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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 29.08.18

MANUEL SOBRINHO SIMÕES “VIVEMOS DE TRUQUES PARA SOFRER O MENOS POSSÍVEL”

  

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 Expresso - Revista, 25 de Agosto de 2018

 

Luciana Leiderfarb (texto) e Rui Duarte Silva (fotografias)

   Entra na sala, os óculos, a afabilidade, o sorriso de sempre. Mas há um elemento novo, um caderninho que pousa na mesa antes de iniciar a conversa. “Você desculpe, agora tem de ser assim.” E foi. Escreveu muitas palavras a fim de as descodificar devidamente, algumas só para ter a certeza, que isso de errar não está no seu ADN. Manuel Sobrinho Simões, patologista português, em 2016 eleito pelos pares o mais influente do mundo, autoridade no cancro da tiroide, tem 70 anos e vai a caminho dos 71, mas ainda não assumiu a reforma. “Não a ponho na biografia”, diz. Nem a inscreve no quotidiano, continuando a ir todos os dias para o seu escritório no IPATIMUP, o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto que fundou há quase 30 anos e que é um dos centros de excelência mundiais no que toca à investigação do cancro. É nessa paisagem que nos recebe, não fosse um homem de hábitos — que, no entanto, nunca ficou no mesmo lugar. Casado com a pediatra Maria Augusta Areias, pai de três e avô de seis, domina “o paleio” biológico mas sabe, cada vez mais, que não é isso o que o define. Afinal, quem é? Um homem com medo, racional e emotivo, “competitivo e orgulhoso”, “a ver a descida”, a aprender a descer, que valoriza mais as chegadas do que as partidas, que procura — e encontrou — uma forma de eternidade. E que, pragmático, vira para si mesmo a pergunta: “Para quê?”

Para que serve esse caderno?

Agora ando sempre com ele atrás. Por causa da minha chatice. Como sabe, tive um AVC.

E tê-lo ajuda-o de que forma?

Ajuda-me a separar as sílabas de certas palavras. Por exemplo, só consigo dizer ‘sussurrar’ ou ‘helicóptero’ se o escrever. Na verdade, poderia não ter o caderno, mas faço gosto de ter. É uma forma de disclosure: meus amigos, eu tive esta chatice, não sou um atrasado. Tenho só mais dificuldade.

Que dificuldade é essa?

Falo inglês e francês, e um pouco de espanhol. Agora, quando tenho de fazer relatórios, não sei se estou a escrever em inglês ou em francês. Se falar de coisas técnico-científicas, o inglês continua fluente. Mas se conversarem comigo a um outro nível, mais pessoal, fico perdido. Não consigo fazer small talk.

 (RE)APRENDER A 13 de maio, Sobrinho Simões teve um AVC. Desde então leva sempre consigo um caderninho onde aponta, sílaba a sílaba, as palavras que mais lhe custa pronunciar

(RE)APRENDER A 13 de maio, Sobrinho Simões teve um AVC. Desde então leva sempre consigo um caderninho onde aponta, sílaba a sílaba, as palavras que mais lhe custa pronunciar

A ‘chatice’, quando aconteceu?

Foi a 13 de maio. O que tem graça, porque a minha mãe é devota de Nossa Senhora de Fátima e quando fiquei melhor pensou que era um milagre. Estava no Porto, em casa, era de manhã. Levantei-me e percebi que não estava a conseguir ler o Expresso. A Gu [Maria Augusta Areias, a mulher], que é médica, disse logo que eu tinha qualquer coisa. Ainda resolvi ir comprar vinho e ver a pressão dos pneus. Já estava a ter um AVC. Quando voltei a casa, enfiaram-me na ambulância para o São João.

Não se apercebeu de nada?

Não, porque não dói. A dor seria um grande sinal. O que senti foi uma dificuldade, um trocar os nomes. Descobriu-se que tive um ‘embolismo paradoxal’: a formação de trombos mínimos que se acumulam na aurícula direita e que poderiam não dar problemas, mas um deles passou para a esquerda e encravou numa arteriazinha cerebral muito periférica. A 8 de junho fecharam-me esse canal, e agora está tudo bem. Em setembro já me deixam voltar para o circo, tenho quatro viagens marcadas. É um desafio.

E ser um desafio é bom.

Há um elemento que não é só a vontade, é o risco. Eu, que nunca decorei nenhum número, mas que sempre decorei todos os nomes, perdi isso, esqueço-me. Tenho também parafasias, o que tem a sua graça. Ia oferecer três garrafas a uns homens que nos arranjaram uns pinheiros e eu disse que tinha três ‘gravatas’ para lhes dar.

Professor, eu acho graça a que ache graça. Muitos no seu lugar teriam ficado aterrorizados.

É a única forma de lidar com isto. Repare que, quando acordo no primeiro dia, os médicos mostram-me um cão. Eu digo “cão”. Mostram-me um gato e eu digo: “Não é tigre, mas não sei o nome.” Mostram-me uma caneta e eu sei o que é — é uma esferográfica, mas quero a outra palavra. E não a tenho. É um susto tremendo.

O susto de não ter palavras para nomear.

Apanha-se um susto porque são palavras que você sabe, só não as consegue dizer. No fundo, tinha uma lesão. E tive sorte. Por acaso isto também tem graça. Sou médico, e os meus amigos dos AVC dizem-me que, em Portugal, o AVC torna as senhoras mais faladoras enquanto os homens ficam patos mudos. Eu sou um tipo da biologia, tenho todo este paleio do cancro, mas para isto não tenho explicação. Dizia ao meu filho: “Traz-me o jornal”, e ele respondia: “Pai, porque é que me pede o elevador?” O que posso dizer é que depois do susto comecei a fazer esforços, a aprender. Às três da manhã acordava com o apelido ‘Wilde’ na cabeça, sem me lembrar do nome. Escrevia ‘Oscar’ e pensava: não reconheço isto. Ora, não reconhecer as palavras por escrito é estranhíssimo.

Pode ser mais confuso para um leitor, para um homem que lê.

Eu leio muito depressa, mas se agora me pedir para ler alto vou cometer muitos erros. Se tiver de dizer um poema, a preocupação por pronunciar bem as palavras faz-me deixar de o perceber.

Como é adaptar-se a uma realidade em que as palavras não são o que sempre foram?

Posso dizer-lhe o que faço: ponho-me à prova constantemente. Se às duas da manhã não me lembrar de quem era o mordomo no anúncio do Ferrero Rocher, não descanso até o encontrar. Vinha-me à cabeça Tenório ou Gervásio — era Ambrósio.

Qual a sensação de resolver o mistério? Alívio?

Arranja-se uma justificação. Afinal, os nomes tinham relação entre eles. As pessoas acham que fiquei muito bem, e estou bem. Mas se começar a ficar confortável baixo a defesa e os erros aparecem.

Que tipo de paciente é?

Sou muito fácil, faço tudo o que me mandam. Faço fisioterapia da fala, decoro lengalengas, gravo-me a ler em voz alta e verifico os erros... Todos os dias de manhã. E também tenho dito poemas cada vez mais difíceis. Porque sinto sempre, a todo o momento, esta nova fragilidade.

E não está habituado a falhar.

Sempre fui um performer. E já fiz o estudo suficiente para perceber onde é que me engano, quais são os sons que me levam a errar. Então procuro um sinónimo, para isso não acontecer.

“A minha grande descoberta foi que as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou”

Uma vez disse que o seu maior medo é “ser menos eu”. Perder-se.

O AVC simboliza essa possibilidade. Já passei por outras situações-limite. Em 2003 estava em Oslo, onde recebi uma medalha do rei, e ia para Londres. Como sou um workaholic, levantei-me às 6h, não almocei e apanhei o avião. Na viagem, desmaiei. Ao chegar ao Porto descobriram um aneurisma congénito na ilíaca primitiva esquerda. Deram-me uma aspirina e pronto. Em 2017 tenho uma dor horrível, penso que é a anca e a artrose. Encontram um tumor que, afinal, era sangue proveniente da rotura do aneurisma. Mas fizeram-me o diagnóstico de cancro. E claro que me assustou, embora não fosse a mesma coisa.

Porquê? O que distingue o risco das duas situações?

Conheço a lógica do cancro. E o sofrimento. Mas não senti o medo de deixar de ser eu. Tinha pena, não queria morrer. Desta vez, a pergunta era: quem é que vou ficar a ser? Tenho muita curiosidade e acho graça às pessoas, e a minha grande descoberta foi que as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou.

Não somos só genética.

Se contarmos a história da nossa família, o que é que isso tem de genético? É uma outra dimensão sobre a qual sabemos muito pouco. Cada vez mais percebemos que a divisão entre o lado natural e o cultural é ilusória e que as duas coisas estão ligadas. Mas, por estranho que pareça, tudo o que é psicológico ou sociológico escapa-me, não o domino — dominando o resto.

E isso que lhe escapa é o fundamental?

Não consigo explicar coisas como o gosto pela música, percebe? Dou-lhe um exemplo: com esta chatice toda, começaram-me a crescer as unhas mais depressa. Cortava-as uma vez por semana e agora faço-o a cada três dias. Tentei ver se isto já me aconteceu no passado. E de facto, quando ia para África ou para a Ásia demoravam a crescer. Mas quando ia para os Estados Unidos cresciam imenso. Era o stresse, tal como agora.

Afinal, o que lhe aconteceu não teve assim tanta graça.

Passei por um stresse brutal. E ainda estou nele, mas não tenho alternativa a não ser tentar perceber. E perceber que o stresse não me atinge de uma forma que eu possa explicar. Acontece, ponto.

Diz que a maior dificuldade é definir-se fora do biológico, mas também escreve: “A família aperta-nos como uma tenaz.” É toda uma definição.

O que sinto é que a definição do que sou é cada vez mais cultural e menos genética. Sabe o que acho extraordinário em Portugal? Não há país mais homogéneo geneticamente, porque estamos afastados do centro — e assim nos mantivemos. Porque é que ficamos diversos? Porque começamos a sair e a trazer genes. No entanto, as outras coisas que trouxemos — religiões, cultura, costumes — definem-nos mais do que os genes. Os portugueses são uns tipos que tiveram uma escravatura horrorosa, que não se pode contar a ninguém. E o problema do valor do trabalho em Portugal vem daí, não é genético.

Acha que Portugal tem um problema com o trabalho?

Estou a exagerar, mas durante muitos anos incorporámos formas alternativas ao trabalho. Como somos periféricos e não tínhamos facilidade de criar riqueza e competir, fomos para o Atlântico. Isso não é trabalho da forma como hoje o concebemos. Por outro lado, tínhamos escravos, dez por cento da população era negra. Nunca dizemos isso. E continuamos a ter uma tradição de pequenas tribos familiares, agora partidos políticos ou a maçonaria, que são fórmulas para substituírem a questão da competência.

No livro “Os Portugueses” [Ed. Gradiva] , publicado em dezembro, diz que “Portugal só evoluirá se partir do concreto para as grandes sínteses; se partir das pessoas, da sua literacia, para a sociedade”. Quer explicar?

Em Portugal pergunta-se pouco ou não se pergunta. Mas o aspeto mais negativo é a burocratização da sociedade, desde o Parlamento — em que os partidos não representam realidades comuns — ao ministério que não percebe nada do hospital. Temos uma tradição de centralização assustadora. E há uma ausência de mecanismos de recompensa. Não temos a tradição de recompensar o mérito. Por outro lado, vinha agora a ouvir na rádio que há 12 mil professores em baixa prolongada. E, nos hospitais, o absentismo de técnicos atinge os 50%. Não temos, portanto, qualquer controlo do sistema. E não só não perguntamos porquê como começamos por cima em vez de começar por baixo.

‘Porquê’ é a pergunta-chave?

Não, a grande pergunta é ‘para quê’. E a maior parte das pessoas não sabe responder. Existe a tradição de ter uma camada de capatazes que se misturam de forma promiscua com os edis, e essa gente não está a responder a esta pergunta. Está a responder a uma necessidade de cima para baixo que tem a ver sobretudo com benefícios eleitorais, informalidade e corrupção. Não temos hierarquia nem mérito, somos todos primos e cunhados, ou membros do mesmo clube. Pergunte-me porque é que Portugal é um país tão assimétrico.

 CORRER Mesmo jubilado, o patologista vai todos os dias ao IPATIMUP, de que foi fundador há quase 30 anos. E mantém um escritório no Hospital São João para atender os alunos

CORRER Mesmo jubilado, o patologista vai todos os dias ao IPATIMUP, de que foi fundador há quase 30 anos. E mantém um escritório no Hospital São João para atender os alunos

Considere a pergunta feita.

É a periferia, a pobreza, era a religião, o clima, ninguém casava connosco. E hoje é o rescaldo de tudo isso, a que se acrescenta uma organização tribal e de capelas que mantém tudo na mesma.

Há pouco falou do “paleio do cancro”, como se fosse simples. Não imagina a estranheza dessa frase para um leigo.

É simples. À medida que tivermos uma intervenção mais precoce, o problema vai desaparecer. O mesmo não se pode dizer do Alzheimer, das demências cognitivas, das falências do sistema. Não vamos morrer do coração nem de cancro, mas de doenças degenerativas, de infeções. No cancro, as células são filhas da mesma mãe e hoje compreendemos bem os seus mecanismos. Não sabemos é como tratar doentes em que o cancro já deixou de ter fronteiras e recriou um novo organismo.

Em que se torna um ‘outro’, um invasor.

E que é muito parecido connosco, e mais eficiente do que nós. Então, o problema é tratar — mas perceber, percebemos.

“Células com uma perturbação nos mecanismos de regeneração, que se tornam mortais.” A frase é sua e há nela um toque de admiração. O cancro como algo admirável.

Mas é admirável! Por isso é difícil de curar. Se as células fossem proliferativas, tratávamos com venenos. Mas não é tão fácil tratar pessoas com uma reserva de células que são mantidas sem dividir e que são extremamente resilientes. Como é que ganhamos isto? Quando começamos a estudar os animais, percebemos que, à exceção do homem, a maioria não tem muita capacidade de sobreviver. Onde há essa capacidade? Nas plantas. Basta lembrar os plátanos, que voltam a crescer após podas mutilantes todos os anos, e que desenvolveram mecanismos extraordinários para serem quase imortais. E repare que são proteínas muito próximas das nossas, não são outras. Não são alien.

As plantas e o cancro têm algo em comum?

Há uma grande semelhança entre todos os organismos que tenham como grande aspiração não morrer. A proliferação das plantas é um espanto: o crescimento faz-se com respeito das fronteiras e só temos de colher ou fazer podas. E não há nada no reino animal que seja mais proliferativo que um novo ser a partir do ovo. Esse crescimento, do qual sairão jovens que mais tarde vão ter crianças, é um processo que se faz com regras: não há invasão, isto é, respeitam-se as fronteiras dos tecidos, e as células dividem-se, crescem e morrem. O cancro aparece porque se acumulam proteínas que bloqueiam o suicídio natural das células. E estas, uma vez em número aumentado, migram para outros sítios — deixam de respeitar fronteiras. Tanto os seres vivos como os cancros são organismos únicos, daí ser tão difícil passar um cancro para outro ser vivo. Um ser vivo, assim como o seu cancro, tem uma identidade.

Quer dizer que o cancro é algo de muito pessoal.

É a prova de que ainda temos capacidade de evoluir. No fundo, se pudéssemos evoluir, poderíamos ter mecanismos seletivos mais eficientes. O cancro gostaria de ser mais eficiente, mas quando fica mais eficiente perde a capacidade de respeitar fronteiras. Se não nos metermos em guerras, resta-nos a ocorrência cada vez mais frequente de cancro. E se os homens viverem 100, 120 anos, teremos todos um ou mais do que um cancro. Somos cada vez mais superprotetores do homo sapiens, embora estejamos a engordar demasiado, a ficar diabéticos, hipertensos, com problemas da coluna... São dezenas de anos de exposição a agressões físicas, químicas, microbiológicas. Sabe, o homo sapiens rebentou com tudo. A passagem do homem coletor e caçador para o agricultor e domesticador, com um cérebro de 1500 cm cúbicos, fez-se à custa da destruição absoluta de tudo o resto. E vai acabar por morrer quando esgotar tudo — o desafio será a revolução da genética germinativa, não o cancro. O homo sapiens não tem grande imaginação, há é alguns tipos geniais. Os poetas, os músicos. Isso, sim, é algo que me deixa espantado. Como é que uma pessoa treina para ser pianista?

Como é que alguém treina para ser um patologista, um médico?

Isso tem um output que é medido pela sua aplicabilidade. E essa é a diferença entre o material e imaterial. No domínio material, introduzimos muita coisa que é facilmente mensurável. A arte não é mensurável. A beleza.

Mas em qualquer domínio existe o elemento surpresa. Mesmo na ciência.

Claro, por isso existem as ordens e as corporações. Indecentes, porque servem para defender os profissionais e não os desgraçados que os procuram.

Já cometeu algum erro?

Muitos, até demais. Conto-lhe um. Há muitos anos, o meu chefe tinha um doente do esófago. Fez-se uma biopsia e achei que era cancro. Entretanto, fui para férias e, ao voltar, ele tinha tirado o esófago ao doente — uma cirurgia horrível à qual por acaso sobreviveu. Afinal, não havia cancro nenhum, era um processo inflamatório grave e eu tinha feito sobre­diagnóstico. O que se faz hoje? Pede-se segunda opinião. Sempre.

Foi para não correr riscos desses que decidiu não fazer clínica?

Sim, pela incerteza. Vejo-me à rasca, tenho medo. É um equilíbrio muito frágil entre a dificuldade de arriscar e o não resolver por excesso. Porque a prática médica é sempre baseada na noção de que as pessoas, perante a dúvida, devem ser tratadas. Há uma tendência horrível para o sobretratamento, que assenta no sobrediagnóstico.

Falou muitas vezes nas IDLE [indolent lesions of epithelial origin]. Lesões que, se forem vistas, são consideradas cancro. Como se lida com isto?

A evolução atual nos países civilizados é o watchful waiting. É poder dizer à pessoa para voltar daqui a três meses para ver se a lesão aumentou. Os japoneses estão a fazê-lo maravilhosamente. Nós não. Nós não resistimos a enfiar uma agulha. E desde o momento em que enfiamos a agulha encontramos lá células. São células atípicas ou malignas, mas com possibilidades ínfimas de virem de a ser clinicamente um cancro, de se espalharem.

Como não querer arrancar esse maligno que está em nós?

Repare, seria mutilante. Dávamos cabo de toda a gente. Todos nós temos sempre células deste tipo, sobretudo nos sistemas digestivo, respiratório e urinário, na mama e na próstata — na maior parte das vezes, conseguimos destruí-las. Não sei se sabe isto mas, em Portugal, o norte tem oito vezes mais cancro da tiroide do que o centro e o sul. E a mortalidade é a mesma. Isto quer dizer que há sobrediagnóstico no norte — cancros muito pequeninos nos quais não deveríamos mexer, nem deveríamos sequer nomeá-los como tal.

O mero nome leva à ação. O médico tem o direito de não nomear?

É uma discussão em aberto. Propusemos que se chamassem ‘microtumores’, mas os americanos não quiseram, argumentando que há um risco. Pois há: um em dez mil. Respondendo à pergunta, uma vez que se encontra um cancro não se consegue ignorar. Nem pelo médico nem pelo doente. E os processos acabam sempre com a mutilação, com custos brutais em todos os sentidos.

Há uma pulsão de vida que nos leva a agir, mesmo que não seja necessário.

Só que nós agora temos capacidades extraordinárias de diagnóstico de coisas minúsculas. E se me pedirem para jurar que aquilo nunca vai ser um cancro, não o posso fazer. Continuo a pensar que o problema em Portugal é termos senhoras a quem não são diagnosticados cancros do colo do útero porque não fazem os exames ou os fazem tarde demais. Nos países subdesenvolvidos, ainda temos a questão do cancro demasiado avançado e da falta de acesso. No entanto, temos já uma população substancial com excesso de tudo, até no acesso aos mais avançados meios de diagnóstico. O português adora fazer TAC — somos, depois da Grécia, o país com mais aparelhos de TAC da Europa.

Afirmou que o cancro é a prova de que ainda temos capacidade de evoluir. E já o tinha ouvido dizer que é “o preço que temos a pagar por mantermos a espécie viva”. Em que sentido?

É que nós não temos nenhuma razão para acabar. Quando eu era estudante, vigorava uma lógica muito linear: o homem pôs-se de pé porque desenvolveu o cérebro. A descoberta de hominídeos que se puseram de pé antes do homo sapiens significa que a espécie, tal como os lobos e os cavalos, teve uma grande variedade. A evolução foi fruto de uma competição entre diversos hominídeos, e isto significa que a espécie continuaria a evoluir. O cancro significa que o homem tem células capazes de evoluir. No limite, só temos capacidade de progredir se tivermos células de reserva capazes de ir mais longe do que foram até agora. Nós não deveríamos ter parado no sapiens.

O cancro é uma espécie de sintoma evolutivo que nos mata?

Não, é um sintoma da existência de dinâmica evolutiva — que já não conduz a evolução nenhuma. Ponha a questão desta forma: porque é que não há mais cancros no cão ou no gato? Primeiro, eles não vivem tanto como nós. Segundo, o cancro neles não é um mecanismo que tenha algo para selecionar. Temos cancro porque temos a possibilidade de gerar instabilidade genética, e esta é a única maneira de evoluir. Ainda temos essa energia. O cancro é o preço que pagamos por isso.

“Nunca assumi que me jubilei. Porque para alguém com uma atividade intelectual, essa palavra tem qualquer coisa de humilhante”

Então, a energia do cancro é a mesma que nos mantém vivos.

Exatamente a mesma. E o homem nisto é a grande novidade. As outras espécies têm a fase reprodutiva e depois morrem. Nós esticamos a vida, e isso é cultural. Mas sobre isso não sei o suficiente.

Vai fazer 71 anos em setembro. Sentiu os 70 como uma fronteira?

Apanhei um susto. Nunca tinha percebido que isso me ia acontecer. No dia seguinte fui para o [Hospital] São João, pus o dedo no scanner para entrar e o sistema começou a apitar. “Nome desconhecido”, veja lá. Foi muito humilhante. Eles tinham-me estimulado a concorrer a emérito, coisa que fiz. Agora tenho um gabinete pequeno, não recebo ordenado, mas faço as reuniões com os alunos.

Que outras idades foram marcantes para si?

De longe, o momento mais sério de todos foi o nascimento da minha neta mais velha. Foi quando percebi que eu ia morrer.

Porque é que essa compreensão adveio de um nascimento?

Em geral, eu percebia que as pessoas morriam. Fazia autópsias, lidava com a morte. O que nunca tinha percebido é que eu próprio ia morrer. E este sentimento que tive em relação à minha neta até nem foi triste, foi de ternura.

Era a segunda geração depois de si, aquela que ia abandonar a meio.

Provavelmente era isso, sim. Já não os ia ver formados, crescidos. Outra fase terrível foi quando o meu pai morreu. Tinha 71 anos e um cancro. O processo não foi fácil, e aí sim houve muita tristeza, porque eu adorava o meu pai. Mas o interessante é que não percebi que aquilo tinha a ver comigo, que me falava diretamente. Se quiser, há aqui alguma inconsciência. Uma negação da evidência.

E mais para trás?

Éramos quatro irmãos — três irmãs e eu. Quando a mais nova teve uma criança também foi uma surpresa. Já ser eu a tê-los era natural. É inexplicável, porque ter uma criança faz sentido nos dois casos.

Os filhos não o confrontam com a sua mortalidade e sim com a sua eternidade.

É a fase boa. Eu safei-me sempre por ter alunos e ter internos, jovens que são treinados por mim. Ter uma escola tem um toque de eternidade.

E ter uma neta é ser um avô.

É ser aquele que fica para trás, que já está noutra fase. Esse futuro que ela representa você já não vai ver. Enquanto antes andava inebriado e não pensava no futuro, era um pai com crianças, com filhos, de repente com a neta olho para a frente e há menos caminho. O caminho está curto.

Inebriado é uma palavra bonita aplicada aos filhos.

Tive sempre uma relação muito engraçada com eles. Nunca fui muito atento, mas tive muita proximidade ao longo do seu desenvolvimento. O crescimento deles era paralelo ao meu, eu também estava a crescer. A diferença é que um avô está a descer. Está a ver a descida. É uma pena, tenho pena.

Pouco antes de se jubilar, disse: “Estou a correr aquela coisa do fim.” É isso?

E com uma fuga em frente do caraças! Acho até que tive esta chatice pelo exagero. O número de coisas que aceitei era obsceno, parecia doido. Não conseguia parar.

Nem sequer deu a última aula.

Não, e tenho vergonha disso. No limite, aquilo é aldrabar.

Aldrabar ou aldrabar-se?

Claro, só a mim, a mais ninguém. Nunca assumi que me jubilei, não o ponho na biografia. Porque para alguém com uma atividade intelectual, essa palavra tem qualquer coisa de humilhante. Há uma associação com a perda de qualidades, com dar barraca. Sou muito orgulhoso, o meu grande medo é perder.

Mas isso não é inexorável?

É. Só que eu fiz por me esquecer sempre, está a ver?

Um dia contou a história de um ratinho muito inteligente que não aprende porque não consegue esquecer-se. O grande truque é o esquecimento.

Esse foi sempre o meu truque. Eu vivo muito de histórias, porque acho graça. Podem não ter significado nenhum, mas é o mais humano que há. E a gente só lhes acha graça enquanto não tem a pressão de que tudo vai acabar. Ora, eu estou a achar cada vez mais graça. Mas sei que estão a acabar.

Vem todos os dias ao Instituto?

Venho, só que em vez de chegar às 8h, chego às 11h, porque de manhã faço os exercícios de linguagem. Demoro mais tempo a fazer as coisas, porque perdi eficiência. E estou a tentar recuperar. Sou muito competitivo, sou assustador.

Um assustador assustado.

Muito assustado, e não era. Embora esteja a reagir. Desde o início soube que esse era o caminho.

Qual é a sua primeira memória?

Não tenho. Só consigo reconstruir a memória a partir de fotografias. Com os avós, com os meus pais, as minhas irmãs. Não tenho memórias muito minhas, tenho sempre uma reconstrução. É mau e bom, torna-me um contador de histórias. Em vez de factos, tenho a interpretação. Mesmo agora, tenho tido cenas muito cómicas. Tudo quanto é antigo está presente — até com alguma tonalidade sépia, alterada. Continuo a fazer diagnósticos, e isso faço bem. É uma coisa muito autoritária fazer um diagnóstico, não tem nada de científico. E estou mais à vontade nessa área do que no resto. Tenho dificuldade em pensar noutras direções, otherness. Ou se calhar tenho menos tempo. Se calhar não vou ter tempo para viver tanto tempo.

Há um otherness que também foge desta conversa. Como se não se deixasse apanhar nesse outro lado.

Porque deste lado está o palpável, o utilitário. Uma colega sua perguntou-me o que me faz correr e eu não sei, talvez o medo da morte. A única coisa que é verdadeira para mim, e que agora se tornou mais nítida, é o medo da morte.

E o amor?

Foi muito bom, mas não me resolve esse problema. E até sou muito afetivo, gosto muito de pessoas. Mas já não me sossegam.

É como se de repente houvesse só presente.

É interessante quando penso, por exemplo, na ligação com os meus filhos. Somos muito próximos, andavam sempre comigo nas minhas viagens. No entanto, não me lembro deles até os dez anos. E eu fazia tudo, tomava conta, e não me lembro. O que é estranho.

Onde estava para não se lembrar?

Exatamente, onde estava? Eram três crianças, eu mudava fraldas, dava banho, dava de comer. Uma vez por semana ficavam por minha conta. E durante a infância deles alternávamos as férias, e passavam um mês sozinhos com um de nós, enquanto o outro ia só ao fim de semana. Já agora, em relação ao que não me lembro, isso acontece-me também com as casas. Lembro-me da dos meus avós, mas não das casas onde eu vivi.

“Andei por todo o lado, mas tinha sempre a certeza de que ia lá voltar. Agora, sei que isso pode não acontecer. E não é amargo, é doce”

O que tem a casa dos avós?

Não sei, mas é mesmo marcante, profunda.

Em “Os Portugueses” coloca muito esta questão: “De onde vimos?”

É o ovo. No outro dia, numa reunião em que estava o Presidente Marcelo, disse-lhe: “Já viu que o Sr. Presidente foi um ovo?” Já viu o que é ter duas células, que se subdividem em quatro, oito, até ficarmos isto?

Nunca o pensamos, de facto.

Fomos uma célula! Agora, eu sou muito bom a pensar em termos biológicos, mas não percebo nada sobre como é que a gente aprende. Sabe-se muito pouco disso.

Mas sabe de onde vem, quem o influenciou.

Claro! Tenho o meu pai, o professor Daniel Serrão, o Vincents Johannessen, um génio que se doutorou comigo. São pessoas com quem aprendi muito. Mas nunca percebi o que é que nos faz mudar. Que as unhas cresçam mais rapidamente por causa dos nervos é extraordinário. Do ponto de vista biológico percebo, mas não chega. Toda a minha vida quis ser melhor aluno, melhor professor, melhor médico. Nunca tive é uma aproximação filosófica às coisas. Agora, neste mundo em que sou muito bom, eles não me topam.

Parece que abre a porta mas afinal é só um centímetro, é isso?

É, sim. E esperam que diga coisas do caraças sobre o que é o homem, percebe?

Sente que há muita expectativa sobre si?

Sou um profissional e faço muitas conferências. Dou muita atenção às pessoas e às suas perguntas, mas não sei se me dou a conhecer. Não tenho uma aproximação teleológica nem ontológica. Sou um animalzito.

Mas uma coisa é não saber o que é o homem, outra é saber quem se é. Quem é?

Voltamos sempre ao mesmo. Descrevo-me sempre pelo output, o mensurável. Sou um tipo sério, decente, bom profissional... Sou muito mais o que é possível caracterizar de fora, do que o que eu possa dizer de mim a partir de dentro.

Um homem racional que chora e que tem medo. Estamos no bom caminho?

Admito que sim. Tenho muito medo e é verdade que choro, mas sem sofrer. Choro muito por estímulos primários de ternura. Emociono-me mais a ver chegar uma pessoa do que a ver um barco a afastar-se. No aeroporto, comove-me mais a vinda de alguém do que a despedida. Agora vai perguntar-me porquê. E eu acho que se deve a mecanismos meus de defesa, para não sofrer.

Ia perguntar isso, sim. Pelo tal truque de que falou antes.

Todos vivemos de truques para sofrer o menos possível. Nunca fiz medicina clínica, e uma das razões é o medo de lidar com doenças. Eu sei que posso diagnosticar uma coisa muito má, mas sou mediado pelo médico que me traz o relatório. Agora estou a pensar que, se calhar, a razão por que me emociono quando uma pessoa chega é porque é mais seguro e bom. Não acho graça nenhuma à incerteza.

Ao irreversível?

Ao ‘posso não voltar a ver esta pessoa’.

O sentimento de não voltar a atrás afeta-o?

Mais recentemente, sim. Passei muito tempo da minha vida a circular. Andei por todo o lado mas tinha sempre a certeza, mesmo na Patagónia, de que ia lá voltar. Agora, quando vou, sei que posso não voltar. E não é amargo, é doce.

Tem sempre a memória — ou uma fotografia que a ative.

Tenho sempre os outros. No início era a minha mulher que me acompanhava, depois foram os filhos. Agora são os netos, levo-os comigo, adoro. Porque eu só vivo por interposta pessoa. Sabe que nunca me sentei num restaurante sozinho? Nunca na minha vida. E com os netos há aquela coisa que já houve com os filhos, embora menos consciente: mostrar-lhes as coisas. Irmos à Noruega e vermos a neve.

Fazer parte das primeiras experiências de alguém.

E se quiser, a tentativa de refazermos as coisas, de voltarmos a elas. Eu não vou a sítios novos, vou é com pessoas diferentes. Detesto sítios novos. Sou daqueles que vai ao mesmo barbeiro, aos mesmos restaurantes, aos mesmos hotéis. Porque gosto e porque receio as experiências negativas.

Dizia que leva os netos consigo, o que quer refazer por meio deles?

Uma ligação, que é uma ligação com eles. Aquilo a que chamamos a eternidade.

Criar com eles uma memória de si?

No limite, construir neles uma ideia de mim. É como um espelho: vejo-os e, algures, sou também eu. Se calhar é uma recherche du temps perdu.

E o tempo ainda por perder? Em setembro vai fazer quatro viagens, é esperado por muita gente.

Sabe qual é a minha grande dúvida? É se continuo a ter vontade. Capacidade posso ter mais ou menos, mas... E se deixasse de me apetecer? Isso é que tinha graça. É o meu pavor. Esta coisa de ir para as conferências, para o circo, ainda terei paciência? Quão importante será para ti ir? É a minha pergunta.

Para quê?

Para quê.

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por Augusta Clara às 00:48

Sexta-feira, 30.03.18

O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem - Major-General Carlos Branco

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Major-General Carlos Branco  O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem

 

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Expresso, 29 de Marlço de 2018

   Na sequência das declarações de Theresa May, a primeira-ministra britânica, no parlamento, a 12 de março, e de Boris Johnson, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o alegado envenenamento do agente duplo Sergei Skripal e de sua filha Yulia, as relações político-diplomáticas entre os países ocidentais - nomeadamente Estados Unidos e Reino Unido - e a Rússia deterioram-se a um ponto nunca visto desde o fim da guerra-fria, piores mesmo do que nos anos cinquenta do século passado. Theresa May acusou a Rússia de ser “muito provavelmente” responsável pelo duplo envenenamento. O assassinato “teria sido planeado diretamente pelo Kremlin”, ou a “Rússia teria permitido que o gás tivesse caído em mãos erradas”.

Desconheço quem possa estar por detrás deste incidente, mas estou particularmente interessado em saber o que realmente aconteceu. A serem verdadeiras as acusações feitas à Rússia justifica-se uma resposta firme. Contudo, a argumentação utilizada pelas autoridades britânicas apresenta algumas fragilidades não negligenciáveis. Mais de três semanas passadas sobre o incidente, justificava-se a apresentação de provas inequívocas e irrefutáveis sobre o envolvimento russo. Continua-se sem conhecer a identidade do perpetrador, assim como as circunstâncias e o local da ocorrência. O que se tem sabido é pela comunicação social e a informação é contraditória. Uns falam num pub, outros num restaurante, parece que os Skripal teriam sido encontrados moribundos num banco de jardim. Segundo alguns relatos o polícia que os encontrou teria tido contacto com o veneno em casa dos Skripals, segundo outros durante a prestação do auxílio. Seria conveniente conhecer a versão oficial.

Preocupa-me sobretudo a desastrosa gestão política do acontecimento. A falta de evidência tem sido acompanhada por um retórica inaceitável, pouco consentânea com aquilo que são as boas práticas da diplomacia internacional. O assunto deveria ter sido logo encaminhado no dia 4 de março para a OPWC, o fórum próprio onde o assunto deveria ser analisado. A Rússia argumenta com os termos do Artigo IX da CWC, que estipula a necessidade de se efetuar um primeiro esforço para clarificar e resolver, através de troca de informações e consultas entre as partes, qualquer assunto que possa colocar em dúvida o cumprimento das normas em vigor. Por seu lado, o governo britânico recusou-se a partilhar as alegadas evidências, assim como as amostras do produto alegadamente utilizado. A sua publicitação seria um xeque-mate. Contudo, não o fez, prolongando inutilmente (ou não) uma discussão.

O Reino Unido optou por politizar o assunto e levá-lo ao Conselho de Segurança da ONU, no dia 14. Nesse mesmo dia, já com todas as “certezas”, as autoridades britânicas convidaram a OPWC a levar a cabo uma investigação independente. Com a crise já instalada, a 19 de março – duas semanas após o envenenamento - chegaram ao Reino Unido os especialistas da OPCW. Felizmente que o tema não foi considerado ao abrigo do Artigo V pela NATO, apesar de ser considerado um ataque a um país da Aliança. Um caso baseado em hipóteses e não sustentado em evidências foi rapidamente equiparado a um ato de guerra. Teria sido mais curial esperar pela finalização das investigações. Acusar primeiro e investigar depois não parece ser a prática mais adequada.

Esta questão assume contornos burlescos quando o laboratório científico inglês que fez análises ao sangue dos Stripal concluiu pela exposição a um “nerve agent or related compound”… e as amostras indicaram a presença de um “novichok class nerve agent or closely related agent), não se comprometendo com uma prova irrefutável. Esperava-se que May tivesse promovido uma audição parlamentar ao diretor do laboratório para que este fornecesse todas as evidências e prestasse todos os esclarecimentos, nomeadamente sobre a origem russa da substância, uma prática comum nas democracia avançadas.

Ao contrário do que afirmou Theresa May são muitos os possíveis perpetradores, para além da Rússia, claro está. Naturalmente que a Rússia não poderá ser excluída da lista dos suspeitos, assim como muitos outros, nomeadamente os mais de 300 espiões que constavam na lista que Skripal entregou às autoridades britânicas. Mas a lista de putativos suspeitos não acaba aqui. São conhecidas as ligações profissionais de Skripal a Christopher Steele, e ao seu possível envolvimento no Russiagate. Skripal tinha-se tornado um elemento perigoso que podia causar danos na comunidade de inteligência americana, no Partido Democrata e por aí adiante. Existem vários precedentes similares. As autoridades policiais britânicas, tão zelosas noutras circunstâncias, revelaram-se particularmente descuidadas na proteção dos Skripal.

Não podemos deixar de nos interrogar sobre o que é que objetivamente teria a Rússia a ganhar - a alguns meses da realização do campeonato mundial de futebol no qual investiu avultadas somas de dinheiro para fosse um sucesso - em liquidar nesta altura um simples espião que deixara há muito de constituir um perigo, agravando assim as já tensas relações com o ocidente? A resposta não é evidente. Putin tem provado ser um ator racional. Tendo tido a oportunidade para eliminar Skripal enquanto este permaneceu nos calabouços russos, não o fez, porque o faria agora, depois de este viver oito anos em Inglaterra? É de facto difícil descortinar uma razão (lógica).

A argumentação de May apresenta igualmente fragilidades quando responsabiliza Putin por ter permitido a fuga do gás. Como se sabe, nos tempos da União Soviética, o novichok era produzido no Uzbequistão, fábrica essa que foi desmontada com a ajuda dos Estados Unidos em 1993. Sem salários, a venda de Nnovichok foi uma forma que na altura muitos funcionários encontraram para sobreviver. Dizer que se trata de um gás do “tipo desenvolvido pela Rússia”, não prova que a substância utilizada tenha sido processada na Rússia. Ser atropelado por um Mercedes não significa que a responsabilidade seja “muito provavelmente” do governo alemão.

É desconcertante vir agora o Reino Unido acusar a Rússia de não ter declarado todas as suas capacidades, não cumprindo as suas responsabilidades no âmbito CWC. A ser verdade – o que desconheço – sendo esta informação conhecida antes de 27 de setembro de 2017, a data em que a OPCW declarou a total destruição do arsenal russo, porque é que o Reino Unido não informou a OPCW com base no seu próprio intelligence, que tanto quanto sei tinha a obrigação de o fazer? Seria muito importante ouvir o que os responsáveis britânicos têm a dizer sobre isto.

Para além das questões de natureza técnica apontadas – que não se encontram esgotadas – há várias outros aspetos a relevar. Em primeiro lugar, o rasto de fiabilidade deixado pelos dois personagens responsáveis pela presente crise. Um, ainda ontem fazia campanha contra o Brexit e hoje lidera o processo de separação do Reino Unido da União Europeia, que por sinal lhe está a correr bastante mal; o outro, liderou a campanha contra o Brexit mas depois não quis assumir as devidas responsabilidades colocando a responsabilidade na condução do processo no primeiro. Convém lembrar que o partido liderado por May não tem, nem nunca teve pruridos em ser financiado pelos pouco recomendáveis oligarcas russos que se refugiaram em Londres, transformando a city num enorme tanque de lavagem de dinheiro russo. De acordo com o London Times e o Daily Telegraph, o partido da Sr.ª May terá recebido deles donativos no valor de £820,000.

Em segundo lugar, convém trazer à memória as conclusões do relatório Chilcot aprovadas pelo parlamento inglês, que chamava à atenção para as narrativas deliberadamente exageradas apoiadas em intelligence fabricado à “medida das necessidades” para convencer e receber o apoio das opiniões públicas. Claramente que esta possibilidade não pode nem deve ser descartada neste caso. Terão sido as mesmas fontes - igualmente credíveis - em que se baseiam agora May e Johnson que terão convencido Blair da irrefutável posse de armas de destruição massiva pelo Iraque. São conhecidas as consequências desastrosas dessas crenças sem a devida certificação.

Recordamos ainda o papel desempenhado pelas chamadas empresas de “Strategic Communications” como a Cambridge Analytica e a Strategic Communication Laboratories próximas do partido Conservador e do aparelho militar britânico, contratadas para influenciar a opinião pública levando-a apoiar o Brexit, algo de que apenas se conhece a ponta do iceberg. É pois na palavra destas pessoas que estamos a colocar o nosso futuro coletivo. Fará, provavelmente, algum sentido parar para pensar e refrear os ânimos.

Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso.

Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso… a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas.

  

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por Augusta Clara às 19:02

Quinta-feira, 28.01.16

Ao lado do “Anjo da Morte” - Adam Pieczynski

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Expresso, 27 de Janeiro de 2016

 

Ella Lingens, numa foto de registo da Gestapo de Viena, em outubro de 1942. Embora "ariana de raça pura "foi levada para Auschwitz por esconder judeus; como médica, foi obrigada a trabalhar ao lado de Mengele, o "Anjo da Morte", e testemunhou algumas das atrocidades por este praticadas. Faleceu em 2002

D.R.

Tinha um futuro promissor à sua frente. Ella Lingens fora uma das alunas mais brilhantes da Faculdade de Medicina, casara com um colega e tinha um filho de caracóis louros que estava a aprender a balbuciar “mamã”. Acabou em Auschwitz, a trabalhar sob as ordens do “Anjo da Morte”, Josef Mengele. No dia em que passam 71 anos da libertação dos prisioneiros, e para assinalar um acontecimento histórico, o Expresso disponibiliza online um texto publicado originalmente a 28 de janeiro de 1995

 

   Ella Lingens era admirada nos cafés de Viena pelas suas convicções sociais-democratas, andar emancipado e provocante, e fascinantes olhos azuis. Quando escondeu, no andar onde morava, judeus perseguidos pelos nacionais-socialistas e os ajudou a sair do país, não sabia que uma cadeia de infortúnios e denúncias a levaria ao pior pesadelo da sua vida.

Como prisioneira em Auschwitz, teve de trabalhar sob as ordens do "Anjo da Morte", Josef Mengele, um médico tão brilhante como diabólico, que distribuía chocolates pelas crianças judias e ciganas, antes de as submeter a experiências e torturas atrozes ou de as conduzir pessoalmente para as câmaras de gás, no seu descapotável verde.

Agora, aos 87 anos, meio século depois da libertação de Auschwitz, Ella conserva ainda a determinação e a vontade de viver que a salvaram da morte. A sua figura frágil, encolhida num enorme cadeirão, domina suavemente o ambiente da casa rústica onde mora, nos arredores de Viena.

Ella Lingens foi obrigada a escolher entre a vida e a morte dos seus doentes, "como se fosse Deus", pois não podia desperdiçar medicamentos escassos, em casos que pareciam irreversíveis. "A quem dar os medicamentos, a uma mãe com muitos filhos ou a uma rapariga nova?" - tinha de perguntar a si mesma. "A quem administrar uma injecção, a um velho que, em qualquer caso, vai morrer, ou dividi-la por dois jovens?"

Ella Lingens era catalogada pelos burocratas do Terceiro Reich como "uma ariana de raça pura", o que lhe permitiu esconder os seus amigos judeus sem que desconfiassem dela. Na "Noite de Cristal", em Novembro de 1938, quando os judeus foram espancados nas ruas, as suas casas e lojas destruídas e os seus livros queimados, alguém tocou à porta do andar onde moravam os Lingens. Era o engenheiro Wiesenfeld, que chegou de pijama, a tremer, para se refugiar em casa deles, trazendo na mão uma escova de dentes.

Pela janela chegava um ruído insuportável, de vidros a estilhaçarem-se, bramidos e gritos das hordas nazis, e o engenheiro Wiesenfeld disse-lhes: "Invejo-vos." "Porquê?" - perguntou Ella. "Porque vocês não são judeus". O refugiado ficou três semanas e foram chegando "mais e mais". Finalmente, o andar estava tão cheio, conta Ella, "que o meu marido e eu fomos morar para o hotel".

Foram meses de tensão trágica, e por vezes absurda. Erika, uma jovem de 19 anos, a última judia que esconderam, fê-los passar o susto de vida deles, quando, farta da rotina da vida clandestina, de estar fechada e de apanhar calor, resolveu tomar banho de sol nua, no parapeito da janela do "atelier" onde moravam os Lingens. Os alunos de um liceu que ficava em frente do edifício pensaram que se tratava de uma louca suicida e chamaram a polícia. "Não nos descobriram por milagre" conta Lingens. Antes que os homens de uniforme forçassem a porta do andar, chegou uma amiga da família, "completamente ariana", que convenceu a polícia de que fora ela que estivera a tomar banho de sol.

Mas Ella confiou demais na sorte e continuou a arranjar documentos falsos para que os perseguidos pudessem partir para o exílio, acabando por ser denunciada à Gestapo.

Médica à força

Chegou a Auschwitz no fim do Inverno de 1942. Aí começou, pela primeira vez, a praticar medicina, no barracão das prisioneiras alemãs e austríacas doentes. Trabalhou às ordens de vários médicos, o último dos quais foi Mengele. Recorda o Dr. Rohde, um SS, que, para suportar as escolhas de vítimas para as câmaras de gás, no pavilhão dos doentes ou no cais da estação de caminho-de-ferro, "se embebedava até quase ficar inconsciente".

Não havia camas suficientes e os doentes dormiam aos três e aos quatro nos beliches. Havia piolhos, epidemias de febre tifóide e grassava uma doença contagiosa causada pela desnutrição, que perfurava a pele até aos ossos. "A minha vida lá era como se me tivesse oferecido hoje como voluntária para combater uma epidemia no Bangladesh ou no Ruanda, um trabalho esgotante, para ajudar as pessoas, sem saber o que acontecia ao lado", diz Lingens.

Na pior época da epidemia de febre tifóide, Lingens tinha a seu cargo 750 doentes. "Foi justamente Mengele, que dividia o seu tempo entre as experiências brutais com gémeos e anões e o trabalho de organização sanitária, que travou a epidemia." Evacuou os 1500 doentes de um barracão e mandou-os para as câmaras de gás. Desinfectou a sala vazia, mandou mudar os lençóis e outros doentes, desinfectados e despiolhados, foram transferidos para o barracão. Depois desinfectaram o pavilhão vazio e assim sucessivamente. "Realmente travou a epidemia, mas não lhe passou pela ideia chegar ao mesmo resultado sem assassinar 1500 pessoas", comenta Lingens.

Nos pavilhões de judeus e ciganos, as pessoas não chegavam a morrer das epidemias. Eram assassinadas. As mulheres grávidas eram enviadas para as câmaras de gás, assim como os doentes e os sem forças para os trabalhos forçados. Foram muitas as mães que preferiram asfixiar os seus bebés, para os poupar à morte em mãos alheias, porque a maioria dos recém-nascidos eram afogados pelos guardas SS.

Recordações angustiantes

Auschwitz foi a experiência central da vida de Lingens, e os fantasmas das pessoas que conheceu na fábrica da morte acompanhá-la-ão até ao fim dos seus dias. Havia médicos pouco escrupulosos que exigiam que os doentes com malária lhes dessem a sua porção de pão, a troco de quinino. E houve mulheres que se transformaram em prostitutas no bordel de Auschwitz, porque assim tinham direito a uma melhor ração alimentar, a um duche diário e a uma habitação mais confortável.

Ainda hoje é assombrada pelo fantasma da fome, ou pelo da jovem que não pôde ajudar, porque recebera 25 chicotadas e fora obrigada a ficar de pé durante três dias e três noites, com água fria até à cintura. Era o castigo para os que se atreviam a fazer amor em Auschwitz e eram surpreendidos. Como também não consegue esquecer o grito colectivo de 100 pessoas encerradas nas câmaras de gás e, "após 15 minutos", o silêncio absoluto. "Outra vez os gritos, depois o silêncio, uma, duas, três vezes."

Numa noite, Ella Lingens e as suas companheiras contaram 60 viagens de um camião carregado de cadáveres, das câmaras de gás até aos crematórios. Depois começava a sair fumo pelas chaminés e o cheiro inconfundível dos corpos queimados espalhava-se por todo o campo de Auschwitz.

Enquanto centenas de milhares de pessoas se transformavam em cinzas, Mengele continuava as experiências como um possesso,no seu pavilhão de horrores, uma antecâmara da morte. Sessenta pares de gémeos foram abertos pelo seu bisturi e, de todos eles, só sobreviveram sete pares.

O "Anjo da Morte" era para Lingens "um cínico incrível", com uma inteligência superior à do resto dos médicos SS, que tinha a preocupação de fazer com que os irmãos morressem à mesma hora, pela mesma causa. Assim podia comparar os órgãos, que enviava depois, conservados, para o Instituto de Biologia Genética de Berlim, em pacotes com a inscrição "Urgente, Material de Guerra".

Mengele achava que as condições do campo eram más e introduziu, inclusive, algumas melhorias, mas "assassinava a sangue-frio, sem nenhuns problemas de consciência". Olhava com orgulho os "dossiers" com os resultados das suas investigações e só lamentava que, no futuro, pudessem cair"nas mãos dos bolchevistas".

Ella Lingens teve a sorte de não ser colocada no Pavilhão das Experiências, porque não teria resistido. Para experimentar métodos de reanimação em pessoas congeladas, Mengele baixava a temperatura do corpo das vítimas até aos limites da paragem cardíaca, e depois tentava aquecê-las com cobertores ou cobrindo-as com mulheres nuas.

Dava só água do mar a beber aos prisioneiros, até morrerem de sede, para comprovar a resistência do ser humano em caso de naufrágio. Os esqueletos das pessoas com anomalias eram enviados como troféus para a colecção da Reichsuniversitât, em Berlim. Ligava o peito das mulheres que tinham acabado de parir, proibindo-as de amamentar os filhos, para determinar quanto tempo os recém-nascidos podiam viver sem se alimentarem.

Os médicos e os "outros"

Um dia, Mengele chamou Ella Lingens o seu gabinete e disse-lhe que tinha uma informação decerto surpreendente para ela. "Sabia que no seu pavilhão há relações entre lésbicas?" perguntou. "Claro que eu sabia", lembra a prisioneira. "E não faz nada para o impedir?" insistiu. "Era uma situação impossível, fechavam mulheres jovens durante anos num ambiente onde não havia nada que pudessem amar, uma criança, um animal, um flor, era tudo tão asqueroso que qualquer ser humano se degradava", lembra Lingens.

Noutra ocasião, o carniceiro de luvas brancas e botas de cabedal perguntou-lhe as razões por que a tinham enviado para Auschwitz. Lingens respondeu que fora denunciada por ter ajudado a tirar judeus do país. "Como é que se pode ser tão imbecil ao ponto de pensar que isso é possível?" Ella atreveu-se a responder que havia casos em que tinham conseguido, com dinheiro. "Naturalmente que vendemos judeus", respondeu Mengele. "Seríamos estúpidos se o não fizéssemos."

"Não tinha razões para ter medo de Mengele", diz Lingens. Para ele havia duas categorias de pessoas, "os médicos e os outros". Mengele representava as duas caras de Mefistófeles. No meio dos corpos raquíticos e humilhados dos prisioneiros, era um homem bem parecido, elegante, impecável, de uma cortesia imperturbável para com as suas vítimas. Tão depressa salvava um judeu, porque era médico, como atirava um recém-nascido para o lume, porque chorava demais, com a mesma indiferença. Lingens não conseguia suportar Auschwitz, e pediu para ser transferida para o campo de concentração de Dachau, outro inferno; mas se algum dia a libertassem, ficaria mais perto de casa, para regressar. Mengele não queria que ela saísse de Auschwitz, mas perante os rogos da prisioneira, aprovou o pedido com indiferença. "Não quero entravar o seu caminho para a felicidade", disse-lhe, como se Dachau fosse um paraíso.

Em Auschwitz, Ella Lingens perdeu a dignidade, passou fome e frio. Regressou a Viena com o cabelo todo branco e foi um dos momentos mais duros da sua vida. "Soube que o meu marido, julgando-me morta, tinha casado com outra, o meu irmão tinha morrido, combatendo ao lado da Resistência, na Jugoslávia, a casa dos meus pais fora bombardeada. O meu filho não me reconheceu e os meus vestidos...", diz com um olhar fixo e um suspiro, "...estavam comidos pelas traças".

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 02.10.15

Our boys - Clara Ferreira Alves

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A Revista do Expresso, 2 de Outubro de 2015 

 

UMA MULHER RARAMENTE É LEVADA A SERIO, E, SE É, ARRANJA DEZ VEZES MAIS INIMIGOS DO QUE UM HOMEM. NESTE PAÍS ESTÁ TRAMADA

 

   Há água em Marte. Em verdade vos digo que é mais fácil encontrar água em Marte do que mulheres na campanha eleitoral dos maiores partidos. Sob certas condições, água pode correr em Marte, mas as mulheres não podem concorrer na Terra. Isto é um país de homens. E um país onde as mulheres não são muito solidárias com as mulheres. Pondo de lado a política correta sobre estas coisas, as mulheres neste país estão tramadas. Uma mulher raramente é levada a sério, e, se é, arranja dez vezes mais inimigos do que um homem. É mais escrutinada, discriminada, combatida, facilmente eliminada. É mais mal paga. Uma mulher ganha metade ou um terço a menos do que um homem. Numa lista de “prestígio”, digamos, de 100 pessoas, 90 são homens e o resto é quota.

O problema das mulheres que odeiam mulheres é antigo.

Remete para a biologia reprodutora e o darwinismo, remete para um meio de recursos escassos onde a competição aumenta exponencialmente, remete para a dominação patriarcal, remete para a mesquinhez que se aloja nos cérebros humanos. E se as mulheres não odeiam mulheres, ou fazem um esforço para não odiar mulheres, alinham na prevaricação comum, criticar o aspeto físico das mulheres. Ou a situação psicológica. Uma mulher pode ser feia, velha, maluca. Um homem pode ser interessante, maduro, inteligente. Um canalha torna-se um tipo complicado. Uma ambiciosa torna-se uma megera.

Assisti a isto toda a minha vida.

Não espanta que não haja mulheres nas campanhas eleitorais, com exceção das mulheres dos pequenos partidos da extrema- esquerda. Ana Drago no Livre, um partido votado pelos jornalistas ao esquecimento, as manas Mortágua, sobretudo Mariana Mortágua, e Catarina Martins. E Joana Amaral Dias, que forneceu pretexto para a piada machista. Um homem nu é um acontecimento histórico numa capa de revista e um regalo para os olhos. Uma mulher nua e grávida é um atentado à moral. Ninguém olharia para um homem nu à procura da flacidez.

Os partidões não têm saias, aqui usadas como símbolo diferenciador de sexo. No seio varonil do PSD não se vê um rabo de saia (expressão misógina). É o partido dos rapazes. Our boys. O PSD só tem homens com vozes para a cantoria e o talento para ganhar a maioria. A câmara de televisão passa pelas mesas dos repastos eleitorais, onde florescem caciques com calças e, como dizia o Eça, cheios do talento das calças, e não se avista uma mulher com exceção das groupies. Os homens aplaudem calorosamente os homens como no futebol. É provável que as mulheres estejam na cozinha, ou a servir às mesas, empregos que correspondem ao talento feminino. Alguma vez viram um homem nas casas de banho masculinas sentado ao lado de um pires com moedas? Quando foi a última vez que viram um líder político ter um secretário?

No CDS há umas mulheres, mais raras do que água em Marte, mas só aparecem como as do PSD, untadas pela devoção ao líder e nunca se esquecendo de agradecer a sua posição ao líder reafirmando a sua lealdade ao líder. Deus as livrasse de tentarem derrubar o líder. Uma mulher simplesmente não faz isso. No vetusto PS, a coisa não melhora. Antonio Costa carrega o partido às costas e se há mulheres estão noutro Iugar. Os jornais noticiaram com gosto que uma série de homens se ia juntar a Costa e Passos Coelho nos comícios, Marcelo, Rangel, Assis, e até o defunto Nogueira, de quem ninguém se lembra neste país. Uma mulher? Algures? Em compensação, semana sim semana não, uma mulher é assassinada em Portugal. Nessas notícias não falta o elemento feminino.

A culpa é nossa. A desunião e a incapacidade de atacar enleiam as mulheres em Portugal. Não se trata de sermos discriminadas, trata-se de consentirmos em ser discriminadas e concordarmos com a discriminação. No fundo, achamos que não somos capazes, não seremos capazes, não merecemos ser capazes. Consentimos em desaparecer.

Sou contra as quotas e a favor do mérito. Nunca consegui nada com base na quota e não acredito que as mulheres precisem de quotas. Agustina, Sophia, Maria Barroso e Natália Correia nunca precisaram de quotas. As mulheres precisam de autoconfiança e tempo livre, precisam de uma vida intelectual, que a maternidade, a dependência financeira e a vida doméstica não autorizam. Em Portugal, tem havido um claro retrocesso em matéria de direitos das mulheres e da participação das mulheres na vida pública. Num meio dominado por homens como é a política, o acesso está condicionado e representa-se como uma intimidação. As mulheres têm instintivamente medo da ascensão que implica um cortejo de insultos e ofensas físicas e morais propagadas por mulheres que odeiam as mulheres e por homens que não respeitam as mulheres. As correntes sociais e os seus entusiastas emocionais respiram este ar venenoso. As mulheres são a maioria da população universitária e a minoria no poder político, económico, financeiro e social. E não vejo por aí uma mulher política disposta a mudar o estado das coisas.

 

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por Augusta Clara às 23:40

Terça-feira, 08.09.15

As lágrimas de crocodilo - Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves  As lágrimas de crocodilo

 

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Expresso, 5 de Setembro de 2015

 

   Os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegar aqui. Para trás ficaram os condenados à morte

E de repente toda a gente se comove. Em quatro anos de guerra, o sofrimento e as mortes na Síria, e no Iraque, não comoveram muitos jornalistas ou espectadores sentados por essa Europa fora. No último inverno, vi crianças ranhosas e friorentas, pés roxos e nus nas neves do Monte Líbano. Vi mulheres sírias e órfãos a prostituírem-se nas ruas de Beirute, vi a superpopulação dos campos de refugiados palestinianos, incapazes de acolherem mais um ser humano por falta de espaço. E vimos as imagens dos corpos despedaçados por barrel bombs, as fomes de Yarmouk, os ataques químicos. Não foi por falta de filmes online, colocados por combatentes, resistentes e sitiados sírios, que deixámos de ver no que a Síria se tornou. Ou o Iraque, onde todos os dias há mortos. O ISIS mobiliza-nos as atenções com a barbaridade do dia, que usa como instrumento de terror e propaganda, e cobre com esta cortina negra o resto do Médio Oriente. O Iraque está a desfazer-se. A Síria já se desfez. O Líbano está por um fio. A Jordânia aguenta-se com esforço. O Egito é um Estado falhado. E a Turquia aproveita para destruir os curdos. Em todos estes conflitos, para não falar do desastre da intervenção na Líbia ou no Iémen, a Europa comportou-se de um modo egoísta e indiferente. Pagou resgates e deixou aos americanos a tarefa de limpar os estábulos de Aúgias. Na verdade, se a invasão do Iraque em 2003 foi um trabalho americano, a Europa foi o parceiro da coligação. Sobretudo o entusiástico Tony Blair, originário de um país que recusa receber mais migrantes, refugiados ou todos os nomes que se vão inventar para os milhões de apátridas e desgraçados que trepam as muralhas e se rasgam nos arames farpados. O horror sírio, ou iraquiano, não motivou uma negociação de fundo, uma cimeira capital, uma mesa-redonda, um diálogo, um princípio. Os americanos decidiram bombardear o ISIS, a Europa não decidiu nada para variar.

De repente, a Alemanha é a campeã dos migrantes e refugiados. O cinismo pessimista tende a ver nestes pronunciamentos mais propaganda do que pragmatismo. A Alemanha sabe que a crise grega a fez ficar mal aos olhos do mundo e tem a oportunidade histórica, a sra. Merkel tem-na, de se reabilitar. E de forçar o resto dos europeus. A Alemanha tem a única liderança forte numa Europa fraca e tem a capacidade industrial para absorver mão de obra barata porque ainda precisa dela.

Há anos que criámos os novos campos de concentração, onde concentrámos os africanos, que vieram antes dos sírios e afegãos e iraquianos, e ninguém se comoveu. Os cadáveres nas praias de Tarifa, os condenados a morrer no deserto, recambiados, não provocaram uma lágrima. A crise destas migrações existe há anos e é preciso perceber que os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegarem aqui. Para trás ficaram os condenados à morte, as vítimas de conflitos que ajudámos a provocar e das “primaveras” árabes que o jornalismo e as correntes sociais promoveram com sentimento. Ninguém se lembra de perguntar aos países ricos do Golfo, irmãos da mesma fé, quantos refugiados sírios receberam. O Qatar? Zero. Os Emirados, sobretudo os ricos Dubai e Abu Dhabi? Zero. A Arábia Saudita? Zero. O Kuwait? O Bahrain? Omã? Zero. E são estes sunitas que atiçam a guerra perante a nossa apatia. E por que razão a Europa e os Estados Unidos não os pressionam sabendo que manipulam a guerra para hegemonias e demonstrações regionais de força? Duas respostas. Venda de armas, um dos grandes negócios ocultos da recomposição dos mapas, e um negócio onde os estados legítimos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Alemanha, etc., têm fontes prodigiosas de financiamento. A Alemanha e os Estados Unidos bateram recordes de venda de armas no Golfo em 2014. E petróleo, a moeda de troca e o pão nosso de cada dia. Um dia, os drones que o Ocidente vende serão uma arma terrorista.

A situação do Médio Oriente é hoje a mais explosiva e volátil e com mais repercussões de sempre. Composta pela nova guerra fria com a Rússia de Putin. Os imparáveis fluxos migratórios vão forçar e reforçar partidos de extrema-direita, acender racismos, distorcer demografias, criar máfias, alimentar o extremismo e terrorismo islâmicos e as suas subculturas identitárias e criminais, mudar o mapa político da Europa e o espaço Schengen. Não vão apenas criar riqueza e contribuir para a economia europeia, como dizem os académicos. Uma integração séria custará biliões. É, de longe, o problema mais grave da Europa, acumulado com a anemia económica e com a condenação da população jovem a migrar dos países europeus em austeridade. Bater no coração e proclamar o amor ao próximo nada resolve na frente da batalha. É a retaguarda imoral da piedade virtual.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 10.08.15

Os Animais Portugueses de Grande Posse Também Vão à Caça em África - Augusta Clara

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Augusta Clara  Os Animais Portugueses de Grande Posse Também Vão à Caça em África

 

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 (Entretanto, muitos portugueses comem lixo)

 

        Miguel Pais do Amaral é o dono do grupo editorial Leya que há uns meses destruíu milhares de livros que tinha em depósito em vez de os doar a instituições, nomeadamente bibliotecas públicas, ou a pessoas sem dinheiro para os comprar. Poderia ter sido uma louvável acção mas nada escapa ao tão endeusado mercado. Nem os livros. E lá foram todos parar à guilhotina como no tempo da Revolução Francesa os rebeldes. Antes isso do que a fogueira que poderia estabelecer conotações com tempos mais próximos.
E os milionários portugueses não matam pessoas. Só animais selvagens de grande porte, em caçadas no continente africano, de acordo com o artigo do Expresso desta semana. Aí o mercado é outro e envolve muitos milhares de euros pela morte de cada animal. Pois o Sr. Pais do Amaral é desses. Poupou nos livros, gastou nos leões, nos leopardos, nos elefantes de que, dizem - diz o Expresso - tem a casa cheia de troféus. Só para os livros é que não tinha espaço.
O interessante Sr. Pais do Amaral confessa que, às vezes, lhe fazia impressão matar antílopes. Mas leões, elefantes, leopardos não, "São animais maus e perigosos. Não são simpáticos como os que aparecem nos filmes da Disney". Realmente! Não nos fazem sorrir como os cinicamente imbecis argumentos do milionário português.
Depois há o da bola que lamenta a nossa "ideia errada" sobre os matadores daqueles bichos sem importância - neste contexto também tenho direito a um pouco de cinismo. "Pensam que somos selvagens, mas somos os maiores amigos dos bichos e ajudamos a manter as espécies (..)". Este já matou "tudo o que se possa imaginar, menos leões porque são o símbolo do clube".
Para o Sr. Pais do Amaral há animais maus que têm de ser mortos como os livros maus da Leya que davam muito trabalho a matar com carabina. Arranjou-lhes uma solução global.
O outro, o da bola, arroga-se o direito de se pronunciar sobre a regulação de populações animais. Eu, da regulação desse mundo, o da bola, não sei nada nem quero pronunciar-me. Mas, por amor das vossas bolinhas, deixem lá os animais selvagens em paz. Têm bastante onde fazer circular milhões, na compra de homens.

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por Augusta Clara às 10:00

Terça-feira, 02.06.15

A História não perdoa - Miguel Sousa Tavares

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Miguel Sousa Tavares  A História não perdoa

 

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Expresso, 30 de Maio de 2015 

 

   Segunda-feira passada, uma notícia de “Le Monde” rezava assim: “O Estado Islâmico avança e os Estados Unidos não se mexem”. Podia ter escrito antes “A Europa não se mexe”, ou “A França não se mexe”, ou “A Inglaterra não se mexe”. Mas, ao atribuir a responsabilidade de uma resposta exclusivamente aos Estados Unidos, o jornal francês mostrou que certas coisas nunca mudam: quando há um trabalho sujo e difícil para fazer, quando é preciso arriscar vidas, a Europa confia que os Estados Unidos façam esse trabalho — mesmo que a ameaça ocorra dentro ou junto das fronteiras da Europa.

Verdade se diga que, neste caso, a responsabilidade dos EUA vem de trás: a emergência, na Síria e no Iraque, do Estado Islâmico, é uma consequência directa da irresponsável e criminosa Segunda Guerra do Iraque, lançada por esse infeliz ex-Presidente americano George W. Bush. Os que — aqui, como em diversas partes do mundo — usaram as suas tribunas, o seu poder e a sua influência sobre as opiniões públicas para as fazer engolir as mentiras fabricadas pela Administração Bush a fim de justificar uma guerra injustificável e sem sentido, bem podem dormir o sono dos irresponsáveis, mas não o dos justos: os 400 mortos que o EI assassinou nos três primeiros três dias após a conquista da cidade síria de Palmira, são apenas as últimas vítimas à data de uma ideologia de violência demencial que o mundo jamais tinha testemunhado, nem sequer sob o terror nazi. E tornada possível como sequela dessa guerra, entre todas, exemplo da leviandade dos decisores políticos.

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 26.01.15

Ser ou não ser Le Pen - Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves  Ser ou não ser Le Pen

 

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Expresso, 24 de Janeiro de 2015

 

   Ninguém sabe o que fazer com Marine Le Pen. É fascista? É nazi? É de extrema-direita sem ser nazi ou fascista? É igual ao pai? É diferente do pai? É pior do que o pai? A França anda às voltas com este problema insolúvel. Na verdade, Le Pen tem boas hipóteses de ganhar as presidenciais, não é preciso ser ficcionista ou ser Houellebecq para o perceber. A França dos salões intelectuais parisienses, assistindo à derrocada da esquerda tradicional, o Partido Socialista, e da direita tradicional, a UMP de Sarkozy, resiste a interiorizar a ideia de um país lepéniste. Afinal, Sarkozy acabou por dever a ascensão política de ministro do Interior a Presidente da República por causa de um célebre debate com Le Pen pai em que, justa e brilhantemente, deu cabo dos argumentos dele. Era mais fácil destruir o pai do que a filha. Apesar dos arremedos protonazis do pai e do seu antissemitismo primário, apesar do seu negacionismo, Marine tem conseguido ‘desinfetar’ o partido destes propósitos e pretender que é, por comparação com o progenitor, uma moderada. Nem nazi, nem fascista, nem sequer de extrema-direita se extremismo significar uma posição inflexível nas questões sociais e económicas. Através de uma bem orquestrada campanha de imprensa e de entrevistas a revistas importantes como a “L’Express”, Le Pen tenta fazer passar a ideia de que com ela a França não se tornará um estado pária dentro da Europa. No que toca à Europa, Marine Le Pen é manifestamente anti-União Europeia, e como o estado desta União é o que é, o propósito carregará mais votos do que dissidências. Muita gente em França, e na Europa, está farta desta União Europeia.

O que os partidos e os jornalistas não podem é continuar a tratar Le Pen como um fenómeno marginal, e o seu partido como um partido das franjas. O que quer que aconteça com a França nos próximos anos, terá o lepénismo no centro da ação.

Na manifestação “Je Suis Charlie”, o establishment decidiu desconvocar Marine Le Pen. Continua o processo de marginalização. O pior é que o liberalíssimo “The New York Times”, tão aplaudido por alguma extrema-esquerda por ter decidido, no uso da sua liberdade de expressão, não publicar a capa do “Charlie Hebdo” dos sobreviventes nem o cartoon do profeta, decidiu também, no uso dessa liberdade de expressão, dar a Marine Le Pen um púlpito. O gesto não foi tão apreciado. A página de op-ed (open editorial) do “NYT”, talvez a página de opinião mais cobiçada do mundo, foi oferecida a Marine Le Pen para dizer de sua justiça sobre o combate ao extremismo e ao islamismo radical. O artigo, um modelo de sensatez com alguns pós de dureza repressiva à mistura, para marcar a diferença, podia ter sido escrito por um político francês de direita não lepéniste ou, nalgumas frases, de qualquer outro quadrante. A garra ficou sabiamente escondida. Exceto no que toca à ideologia anti-imigração como ponto de partida, uma ideologia que ela esconde atrás de frases verdadeiras, como a necessidade de repensar a política de imigração europeia (quem discordará disto, para um lado ou para o outro? Alargando ou restringindo?).

Começa por citar Albert Camus, a voz moral da França do pós-guerra que Sartre, cioso das luzes, tentou destruir. Citar Camus é, inevitavelmente, colocarmo-nos num plano moral superior, não unívoco. Camus pensou a guerra da Argélia como um francês argelino e foi atacado por isso, incompreendido. Marine Le Pen serve-se dos atentados de Paris não para atacar o Islão mas para rever os faux pas da política externa europeia, incluindo o ataque à Líbia e a capitulação perante a duplicidade de Estados do Golfo, como o Qatar ou a Arábia Saudita, dois financiadores do terrorismo sunita na Síria. Ou no Iraque. Sobre isto, os políticos franceses que patrocinaram estas políticas, de Sarkozy a Hollande, nada têm a dizer. Tanto mais que a intervenção da França no Mali foi o resultado direto do estado de sítio e das migrações da Líbia, com as suas tribos, milícias, e o seu monumental Estado falhado. Obama, e a NATO, devem lamentar a aventura.

O grande problema destas asserções de Le Pen, que a tornam uma adversária perigosa, é que a maioria das pessoas tende a concordar. E para a contradizer, talvez para a desmentir, é preciso romper com a política bem pensante e correta. É preciso admitir os erros. É preciso reconhecer que transformar a França num estado policial não chega a ser o princípio da solução para o extremismo islâmico. E que o princípio da livre circulação da Europa pode estar ameaçado. A Europa terá de saber o que fazer com a sua anémica política externa e com a sua inexistência militar, dependente da máquina de guerra americana. Obama, nota-se no seu cansado e arrastado discurso sobre o terrorismo europeu, não se sente mobilizado para esta guerra nem a quer chefiar.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 01.12.14

O linchamento de José Sócrates - Miguel Sousa Tavares

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Miguel Sousa Tavares  O linchamento de José Sócrates

 

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 Expresso, 29 de novembro de 2014

 

“Mal se anunciou a prisão de José Sócrates, o país saiu à rua em festa virtual... Fui testemunha, madrugada fora, da felicidade de milhares... 0 cidadão comum teme que

José Sócrates acabe sem castigo. Eu também”.

Alberto Gonçalves,

“DN”, 22.11.14

 

   O “cidadão comum” e o Alberto Gonçalves podem estar descansados: pior casti­go do que aquele que José Sócrates já teve é difícil. Tratando-se do cidadão José Sousa, os danos sofridos por ora ficariam no estrito conhe­cimento de alguns familiares e amigos íntimos, aguardando ele, quase de certeza em li­berdade, que o julgamento os agravasse ou não. Mas tratando-se do cidadão José Sócra­tes Pinto de Sousa, os danos — pessoais, familiares, políticos e profissionais, agora e para sempre — são irreversíveis. E à prisão preventiva soma-se a condenação preventiva e defi­nitiva. Se a vontade do “cida­dão comum” fosse bastante, nem haveria necessidade de julgamento: ele já está feito.

Ninguém. absolutamente ninguém de boa fé, pode dizer neste momento se José Sócra­tes é culpado ou inocente das gravíssimas acusações de que foi alvo. Pela simples razão de que um processo-crime se divide em várias fases — in­quérito e acusação, defesa e contraprova, pronúncia ou ar­quivamento, e julgamento — e apenas estamos na primeira. Se a “prisão” (como sintoma­ticamente escreve Alberto Gonçalves, em lugar de “de­tenção”) tivesse já por si o va­lor de uma sentença condenatória, estaríamos de regresso à barbárie. Mas os magistrados não são o “cidadão comum” e a sua justiça é a do Estado de direito e não a da turba linchadora. A sua primeira tarefa é exactamente essa, a de tornar clara a diferença.

Pessoas que respeito têm ar­gumentado que a insistência na crítica aos “pormenores” que envolveram a detenção, interrogatório e prisão preventiva de Sócrates desviam as atenções do essencial, que é a gravidade das acusações contra ele. Estão errados, por várias razões: primeiro, por­que isso pressupõe o tal julga­mento prévio de condenação; segundo, porque, não se co­nhecendo em toda a sua exten­são a acusação e, em extensão alguma, a defesa, a única coisa que pode ser seriamente dis­cutida é exactamente a parte processual relativa à detenção, interrogatório e medidas de coacção; e, em terceiro lugar e sobretudo, porque, ao con­trário do que afirmam não se trata de pormenores, mas justamente da marca de água onde se encontra ou não o ras­to do respeito pelos direitos de cidadania, justamente quando ele é mais necessário. Os meus leitores far-me-ão o favor de lembrar que há muito escrevo sobre a Justiça, não ocultando todas as críticas que crescente­mente me mereceu o que vejo como uma deriva justiceira, muitas vezes assente no atro­pelo de leis e princípios bási­cos de um Estado de direito, e fundada num especialíssimo regime de absoluta irrespon­sabilidade e ausência de con­trolo externo, como seria reco­mendável em democracia. As circunstâncias da “Operação Marquês” não fizeram senão cimentar as minhas razões.

Para começar, não acho nor­mal nem saudável que todos os principais crimes mediáticos ou envolvendo os cha­mados “poderosos” tenham a instrução a cargo de um único juiz e um único procurador. É assim há dez anos no TCIC e nem a nomeação de outro juiz, em Setembro passado, fez com que Carlos Alexandre deixasse de chamar a si todos os processos principais: Ricardo Salgado, vistos gold, José Sócrates. Ora, isto contraria um princípio fundamental da justiça que é o do "juíz natural”: não são os juízes que escolhem os processos, mas os processos que escolhem os juizes — por escala ou por sorteio. Mas quando só há um juíz (e um procurador), este princípio é espezinhado e, pela ordem natural das coisas, o juiz passa a fazer parte da equipa de acusação com o Ministério Público e a polícia criminal — o que é um grave desvirtu­amento da sua posição, que deve ser de equidistância en­tre as partes. E, em termos práticos, um tribunal onde só há um juiz e um procurador, podendo haver vários, é um tribunal especial — coisa que a Constituição proíbe, por ra­zões que qualquer democrata compreende.

Depois, e como já muitas ve­zes disse, não aceito a figura agora em voga da detenção para interrogatório ou para investigação. Considero-a uma interpretação abusiva e into­lerável da lei. Respondem que havia o perigo de Sócrates, desembarcado em Lisboa, ir directo a casa destruir provas. Pois que tivessem feito a bus­ca antes, quando ele cá estava: bastava tocar à campainha e mostrar o mandado. Ou então esperavam-no directamente no aeroporto e perguntavam-lhe se ele consentia numa busca imediata, evitando a detenção.

Mas a verdade é que não tenho grandes dúvidas de que a detenção prévia, as filmagens após comunicação interna, o aparato policial no tribunal, a saída em carrinha celular, tudo foi feito com a clara intenção de o humilhar, num ajuste de contas que vem bem de trás e que já conhecera dois episódi­os absolutamente lamentáveis para a justiça: a tentativa de o incriminar por “atentado ao Estado de direito” e o vergo­nhoso processo Freeport.

Não acho aceitável que a PGR faça sair um comunicado após a detenção em que logo se diz que esta foi fundada na aná­lise de “movimentos bancários sem justificação conhecida ou legalmente admissível” — jus­tamente o que cabia provar à acusação e sobre o que o argui­do ainda nem sequer se tinha podido justificar. E não quero acreditar que o despacho com as medidas de coacção tenha as 236 páginas que vi referidas, pois que isso levaria a pensar que, mesmo com abundante copy-paste, a decisão já estaria na cabeça do juiz antes mesmo de ele escutar as explicações dos arguidos e os argumentos da defesa.

Acima de tudo, porém, aqui­lo que não é possível aceitar, sob pena de total capitulação perante o abuso, é a habitual, mas desta vez absolutamente escabrosa, violação do segre­do de justiça. E não me refiro aos jornais de estimação do Ministério Público ou ao ‘jor­nalismo do botox’, mas sim a um jornal como o “Público”, que. citando “fonte próxima do processo”, pespega com toda a acusação do MP no jor­nal, tratando-a como verdade definitiva e sem ter ao menos o cuidado de perguntar à fon­te quais os elementos de pro­va concretos em que se fun­dava tal verdade. Não vale a pena alongarmo-nos em con­siderações sobre a intolerável prepotência que representam estas grosseiras e sistemáticas violações do segredo de Justi­ça por parte das entidades de investigação criminal: quem não percebe é porque só vai perceber se um dia lhe tocar. Mas é de uma imensa hipocri­sia a vigência de um sistema de segredo de Justiça que per­mite que na fase da instrução (que, compreensivelmente, é aquela em que é excepcionado o princípio da igualdade entre partes), essa desigualdade le­gal seja acrescentada por uma desigualdade ilegal que faz com que a defesa esteja obri­gada ao silêncio, enquanto a acusação litiga publicamente nos jornais, fazendo passar a sua versão, sem contraditó­rio. Além de mais, é de uma cobardia sem remissão. E que serve dois fins: instigar o tal julgamento do “cidadão comum” e ficar bem na foto­grafia, quando todos, temerosamente, vêm dizer que “a Justiça funciona”. Como se a simples prisão de suspeitos e a divulgação pública das sus­peitas, sem lugar a defesa, fosse sinal de que a Justiça funciona! Porque será então que os armários estão cheios de processos asim iniciados e que, uma vez promovido o  jul­gamento popular, nunca mais chegaram a julgamento num tribunal?

Tudo isto são pormenores? Pois, talvez. Mas preparem-se para muitos mais pormeno­res destes, porque, como diz o povo, o que começa torto, raramente se endireita. E nós precisamos de saber, sem uma dúvida razoável, se, no final de um processo justo, José Só­crates é culpado ou inocente. Nós, isto é: os que ainda não votámos nas redes sociais nem celebrámos madrugada fora a sentença que queremos. Nós, os que ainda acreditamos que se fez um longo caminho des­de os tempos em que o impe­rador consultava a turba para que ela decidisse a sorte dos condenados.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 23.07.14

O perigo de voar na TAP - Clara Ferreira Alves

 

 

Clara Ferreira Alves  O perigo de voar na TAP

 

 

Expresso, 19 de Julho de 2014

 

Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo

 

   A TAP deixou de ser uma companhia segura. Não se trata de um palpite. Ou do episódio da explosão de um reator sobre Lisboa. Tenho a certeza que só o sangue-frio e perícia dos pilotos evitaram um desfecho mortal. Nos últimos meses, as avarias técnicas, aterragens de emergência, atrasos, vieram denunciar o que é claro: o governo falhou redondamente a gestão política da TAP.

Há anos que se fala na privatização da companhia, desejável se feita em condições de transparência e competência. A TAP é uma companhia descapitalizada, com intuitos monopolistas que não são servidos por uma frota decente ou capital para a comprar. É uma companhia cara. E é uma companhia que perdeu pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e mais ricas, que oferecem menos incerteza e ameaças de cortes. A hemorragia afeta o serviço e a TAP enfrenta ainda problemas de manutenção técnica e de escassez de aviões. A última vez que voei na TAP o voo de ida atrasou cinco horas e o da volta atrasou cinco, seis, quase sete horas. Na ida, o avião vinha do Brasil, atrasado. Na volta, vinha de Angola, atrasado. Não há aviões suficientes, disse-me o pessoal de terra. A simpatia e competência do pessoal de bordo e dos pilotos que restam não compensam as falhas técnicas e políticas do dossiê TAP. No Expresso, li a semana passada que a TAP está à espera de aviões da Jazeera Airways, da TAM (obsoletos A340, neste momento em manutenção) e da Air India. A TAP está a tornar-se uma companhia de Terceiro Mundo, com destinos africanos incompreensíveis exceto por imposição política, como a Guiné Equatorial (membro da CPLP e salvadora do Banif) e o Mali (pensa-se que exista um enorme afluxo de passageiros portugueses para Bamako). Além de ser uma companhia africana, com aviões em segunda mão, a TAP nunca cuidou dos destinos asiáticos, estrategicamente mais interessantes, e o Presidente da República foi à China pela Emirates. Inaugurámos com pompa e circunstância o aeroporto de Macau, antes da entrega de 99, anunciando que Macau serviria as rotas da TAP para a China e o Oriente. Como se sabe, Hong-Kong construiu um aeroporto maior e melhor e a TAP deixou de voar para Macau, que se tornou um aeroporto secundário. O Brasil e Angola tornaram-se a missão da TAP, mas é uma missão mal cumprida. Os aviões são pequenos e poucos e os preços são ridículos. Para voar de um continente para outro, há muito que deixei de usar a TAP. Para a Europa, uso em último recurso.

Os cancelamentos e atrasos de voos têm atingido recordes nos últimos meses. O silêncio da administração sobre estes problemas é revelador. O dossiê TAP, tal como o dossiê RTP (outro problema bicudo e adiado) foram entregues a essa sumidade da estratégia pessoal e da negociata chamada Miguel Relvas. No caso da TAP, com a assessoria preciosa do advogado António Arnaut-Goldman-Sachs e do BES, duas fontes de credibilidade. A possível venda a esse homem de negócios “extraordinaire” chamado Efromovitch, senhor de trinta passaportes, e a inclusão de uma companhia aérea europeia na carteira de investimentos do dono de uma companhia de quarta ordem no Brasil, a pré-colombiana Avianca, só não foi avante, diz-se, porque o governo recuou na 25ª hora. Diz-se também que por ordem direta de Dilma Rousseff, que recusou dar o OK antes de analisar o negócio. Intermediário? O doutor Relvas. Efromovitch, que gastou milhares de euros em operações de marketing (incluindo a viagem de um grupo de jornalistas ao Brasil, para aferir a excelência do negócio para Portugal) ficou de mãos a abanar, embora continue a rondar a TAP como um abutre. A TAP, descapitalizada dia a dia, faz o que pode mas não tem a solução política que lhe permita livrar-se destes sarilhos. Entretanto, companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras, deixaram de mostrar interesse na TAP. O pessoal da TAP queixou-se da falta de transparência do processo de privatização. Houve greves desconvocadas. Muitos foram embora.

Um cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector, gabou o esforço de Fernando Pinto na penúria, e acrescentou que os pilotos portugueses são dos melhores do mundo mas que a companhia precisa urgentemente de injeção de capital. De ser reestruturada. Mesmo que o aeroporto que não chegámos a construir impeça a TAP de ter uma frota de superaviões para o Brasil e Angola, os A380 e os Boeing 787 Dreamliner, deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de reatores a arder sobre a cidade de Lisboa. Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo, e será o fim da TAP, como a queda de um velho Boeing de Nova Iorque para Paris foi o fim da TWA. A decadência da TAP é um espelho dos erros de gestão dos governos de Portugal. 

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