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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 06.08.20

O Pássaro Azul - Eva Cruz

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Eva Cruz  O Pássaro Azul

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(imagem de autor desconhecido)

   Hoje decidi ir ver nascer o sol.
Braços de uma luz ainda débil espreguiçam-se por entre a serra negra e o céu azul. Lentamente, uma franja de sol ofusca os olhos, e de repente ele nasce como uma criança do ventre da mãe natureza.
Os pássaros e toda a bicharada acordam. Das copas das árvores e dos ninhos sai uma chilreada sem fim, saudando o dia luminoso e quente. Debandam pelo céu fora sobre os campos verdes para os lados do rio à procura de água e comida. Com este afã começa o seu trabalho.
Comtemplo o céu, e o azul tem a transparência da água e é tão fundo que não lhe adivinho o fim. Por mais que prenda os olhos à lonjura, perco-me nesse desconhecido a que chamam infinito.
Passam bandos de estorninhos, de pardais, de pombos e pássaros que nunca vi, pássaros pretos de asas vermelhas. Estarei a sonhar? Eu sei desde criança que mesmo acordada, a natureza sempre nos convidou ao sonho. Mas não, são mesmo asas vermelhas ou então será o sol a dar-lhes de frente. Ou a ilusão a voar. A natureza anda muito estranha, e surgem por ali pássaros que há muito desapareceram e outros nunca vistos.
Os melros são à farta, mas esses voam rasos pelos campos fora. Não precisam de ir mais longe. Têm comida à mão de semear. Algumas carriças, pequeninas e redondas, empoleiradas na ramada, olham-me bem nos olhos, não sei se com estranheza ou simpatia. Pelo menos não se mostram assustadas.
Nos abetos, praguejam as pegas e os gaios numa linguagem estridente que destoa do chilrear ameno dos outros pássaros. Talvez seja um aviso, um alerta, um alarme porque de repente enxergo um milhafre a planar por ali, em voo ameaçador.
No bico da pereira, já a mostrar as peras criadas, os meus olhos dão com um pássaro azul, de papo cinzento, tão lindo e tão diferente que me pareceu um pombo-rolo ainda novinho. Mexia a cabecita, com o bico virado para o meu lado. Aproximo-me da grade do varandim para o ver mais de perto e ele desaparece. Fugiu, pensei. Sento-me de novo e volto a vê-lo poisado no bico da pereira. Repito o mesmo acto e novamente desaparece tornando a vir. Então assento bem os olhos na árvore e reparo que as folhas e os galhos desenham um pássaro azul, tão belo e tão estranho, o mesmo que eu via do meu lugar, sentada. Uma brisa leve agita as folhas, e a luz, dando-lhe vida, faz com que se movimente e vire a cabeça para o meu lado.
Tive plena consciência da ilusão. Mesmo assim, voltei a sentar-me e passei a tarde a contemplar aquele pássaro azul no bico da pereira.

 

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por Augusta Clara às 13:33

Terça-feira, 04.08.20

A Máscara - Eva Cruz

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Eva Cruz  A Máscara

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(máscara dos médicos da peste negra) 

 

   Só de pensar na desilusão ou nihilismo de Shakespeare e Macbeth “… A vida não é mais do que uma sombra errante, um pobre actor que se pavoneia e se esforça no seu momento sobre o palco, e que depois ninguém mais ouve… uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria significando nada…” apetece-me deixar cair a máscara.

Estou cansada deste ritual que me tapa a boca e o nariz e me impede de respirar o ar fresco da manhã e mostrar a cara que a vida me deu. Estou cansada de sentir que não sou eu. Gosto de ser eu, gosto de sorrir e ver o sorriso dos outros. À minha volta todos me parecem iguais, sem expressão, sem rosto, sem dono. A cor pode variar, preta, azul ou branca, mas não deixa de ser … nada.

Protecção, disfarce ou adereço, a máscara esconde a identidade de quem a usa para os fins que entender. A arte também se serve da máscara para, de uma forma catártica ou lúdica, exprimir melhor sentimentos do Bem ou do Mal. Na dança, no teatro é um símbolo de disfarce ou de ajuda para reforçar o carácter da personagem. No teatro grego, são conhecidas as máscaras da Tragédia e da Comédia, a primeira com as comissuras labiais e o canto dos olhos virados para baixo, inspirando sentimentos de tristeza, e a da Comédia com as mesmas marcas faciais viradas para cima, provocando riso e alegria. Em outros rituais religiosos, civilizacionais, rituais fúnebres, a máscara é mais do que disfarce ou acessório, é símbolo de transfiguração da vida. Como protecção, ficou conhecida na História a Máscara da Peste Negra usada na Idade Média, semelhante a uma cabeça de águia com um bico enorme, contendo mirra e cânfora como desinfectante. Uma máscara horrenda, o medo metendo medo a si próprio.

Nos nossos dias, volvidos tantos séculos, julgando nós que o mundo evoluiu ao ritmo da velocidade da luz, vemo-nos todos no mesmo palco, como sombras errantes, como actores da mesma tragédia ou da mesma tragicomédia. Tira máscara, põe a máscara, numa dança e contradança inspiradas pelo medo ou esquecendo o medo para dar asas à vida que assim se nos vai escapando neste teatro infernal.

O medo está associado ao instinto de sobrevivência e é ele que me tira a coragem. Vou ser amiga do medo e, pelo sim e pelo não, lá tenho eu de pôr a máscara.

 

 

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por Augusta Clara às 13:00

Sexta-feira, 03.07.20

Serra Mágica - Eva Cruz

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Eva Cruz  Serra Mágica

   A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.

Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.

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Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.

Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.

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Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.

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“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.

Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.

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por Augusta Clara às 15:03

Sexta-feira, 26.06.20

Cemitério dos livros NÃO esquecidos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Cemitério dos livros NÃO esquecidos

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   Todas as mortes chocam e incomodam. São vidas perdidas, irreparáveis, que matam outras vidas que continuam a ter de viver. Há uma sombra permanente que nunca mais deixa o sol ou a lua terem o mesmo brilho. Qualquer perda de uma vida deixa alguém a sofrer, penso eu, mesmo a daqueles que estão sozinhos no mundo, mesmo a dos maus, que por aqui cá andam apenas a fazer estragos. Pelo menos comigo, eu sinto que há sempre algum grau de compaixão que me assiste, talvez por tanto amar a vida e odiar a morte.

Recentemente, houve uma morte que mexeu muito comigo, a do escritor Carlos Ruiz Zafón. Gosto muito de ler. A leitura é e sempre foi um dos maiores prazeres da minha vida. No entanto, há livros e livros, há escritores e escritores. Estudei várias literaturas e li muitos livros. Reconheço que sou muito exigente quanto aos temas e particularmente quanto à forma. A arte literária, a arte da palavra contém em si uma harmonia, uma melodia e uma textura poética muito especial que têm muito que se lhe diga. Sem qualquer presunção, posso dizer que há livros e escritores consagrados que me dizem pouco. Como em qualquer expressão artística, consagra-os um júri ou um qualquer elenco seleccionado por critérios restritos e depois a fama encarrega-se do resto. Assim vivem os consagrados à custa dos consagradores e vice-versa. E quantas vezes apetece gritar que o rei vai nu.

Zafón é e será sempre um ícone, apesar de ter escrito pouco e ter poucos galardões. É um escritor apaixonante, arrebatador, não só pela força da imaginação, pela criação difícil e nada fútil do enredo, mas sobretudo pela forma como constrói a narrativa. Confesso que não gosto muito de livros grandes. Cansam-me. Porém, isto não me acontece com Zafón.

Dos livros que li de Zafón, “A Sombra do Vento” tocou-me particularmente. É um labirinto de emoções e sensações que deixam o leitor apaixonado por uma leitura impossível de parar, que arrebata até ao fim. Carlos Ruiz Zafón é um verdadeiro escritor, um romancista a sério. E o Romance “é uma pequena carta de amor à arte da narrativa, ao ofício de criar e contar histórias, uma homenagem a quem as constrói palavra a palavra”.

Aqui lhe deixo esta singela homenagem, uma flor branca no “Labirinto dos Espíritos “a um “Prisioneiro do Céu” como “o Jogo de um Anjo” na “Sombra do Vento”.

Que os seus livros fiquem para sempre no mágico lugar do” Cemitério dos livros NÃO esquecidos.”

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por Augusta Clara às 13:44

Quinta-feira, 04.06.20

A vida - Eva Cruz

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Eva Cruz  A vida

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(Claudia Tremblay)

   As notícias incomodam. Não basva o vírus associado
aos números funestos, aos doentes, à morte e ainda
todos os dias somos fustigados com casos de
afogamento, suicídio, raptos e assassinatos de violência
extrema. Há uma tal desvalorização da vida que a
substituem, de ânimo leve, pela morte irremediável que
tudo acaba. Matam-se pessoas como quem mata pulgas
ou formigas. Alguns actos são tão estranhos e hediondos
que me tiram o sono. Ainda não estava longe a morte da
pobre pequenita Valentina, já surge o da jovem estudante
de Évora, morta por um colega, também ele na flor da
vida. Gente com o ar mais normal, com um sorriso a
inspirar ternura e compaixão, onde não se vislumbra uma
réstia da maldade que pode levar a tais actos. Não sei o
que será pior para um ser humano se a morte dela se a
destruição da vida dele, já que ela nada mais sentirá, dure
a eternidade o tempo que durar, e ele irá justamente
amargar o sofrimento eterno de uma vida. Estou nestas
cogitações, quando ao lado da minha porta, mesmo à
frente dos meus olhos, em plena luz do dia, um homem
com uma faca espetada na barriga pela mão de alguém,
segundo consta, inundado de álcool ou droga, esperava
pela ambulância. Aparato policial, homens fardados dos
pés à cabeça, uma paisagem lunar na pacatez da rua. Ao
mesmo tempo, na mais indiferente televisão, um polícia a
esmagar o pescoço de um negro como quem esborracha

uma barata, pelo “terrível” crime de querer pagar com
uma nota de vinte dólares, presumivelmente falsa. Muito
para cá da ancestral barbárie, da irracional inquisição, do
inferno do holocausto, nunca pensei ser tão difícil, nos
dias de hoje, entender os fantasmas da mente humana e
delinear as fronteiras entre a sanidade e a loucura.
Para além de todos os factores de ordem genética,
biológica, cultural, social, psicológica e educacional ainda
acredito que a família, a escola, o meio social e laboral
podem ter o mais determinante papel no crescendo ou
na prevenção destes crimes com que nos deparamos.
Porém, a verdadeira causa é muito profunda e radica, a
meu ver, nos crimes de colarinho branco, no abominável
camuflado tráfico de droga por pessoas tidas como gente
de bem, na ganância desenfreada, no obscurantismo de
toda a espécie, muitas vezes acenando e encenando o
Bem para praticar o Mal. Sociedade tão bárbara que me
tira o sono e a vontade de sonhar com um Mundo
Melhor.

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por Augusta Clara às 16:19

Sexta-feira, 22.05.20

Senhora do Desterro - Eva Cruz

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Eva Cruz  Senhora do Desterro

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(Foto de Adão Cruz)

 

   O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.

De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.

Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.

Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

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por Augusta Clara às 14:47

Sábado, 16.05.20

Uma joaninha - Eva Cruz

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Eva Cruz  Uma joaninha

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(Evelina Oliveira)

 

   Com todos os problemas que a pandemia nos trouxe, há um indubitável benefício, pouco valorizado, que a humanidade lhe deve. Poder-se-ia falar da melhor qualidade do ar, da água, das boas transformações da natureza, do reaparecimento de aves e insectos, do ressuscitar das coisas belas que se perderam pela destruição e desumanização daquilo a que chamamos progresso. Deixo, porém, este campo para os cientistas e académicos que com rigor e precisão o fazem melhor do que eu. Limito-me a observar outro campo, aquele a que os meus olhos sempre se habituaram a contemplar, a conhecer pelo cheiro e pela cor, pela beleza pujante ou agreste, pelo brilho do sol ou pelo fustigar do vento, bravio, manso, cultivado pelas mãos carinhosas que o amanham ou revoltado pelo desprezo e abandono.

Há dias ouvi o cuco: Cu-cu, cu-cu. Não o ouvia há anos. Espreitava-me, empoleirado num ramalho. Como fazia em criança, respondi-lhe: cu-cu, cuco ramalheiro quantos anos tenho solteiro. Só que vai tão longe esse tempo…que o cuco se deve ter fartado de rir. Nesse mesmo dia, uma poupa cor de toupeira, com uma crista matizada de branco, caminhava pelo campo fora, garbosa e imponente, como se fosse a dona do mundo. Depois cantou: poupa, poupa, tudo é pouco. Mau sinal, diziam os antigos, ano de fome. Ela lá sabe. Voando pelos ares vê melhor e mais longe do que aqueles que se passeiam cá por baixo. Pegas, melros, pombos-rolos são aos bandos. Fazem estragos, depenicam tudo o que nasce da terra e das árvores, mas é o preço que cobram por dar vida e beleza à natureza adormecida. Porém, o que mais me surpreendeu foi uma joaninha, poisada na haste de uma espiga de centeio, ali nascida de alguma semente trazida pelo vento. Joaninhas, grilos, cigarras, alfaiates, louva-a-deus, pirilampos… desandaram por completo. A joaninha, pequenina, vermelhinha, luzidia, cheia de pintinhas pretas, poisada na haste, libertava em mim um mundo de visões e sensações indescritíveis. Joaninha, Ladybug, Marienkäfer, aqui ou lá, sempre feminina e distinta.

A arte é o expoente máximo da expressão do sentimento. Particularmente a arte de escrever, a arte da palavra, por vezes tão difícil e dolorosa. Criar pela escrita o que aquela joaninha trazia no vermelho luzidio do seu vestido às pintinhas pretas, as recordações que o tempo levou, os reflexos dos olhos que viram searas de trigo e centeio a ondular ao vento, as vozes e os rostos tão distantes não é tarefa para mim. Fica a vontade e o sonho.

Quando me aproximei da Joaninha ela voou, mostrando por baixo das asas vermelhas um outro par de asas sedosas e rendadas. Joaninha aboa, aboa quo teu pai foi pra Lisboa, com uma faca de latão, espetada no coração.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 24.04.20

Vinte e cinco de Abril - Eva Cruz e Adão Cruz

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Eva Cruz e Adão Cruz  Vinte e cinco de Abril

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(Adão Cruz)

   O Vinte e Cinco de Abril é um poema universal, uma janela sagrada, um poema tantas vezes ignorado, uma janela tantas vezes fechada por quem nunca entendeu o que em Abril aconteceu. É muito difícil entender a alma dos valores, da profundidade dos versos deste poema, a abertura desta janela que dá para horizontes infinitos.

Aproxima-se esta data gloriosa num mês de sofrimento e isolamento. Por isso não a podemos celebrar com o brilho e a cor que esta ditosa Revolução dos Cravos merece, porque recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho que o Vinte e Cinco de Abril foi um fenómeno universal de iluminação das consciências, um glorioso hino de liberdade, gerador de profundas mudanças sociais e mentais em Portugal e em muitos países do mundo.

O Vinte e Cinco de Abril foi um dos fenómenos político- socais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos que formataram e aviltaram a vida. Os seus valores, nem sempre entendidos e bem interpretados por muita gente, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos tempos, percorreram o mundo de-lés-a-lés, renascendo e reproduzindo-se em elevados conceitos de direitos e deveres, de justiça e dignidade do cidadão no seio de um colectivo humano.

O Vinte e Cinco de Abril aconteceu há quase meio século. Não há muito tempo, do ponto de vista histórico. Penetrou, porém, com tal impacto em cada um de nós que nos fez repensar ideias e ideais. Que cada um recorde aqueles que tenazmente lutaram para que ele acontecesse. Neste tempo de confinamento, o nosso pensamento e a nossa palavra devem recordar a luta dos presos políticos que, muitas vezes, à custa da própria vida, levaram a que a Revolução explodisse. Quando pensamos nas nossas queixas e nas de tantos, cansados de estarem metidos dentro de quatro paredes durante escassas semanas, no conforto das suas casas, com dinheiro e comida, dotados de modernos meios de comunicação, vem-nos à cabeça a exiguidade de uma cela, a imposição do segredo, a tortura e a morte de tantos que consumiram a flor da sua vida pelo ideal da Liberdade. Verdadeiros mártires sem quaisquer aspirações a santos.

Os tempos de hoje são de pouca alegria, de medo, mas também de esperança. Por isso nos curvamos perante a grandeza deste dia, desejando que a História nunca o apague do coração da Humanidade, sobretudo do coração do Povo Português que o acolheu de braços abertos e o enfeitou orgulhosamente de Cravos Vermelhos.

 

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por Augusta Clara às 09:00

Domingo, 05.04.20

O espantalho do coronavírus - Eva Cruz

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Eva Cruz  O espantalho do coronavírus

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(Adão Cruz)

   Há três semanas em clausura, completamente só e confinada às paredes de um apartamento, assaltava-me vezes sem conta a miragem do meu jardim, dos campos verdes e da minha casa da aldeia, com os seus recantos tão meus e tão agarrados à minha existência.

Foi decretado de novo o estado de emergência. Como cumpridora que sou, capacitei-me de que tinha de continuar a obedecer. Para além da saudade, havia também alguma emergência nesta minha saída, não pela falta de zelo de quem por lá trabalha mas por obrigações que cabem aos donos. Eu sabia que no período da Páscoa, as medidas seriam mais rigorosas, não se poderia sair do Concelho de residência. Decidi então munir-me de todas as precauções e, sem violar as regras, equipei-me dos pés à cabeça, peguei no carro e fui até ao meu pequeno mundo maravilhoso das Figueiras. Lá não correria perigo algum, pois estava isolada de tudo e de todos. Só aquela natureza no seu estado mais natural me inspirava a máxima confiança.

O problema era descer o elevador da minha residência até à garagem, caminhar no piso calcado e recalcado por tantos que por ali se movem. Envolvi-me num fino avental de plástico até aos pés, daqueles que se usam para dar banho aos doentes, enfiei as respectivas luvas e colei na cara a máscara branca.

Durante a viagem de cerca de dez quilómetros, retirei a máscara, pois nenhum vírus havia entrado à socapa no meu carro, ele também, bem fechado e em quarentena.

Quando cheguei ao velho portão da minha casa na aldeia, daqueles que ainda se abrem com ferrolhos, trinco e alavanca, resolvi deixar o carro cá fora. Pus de novo a máscara e as luvas e sorrateiramente abri apenas uma nesga do portão, não se desse o caso de andar por ali alguém.

De repente, uma revoada de pássaros, não sei se andorinhas, pardais ou estorninhos debandou em alvoroço e as pegas começaram a praguejar e a gritar naquele seu pio tão agreste. Um gato amarelo, que nem é meu, e por lá vive como se fosse o dono, mal me viu desapareceu que nem uma flecha. Ri-me sozinha e pensei que seria o contágio do coronavírus a assustá-los, ao gato e aos pássaros, ou aquela espécie de espantalho vivo que ali apareceu inesperadamente.

Despi a minha estranha indumentária, abri portas e portadas para deixar entrar o sol e o ar puro do campo, corri a casa de lés- a-lés, senti o cheiro de tudo a velho mas limpo, espreitei todos os cantos e recantos que me enchem de vida e voltei para o pátio. Palmilhei os campos, senti a refrescante mistura de tantas flores e aromas que por ali se abrem em pleno silêncio e liberdade e parei os olhos na cercadura lilás à volta do quintal. Nesta altura, um mar de glicínias que por lá se entrelaçam e enroscam nas vedações deixam tombar os seus cachos tão perfumados que o cheiro se sente e adivinha ao longe.

Enfeitei as jarras de Páscoa como fazia a minha mãe e coloquei na porta uma coroa de flores brancas e amarelas, o símbolo da Primavera e da cor do ovo, o cerne da vida. Polvilhei tudo com um profundo suspiro de esperança.

Pelo meio da tarde vim embora. Senti que os pássaros voltaram, talvez confiantes e contentes porque a dona apareceu e lhes enfeitou a casa de Páscoa.

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por Augusta Clara às 16:07

Quinta-feira, 02.04.20

O ensino em quarentena - Eva Cruz

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Eva Cruz  O ensino em quarentena

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(Adão Cruz)

   Hoje telefonou-me um aluno meu de há mais de quarenta anos a saber de mim e do meu isolamento. Transmitiu-me, para além da sua preocupação e de um beijinho, a preocupação dos outros alunos do seu tempo que ainda se juntam com frequência e fazem questão de ter a minha companhia. Comovi-me.

Isto fez-me reflectir um pouco e pensar no que se está a passar no momento. Ainda bem que a tecnologia permite o ensino à distância, mobilizando professores e alunos numa dinâmica diferente. Eu, que fui pedagoga, e julgo, sem presunção, continuar a ser, apesar de há muito aposentada, procuro imaginar-me numa situação destas. Não seria fácil a tarefa, presumo eu. Não sendo uma “infoexcluída”, estou muito longe de poder estar preparada para tal trabalho. Contudo, o que mais me impressiona e confunde neste ensino, bem melhor do que não haver nenhum, é a falta do contacto humano, ver e ler no rosto dos meus alunos as reacções, as certezas e as dúvidas, o prazer, o cansaço ou o enfado, a cor e o tacto da minha palavra, dos meus gestos ou uma simples mímica para poder dar resposta às exigências de uma sala de aula na cumplicidade do ensinar e aprender.

Confesso que gostei muito de ser professora e que hoje é ainda o dia em que recordo essas vivências tão distantes no tempo, mas ainda tão presentes e tão saudosas. Desempenhei outras tarefas na Escola, mas de tudo o que mais gostei foi de dar aulas. Sei que os professores hoje se deparam com problemas tremendos de desgaste, de frustração que não merecem. Eles são a grande força que pode guiar a Humanidade pelos melhores caminhos. Sem eles o mundo não avança. É preciso urgentemente reconhecer-lhes esse valor.

Sem me querer deter na análise das causas, acho que o ensino se tornou muito formatado e pouco criativo. Falta o sonho, o sonho que alimentou a geração de Abril. Talvez por começar hoje, ele me vem á memória. Não foram momentos fáceis. Sempre achei e acho que vale a pena lutar por Abril. Abril sempre.

O acto de ensinar e aprender tem de ser vivido com alegria. Com custo sim, mas sem enfado. Isto implica muito trabalho, mas acima de tudo criatividade. Quanto mais estereotipado e formatado for o ensino menos atraente e profícuo se torna para alunos e professores. Para além de bons técnicos, precisamos acima de tudo de bons professores.

Recordo-me de uma estratégia muito usada por mim na sala de aula. Uma simples composição colectiva. A composição é das tarefas mais difíceis e mais desafiadoras em pedagogia. Desafio aqueles, que em tal não acreditam, a pegarem numa folha de papel em branco e um lápis e a escreverem sobre um tema, uma frase ou uma simples palavra. Trata-se do acto de criar que pode levar à obra de arte. Esta tarefa nem sequer implicava grandes meios ou recursos técnicos. Todos os alunos participavam com uma frase, podia ser a mais simples ou pobre mas todas eram aproveitadas, saindo normalmente um produto que os gratificava e até era motivo de orgulho. Tarefa de alto risco, sem dúvida, sobretudo numa língua estrangeira e particularmente no Alemão. A humildade de o professor poder duvidar ou errar, se tal acontecesse, e procurar o esclarecimento ou corrigir o erro era também fonte de ensinamento. Não me deixam mentir alunos e estagiários a quem procurei transmitir o que sabia, realçando que o acto colectivo bem orientado combate o individualismo tão instigado pela competitividade dos dias de hoje.

Talvez este telefonema do meu querido aluno, preocupado com a minha quarentena, tenha raiz no ensinamento que bebeu nas minhas aulas há cerca de meio século. Se assim foi, sinto que cumpri a minha missão de educadora.

Um beijinho para ti, António e para todos vós.

 

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por Augusta Clara às 14:12



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