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Jardim das Delícias


Sábado, 28.04.18

A indecente manipulação das imagens - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  A indecente manipulação das imagens

 

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Diário de Notícias, 27 de Abril de 2018

   É como as anedotas. Vocês sabem, é possível brincarmos com tudo, mas não com todos - até se pode contar piadas sobre campos de concentração... mas não se há um nazi por perto. Emmanuel Macron deve ter pensado que podia ter todo o tipo de gestos. Mas aprendeu nesta semana que deveria abster-se de ter gestos íntimos com Donald Trump.

Macron é capaz de posar tão bem de firme como de encantador. O presidente francês tem a boa figura e as convicções que o fazem ficar bem, com qualquer das variáveis, uma ou outra. Dizem alguns analistas que uma das razões de ter chegado ao Eliseu foi por, entre as duas voltas das presidenciais, ter ousado defrontar grevistas coléricos. Cercado entre operários da Whirlpool que protestavam por a sua empresa ser deslocalizada para a Polónia, Macron disse a um: "Não me trate por tu, porque não lhe faço o mesmo." Até lá era o menino dos gabinetes alcatifados do banco Rothschild, mas com essa imagem, essa voz e esse tom à porta da fábrica ocupada e transmitidos pela televisão, sob o escrutínio dos franceses que ainda andavam a tentar saber quem era aquele jovem ovni da política, ele foi catalogado como duro. Quanto a ser gentil, sempre bastou o seu ar de galã frágil - como um herói de filme de François Truffaut, um Antoine Doinel reconvertido na política.

No seu primeiro encontro, em maio do ano passado, com o também recente presidente americano, Macron ganhou por KO. Agarrou no ponto fraco de Trump - as mãozinhas pequenas que até tinham sido assunto da campanha americana. Na Casa Branca, sentados em cadeirões, em frente às câmaras, quando o americano lhe estendeu o bacalhau fugidio do costume, o francês firmou a mão e levou o outro a um esgar de desconforto que não escapou ao mundo. Foi só uma derrota que o presidente do país da imagem pública e dos dentes perfeitos não esqueceu. Até poder resgatar-se, nesta semana.

Aconteceu na visita de Emmanuel Macron à América. Ele trazia um discurso fisgado e esse era - já lá vamos aos pormenores - o de cimentar a sua liderança na Europa, agora que a sua parceira e aliada já não é a poderosa que Angela Merkel foi. Recebeu-o Donald Trump, homem de televisão e americano dos efeitos especiais. Uma coisa foi o francês tê-lo apanhado desprevenido, há um ano, outra seria deixar que o desconchavo se repetisse. Quem teve quem lhe organizasse as eleições, investindo cirurgicamente nos condados onde os dados fornecidos pelo Facebook diziam que se devia inundar com anúncios eleitorais eficazes, pôde apostar desta vez num personal trainer que lhe indicou onde amesquinhar o francezinho. Se a discursar bem Trump ainda não aprendeu, a gestualizar ele mostrou ser bom e rápido aluno.

Então, as conversações de 23 e 25 de abril, durante a visita de Macron a Washington, saldaram-se por um Waterloo gestual. O pequeno Napoleão foi derrotado por um improvável duque de Wellington de melena alourada. Trump caprichou e insistiu no capricho. E Macron convencido de que tinha arrumado o outro de vez com o aperto firme de mão, no ano passado, aprendeu que há gestos que não se podem ter com Trump. Sobretudo quando este já não está desprevenido.

Seguem-se três cenas, todas elas daquelas que levam direito a Santa Helena. Na Casa Branca, com as mãos descaídas e cruzadas frente ao casaco, com o sorriso que já não podia ser de vencedor, Macron deixou que Trump lhe limpasse uma hipotética caspa da lapela e, pior, deixou que o sorriso permanecesse beato. Entre eles, um quadro de George Washington, o mesmo do pai fundador que aparece nas notas de dólar, prevenia. Reparem, Washington nunca mostra os dentes porque os tinha em madeira, os odontologistas ainda não tinham sido inventados no seu tempo, mas o ar austero que aparece naquela foto também era para avisar o amigo francês, do grupo dos presidentes decentes, contra o seu sucessor. Este, grosseiro, sabendo o outro fragilizado, lançou aos jornalistas: "Ele deve ficar perfeito", e sacudiu um pouco mais a lapela do convidado...

 

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Com ambos de pé, Trump deixa o seu microfone, aproxima-se de Macron, cruza com ele as mãos direitas, inclina-se e encosta a sua à cabeça dele. Fotos, filmes. A diferença de alturas sublinha o poder do americano. Finalmente, a imagem mais cruel, à saída da Casa Branca, Trump, apesar de dono da casa, está um bom passo à frente do hóspede. Deixa a mão esquerda para trás, que Macron imprudentemente agarra. E vai arrastado. Em filme, parece a debandada final dos franceses em Waterloo, sem um Cambronne que ponha cobro ao insulto; em foto, é um garoto que o pai leva à escola... As imagens são todas desastrosas para o presidente francês, sobretudo porque a contracorrente do que antes ele demonstrara. O ar glorioso de Trump não escondia, nem fingia que tentava esconder, que a vingança estava consumada.

No dia seguinte, Emmanuel Macron foi ao Congresso. Falar. A imagem, essa, tinha sido lamentavelmente destroçada antes. Sem ela, pior, com ela nas ruas da amargura, restavam-lhe as palavras. Num editorial, o jornal Le Monde fez o rol do que o presidente francês defendeu, em contraponto da nova política americana. A alternativa dos valores europeus, ao mundo fraturado que Trump quer; o comércio aberto contra o protecionismo; os valores progressistas contra o fascínio do poder forte; os acordos de Paris sobre o clima contra a recusa deles. A voz de Macron foi clara e forte. Mas já uma e outra e outra imagem de Macron faziam este valer menos do que mil palavras.

 

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por Augusta Clara às 20:01

Quinta-feira, 24.03.16

Terroristas como peixe na água - Ferreira Fernandes

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Diário de Notícias, 23 de Março de 2016

   Os anarquistas também escolheram a propaganda por ato violento, no virar do século XIX para o XX. Em 30 anos, além de bombas cegas, por vezes com dezenas de vítimas, mataram cinco chefes de Estado, de regimes diversos (um czar, dois presidentes, francês e americano, e dois reis, italiano e português). Mas foram vencidos por medidas policiais. É que aqueles terroristas de antanho eram pessoas isoladas ou de pequenos grupos desgarrados. Não eram peixe mergulhado em meio natural. Hoje, o terror é outro.

Ontem, um dos títulos iniciais do site do jornal Le Monde foi: "Uma explosão em Bruxelas numa estação de metro do bairro europeu." Apanhei-me a ler a frase no sentido literal. Europeu, qual? Não são todos, em Bruxelas? Só depois me dei conta de que o jornal se referia ao bairro das instituições europeias (com o edifício da União Europeia, entre outros). Mas as explosões têm destes efeitos colaterais, trazem-nos recordações explosivas. Lembrei-me de um português que trabalhara na UE, em Bruxelas, e morara em Molenbeek, um bairro de imigrantes muçulmanos.

Logo a seguir aos atentados de Paris (novembro do ano passado), esse português foi uma espécie de vox populi, voz inocente, voz de testemunha. Quando alguns habitantes de Molenbeek foram relacionados ao que acontecera em Paris, o nosso português foi requestado por jornais e sites. Um destes colocou uma frase dele em título: "Fui assaltado mais vezes em Lisboa do que em Molenbeek." E ele contou a "boa convivência" que encontrou no bairro. Talvez com alguns poréns, coisa pouca: os cafés eram só de homens, os quiosques não tinham jornais franceses nem flamengos, só árabes, as mulheres andavam veladas na rua e a sua namorada quando o ia visitar não podia ir sozinha, porque era incomodada. "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos, por exemplo", contou o português.

Entretanto, foram-se precisando as ligações dos recentes atentados islamistas com o bairro. Mehdi Nemmouche, o assassino de quatro pessoas no museu de Bruxelas, em 2014, foi preso em Molenbeek. Amedy Coulibaly, cúmplice dos assassinos dos jornalistas do Charlie Hebdo, comprou em Molenbeek as armas com que sequestrou e matou no supermercado judeu, em Paris, em janeiro de 2015. Ayoub Elkhazzani também comprou as armas em Molenbeek com que tentou uma matança no comboio entre Amesterdão e Paris, em agosto passado. E, relação mais antiga, Dahmane Abd el-Sattar e Rachid Bouraoui el-Ouaer eram habitantes do bairro quando partiram para o Afeganistão para matar o comandante Massoud, que combatia os talibãs, nas vésperas dos atentados das Torres Gémeas.

Na capital da Europa, um bairro que era o braço armado da Al-Qaeda, primeiro, e do Estado Islâmico, depois. Na semana passada, quando da prisão do descerebrado que organizou as mortes de Paris, Salah Abdeslam, soube-se que ele vivera os últimos quatro meses em... Molenbeek. Mais do que o nível de organização - que não é sofisticado (casa sem água nem eletricidade) - impressiona o facto de o assassino, filho do bairro, ter desaparecido na paisagem, como um peixe na água. E, por isso, seria melhor dar mais atenção àquela frase duma voz inocente: "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos..."

Porque a questão é essa: Molenbeek não é Marrocos. Sem desprimor, para um ou para outro, simplesmente isto: Molenbeek é um bairro europeu. Ou melhor, deveria sê-lo e, pelos vistos, não é. Pelos vistos, quero dizer, viu-se. Por exemplo, há poucos meses, quando a polícia belga fez buscas em Bruxelas à procura dos terroristas, os jornais internacionais publicaram a foto de um polícia e dois soldados, patrulhando uma das belas galerias do centro da capital (belga e, o que mais é, europeia). E as caras deles estavam tapadas! Homens da ordem, escondendo-se! Sinal tremendo da nossa fraqueza... Quem devia estar tapado, presumia-se, era Salah Abdeslam. Que, veio a saber-se, vivia no seu bairro.

Um bairro que, além de albergar um assassino, tem a semente dos que assassinam e, pior do que tudo, expõe de forma cruel a nossa fraqueza. E, nisso, Molenbeek é só o epítome - o mal, deles, e a fraqueza, nossa, estão espalhados pela Europa. Há quem os aceite, apesar de a causa que defendem ser indecente. Leiam, por favor, a reportagem do The New York Times que o DN publica, nas páginas 16 e 17 desta edição. As escravas sexuais no Estado Islâmico são obrigadas a tomar a pílula contracetiva só porque os terroristas têm de respeitar uma lei medieval: é pecado ter relações com uma mulher grávida... Eles, tudo; elas, gado. E, há um ano, no mesmo dia em que um vídeo nos mostrou as estátuas milenárias a ser destruídas em Mossul, no Iraque, amigos de Jihadi John - o degolador do Estado Islâmico - defenderam-no e louvaram-no, numa conferência de imprensa em Londres.

Ontem, boas almas escreviam no chão das praças de Bruxelas: "Paz". O falar é sempre para alguém: para quem era aquela mensagem? Havia também mulheres a desenhar: "Paz". A quem oferecem a outra face? Ainda não entenderam que não querem delas face nenhuma, querem ambas tapadas. E o presidente francês disse: "A Europa está em guerra." Soou a frase batida e vazia. Uma espécie de homenagem à capital da banda desenhada, dos Dupond e Dupont. A Hollande pareceu-nos seguir Hollante: "Eu diria mesmo mais, a Europa está em guerra."

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 28.01.16

E sexo de cavalo à mostra, ofende? - Ferreira Fernandes

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Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2016

 

   Um tipo com uma rodilha branca na cabeça, e em cima dela nem uma canastra de fanecas, um quase ayatollah mas um total presidente iraniano - enfim, Hassan Rohani - podia talvez ofender-se com uma estátua romana feita há dois mil anos, que era uma cópia duma estátua grega feita há 2300 anos... A Vénus Capitolina sai do banho, é certo, mas tenta esconder, embora em vão, os seios com a mão direita e a região genital com a mão esquerda. Dir-me-ão, a senhora é tão bela, antiga e de mármore, que não podia ofender ninguém. Mas, lá está, como se pode garantir o que vai na cabeça de alguém que leva na cabeça uma rodilha sem canastra? Fica, pelo menos, um talvez... E a dúvida transforma-se em certeza quando o da rodilha leva um cheque de 17 mil milhões para negócios vários: tape-se a estátua! Calma, não foi tão simbólico assim, não foi com uma burca, foi com uma caixa do IKEA. Quatro tábuas à volta, um tampo e dois mil anos de história apagados. Uf!, Roma ainda não é o Estado Islâmico, não dinamita, só esconde. E não foi por extremismo religioso, mas só por miserabilismo moral. Uma pequena caixa para a Vénus Capitolina, um grande salto à retaguarda para a Humanidade. Ora, nisto de recuar, o problema é o gosto que se entranha. Matteo Renzi, desde ontem o pobre diabo que governa a Itália, levou Roahni para uma sala onde havia a estátua equestre de Marco Aurélio. Olhem o terror nos olhos de Renzi: e pila de cavalo à mostra, ofende?

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 26.12.15

Tenham aneurismas à terça-feira - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  Tenham aneurismas à terça-feira

 

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   Diário de Notícias, 24 de Dezembro de 2015

   Temos interesse em ver o caso do jovem deixado morrer no Hospital de São José como isso mesmo, um caso. Assunto público, como a saúde. Na carta da namorada duas frases contam a história. Ao ir de ambulância, ela disse-lhe: "Eles vão cuidar de ti." Leia-se, para tirarmos das palavras a carga sentimental: o Estado, nas obrigações que lhe cabem de saúde dos cidadãos, vai cumprir o que deve. Na segunda frase, ao chegar ao hospital, a namorada ouviu: "Infelizmente calhou numa sexta-feira." Leia-se: as obrigações do Estado, neste caso, interrompem-se ao fim de semana. Enfim, tenham aneurismas às terças ou quintas. Ao fim das duas frases, depois da esperança ("vão cuidar") e da resignação ("calhou"), matou-se um homem. Os cortes foram longe de mais nos hospitais, diz-se agora. E também se diz que, apesar dos cortes cegos, havia mecanismos que, no caso de David Duarte, não foram seguidos. Os entendidos vão (vão?) tirar conclusões e os responsáveis decidiram que haverá, já, equipas de neurocirurgia nos hospitais adequados, aos fins de semana. Nós, os que sofremos de não saber o que é organizar a saúde pública (e acreditem, somos muitos, apesar do que vão ler nos jornais por estes dias), nós, os leigos, deveríamos ficar pelo essencial. E o essencial é: aquela frase - qual é a parte de "não há dinheiro" que não entendeu? -, tão batida a partir de 2011, era criminosa. Cheia de bom senso, mas prenhe de crimes. Este foi mais um.

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por Augusta Clara às 15:00

Sábado, 28.11.15

A minha amiga é negra - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  A minha amiga é negra

 

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   Diário de Notícias, 28 de Novembro de 2015

   A minha amiga é negra. Ainda há pouco eu não me lembraria de o dizer. Nesta semana, ela obrigou-me. Claro, não foi do género "olha, escreve lá no teu jornal que sou negra". Foi assim, ela estava a fazer uma coisa solene e ficou de cara levantada - dizia uma jura pública - olhando-nos, olhos nos olhos, a mim e a vocês também. Eu disse-me: está bem, Francisca, eu digo.

Ao João, seu irmão, ele morreu há dois anos, eu até já chamei "preto". Ele, o mais cosmopolita dos meus amigos, apareceu-me com uns sapatos a que os americanos chamam spectators. E chamam bem, porque, de couro negro ou castanho e pala branca, os spectators atraem a atenção e só ficam bem a quem os ousa usar. Invejo-os, porque me sei disléxico de alfaiataria. Foi o que talvez me tenha levado a dizer ao João: "Pareces um preto de Nova Orleães..." Ele gostou, olhou para os sapatos e pôs-me a mão no ombro: "São bonitos, não são?" Acho que se permitiu a superioridade, a mão no ombro, porque se aproveitou da minha nítida desvantagem no vestir. Geralmente os irmãos Van Dunem tratam-me com menos sobranceria. Nem tanto por mim, suspeito, mas porque eu fui "o amigo do Zé", o mais velho dos irmãos.

Eu e o José, jovens, íamos levar doces aos presos nacionalistas, 1968, 1969... Os guardas faziam diferença entre o branco e o preto, desprezavam este e insultavam aquele. Nós regressávamos ao nosso bairro com aquela noção de irmanados que os amigos só criam na infância ou na adolescência. O ter de ser cumprido, a nossa areia vermelha aos pés, o futuro ali à mão, e nem orgulhosos íamos, só juntos. Mas não era bem assim. O nosso risco era igual - e estávamos de peito feito - mas o risco dos nossos não era igual. Em casa dele tinha ficado a dona Antónia, a mãe do Zé, ela é que fazia os bolos e nos mandava entregar. Ela sabia o risco do seu menino e do amigo. Eu partiria para o exílio pouco depois e o Zé seria preso no campo de São Nicolau. Ela não sabia ainda é que a espiral acabaria trágica, que o filho seria assassinado, já pés firmes sobre a praia sonhada, em 1977.

A dona Antónia vive em Lisboa, tem 93 anos. Ah, com ela eu nunca me permitiria a palavra "negra", nem agora, quando a palavra foi conquistada pela Francisca. Não que a ofendesse, claro. Ela era, assumia e praticava aquilo que era na nossa cidade - negra, o que não era mera circunstância, era condição. Mas para mim a dona Antónia é a senhora, ponto. Às vezes, agora, em Lisboa, quando ia recordar com o João ou falar com a Francisca, eu puxava pelo antigamente dela. Eu deixava ir a conversa, como a dona Antónia a faz, com silêncios, olhos tristes e boca amarga, mas estava sempre a vê-la a entregar-nos o embrulho dos bolos para levarmos à prisão.

O pai da família foi sempre sóbrio comigo. Mateus van Dunem passava na rua com o irmão, ambos silenciosos, ambos elegantes, vestidos à funcionário, com gravata, o que era raro no bairro. Eles eram filhos duma derrota - negros luandenses dos anos 1940, 50 e 60. Eu explico o que lhes aconteceu: a República. A República burra, como tantas vezes acontece às coisas boas em Portugal. O alto-comissário Norton de Matos decidiu um erro: substituir a elite angolana, os filhos da terra, os nativistas, os angolenses, por gente ida de Portugal. Não percebeu que o que havia para perpetuar de Portugal em Angola era a gente com quem Portugal se tinha cruzado.

Nas décadas de 1910 e 20, Manuel Pereira dos Santos van Dunem, o pai dos dois irmãos que eu veria juntos tantos anos depois, o avô de Francisca, foi perseguido, preso e desapossado dos bens. Aconteceu o mesmo a outros dirigentes das associações, como a Liga Angolana, encerrada. O jornal dele, O Angolense, foi fechado, tal como a sua tipografia Mamã Tita. Aos filhos de toda essa geração esperariam quase só lugares subalternos de funcionários. Abandonavam as casas tradicionais da Cidade Alta e Ingombotas e foram, afastando-se para os bairros periféricos, como o nosso bairro, o meu e do Zé, São Paulo.

A minha amiga chegou jovem a Portugal, a sua universidade foi a de Lisboa, casou com um açoriano, pariu um português, trabalhou em Portugal, tornou-se portuguesa e continuou negra. Nos anos 1930, a geração do avô de Francisca pagou para que se erigisse um monumento, em Luanda, a Luís Lopes de Sequeira, o crioulo. No século XVII, esse mulato derrotou os reinos de então, numa Angola que não existia. Lopes de Sequeira, cabo-de-guerra, servia Portugal e acabou por fazer Angola, porque sem ele provavelmente ela não o seria. A história capricha nos seus caminhos e da importância destes dirá o que vier.

Ah, agora compreendo... O olhar de Francisca não queria que eu dissesse que ela era negra, mas que contasse tudo isto.

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por Augusta Clara às 19:34

Terça-feira, 10.11.15

Passos tem mais encanto na hora da despedida - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  Passos tem mais encanto na hora da despedida

 

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  Diário de Notícias, 10 de Novembro de 2015

   Hoje, quero lembrar o meu mérito maior: o país começou a dar atenção aos números. Aquele défice não era para ser cumprido, mas dávamos atenção. Àquele crescimento prometido não chegávamos lá, mas dávamos atenção... Dir-me-ão, a economia não ganhou grande coisa com isso. Pois não. Mas a educação ganhou. Hoje, graças à nossa insistência com números, todos os portugueses começam a apreciar a aritmética. E, hoje neste Parlamento, tivemos o grande exemplo do renovado interesse nacional pelo valor do algarismo, a poesia do algoritmo, a surpresa da adição. A partir de agora, ninguém mais pode ignorar que 122 é mais do que 107. Fosse ontem, quando imperava a teoria dos conjuntos fechadinhos no seu casulo, 107 era maior do que 86 mais 19 mais 17. Até eu me surpreendo com o que isso pode ocasionar na subtração das minhas ambições... Sou a principal vítima, mas saúdo o conseguimento dos governos que tive a honra de presidir. Também, se bem se lembram, em 2011 eu tinha prometido mais eficácia do Estado. Geralmente, quando os resultados são bons, os partidos governamentais salientam os méritos nas campanhas eleitorais. Não foi isso que fiz, preferi esperar pelo fim das eleições para poder comparar. Faço agora o balanço. No mandato passado liderei um governo por 4 anos, 4 meses e 9 dias, isto é, 1592 dias. Hoje, cai o meu segundo governo, só com 10 dias! Contando os prós e contras, É EVIDENTE QUE ESTE ÚLTIMO GOVERNO FOI MUITO MELHOR!

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sábado, 24.10.15

O processo de apagamento em curso - Ferreira Fernandes

 

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Diário de Notícias, 24 de Outubro de 2015

 

   Cavaco Silva deve ser ouvido pela sua linguagem gestual. Quando apontou, esticou o dedo, enfim, indigitou Passos Coelho, entendemos. O pior é quando ele fala. Gostaria de conviver (três minutos, não mais) com Aníbal Cavaco Silva, vocês sabem, esse. Eu só queria saber o que se passa quando ele pede um café. Suspeito que o pedido cause grande rebuliço no Palácio de Belém. O empregado da copa começa por não entender o que foi pedido. O chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, aconselha calma, e pondera que talvez o Presidente nem tenha pedido nada. A assessora das Relações Internacionais divaga, não se querendo comprometer, "talvez seja qualquer coisa relacionada com Timor, talvez com a Colômbia". Nuno Sampaio, dos Assuntos Políticos, considera que o momento não é para estimulantes, mais valia camomila.
O consultor Fernando Lima faz um sorriso de quem entendeu tudo mas não diz nada, próprio de quem já não é ouvido, e pensa: "No meu tempo, eu não teria dúvidas de que ele pediu um café, mas também sei que se a coisa desse para o torto ele negava." O consultor para a Inovação, Jorge Portugal, hesita, mas acaba por ousar: "Eu por mim, trazia-lhe um negroni, o cocktail da moda." José Carlos Vieira, da assessoria para a Comunicação Social, de memória toma nota de todas as interpretações, sendo certo que fará um comunicado assaz vago. E a assessora do Gabinete do Cônjuge, Margarida Mealha, depois de um telefonema, sussurra para o empregado: "Um café, mas não traga açúcar"...
Como não tenho o número do telemóvel da doutora Maria Cavaco Silva não sei bem o que dizer da comunicação do PR sobre a situação política, proferida na quinta-feira. Mas, como todos, tenho a minha interpretação e, essa, entendi bem. Desde logo, notou-se no discurso o dedo da cônjuge: amargo, não trazia açúcar nem adoçante. Depois, confirmou-se que Cavaco Silva, homem que lida mal com as palavras, deve ser ouvido mais pela sua linguagem gestual. Assim, quando apontou, esticou o dedo, enfim, indigitou Passos Coelho, todos entendemos que o líder do PSD foi mandado fazer governo. A seguir, foi a fúria de palavras, não como se tivesse engolido uma fatia de bolo-rei mas, desta vez, uma broa de Avintes. E inteira.
Em palavras, Cavaco Silva começou por prestar homenagem à Constituição e respeito sem condições pela Assembleia da República: entregou a decisão aos digníssimos 230 deputados. Essas pedras basilares da vontade do povo português, disse, podem - e saberão certamente fazê-lo - consubstanciar o desiderato da Nação e aprovar o governo de Passos Coelho. Cavaco fez uma pausa e prosseguiu: "Agora, meus meninos [e, aí, pôs o tal dedo em riste com que fala melhor e ficou todo afogueado], se alguém tiver a lata de boicotar isto, atiro-lhe com uma gorpelha de figos à cabeça!", disse Sua Excelência o Presidente da República. Já as câmaras se apagavam e ouviu-se gritar: "Andem cá! Ninguém disse que já acabei..." e viu-se o PR a espernear e a ser levado por Nunes Liberato, que se voltou para os telespectadores, encolhendo os ombros e fisgando um sorriso tímido que pretendia tranquilizar-nos. Resumindo, voltando aos gestos, porque é assim que se entende melhor Cavaco Silva, na quinta-feira foi--nos mostrado o boletim do dia 4, sobre o qual pusemos uma cruzinha, dobrámos e metemos na urna. Mostrado o voto, apareceu um indicador a fazer de limpa-vidros, da esquerda para direita. A imagem voltou outra vez ao voto - continuo a contar-vos o resumo da comunicação de quinta, à hora dos telejornais - e apareceu o PR, mestre--escola zangado, a dar-nos uma lição. Com uma esferográfica no punho, o PR riscou a linha dizendo "CDU" e as imagens da foice e do martelo e do girassol. Depois, o PR riscou a linha dizendo "Bloco de Esquerda" e a imagem da estrelinha de quatro pontas e uma cabeça. A câmara mostrou Cavaco, olhos furibundos: "Perceberam?!"
 Dando-se conta de que talvez não, Cavaco voltou ao boletim. Desta vez, com a parte azul, a mais abrasiva, duma borracha, Cavaco continuou a sua sanha contra aquelas duas linhas malditas. Olhou-nos, outra vez: "E, agora, já perceberam?!" Achando-nos estúpidos, ele insistiu na explicação: com um X-ato, cortou as duas linhas. E com a convicção de que uma imagem vale mais do que cinco pareceres de constitucionalistas mostrou-nos os dois finos buracos em retângulo: os comunistas e os bloquistas tinham sido abolidos da democracia portuguesa.
Eu estava num café quando ouvi o senhor Presidente da República. Olhei à volta e foi terrível. Percebi que as pessoas agora nem por gestos entendiam Aníbal Cavaco Silva. Aquilo era um olhar alucinado e poucos viram isso. Saí do café a matutar na velha e desiludida ideia de que as pessoas só entendem quando lhes batem à própria porta. O abuso cometido, por enquanto, é só um problema "deles", os do PCP e do BE, só 996 872 portugueses, só 18,44% dos votantes, a quem acenaram com um direito que depois rasuraram, mas só a eles. Ninguém, para lá dos comunistas e dos bloquistas, pensou: e se amanhã outro alucinado também me quiser apagar?"

 

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por Augusta Clara às 19:30

Quinta-feira, 16.07.15

A boa notícia sobre a noitada de Bruxelas - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  A boa notícia sobre a noitada de Bruxelas

 

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Diário de Notícias, 15 de Julho de 2015

   A única boa notícia sobre a noitada de Bruxelas é que vai haver mais noitadas destas. O problema da Grécia foi empurrado com a barriga por líderes extenuados. Tão extenuados que o seu esgotamento dá alguma credibilidade à hipótese de terem ouvido uma ideia de Passos Coelho. Só de pensar nessa hipótese dá ideia da deriva da Europa. Mais grave: pelo menos um líder europeu acreditou na versão (e contou-a). Naquele filme Daylight, um túnel de Nova Iorque invadido pelas águas, as pessoas também estavam esgotadas e aceitaram a sugestão do Sylvester Stallone. Por amor da santa, ninguém aceita uma sugestão de Stallone desde que ele foi salvar o Afeganistão e deu no que deu. Mas as pessoas estavam extenuadas e seguiram o herói - e não é que se salvaram? Também é verdade que era filme. Voltando à Grécia, da última vez que Passos Coelho teve uma ideia sobre ela falou de "conto de criança". Disse, então: "Como é possível um país não pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos?..." É a ideia que ele tem de conto de crianças: um curso de Contabilidade. Agora, do género infantil saltou-se para o hardcore: numa festa pela madrugada fora, um grupo de poderosos chicoteia um grego. Melhor, só se ainda houvesse o Varoufakis, motoqueiro vestido de licra... Repito, a única boa notícia sobre a noitada de Bruxelas é que vai haver mais noitadas destas. A este ritmo, em breve vai dar o badagaio a estes nossos líderes europeus.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Segunda-feira, 15.06.15

A mim Passos Coelho convenceu - Ferreira Fernandes

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 Ferreira Fernandes  A mim Passos Coelho convenceu

 

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Diário de Notícias, 10 de Junho de 2015

 

   Interpelando os jornalistas, ontem, outra vez: "Já conseguiram descobrir uma frase minha em que convido os portugueses a emigrar?", perguntou Passos Coelho. Jornais e telejornais tinham passado o dia a desenterrar frases explícitas sobre aquele convite. Em outubro de 2011, Alexandre Mestre, um secretário de Estado de Passos, convidou os jovens a emigrar. Dois meses depois, o próprio Passos propôs a professores desempregados que emigrassem. As palavras de ambos estão gravadas. E eram a expressão da política de Passos. No ano seguinte, 2012, os portugueses emigraram mais do que em 1966, quando do pico da ida para França. Quando aquelas tolices, de Mestre e de Passos, foram ditas, escrevi a razão que as fazia tolice. Não era lembrarem que havia uma coisa chamada emigração. O meu avô, o meu pai, eu próprio e a minha filha trabalhámos em terra que não nos viu nascer - somos portugueses comuns, sabemos que emigrar está-nos no ADN. A decisão de partir é um direito, e tanto o usarmos só prova que os portugueses sabem ser livres, mesmo em situações adversas. A questão é: aos governantes cabe propor aos portugueses o que fazer cá dentro, não anunciar-lhes que há alternativas lá fora. Um convite a partir é um insulto, é um empurrar para longe do nosso. Mas eis que Passos tomou a iniciativa de voltar ao assunto. Parece que a sua tática eleitoral é mostrar que vai em frente com a pertinácia dos que não têm vergonha. A mim convenceu-me.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 11.06.15

Comem salsichas, bebem cerveja e temem a Rússia - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  Comem salsichas, bebem cerveja e temem a Rússia

 

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Diário de Notícias, 8 de Junho de 2015

 

   Se calhar não são os jornais que mentem. São as notícias. Quer dizer, elas relatam o que foi dito, só que isso geralmente corresponde a um arco que vai da balela ao embuste. A cimeira do G7, o grupo dos países mais ricos do qual foi expulsa a Rússia, discutiu e concluiu, ontem, que a agressão da Rússia à Ucrânia era a sua principal preocupação. A sério? A principal preocupação do mundo (e neste caso as verdadeiras preocupações dos países mais ricos coincidem com as do mundo) é a Rússia? Pensamos na Rússia e sentimos um nervoso miudinho no pescoço, é? As mulheres canadianas, japonesas, alemãs, americanas, francesas, britânicas, italianas e europeias em geral, ali representadas pelos seus líderes, consideram mesmo que é a Rússia que proclama e luta para que elas sejam cidadãs de terceira? A totalidade dos líderes deste G7, de países que eles conduzem no respeito pelas liberdades religiosas, temem a expansão duma fé ortodoxa que impeça o exercício das outras? O G7 acredita que Putin quer matar ou reduzir a escravos os que não gostam de andar de moto ou não sabem recitar de cor versos de Alexandre Pushkin? Ontem, no castelo da Baviera, os líderes mundiais agarraram-se às salsichas e à cerveja do almoço, já com saudades por estarem a deliciar-se com aquilo que, vindo do porco e sendo álcool, será proibido pelos costumes alimentares russos?... Resumindo, pois as notícias: o problema do G7 não é a Rússia. Só se fossem doidos.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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