Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Segunda-feira, 19.10.20

A oração - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  A oração

003-(30x20)---2010a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

 

   Nasci em plena guerra mas sou mulher de paz. Vivi os tempos difíceis que vieram depois, em que havia falta de tudo. Tive a sorte de não o sentir, pois em minha casa havia sempre o essencial. E se não havia, eu não dava por ela, pois fui sempre criada com muito amor e carinho. Posso dizer que fui uma criança feliz, crescendo e vivendo a minha natureza entre o verde dos campos e o azul do céu. Sempre me “vesti de sol e me despi de luar”.
Para além do luar, quando a lua se dignava aparecer, não havia luz nos sombrios caminhos da aldeia. Nas noites de breu, o que nos abria os passos era uma facha de colmo ou uma mão-cheia de agulhas acesas na lareira. Dentro da maior parte das casas, valiam-se da candeia de azeite ou do candeeiro de petróleo. No meu tempo já havia electricidade, tendo sido a nossa casa uma das primeiras a ter lâmpadas acesas.
Volto a dizer que fui uma criança feliz. Houve, no entanto, algumas nuvens que cobriram, por vezes, o sol da minha felicidade infantil.
À noite, ao serão, contavam-se histórias de aterrar, desde o lobisomem em noites de lua cheia, ao tamanquear do tardo na calçada e às luzinhas de almas penadas voando frente às janelas ou pousando na enxada dos que, de madrugada, faziam a rega do milho. A minha mente de criança era uma esponja. Absorvia tudo. Ninguém dava conta daquela minha atenção, mas foi ela que alimentou muitas das minhas fantasias, umas lindas, que me faziam ver para além dos montes e das estrelas, outras feias e tenebrosas como pesadelos e visões, único tormento da minha infância. Via monstros nos galhos das videiras ou nas rancas das árvores, baloiçando com o vento nas noites de luar, criei visões e alucinações que muitas vezes levavam a terrores nocturnos. Impressionavam-me as alminhas nas encruzilhadas, com as almas a arder nas chamas do inferno, de braços no ar, gritando por clemência, uma imagem do Coração de Jesus, pendurada na parede da sala, trespassado por uma lança e a sangrar, olhando para mim em qualquer canto onde eu me posicionasse, a imagem do Senhor dos Passos, na capela, coroado de espinhos, e que fazia a devoção de minha mãe. Também cismava vezes sem conta na letra das rezas e ladainhas, particularmente da salve-rainha que falava em desterro e degredados filhos de Eva. Filhos de Eva?! Na minha inocência, cheguei a perguntar ao meu pai se tinha alguma coisa a ver comigo. Ele, descrente, bondoso e inteligente ria-se com a bonomia que lhe era peculiar, dizendo-me para esquecer e não ligar nada a essas rezas. Amávamo-nos muito e foi das pessoas do mundo com quem melhor me entendi. Minha mãe era muito devota, educando-nos religiosamente, sem qualquer interferência de meu pai.
Interessante é que, no meio de todo este fantasmagórico cenário, havia uma imagem de um santinho, oferecido pelos irmãos jesuítas do Seminário, de que eu gostava muito. Um anjinho da guarda com um ar muito doce, de asas abertas, protectoras, com as mãos quase a tocar a cabeça de um menino e uma menina, que de mãos dadas atravessavam uma ponte de pau sobre um riacho de águas cristalinas. Por trás uma oração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia”. Vezes sem conta, ouvi minha mãe rezá-la… mas com uma pequena alteração: “Anjo da Guarda, minha companhia, guarda o corpo e a alma de meus filhos de noite e de dia”. E o que é certo é que eu em paz adormecia.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:52

Sábado, 10.10.20

"Graffiti" - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Eva Cruz  Graffiti

the ruffians, 1982a.jpg

(Jean-Michel Basquiat)

 

   Graffiti, nome plural vindo do Latim. Grafitos transformou-se numa arte que nasceu nas ruas e chegou às grandes galerias, incluindo a própria fachada da Tate Modern. Deu asas à imaginação e à criatividade nas paredes, nos muros, nas escolas, nas portas, nas casas de banho. Uma arte de aprendizagem associada a experiências transformadoras. O Maio de 68 serviu-se dessa linguagem internacional de intervenção política, nos muros de Paris. O 25 de Abril foi fértil no aproveitamento desse potencial, sobretudo na pintura de escolas deterioradas e sombrias, transformando-as, pela força da motivação e das ideologias, em lugares mais atractivos e coloridos. Era a Escola comprometida no sonho de uma vida nova. Através desses gestos e pinturas se procurava transmitir mensagens poéticas, filosóficas e de protesto. Em tempos de um predominante analfabetismo, estes graffiti eram conhecidos como bíblia política dos analfabetos, como acontecera com as pinturas de Cranach, as quais ajudaram a entender a Bíblia de Lutero e por isso ficaram conhecidas pela Bíblia dos pobres.
Infelizmente, como em tudo na vida, as boas intenções nem sempre são aproveitadas como deve ser, e depressa os graffiti passaram, em muitos casos, a puro vandalismo, a pichação associada a transgressão, a estragos de lugares ou bens sociais, incluindo paredes de edifícios públicos, carruagens de metro, e de comboio. Os backjump, pinturas em comboios parados, o end to end, pintura de ponta a ponta, o train, vagão pintado ou o whole car, de alto-a-baixo, sem qualquer critério nem estética, causando danos irreparáveis em bens colectivos.
No meu tempo de professora, muitas foram as circulares e as reformas que tentámos, no sentido de chamar a atenção para a limpeza nas escolas, e longa foi a discussão que à volta disso se gerou. Sempre fui de opinião que, como espaço educativo, a Escola tivesse lugares apropriados para o exercício dessa arte e que até fossem criados concursos e premiados trabalhos. Nunca tive receio de que esta minha opinião se estendesse à sociedade em geral. Mas com a consciência de que não se pode entrar na lei do “vale tudo”. Os bens públicos e colectivos têm de ser respeitados e transgressão é transgressão. Vivemos em sociedade, temos leis que regem o colectivo que somos. Temos uma Constituição que invocamos constantemente no que respeita aos direitos e deveres nela consagrados.
Para mim a anarquia é uma utopia, por mais bem intencionada que seja a sua ilusão teórica. A própria Vida, a Natureza, o Cosmos, o Universo obedecem a leis e às ordens que delas emanam, pois se assim não fosse, o resultado seria o caos.
Sei que é polémico e discutível o que aqui defendo, sobretudo quando se trata de concepções políticas, sociais e artísticas, mas vale o que vale, ou seja, tem o valor de uma opinião. E essa opinião leva-me a considerar que é urgente reparar o que ainda tem solução, evitando, em nome da liberdade, a destruição da verdadeira Liberdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:44

Quarta-feira, 07.10.20

Águas Passadas Movem Moinhos - Eva Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  Águas Passadas Movem Moinhos

la sorcière bleue, 1990a.jpg

 

(Leonor Fini) 

   Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas da árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.
 
Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.
 
Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.
 
“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:39

Quarta-feira, 16.09.20

Fleurs de Rocailles - Eva Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  Fleurs de Rocailles

beijo2a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

   “Scent of a Woman”, fragrância exalada de flores de jasmim, de cravo, lírio do vale, violeta que eleva os sentidos à frescura e à beleza dos campos e os enche daquela plenitude indefinível que perdura e leva a acreditar que o céu é feito de perfume.

Foi no Musée du Parfum no centro de Paris que recebi o meu primeiro perfume “Fleurs de Rocailles”, tinha eu dezoito anos, e que guardei religiosamente durante uma vida. Um frasquinho pequenino, esguio, da Caron, criado em 1933. Musée du Parfum ou Fragonard  Musée, em homenagem ao pintor hedonista Fragonard do século XVIII da cidade de Grasse, dos campos de lavanda, do ouro azul, abertos ao infinito, que perfumam as terras provençais, paisagens mágicas que seduziram poetas, escritores, pintores como Van Gogh, Cézane, Picasso, Camus e tantos outros artistas, que por ali encheram a alma de alfazema, rosas, lírios e jasmins.

“Fleurs de Rocailles”, quase no fim de “ PERFUME DE MULHER”, mostra bem, sobretudo a partir do olfacto apurado de um cego, o coronel Frank Slade, que um bom perfume é mais do que um cheiro, é parte integrante de uma personalidade.

Como o sofrimento interior pode escamotear a bondade, aprendeu-o até ao desespero o jovem e inexperiente estudante Charlie, aluno de um dos Colleges da Universidade de Princeton.  A abnegação e a força da amizade irascível de um amante dos prazeres da vida em todos os sentidos criaram em Frank, durante uma curta viagem a Nova York para celebrar o feriado de três dias do Thanksgiving , de Acção de Graças, o novo sentido da vida e a utopia dos últimos sonhos. Charlie, com a frescura virgem e pueril da sua bondade e compaixão enternecedoras, abriu-lhe o caminho para o alento e para um novo sentido e uma nova força de viver, traduzido no arrebatamento estonteante e pungente de um tango dançado por um cego à volta de um etéreo perfume.

A dramática beleza da violência poética, terminando com uma preciosa lição sobre a força da escola na estruturação do carácter, pôs a nu a hipocrisia de muitas escolas de elites, onde o dinheiro é deus e senhor, mais empenhadas no amestramento, como paradigma do cidadão formatado para o sistema, do que na educação de gente com coluna vertebral.

A referência a “Fleurs de Rocailles” perfumou-me inesperadamente a memória e caiu como um bálsamo nas minhas longínquas lembranças, fazendo-me recuar ao “Scent of a Woman” dos meus dezoito anos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:59

Quinta-feira, 06.08.20

O Pássaro Azul - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O Pássaro Azul

autor desconhecido1.jpg

(imagem de autor desconhecido)

   Hoje decidi ir ver nascer o sol.
Braços de uma luz ainda débil espreguiçam-se por entre a serra negra e o céu azul. Lentamente, uma franja de sol ofusca os olhos, e de repente ele nasce como uma criança do ventre da mãe natureza.
Os pássaros e toda a bicharada acordam. Das copas das árvores e dos ninhos sai uma chilreada sem fim, saudando o dia luminoso e quente. Debandam pelo céu fora sobre os campos verdes para os lados do rio à procura de água e comida. Com este afã começa o seu trabalho.
Comtemplo o céu, e o azul tem a transparência da água e é tão fundo que não lhe adivinho o fim. Por mais que prenda os olhos à lonjura, perco-me nesse desconhecido a que chamam infinito.
Passam bandos de estorninhos, de pardais, de pombos e pássaros que nunca vi, pássaros pretos de asas vermelhas. Estarei a sonhar? Eu sei desde criança que mesmo acordada, a natureza sempre nos convidou ao sonho. Mas não, são mesmo asas vermelhas ou então será o sol a dar-lhes de frente. Ou a ilusão a voar. A natureza anda muito estranha, e surgem por ali pássaros que há muito desapareceram e outros nunca vistos.
Os melros são à farta, mas esses voam rasos pelos campos fora. Não precisam de ir mais longe. Têm comida à mão de semear. Algumas carriças, pequeninas e redondas, empoleiradas na ramada, olham-me bem nos olhos, não sei se com estranheza ou simpatia. Pelo menos não se mostram assustadas.
Nos abetos, praguejam as pegas e os gaios numa linguagem estridente que destoa do chilrear ameno dos outros pássaros. Talvez seja um aviso, um alerta, um alarme porque de repente enxergo um milhafre a planar por ali, em voo ameaçador.
No bico da pereira, já a mostrar as peras criadas, os meus olhos dão com um pássaro azul, de papo cinzento, tão lindo e tão diferente que me pareceu um pombo-rolo ainda novinho. Mexia a cabecita, com o bico virado para o meu lado. Aproximo-me da grade do varandim para o ver mais de perto e ele desaparece. Fugiu, pensei. Sento-me de novo e volto a vê-lo poisado no bico da pereira. Repito o mesmo acto e novamente desaparece tornando a vir. Então assento bem os olhos na árvore e reparo que as folhas e os galhos desenham um pássaro azul, tão belo e tão estranho, o mesmo que eu via do meu lugar, sentada. Uma brisa leve agita as folhas, e a luz, dando-lhe vida, faz com que se movimente e vire a cabeça para o meu lado.
Tive plena consciência da ilusão. Mesmo assim, voltei a sentar-me e passei a tarde a contemplar aquele pássaro azul no bico da pereira.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 13:33

Terça-feira, 04.08.20

A Máscara - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  A Máscara

máscara da peste negra.jpg

 

(máscara dos médicos da peste negra) 

 

   Só de pensar na desilusão ou nihilismo de Shakespeare e Macbeth “… A vida não é mais do que uma sombra errante, um pobre actor que se pavoneia e se esforça no seu momento sobre o palco, e que depois ninguém mais ouve… uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria significando nada…” apetece-me deixar cair a máscara.

Estou cansada deste ritual que me tapa a boca e o nariz e me impede de respirar o ar fresco da manhã e mostrar a cara que a vida me deu. Estou cansada de sentir que não sou eu. Gosto de ser eu, gosto de sorrir e ver o sorriso dos outros. À minha volta todos me parecem iguais, sem expressão, sem rosto, sem dono. A cor pode variar, preta, azul ou branca, mas não deixa de ser … nada.

Protecção, disfarce ou adereço, a máscara esconde a identidade de quem a usa para os fins que entender. A arte também se serve da máscara para, de uma forma catártica ou lúdica, exprimir melhor sentimentos do Bem ou do Mal. Na dança, no teatro é um símbolo de disfarce ou de ajuda para reforçar o carácter da personagem. No teatro grego, são conhecidas as máscaras da Tragédia e da Comédia, a primeira com as comissuras labiais e o canto dos olhos virados para baixo, inspirando sentimentos de tristeza, e a da Comédia com as mesmas marcas faciais viradas para cima, provocando riso e alegria. Em outros rituais religiosos, civilizacionais, rituais fúnebres, a máscara é mais do que disfarce ou acessório, é símbolo de transfiguração da vida. Como protecção, ficou conhecida na História a Máscara da Peste Negra usada na Idade Média, semelhante a uma cabeça de águia com um bico enorme, contendo mirra e cânfora como desinfectante. Uma máscara horrenda, o medo metendo medo a si próprio.

Nos nossos dias, volvidos tantos séculos, julgando nós que o mundo evoluiu ao ritmo da velocidade da luz, vemo-nos todos no mesmo palco, como sombras errantes, como actores da mesma tragédia ou da mesma tragicomédia. Tira máscara, põe a máscara, numa dança e contradança inspiradas pelo medo ou esquecendo o medo para dar asas à vida que assim se nos vai escapando neste teatro infernal.

O medo está associado ao instinto de sobrevivência e é ele que me tira a coragem. Vou ser amiga do medo e, pelo sim e pelo não, lá tenho eu de pôr a máscara.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 13:00

Sexta-feira, 03.07.20

Serra Mágica - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Serra Mágica

   A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.

Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.

serra da gralheira.jpg

serra da gralheira1.jpg

serra da gralheira2.jpg

Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.

Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.

serra da gralheira3.jpg

serra da gralheira4.jpg

serra da gralheira5.jpg

Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.

serra da gralheira6.jpg

serra da gralheira7.jpg

serra da gralheira8.jpg

“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.

Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.

serra da gralheira9.jpg

serra da gralheira10.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:03

Sexta-feira, 26.06.20

Cemitério dos livros NÃO esquecidos - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Eva Cruz  Cemitério dos livros NÃO esquecidos

carlos ruiz zafon.jpg

   Todas as mortes chocam e incomodam. São vidas perdidas, irreparáveis, que matam outras vidas que continuam a ter de viver. Há uma sombra permanente que nunca mais deixa o sol ou a lua terem o mesmo brilho. Qualquer perda de uma vida deixa alguém a sofrer, penso eu, mesmo a daqueles que estão sozinhos no mundo, mesmo a dos maus, que por aqui cá andam apenas a fazer estragos. Pelo menos comigo, eu sinto que há sempre algum grau de compaixão que me assiste, talvez por tanto amar a vida e odiar a morte.

Recentemente, houve uma morte que mexeu muito comigo, a do escritor Carlos Ruiz Zafón. Gosto muito de ler. A leitura é e sempre foi um dos maiores prazeres da minha vida. No entanto, há livros e livros, há escritores e escritores. Estudei várias literaturas e li muitos livros. Reconheço que sou muito exigente quanto aos temas e particularmente quanto à forma. A arte literária, a arte da palavra contém em si uma harmonia, uma melodia e uma textura poética muito especial que têm muito que se lhe diga. Sem qualquer presunção, posso dizer que há livros e escritores consagrados que me dizem pouco. Como em qualquer expressão artística, consagra-os um júri ou um qualquer elenco seleccionado por critérios restritos e depois a fama encarrega-se do resto. Assim vivem os consagrados à custa dos consagradores e vice-versa. E quantas vezes apetece gritar que o rei vai nu.

Zafón é e será sempre um ícone, apesar de ter escrito pouco e ter poucos galardões. É um escritor apaixonante, arrebatador, não só pela força da imaginação, pela criação difícil e nada fútil do enredo, mas sobretudo pela forma como constrói a narrativa. Confesso que não gosto muito de livros grandes. Cansam-me. Porém, isto não me acontece com Zafón.

Dos livros que li de Zafón, “A Sombra do Vento” tocou-me particularmente. É um labirinto de emoções e sensações que deixam o leitor apaixonado por uma leitura impossível de parar, que arrebata até ao fim. Carlos Ruiz Zafón é um verdadeiro escritor, um romancista a sério. E o Romance “é uma pequena carta de amor à arte da narrativa, ao ofício de criar e contar histórias, uma homenagem a quem as constrói palavra a palavra”.

Aqui lhe deixo esta singela homenagem, uma flor branca no “Labirinto dos Espíritos “a um “Prisioneiro do Céu” como “o Jogo de um Anjo” na “Sombra do Vento”.

Que os seus livros fiquem para sempre no mágico lugar do” Cemitério dos livros NÃO esquecidos.”

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 13:44

Quinta-feira, 04.06.20

A vida - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Eva Cruz  A vida

claudia tremblay1.jpg

 

(Claudia Tremblay)

   As notícias incomodam. Não basva o vírus associado
aos números funestos, aos doentes, à morte e ainda
todos os dias somos fustigados com casos de
afogamento, suicídio, raptos e assassinatos de violência
extrema. Há uma tal desvalorização da vida que a
substituem, de ânimo leve, pela morte irremediável que
tudo acaba. Matam-se pessoas como quem mata pulgas
ou formigas. Alguns actos são tão estranhos e hediondos
que me tiram o sono. Ainda não estava longe a morte da
pobre pequenita Valentina, já surge o da jovem estudante
de Évora, morta por um colega, também ele na flor da
vida. Gente com o ar mais normal, com um sorriso a
inspirar ternura e compaixão, onde não se vislumbra uma
réstia da maldade que pode levar a tais actos. Não sei o
que será pior para um ser humano se a morte dela se a
destruição da vida dele, já que ela nada mais sentirá, dure
a eternidade o tempo que durar, e ele irá justamente
amargar o sofrimento eterno de uma vida. Estou nestas
cogitações, quando ao lado da minha porta, mesmo à
frente dos meus olhos, em plena luz do dia, um homem
com uma faca espetada na barriga pela mão de alguém,
segundo consta, inundado de álcool ou droga, esperava
pela ambulância. Aparato policial, homens fardados dos
pés à cabeça, uma paisagem lunar na pacatez da rua. Ao
mesmo tempo, na mais indiferente televisão, um polícia a
esmagar o pescoço de um negro como quem esborracha

uma barata, pelo “terrível” crime de querer pagar com
uma nota de vinte dólares, presumivelmente falsa. Muito
para cá da ancestral barbárie, da irracional inquisição, do
inferno do holocausto, nunca pensei ser tão difícil, nos
dias de hoje, entender os fantasmas da mente humana e
delinear as fronteiras entre a sanidade e a loucura.
Para além de todos os factores de ordem genética,
biológica, cultural, social, psicológica e educacional ainda
acredito que a família, a escola, o meio social e laboral
podem ter o mais determinante papel no crescendo ou
na prevenção destes crimes com que nos deparamos.
Porém, a verdadeira causa é muito profunda e radica, a
meu ver, nos crimes de colarinho branco, no abominável
camuflado tráfico de droga por pessoas tidas como gente
de bem, na ganância desenfreada, no obscurantismo de
toda a espécie, muitas vezes acenando e encenando o
Bem para praticar o Mal. Sociedade tão bárbara que me
tira o sono e a vontade de sonhar com um Mundo
Melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:19

Sexta-feira, 22.05.20

Senhora do Desterro - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Senhora do Desterro

96591187_3470744642953331_1173420314063798272_n.jp

 

(Foto de Adão Cruz)

 

   O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.

De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.

Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.

Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:47



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Ana D.

  • Anónimo

    Obrigada Sandra. Tive tantas Sandras como alunas. ...

  • Anónimo

    Parabéns, Eva!Mais uma riquíssima vivência tua (tã...

  • Augusta Clara

    Obrigada, Sandra, por mim e pela autora.

  • Sandra

    Há muito tempo que eu não lia algo assim tão belo ...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos