caseiros. Saber como iam as coisas, se era boa a nascença, se era respeitada a lei da rega, se algum talhadouro estava mal talhado, se já pintava o bago, eram razões para a visita de meu pai. Recordo como se fosse hoje o lameiro mesmo à beira do rio, ladeado por uma ramada baixinha, onde havia videiras americanas que pintavam mais cedo. O meu pai tirava alguns bagos mais maduros para eu provar, com a preocupação de algum arejo ou moléstia, por não serem lavados. Naquele tempo, a economia de uma família era a terra, o milho e o vinho. Uma má colheita era um desastre para caseiros e senhorios.
 
Ali me mantive por alguns momentos, deixando os meus olhos fundir silenciosamente presente e passado, desfolhando páginas esquecidas deste saudoso álbum a preto e branco da minha infância. Senti que poisavam no açude como as borboletas brancas que as minhas mãos pequeninas tentavam caçar. A mesma natureza, o mesmo cenário, o mesmo palco, agora vazio, sem história nem actores. Talvez ainda houvesse crisálidas… e ainda nascessem borboletas, voando sobre a água e as flores a ligar as dobras do tempo. Meti-me no carro e rumei a casa com os olhos cheios de água… do açude.

 

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por Augusta Clara às 18:32

Segunda-feira, 07.12.20

Branca de neve - Eva Cruz

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Eva Cruz  Branca de neve

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(fotografia de Adão Cruz)

   A serra é mágica na sua simplicidade. Vestida de mimosas, pintada do amarelo do tojo e da giesta, rosada da urze, pintalgada de outono, despida de folhas, cinzenta das fragas, negra de breu, branca de neve, a serra é alma e coração de quem a ama. Mar de frescura, porto de abrigo, lar de aconchego, horizonte de liberdade, é a serra que nos solta os pés para chegarmos ao céu.
Sempre amei a serra. Desde criança que os meus olhos aprenderam a vê-la ao longe, erguendo-se sobre o vale, dourada de sol e de lua, prateada de neblina, flamejada de relâmpagos, praguejada de trovões ou serenamente abraçada de arco-íris.
A Serra da Freita é um tesouro que nunca me canso de visitar porque nunca me cansa o seu regaço. Desde muito nova que lhe conheço os caminhos por mais avessos que sejam, quando nem estradas havia. Ao fim de muitas horas, de cajado na mão, lá chegávamos ao cimo, por estreitos carreiros talhados no chão pelo andar de muitos anos e de muitos pés. Nunca da memória se esvai o prazer do saboroso farnel, a toalha estendida sobre as lajes ou nas margens do rio Caima por ali nascido, ainda criança, de água saltitante e cristalina, desconhecendo o abismo que mais à frente o há-de precipitar de uma altura medonha, na Frecha da Mizarela.
Hoje, não é assim. O carro vai onde quer que seja e nós não resistimos a fazer-lhe a vontade, como aconteceu. De outra forma, a idade nunca poderia aceitar a constante sedução da sua íngreme subida e o repouso do seu planalto. O sol abriu, e apesar do frio, apetecia respirar aquele ar puro que tudo parece limpar dentro de nós. A meio do caminho, porém, uma insidiosa cortina cinzenta parecia coar lentamente a luz do sol, e de repente as árvores e arbustos despidos começaram a vestir-se de um nevoeiro brilhante como num conto de fadas. No ar dançavam gotículas prateadas como numa bola de cristal. Foi tudo tão rápido que não nos apercebemos de que estava a nevar intensamente. Um deslumbramento! Cada vez mais densa, a neve caía em flocos, e em poucos minutos tudo ficou coberto de um manto branco. Como por artes mágicas, a paisagem transfigurou-se por completo numa espécie de fantasia de postal, envolvendo-nos numa inesperada beleza que enchia os olhos e a alma. Por prudência, não subimos mais e retomámos lentamente a descida, deixando Schneewittchen para trás, branca de neve, nostalgia de uma infância encantada pelos contos dos Irmãos Grimm. Talvez, quem sabe, os Sete Anões andassem por ali, mas já não tivemos coragem de os procurar.

 

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por Augusta Clara às 14:07

Terça-feira, 01.12.20

Maradona - Eva Cruz

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Eva Cruz  Maradona

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(A. Jansson)

   Que sei eu de futebol? Que sei eu de Maradona? Eu própria me sinto estranha ao tentar abordar tal assunto, ao falar de um jogador de futebol. Nada percebo de futebol, apesar de ter vivido sempre rodeada de gente falando de golos, de campeonatos e coisas que tais. Alguns nomes me foram inculcados nos neurónios, sem que para tal eu tenha feito qualquer esforço: Eusébio, Pelé, Maradona…Gente pobre, nascida em colchão de palha, dormida em berço de pau, criada em bairro de lata, com direito a sonhos que mais não eram do que utópicas fantasias. Alguns acreditaram na sua potencial e cósmica realização, e persistiram tenazmente nessa ideia de que era possível fazer rolar o sonho dentro de uma bola imitando o rolar do mundo. De forma inata, nem de outra forma podia ser, atravessaram a dureza da vida, jogando descalços com bola de trapos, até levarem o génio e a força do engenho ao arrebatamento de multidões, soltando lágrimas do mais fundo dos olhos.
Confesso que é um fenómeno que não consigo entender. Seja arte ou não, poesia ou alucinação, arroubo ou ascese, nada arrebata o ser humano como o relvado de um campo de futebol. Apenas uma bola. Dá que pensar!
O futebol é hoje uma máquina mundial emergindo do mais profundo oceano da baixeza humana até ao mais alto céu da glória. Maradona, pelo pouco que procurei saber da sua vida, foi um menino pobre, o pobre Diego. A máquina da glória ergueu o seu génio à altura do céu e a máquina trituradora levou-o às portas do inferno. Não chegou a entrar porque era humilde, nunca se pôs em bicos de pés e nunca se ajoelhou nem esqueceu o mundo do humanismo que veste a alma de qualquer ser humano autêntico, seja ele do relvado, da passadeira de púrpura ou de qualquer campo de terra batida. O seu génio e o seu coração foram, sem dúvida, os braços que levaram as multidões a erguê-lo ao altar dos imortais.

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por Augusta Clara às 00:47

Sábado, 21.11.20

Castanhas - Eva Cruz

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Eva Cruz  Castanhas

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(Giacomo Ceruti, 1698-1767)

 

   As castanhas são castanhas, de um castanho retinto, a cor em toda a plenitude. São lindas e femininas. Fruto e semente no mesmo coração. Nascem de um parto, às vezes prematuro, outras vezes natural, outras vezes com ajuda. O ouriço, o capote, abre-se e deixa ver dentro o casaco, adivinhando-se a camisa coladinha ao corpo. As castanhas aninhadas no útero, brilhantes e a sorrir. Umas soltam-se lá de cima do castanheiro, caem ao chão e abrem-se naturalmente, ou são abertas com os tacões dos sapatos de quem as quer apanhar. As mais renitentes só vêm a luz do dia depois de uns tempos na choça, quando os ouriços abrem de livre vontade. Para além das nozes e dos dióspiros, as castanhas são talvez o fruto mais tardio, e talvez por isso, o menos atacado pelos pássaros rabaceiros que tudo comem e tudo picam.
 
Um mar de castanhas espalha-se pelo chão. O ritual de as apanhar faz doer as costas, mas a beleza das cestas cheias de brilho recompensa. Estendidas na varanda, abertas ao sol da manhã, tornam-se menos inchadas, mais baças e mais doces, prontas para assar, para cozer ou mesmo roer. Algumas são gémeas e quando alguém encontra uma diz - "Bom dia filipina", com o sobressalto de quem ganha e o sorriso de quem perde. Jogo infantil de grande ingenuidade, na memória dos que há muito foram crianças. Parece que teve origem na Alemanha – Vielliebchen ou Phillipchen e serviu de inspiração a alguns poetas.
 
Da chaminé sai fumo com cheiro a resina. A lareira está acesa e bem cheia de lume. Às achas grossas, junto lenha seca de vide que a tudo dá um calor diferente. Quando a fogueira acalma, puxo com a tenaz umas brasas ao rubro para a boca da lareira. Dou um golpe nas castanhas, escolho as que me parecem mais sãs, e coloco-as sobre as brasas. Cubro-as de cinza branca e deixo-as assar lentamente. Enquanto espero, os meus olhos param naquele lume quase tão antigo como o tempo, e o pensamento voa em todas as direcções. E vejo a cidade, onde fumegam os carrinhos do assador e o cheiro adocicado se espalha pelo ar do Inverno, numa mistura de fumo e nevoeiro. Cobertas de cinza branca, vendidas em cartuchinhos de jornal, fazem a delícia de quem as saboreia ao longo da rua.
 
Com a tenaz, vou-as descobrindo uma a uma, fazendo-as pular nas mãos para arrefecerem, abro-as ao meio e ponho dentro uma pitada de manteiga, como fazia minha mãe. A camisa sai facilmente e o sabor…não tenho dúvidas de que é a saudade.

 

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por Augusta Clara às 16:00

Terça-feira, 17.11.20

A bateira submersa - Eva Cruz

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Eva Cruz  A bateira submersa

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(fotografias de Adão Cruz)

   Desta vez não fomos só ver a Ria e espreitar os flamingos se os houvesse. Movia-nos a ideia de petiscar umas enguias fritas na célebre Taberna d’Alcina. Como estava uma bela tarde de Verão de S. Martinho, caminhámos um pouco até à ponta do cais da Béstida, saboreando a frescura das águas antes de saborear a nossa merenda.
 
Entretanto, a paz que por ali costuma reinar foi perturbada por um vozear de pescadores, de um lado e outro do cais. Um pequeno barco a motor tentava a todo o custo levantar do lodo uma bateira submersa que nem se mexia. Mas era tão grande o esforço do barco e a teimosia da barcaça afundada que a corda partiu. Sugestões e ordens de todo o lado, quer dos homens dentro de outros barcos quer dos veteranos displicentes que, de mãos nos bolsos passeavam as horas pela beira do cais, de nada valeram. A bateira estava como que amarrada ao fundo da ria.
 
Foi então que demos conta de um homem novo e corpulento, uma figura hercúlea vestida de fato impermeável de borracha, que desceu o paredão e se enfiou na água escura e lodosa, agarrando-se à ponta da proa e tentando movê-la com força de gigante. A bateira deu de si, ao som do ela aí vai, de todos os circunstantes, deixando a descoberto um dos lados. No meio daquela vozearia, o homem pede um canedo e começa a retirar o lodo do fundo da barcaça para aliviar o peso, quase enfiando a cabeça dentro de água. Depois de muito tempo de luta em vão, surge um novo barco de motor mais potente, amarra de novo a corda e consegue arrastá-la vagarosamente pelas águas fora, com o homem de pé, metido na água até ao pescoço, a empurrar e orientar a bateira. Parou na rampa por onde os barcos acedem à Ria e ali ficou, esburacada e velha à espera de nova sepultura.
 
No fim da merenda regressámos à contemplação da ria, batida pelo sol da tarde reflectido nas águas mansas, em suaves jogos de luz dourados e prateados. Rodámos lentamente pela margem, e poucas aves vimos nos sapais. Uns passaritos, uma ou outra garça pousada ou abrindo as asas e voando suavemente com a elegância própria de uma dança. Flamingos, apenas um, solitário. Eles vêm em tempo mais agreste, já nos tinha dito o pescador, e aquele dia era um dia de Verão em pleno Outono. O que terá levado aquele flamingo a ficar por ali sozinho? Saudades da Ria, como nós, ou já não ser capaz de “ O último voo do flamingo”, e por ali morrer como a bateira. Mia Couto talvez saiba, quando diz, na voz dos que falam dentro dos seus livros, que há-de vir um outro tempo e um outro…até que os flamingos empurrem o sol do outro lado do mundo.

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por Augusta Clara às 15:07

Quarta-feira, 11.11.20

O relógio e o chá - Eva Cruz

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Eva Cruz  O relógio e o chá

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(A. Still)

   Quando poiso os olhos naquele mostrador muito branco com algarismos muito negros é como se abrisse a cortina de um palco e a memória reencarnasse real e viva num horizonte de luz crepuscular sem princípio nem fim. Sempre mexeu comigo aquele relógio preto pendurado na parede da sala grande. Talvez por me fazer pensar que o tempo não pára. Recordo o meu pai a acertá-lo à noite antes de se deitar, ouço o rodar rezingão do torniquete a dar corda, o ranger leve dos ponteiros e o bater das horas a cada hora. E Invade-me nessa altura uma espécie de saudade sonâmbula, embalada pelo tic-tac do relógio que me leva a qualquer recanto da minha infância.
Esta tarde estou só. A minha única companhia é a lareira que acendi este ano pela primeira vez. A chama das vides é mais brilhante e parece conversar comigo. Em cima da mesa antiga, a toalhinha de linho muito lavada e bem passada a ferro. Do velho bule de porcelana vermelha acastanhada solta-se um cheirinho a saudade e a limonete. Lá fora, cai uma chuva miudinha em fios tão finos que lembram uma cortina de renda. Os ténues raios de sol parecem brincar às escondidas com a chuva, e ao longe um arco-íris atravessa a serra de lés-a-lés. A chover e a dar sol na cabeça do rouxinol.
E, com isto, se aconchegou a hora do chá. A hora do chá foi sempre, para mim, sagrada. Mais do que uma pausa, é um ritual. Desde pequenina que gosto de chá. Detestava leite, e minha mãe via-se aflita para o substituir por outra bebida. Fazia-me banacau (farinha feita à base de banana e cacau), cacau com limão e canela, cevada fervida à lareira numa infusa de barro, com tempo de espera para a mistura assentar. Mas a única bebida de que muito gostava era o chá. Naquele tempo, chá de hortelã ou cidreira, ervas secas ou verdes, colhidas de madrugada antes das orvalhadas, ou até de cascas secas de cebola. De manhã, acompanhava o chá um pãozito com manteiga feita em casa, batida num cântaro de barro e depois guardada em papel vegetal. Comia pouco, era muito biqueira, como diziam na aldeia. Por isso, ia trincando o pão ao longo do carreiro da escola que atravessava o mato, mais directo e menos perigoso, acompanhada da minha gata com quem repartia o pão aos bocadinhos. À tarde voltava ao meu chá.
Tenho uma variedade enorme de chás em caixas ou latinhas, desde os verdadeiros chás pretos, blended or not, infusões e tisanas. Os meus preferidos são o Earl grey, o chá de limonete e o de erva de príncipe. Ainda hoje me dá um prazer enorme prepará-lo com toda a beleza e requinte que ele merece. Basta-me, porém, tomá-lo com pão e manteiga, mel e compota, para ser um manjar. E se for com as amigas, muito maior é o prazer. Mas hoje estou só. Lá fora deixou de chover e a noite começou a cair. Dentro de mim e à minha volta, só silêncio e solidão. Apenas o crepitar da fogueira e o tic-tac do velho relógio preto na parede, a iludir-me, dizendo que o tempo não passou e parou na minha infância.

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por Augusta Clara às 16:29



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