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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Expresso Online, 2 de Setembro de 2015
Esperança. Ahmed arriscou a vida para sobreviver. Nos momentos difíceis, agarrou-se à ideia que tinha da Europa
Na cabeça dele havia duas palavras que significavam o mesmo: Europa e segurança. No país dele, a Somália, havia uma palavra que significava “vai-te embora”: guerra. Atravessou África, chegou à Líbia, meteu-se num barco para atravessar o Mediterrâneo. Se ele teve medo de atravessar o mar que se tornou cemitério? Ele tinha medo era de ficar. Ele, Ahmed Abdalla, conta-nos na primeira pessoa o impossível
Texto de Carolina Reis/Fotos de António Pereira Ferreira
No meio da confusão, choro de crianças e gritos, não consegui perceber imediatamente se a minha família tinha sobrevivido à bomba que nos destruíra a casa. Pela maneira como a minha mulher segurava os nossos três filhos não dava para distinguir se o mais novo, o único rapaz, na altura com seis meses, tinha sobrevivido. A princípio pareceu-me que não, mas afinal tinha. Foi sorte, tinham-se atrasado no mercado.
Não sei quem enviou a bomba, nem isso é importante. Isso é normal desde que a guerra civil começou no meu país. Não fomos a primeira família nem a última fugir. Aquele cenário só nos deu uma hipótese: ir embora o mais rápido possível.
Entreguei a chave da loja que o meu pai me deixou, o nosso único sustento, na mesquita e pedi-lhes que vendessem tudo. Partimos a pé para a Etiópia. A cada passo estou mais longe de Mogadíscio e mais perto da Etiópia. Não estou mais longe de casa, porque a casa já não existe. Queremos paz, só quem não a tem, quem não vê os amigos e família a caírem com a violência da guerra, pode querer mais. A Etiópia é o primeiro pouso para chegarmos à Europa, terra segura. É por essa ideia que arriscamos a vida. Acho que, afinal, até não pedimos muito.
Enquanto caminho, despeço-me do meu país, sem sentir saudades. Na minha cabeça duas palavras: Europa e segurança. Está a ser duro, mas também esperançoso. A única solução era sair dali, não importava como. É por isso que quando me perguntam se tenho medo de atravessar o Mediterrâneo, eu não percebo a pergunta. Medo? Eu tenho medo é de ficar. Não vamos à procura de uma vida melhor. Vamos à procura de vida. Atrás de nós só há morte.
Estamos há três meses na Etiópia, talvez o tempo mais seguro da viagem. Alugámos colchões numa casa pequenina, o equivalente a um lar. Somos ilegais. Ilegais. Não me digam que não há cidadãos ilegais porque há, é assim que fomos tratados nesta viagem. Mas nós não somos ilegais, somos gente com direitos. Com direito a viver. Sempre foi isso que pedimos.
Sem plano definido, dei por mim no meio de outra terra em guerra, com mulher e três crianças pela mão. Mesmo que queira procurar alternativas à Europa não há hipótese. Por onde quer que vá, só tenho guerra e miséria à volta. Conseguimos seguir viagem com o dinheiro que a mesquita me mandou, daquilo que conseguiram vender.
Agora estou em cima de um burro, prevê-se que a viagem seja longa. Dois meses, sem morada fixa, a parar apenas para dormir e para comer, quando era possível, até chegar ao Sudão do Sul. Novo país, nova guerra, novos perigos. E eu continuo sem nada, sem certezas, a arriscar a minha vida e a da minha família em nome da segurança.
Foi preciso um mês para arranjar um traficante que nos tirasse do país, em direção à Líbia. Não foi difícil. Não é difícil sair, o mais difícil é ficar. Por 250 dólares a cabeça, encontro quem nos leve. 25 dias, pelo deserto do Sudão, numa Land Cruiser de caixa aberta. Conhecem o carro? Estão a ver o tamanho? Somos 32 naquele espaço. Sim, é possível. Trinta e dois à mercê de um traficante.
Aquela viagem soa a prenúncio do que está para vir. Sem dar por isso, é verão. À medida que o calor aperta, a misericórdia do traficante diminui. Não há água e ele só a dá quando entende. E entende poucas vezes. Os 250 dólares só dão direito à Land Cruiser. A nada mais. Quando quer paramos pelo caminho para comer, para dormir. Se houver sombra melhor, senão também não importa.
Tenho Tripoli, a capital da Líbia, na mente. Agarro os meus filhos e penso na cidade. Acredito que é o começo para uma vida nova. No meio do desespero vence a esperança. Estou muito perto de morrer. Tudo o que passei até aqui parece nada. Cada dia em que sobrevivo é um dia de vitória.
Familiares que já tinham passado para o lado de lá, que já estavam na Europa, enviam o que faltava para fazer os 800 dólares que o novo traficante nos pede para a travessia do mar. Quanto mais perto estamos da Europa, mais aumenta o valor da vida. Uns estrangeiros, a mando do coyote, explicam-nos como funciona. Alguém nos vem buscar, para nos levar a um campo perto da costa. De lá esperamos pela oportunidade. Pode demorar meses. Somos ilegais, escondidos, para ninguém perceber que aqui estamos. Mesmo que toda a gente saiba o que se passa, convém disfarçar.
Da ansiedade à expectativa vai uma pequena distância. Sei que o trajeto será feito de noite. Por isso, assim que o sol se põe cresce na minha mente a probabilidade de sair dali. Ao fim de 15 dias, é hora. Fico nervoso. Lembro-me das histórias dos que não sobreviveram, é como se estivessem à minha frente.
Está quase. Perdi a casa, o emprego, só quero salvar os meus filhos. É noite escura. Subo para o barco, dou o dinheiro ao traficante, é a primeira vez que o vejo. Ele conta as cabeças. Cinco pessoas: eu, a minha mulher, as minhas duas filhas e o meu filho bebé. Não há desconto nem piedade.
São 25 pessoas num barco de oito metros. Já não posso voltar atrás. Tenho medo. Mas, novamente, vence a esperança. Em cada momento, em cada hora, penso que vou morrer. O barco é pequenino, abana, não há espaço para nos mexermos. A única água que entrava é a salgada, a do mar que nunca parou de se impor naquelas 48 horas. Vejo a morte de frente.
Estou quase a chegar. Já avisto a segurança e a igualdade, mas o barco para. O traficante tenta pô-lo a trabalhar, parece que ficou sem combustível. Eu e a minha mulher, agarrados aos nossos filhos. E o barco a oscilar.
De repente, surge uma luz de vigilância, vinda de um navio da marinha. Chegámos à Europa ou voltaremos para trás? Um barco da marinha italiana salva-nos. Não caímos ao mar, mas penso, principalmente agora: se tivesse levado mais tempo teríamos sobrevivido? Tenho de repetir que estivemos muito perto de morrer.
Quando os marinheiros nos tiram da água, envolvem as nossas mulheres e filhos com mantas e levam-nos para terra segura. Paro um segundo, olho para cima e digo ao meu Deus: obrigado!
Hoje, sou cidadão português. Deixei de ser refugiado em novembro, quando recebi a cidadania. Estou muito longe de Mogadíscio. Mas a Europa não é, afinal, a terra das oportunidades. Gosto de Portugal, mas não tenho oportunidades. Todos os meses escolho entre comer ou pagar a renda. As minhas filhas usam o véu islâmico, vão à escola e falam português melhor do que eu. Lembram-se vagamente da viagem. O meu rapaz, o único que fiz, não tem memória. Sabe que em Malta, no campo de refugiados onde morámos antes de vir para Portugal, havia dinheiro para chocolates. Cá não há.
Da janela da minha casa, na Bobabela, onde hoje vivo, vejo, ao longe, o parque onde o meu filho costuma brincar. Estamos em paz.
Ahmed Abdalla, de 47 anos, está em Portugal desde 2009. Chegou através de um protocolo assinado entre as Nações Unidas e os Estados europeus para reinstalar refugiados de longa duração. Foi para o Centro de Acolhimento de Refugiados, na Bobadela, diretamente do campo de Hal Far, em Malta. Está desempregado e, à semelhança de outros refugiados, sofreu um corte de 70% nos subsídios. Desde o ano passado que é o porta-voz da comunidade de refugiados, que envia cartas, em cinco línguas, ao Governo, ao ACNUR, a António Guterres, ao Presidente da República, ao Papa, ao Provedor de Justiça, a pedir que os deixem ir procurar trabalho noutro país. Ahmed já o podia fazer, por ser agora português, mas falta-lhe o dinheiro.
Texto publicado originalmente no site do Expresso a 23 de abril de 2015
Mariana Mortágua A caçada
Expresso Online, 27 de Março de 2015
Lucas é um educador dedicado e respeitado na pequena comunidade onde vive e trabalha. Até ao dia em que, chamado ao gabinete da responsável pela escola, e vítima de uma mentira fortuita e aleatória, vê o seu mundo ruir. Abandonado pelos amigos mais próximos, despedido, humilhado e agredido na rua, todos lhe viram as costas e os que não fazem é porque querem fazer justiça pelas suas mãos. Lucas não cometeu crime algum, mas a violência da suspeita (abuso sexual de uma criança) e a repugnância que esse crime justamente nos provoca, transformou o seu dia-a-dia entre a desesperada tentativa de se reabilitar e a de se manter vivo. Lucas é um personagem fictício, de um filme demasiado vivido e real para ser ignorado no preciso momento em que o governo português defende a criação de uma lista, de acesso público, com o nome dos abusadores sexuais de menores. "A Caçada", é esse o nome deste filme dinamarquês, foi premiado em Cannes, e é um poderoso retrato do inferno que se pode esconder ou alimentar das nossas melhores intenções e preocupações.
Como dizia José Soeiro, no Facebook, a proposta do Governo aproveita a boleia da legítima repugnância social generalizada contra o abuso de menores, para colocar em causa direitos cívicos básicos, assumindo-se como um precedente que não pode ser aceite num Estado de Direito. É à boleia das melhores intenções, como é o caso, que começam os piores abusos. Não é por acaso, de resto, que todos os pareceres (Ordem dos Advogados, Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura, entre outros) rejeitam a ideia que uma eventual lista de abusadores de crianças possa ser consultada por terceiros - neste caso pais de menores de 16 anos.
Antes de nos determos na lei, e na forma atabalhoada e até interesseira como foi preparada e apresentada, é preciso referir o dado mais relevante - mas talvez mais desconhecido - sobre este crime. Nove em cada dez dos abusos sexuais cometidos sobre crianças acontecem no contexto familiar. É por isso que o principal instrumento no seu combate não é fazer de cada pai, legitimamente preocupado, um voyeur em potência, mas o reforço das redes sociais de acompanhamento e sinalização de menores em situação familiar de risco. Ora, o que o Governo fez foi precisamente o contrário. Agita o populismo fácil de uma lista que, incidinde sobre um crime propenso como mais nenhum a criar agitação e mesmo violência social e local, mas despediu há poucos meses mais de 400 educadores e assistentes sociais. Grande parte destas pessoas trabalhavam precisamente com as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens. O populismo tem este problema. Agita e esbracej mas não oferece soluções, ou, pior ainda, aparece para esconder as verdadeiras políticas que deixam mais vulneráveis enquanto comunidade.
Se dúvidas existissem sobre a despreocupação com o que realmente se passa no terreno, a Procuradoria Geral da República dá um exemplo gritante. O mesmo Governo que acha bem permitir o acesso de qualquer à identidade de um agressor sexual, mesmo que tenha cumprido pena há 20 anos, não inclui as comissões de proteção de crianças na lista de entidades com acesso direto à mesma.
Que é preciso proteger as crianças nem se discute. Que é preciso melhorar a legislação, nomeadamente nos riscos exponenciados pela internet, vamos a isso. Que é preciso cruzar dados e fornece-los às autoridades competentes, como defende a Directiva Comunitária que o Governo treslê, certíssimo. Que é preciso uma rede social capaz de defender as crianças, estamos todos de acordo menos este Governo - que despediu essas pessoas. Mas entre partir deste consenso e fornecer o acesso quase indiscriminado a essa informação, vai um passo gigante e um risco ainda maior. É o da diferença entre a preocupação e o populismo.
Para quem pense que o início deste texto só acontece num filme, deixo uma citação do parecer da Procuradoria Geral da República. "Já há registos - pelo menos um - de casos de tal natureza. Um pai foi violentamente agredido porque erroneamente tomado como estando a abusar sexualmente da sua filha quando brincava com ela, a aguardar a abertura do infantário onde a deveria deixar. Irrompeu a fúria popular descontrolada".
Nota: A proposta do Governo, bem como os pareceres referidos ao longo deste texto podem ser encontrados aqui
Daniel Oliveira A Grécia em Portugal
Expresso Online, 30 de Janwiro de 2015
A vitória do Syriza terá efeitos em toda a Europa. Já está a ter. Os problemas na aprovação da continuação das sanções à Rússia são apenas o primeiro exemplo. Porque o governo grego é quezilento? Não. Porque leva a sério uma ideia simples: a União Europeia é uma união de Estados soberanos com igualdade de direitos e deveres. E todos têm uma palavra a dizer sobre o que a União decide. Isto, que devia ser óbvio, tem estado ausente da lógica política da União. A UE é hoje uma união de três ou quatro Estados que tomam decisões que se aplicam a 28. E é isto, entre outras coisas, que está a matar o projeto europeu. Deste ponto de vista, a entrada em cena da um país que pretende ganhar peso político na União, até porque o desfecho da renegociação da sua dívida depende desse peso, é um elemento fundamental para qualquer transformação europeia.
Há, no entanto, uma coisa de que não tenho dúvidas: será difícil a Grécia conquistar uma solução equilibrada para sair da asfixiante crise em que se encontra e, ao mesmo tempo, ficar no euro e na União Europeia, sem encontrar aliados noutros Estados. E será difícil os periféricos reequilibrarem os desequilíbrios da construção europeia, da arquitetura do euro e da relação da Europa com a sua crise financeira sem aproveitarem esta oportunidade. A vitória do Syriza é, independentemente da convicção ideológica de cada um, uma oportunidade histórica para mudar as regras do jogo. Insistir no "nós não somos a Grécia" é insistir no isolamento. Em vez da força de uma aliança de quem tem interesses coincidentes, esperam-se favores por bom comportamento. Já nem sublinho a cobardia do raciocínio. Ele é, antes disso, estúpido.
A vitória do Syriza cria, em Portugal e noutros países, novas oportunidades e dificuldades a quem se candidata ao poder. Já não basta falar da mera gestão das imposições europeias. A Europa passou a ser o palco de um confronto sobre o seu próprio futuro.
Deste ponto de vista, as posições de solidariedade política com o novo governo grego, vindas de sectores que não dividam com ele convicções ideológicas, não são, como alguns julgam, sinal de "radicalismo". São sinal de pragmatismo. Portugal, Espanha, Irlanda ou até Itália e França só poderão voltar a por na agenda uma solução europeia para as dívidas soberanas e para a disfuncionalidade do euro se tiverem um aliado que comece por romper consensos gastos. É no sucesso de Alexis Tsipras que se joga o seu poder negocial.
Deste ponto de vista, a vitória do Syriza cria, em Portugal e noutros países, novas oportunidades e dificuldades a quem se candidata ao poder. Já não basta falar da mera gestão das imposições europeias. A Europa deixou de ser uma entidade externa que nos impõe coisas desagradáveis e passou a ser o palco de um confronto sobre o seu próprio futuro. E todos os Estados estão obrigados a tomar uma posição. Deste ponto de vista, a vida fica dificultada para quem não tem nada a dizer sobre a Europa que deseja e se habituou a manter uma postura passiva de "bom aluno". Em Portugal é, para o PS, uma autêntica revolução. Que exibirá as suas divergências internas.
Para as forças à esquerda do PS, o primeiro governo mais à esquerda a tomar posse num país importante para esta crise, também não será fácil de gerir. As escolhas difíceis que Tsipras vai fazer e o pragmatismo a que está obrigado para vencer o braço de ferro com Merkel confrontarão o hábito do discurso irredutível sobre tudo, habitual em parte da esquerda portuguesa, com uma realidade sempre mais difícil. Deixar cair a exigência da saída da NATO e a escolha dos Gregos Independentes para aliado de governo foram só os primeiros sapos. O pragmatismo não deve ser a cultura da traição e da cedência permanente. Mas obriga a ter prioridades para escolher no que se cede e no que não se cede. Coisa que não se exige a quem não queira governar. Deste ponto de vista, o Syriza também vai ser muito pedagógico para o resto da esquerda.
Quanto à nossa direita, está só revoltada por Tsipras não ser Hollande.
Tresloucada e infantil, a reação de Passos Coelho à vitória do Syriza diz tudo. O seu discurso político está ao nível das caixa de comentários dos piores jornais. Quando vem a decadência política costuma notar-se mais a indigência intelectual. Percebe-se que o debate sobre o futuro deste país e da Europa já não vai passar por ali.
Clara Ferreira Alves A Justiça a que temos direito
Expresso online, 22 de Novembro de 2014
A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética. Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem.
Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como?
1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção?
2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável.
3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o "Correio de Manhã" e o "Sol", que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.
4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do "Sol", pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas "o Sol apurou junto de investigadores". O "Sol" não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando "trituradora" de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável.
5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo.
6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal.
7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.
8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto.
9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de "socratismo" em Portugal.
10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o "Correio da Manhã" e o "Sol". E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito.
11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política.
12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim. A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia.
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