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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 04.10.19

"Manhã dos outros!" - Fernando Pessoa

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Fernando Pessoa  "Manhã dos outros!"

joan miró, el sol rojo1.jpg

 

(Joan Miró, "El sol rojo")

 

Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança
Só a quem já confia!
É só à dormente, e não à morta, 'sperança
Que acorda o teu dia.

A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo
Todo o sonho vão,
Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo
E a ter coração.

A esses raias sem o dia que trazes, ou somente
Como alguém que vem
Pela rua, invisível ao nosso olhar consciente,
Por não sermos ninguém.

(in, Poesias, Edição Ática)

 

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por Augusta Clara às 16:45

Sábado, 13.06.15

Dia de Santo António - Fernando Pessoa

CL28a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Catholico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

 

És o santo do povo.

Tens uma aureola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e anciosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?

Que de hoje em deante quem o diz se digne

Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instincto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro titulo de gloria,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido taes quando aqui andámos,

Bons, justos, naturaes em singeleza,

Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que ha na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

 

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm belleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retraio, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vae alta a lua

Num plácido e legitimo recorte,

Atira risos naturaes à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

 

(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares, Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 19.01.15

"Corre aos meus pés o rio" - Fernando Pessoa

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Fernando Pessoa  "Corre aos meus pés o rio"

 

david levy lima1a.jpg

 

(David Levy Lima)

 

Corre aos meus pés o rio.
As árvores revelam-se.
E em toda a parte há flores.
Como elas deixei vir
As horas ter comigo,
Sem sono, nem desvelo,
E deixando a natureza
Tornar-me em meu sonho.

O silêncio é dos deuses.
Passam nossas palavras,
Morrendo no ar o seu eco.
Quem nos ouvir esquece.
Só a calma e calada
Admiração das cousas,
Por nunca ter querido
Ser qualquer cousa, é tudo.

 
(in Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim)
 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 23.09.14

A água da chuva desce a ladeira - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa  A água da chuva desce a ladeira

 

 

(Brett Weston)

 

 

A água da chuva desce a ladeira.        

       É uma água ansiosa.  

Faz lagos e rios pequenos, e cheira        

      A terra a ditosa.  

 

Há muitos que contam a dor e o pranto       

     De o amor os não qu'rer... 

Mas eu, que também não os tenho, o que canto      

     É outra coisa qualquer.

 

(in Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 28.06.14

A lenda dourada e linda - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa  A lenda dourada e linda

 

(Maija Lindberg)

 

 

A lenda dourada e linda

Que me contaram outrora,

Em minha alma dorme ainda

Mas é outra lenda agora.

 

Antigamente falava

De fadas, elfos e gnomos;

Hoje fala só da escrava

Indecisão que nós somos.

 

Mas elfos, gnomos e fadas,

Vistos certos, que mais são

Que as projecções enganadas

Dessa nossa indecisão?

 

Criamos o que não temos

Por nos doer não os ter,

E quasi tudo o que vemos

É o que ansiamos por ver.

 

Depois, cansados daquela

Visão que viu só o nada,

Fechamos toda janela,

Ficamos na alma fechada.

 

Mas inda esses entes todos

Que outrora eram visão,

Bailam mesmo, e inda a rodos,

Mas só no meu coração.

 

(in Poesia 1931-1935, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 13.06.14

Dia de Santo António

 

Fernando Pessoa  Santo António

 

 

(Almada Negreiros) 

 

 

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Catholico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

 

És o santo do povo.

Tens uma aureola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e anciosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?

Que de hoje em deante quem o diz se digne

Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instincto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro titulo de gloria,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido taes quando aqui andámos,

Bons, justos, naturaes em singeleza,

Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que ha na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

 

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm belleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retraio, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vae alta a lua

Num plácido e legitimo recorte,

Atira risos naturaes à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

 

(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares, Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa)

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sexta-feira, 25.04.14

Mar português - Dulce Pontes

 

Dulce Pontes  Mar português

(poema de Fernando Pessoa)

 

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por Augusta Clara às 21:00

Quarta-feira, 26.02.14

Servo sem dor ... - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

 

(Henri Matisse)

 

Servo sem dor de um desolado intuito,

De nada creias ou descreias muito.

O mesmo faz que penses ou não penses.

Tudo é irreal,  anónimo  e fortuito.

 

Não sejas curioso do amplo mundo.

Ele é menos extenso do que fundo.

E o que não sabes nem saberás nunca

É isso o mais real e o mais profundo.

 

Troca por vinho o amor que  não terás.    

O que 'speras, perene o 'sperarás.

O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.

Morto, que rosas é que cheirarás?

 

Vendo o tumulto inconsciente em que anda

A humanidade de uma a outra banda,    

Não te nasce a vontade de dormir?

Não te cresce o desprezo de quem manda?

 

Duas vezes no ano, diz quem sabe,

Em Nishapor, onde me o mundo cabe,

Florem as rosas. Sobre mim sepulto    

Essa dupla anuidade não acabe!

 

Traze o vinho, que o vinho, dizem, é

O que alegra a aIma e o que, em perfeita fé,

Traz o sangue de um Deus ao corpo e à alma.

Mas, seja como for, bebe e não sê.

 

Com seus cavalos imperiais calcando

Os campos que o labor 'steve lavrando,

Passa o César de aqui. Mais tarde, morto,

Renasce a erva, nos campos alastrando.

 

Goza o  Sultão de amor  em quantidade.    

Goza o Vizir amor em qualidade.

Não gozo amor nenhum. Tragam-me vinho

E gozo de ser nada em liberdade.

 

(in Novas Poesias Inéditas, Edições Ática)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Sábado, 04.01.14

Tabacaria - Fernando Pessoa, por Viriato Ventura

 

Fernando Pessoa  Tabacaria

 

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por Augusta Clara às 21:00

Segunda-feira, 30.12.13

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos - Bernardo Soares

 

Bernardo Soares  A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos

 

 

 

   (Júlio Pomar)

 

270.

 

   A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.                       

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

 

(in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim)

.

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por Augusta Clara às 17:00



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