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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 02.12.16

A respeito de Fidel, ... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A respeito de Fidel, ...

 

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   A respeito de Fidel, a palavra ditador tem sido a porta que a direita fecha na cara da discussão. Digo a direita não porque lhe assista em exclusivo a condenação do líder cubano, mas quando esta se apresenta sumária e indisponível para revogações (ehehe) não é difícil descortinar-lhe a proveniência. Um dos maiores apologistas nacionais da superficialidade, coincidentemente ou não, vai-se transformando também numa das mais populares caixas de ressonância da direita. Chama-se João Miguel Tavares e hoje, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. Sobre Fidel, cingiu o seu discurso a uma demanda: ensinar-nos a soletrar a palavra ditador.

Gostaria eu, sem estar preso a ideias pré-concebidas, de discutir aspectos que pudessem enquadrar a circunstância de Cuba continuar a ser uma ditadura, mas para ele, João Miguel Tavares, isso equivaleria a um sacrilégio, na medida em que pressuporia a admissão de uma hipótese hedionda: a de que nem a ilegitimidade de uma ditadura deva ser tomada como absoluta.

Circunscrita, portanto, a discussão ponderável ao sim ou não, porque só há quem possa repudiar de cima a baixo qualquer ditadura ou apoiá-la incondicionalmente, aguça-se-me a curiosidade sobre o que terá ele ensinado aos filhos sobre o Robin dos Bosques, esse ladrão que emagrecia o bolso dos ricos para engordar o dos pobres. Por mais que o nosso democrático país faça propagar de geração em geração o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, a lógica inflexível de João Miguel Tavares não lhe permitirá esquecer que “um ladrão é um ladrão é um ladrão”, tanto quanto “um ditador é um ditador é um ditador”. Coitados dos miúdos, cerceados tão cedo das maravilhas da relatividade. E logo por um liberal.

Ora, diz-me o bom senso que um pequeno país em contra-corrente com um mundo apostado na ofuscação dos valores pelos preços talvez precisasse de tomar algumas providências para resistir – e sabemos como esta é a palavra-chave quando se fala de Cuba. Tudo o que ali se conseguiu em matéria de saúde, educação, emprego, combate à desigualdade social ou erradicação da fome, apesar dos condicionalismos económicos radicalizados por um bloqueio com mais de meio século e da sujeição permanente a um belicismo mediático que encheu o planeta de baba raivosa contra o regime, merece da minha parte, pelo menos, um olhar curioso, capaz de suplantar a rigidez da moldura para melhor apreciar o quadro. Mais ainda quando, à volta, as tão benfazejas democracias que construímos deram no que se sabe, com outras molduras, outros muros, no horizonte.

Não se infira daqui, como já estou a prever que muita gente faça, qualquer simpatia minha pela ideia de ditadura. Agora, não devemos deixar que os rótulos nos toldem o discernimento, nem a capacidade de enquadrar os factos com as circunstâncias. E em Cuba, apesar das circunstâncias, há factos que falam por si. Alguns até poeticamente, como o de os polícias andarem sem armas. Enquanto isso, ali perto, na democracia de todos os sonhos e liberdades, há mais civis com arma do que carro... 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 01.12.16

Fidel - José Goulão

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José Goulão  Fidel

 

A opinião pública portuguesa, europeia e, a bem dizer, da maior parte do mundo, sem esquecer as Américas, continua a ser fuzilada pela metralha de insultos, mentiras e dislates mais ou menos idiotas – o que não significa pouco eficazes – sobre a figura historicamente imortal e humanamente inesquecível do Comandante Fidel Castro Ruz.

 

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                   Agência Lusa 

 

abrilabril, 1 de Dezembro de 2016

   Dir-se-á que o seu apagamento físico soltou a bílis há muito entranhada para esta ocasião, tal como acendeu os rastilhos dos foguetes bafientos de alguns gusanos que, em Miami e noutros lugares, continuam a sonhar com a Cuba bordel, a Cuba das mafias, a Cuba do contrabando e das negociatas clandestinas, a Cuba de todos os vícios dos ricaços norte-americanos, a Cuba colónia, quintalinho e caixote do lixo.

Os pobres de espírito, que não de intenções revanchistas e de má-fé, têm dificuldade em entender, ou fingem não entender, que não lhes basta fazer a festa, deitar os foguetes, apanhar as canas e disparar rajadas de mensagens construídas em laboriosas centrais de propaganda para liquidar a Cuba independente, tornada possível e consolidada por Fidel, seus companheiros e, sobretudo, pela vontade e coragem dos cubanos – do povo cubano.

Será que tais mentes enfezadas alguma vez pararam para pensar como é possível que a bem sucedida resistência de um país à ocupação estrangeira e criminosa de parte do território – como Guantánamo –, a um bloqueio asfixiante que ferra há quase sessenta anos, a sucessivas tentativas e ameaças constantes de invasões, golpes, conspirações e incentivos à expatriação, seja obra de um dirigente, de um aparelho repressivo de poder, de um partido?

Já se deram conta de que Cuba tem resistido a uma ofensiva esmagadora dos mais poderosos e concentrados meios de intoxicação ideológica atacando, sem alguma oposição, a partir de um território situado a menos de cem quilómetros, da outra margem do estreito?

Já imaginaram a coragem, o sentido de independência, a ousadia de um povo para resistir, como aconteceu durante os anos noventa, ao regresso à penúria de uma economia de sobrevivência – ao pé da qual a austeridade que nos foi imposta é uma penalidade benigna?

É verdade que ter ideias, formar opiniões, pensar fora da formatação oficial é, hoje em dia, nas nossas sociedades, um anacronismo, um atrevimento, quiçá a antecâmara do mais ameaçador terrorismo. O que importa é consumir doutores, comentadores, politólogos, desideólogos, mentirólogos, alter-egos de fulgêncios batistas, acenar-lhes ordeiramente e ficar com a informação necessária e suficiente para repetir no café, no metro, no emprego, se possível até no Parlamento.

Nos dias em que regimes políticos que se supunham sólidos ruíram fragorosamente com o muro de Berlim, sem dúvida porque, a dada altura dos seus caminhos históricos, perderam ou cortaram os vínculos com a sua essência, a ligação ao povo e os mecanismos para que este decidisse da sua vida, a Cuba independente e com os olhos no socialismo conseguiu sobreviver.

E sobreviveu paupérrima, isolada, amesquinhada, quase sem amigos, ridicularizada por aqueles que, de barriga cheia, anafados de «democracia» e «direitos humanos», profetizavam diariamente «o fim do regime» para o dia seguinte. Bastaria isso para que qualquer ser pensante se desse ao trabalho de se interrogar sobre as razões pelas quais a Cuba de referências socialistas não seguiu o destino – que hoje se percebe catastrófico – de outras nações «irmãs».

Falta de democracia? Sim, dessa coisa que obriga governos eleitos a terem de sujeitar os orçamentos de Estado aprovados por Parlamentos eleitos aos pareceres de grupos de sujeitos não eleitos, marionetas manipuladas por interesses tendencialmente mafiosos; essa coisa que obrigou o povo do mais poderoso país do mundo, o país que se permite tentar matar os vizinhos à fome, a escolher para presidente entre uma fascista com provas dadas e um fascista com ameaças por cumprir.

Violação dos direitos Humanos? Sim, dessa coisa que a NATO leva na boca dos canhões, nos bojos das aeronaves ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Líbano, Iémen, Mali, República Centro Africana, Nigéria e lá onde lhe aprouver.

«Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos "barbudos" de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.»

Enquanto isto, a célebre oposição cubana, endeusada aqui e além, e também no Parlamento Europeu, continua a ter como ícone esse sénior e incontornável terrorista e criminoso chamado Posada Carriles. Um verdadeiro democrata, como está provado.

Na hora em que o Comandante Fidel Castro Ruz nos deixa, e principalmente se transforma numa imensa saudade para o povo cubano e os seus amigos, os ansiosos de revanchismo não se deram ao recato de, ao menos, respeitar esse direito humano de sempre, o direito ao luto.

Também não precisam de verter lágrimas de crocodilo porque, ao contrário do que profetizam, a Cuba independente e o povo cubano não ficam órfãos. Têm o seu sistema de vida. Estão habituados a provações e a que agora lhes aconteceu estava prevista no eterno ciclo da vida e da morte, não é uma traição, nem golpe, nem conspiração.

Cuba livre nascida do idealismo e da coragem dos «barbudos» de Sierra Maestra está viva, ainda que chorando El Comandante, um dos seus, não um iluminado que tomou nas próprias mãos o destino de um povo.

Os dias da despedida são já de um futuro no qual a Cuba livre e independente sabe que continuará a sua gesta de sempre, num ambiente infestado de fulgêncios batistas, contra as ganâncias das Monsanto e United Fruit deste mundo, das petrolíferas do costume e outras, das mil e uma mafias do turismo, do armamento, da droga, da química e farmacêutica, do jogo, da prostituição, do agroalimentar; ganância pelos bens e riquezas que são de todo o povo cubano.

A gesta de sempre contra o bloqueio, contra a ocupação de Guantánamo e contra os criminosos que mantêm estas situações, incluindo aqueles que usam e abusam do ilusionismo mediático prometendo revogá-las para melhor as sustentar.

Nestes dias, a evocação mais sincera e emocionada que é possível fazer da memória indestrutível do Comandante Fidel Castro Ruz é a de que a Cuba livre e independente está viva e pode contar com a solidariedade combativa de milhões e milhões de cubanos adoptivos em todo o mundo.

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por Augusta Clara às 22:36

Domingo, 27.11.16

A violência na política e o politicamente correcto - António Ribeiro

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António Ribeiro  A violência na política e o politicamente correcto

 

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   A violência na Política é um tema recorrente e ganhou presença e intensidade nos Media e nas redes sociais com a morte de Fidel Castro. Não gostava de deixar passar o assunto em claro num momento destes, em que vejo tantos neo-pacifistas a verterem lágrimas sobre algumas vítimas de Castro, tendo eles mesmos branqueado com o seu silêncio as vítimas dos fascismos europeus, as vítimas das primaveras árabes, as vítimas da intervenção imperialista no Médio Oriente e na Líbia, as vítimas do apartheid na África do Sul, as vítimas dos algozes que destruíram as sociedades do Chile, da Argentina e do Brasil há não muitos anos. E nem recordo as nossas próprias vitimas do Tarrafal, de Pidjiguití, de Batepá, de Wiriamu, que são tão discretamente nossas e tão privativas... Onde andavam esses humanistas da 25ª hora quando as tragédias aconteciam e eles se refugiavam no "não sei o que se passou", no "deve ser exagero", ou no famigerado desabafo apaziguador do "a guerra é muito injusta"? Eu sei o que se passava e conto-vos. Desgraças e violências longe da nossa casa são pimenta e refresco no cu dos outros. A nossa cultura judaico-cristã é aliás exímia na segmentação da violência política, ou, melhor dizendo, da "violência na Política". Mas a violência sempre fez parte da Política e não começou propriamente no nosso tempo, com a dureza da ditadura castrista em Cuba, que aliás tinha boas razões para não poder ser muito mansa. Essa violência vem muito de trás. Das Cruzadas. Da Revolução Francesa. Do Colonialismo em África e nas Américas. Do esclavagismo, que é componente fundadora dos EUA modernos e parte integrante da desgraçada história da América Latina. Da revolução soviética e da chinesa. Da luta anti-imperialista. Do sofrimento dos palestinos. E da resistência legítima dos trabalhadores e sindicalistas, dos comunistas perseguidos, dos camponeses sem terra, das mulheres esmagadas pelo machismo, e das minorias LGBT. A violência é uma espécie de legitimação pragmática das soluções políticas de quem não pode ir a votos. Eu sou contra a violência na Política em Democracia, mas não sou contra toda a violência na Política em sistemas que ignoram os direitos mais básicos das pessoas e onde não existem válvulas de escape. Quando um agrário é abatido por um sem-terra nos confins da Rondônia brasileira, depois de ele mesmo ter morto muitos camponeses antes disso, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas compreendo. Quando Fidel mandou abater o general Ochoa, que andara por Angola a amassar fortunas e a conspirar, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas acho que só teve o único castigo possível. Mas não me venham agora, a propósito da morte natural de Fidel Castro, com essa conversa de mau-pagador, de quem se esqueceu de que a História avançou com sangue, suor e lágrimas e com muitas vítimas inocentes enterradas em valas comuns. Lembrem-se da Bósnia, lembrem-se de Aleppo, lembrem-se do que se passa agora nas Filipinas, lembrem-se disso tudo e mais do quem aí com Trump & amigos. E denunciem sempre os hipócritas do politicamente correcto e da memória curta. Sou Democrata, mas não sou parvo. A violência é uma coisa muito chata, mas às vezes faz muita falta. Sem ela, a História tinha parado há mil anos e não havia sequer Democracia nos dias de hoje. 

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por Augusta Clara às 14:35

Sábado, 26.11.16

FIDEL... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  FIDEL...

(No dia da morte de Fidel Castro)

 

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   La noticia llega con las primeras luces del día, tal vez con la misma intensa luminosidad del amanecer que vieron los tripulantes del "Gramma" en la costa de la isla antes de desembarcar y empezar la gesta que inauguró la dignidad latinoamericana.
En las pupilas de ese grupo de hombres y mujeres que tocaron la arena blanca de Cuba, iba también la luz de los caídos en el asalto al cuartel Moncada y, por eso, el brazalete con la leyenda"26 de Julio" era la gran identidad de aquellos que, como más tarde escribiría un argentino al que llamaban simplemente Che, daban el paso a la condición superior del insurgente, del rebelde, del militante, y se convertían en Guerrilleros.
La dignidad latinoamericana se inauguró de verde olivo y con olor a cordita, a pólvora, al sudor de las marchas selva adentro, a la fatiga combatiente que, lejos de cansar, entregaba más ánimo a la vocación justiciera de los guerrilleros, de los combatientes de Fidel, de "los barbudos" vestidos con retazos, armados de machetes zafreros y de las armas arrebatadas al enemigo en cada combate.
Los combatientes de Sierra Maestra, los guajiros, estudiantes y poetas, paso a paso, tiro a tiro, enseñaron a Latinoamérica que la estrella de Comandante Guerrillero era el distintivo del primero en el fragor de la lucha, del que combatía en primera fila, del que sembraba ejemplo y confianza en un destino superior.
Y mientras los guerrilleros del "26 de Julio" avanzaban por las sierras y las selvas, en todo el continente latinoamericano, desde el río Bravo hasta la Tierra del Fuego, los humildes alzaban sus banderas de harapos, "porque ahora la historia tendrá que contar con los pobres de América".
Hoy es un día de recogimiento revolucionario. Hoy es el día del dolor de aquellos que se atrevieron a dar el paso imprescindible, a romper con la existencia dócil y sumisa , y se unieron al camino sin retorno de la lucha revolucionaria.
¡Hasta la Victoria Siempre, Fidel! ¡Hasta la Victoria Siempre, Comandante Guerrillero!
 

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por Augusta Clara às 18:30

Quinta-feira, 04.09.14

As ideias justas triunfarão ou triunfará o desastre - Fidel Castro

 

Fidel Castro  As ideias justas triunfarão ou triunfará o desastre

 

 

  
Resistência, 2 de Setembro de 2014
 
   A sociedade mundial não conhece trégua nos últimos anos, particularmente desde que a Comunidade Econômica Europeia, sob a direção férrea e incondicional dos Estados Unidos, considerou que tinha chegado a hora de ajustar as contas com o que restava de duas grandes nações que, inspiradas nas ideias de Marx, tinham levado a cabo a proeza de pôr fim à ordem colonial e imperialista imposta ao mundo pela Europa e os Estados Unidos.
 
Por Fidel Castro
 
 
Na antiga Rússia eclodiu uma revolução que comoveu o mundo.
 
Esperava-se que a primeira grande revolução socialista teria lugar nos países mais industrializados da Europa, como Inglaterra, França, Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Contudo, esta aconteceu na Rússia, cujo território se estendia pela Ásia, desde o norte da Europa até o sul do Alasca, que também tinha sido território czarista, vendido por uns dólares ao país que seria posteriormente o mais interessado em atacar e destruir a revolução e o país que a engendrou.
 
"Fidel Castro, líder histórico da Revolução Cubana"
 
A maior proeza do novo Estado foi criar uma União capaz de agrupar seus recursos e compartilhar sua tecnologia com grande número de nações débeis e menos desenvolvidas, vítimas inevitáveis da exploração colonial. Seria ou não conveniente no mundo atual uma verdadeira sociedade de nações que respeitasse os direitos, crenças, cultura, tecnologias e recursos de lugares acessíveis do planeta que tantos seres humanos gostam de visitar e conhecer? E não seria muito mais justo que todas as pessoas que hoje, em frações de segundos se comunicam de um extremo a outro do planeta, vejam nos demais um amigo ou um irmão e não um inimigo disposto a exterminá-lo com os meios que o conhecimento humano foi capaz de criar?
 
Por crer que os seres humanos poderiam ser capazes de abrigar tais objetivos, penso que não há direito algum a destruir cidades, assassinar crianças, pulverizar casas, semear terror, fome e morte em todas as partes. Em que rincão do mundo tais fatos poderiam se justificar? Se se recorda que ao final do massacre da última contenda mundial o mundo se iludiu com a criação das Nações Unidas, é porque grande parte da humanidade a imaginou com tais perspectivas, embora não estivessem cabalmente definidos os seus objetivos. Um colossal engano é o que se percebe hoje quando surgem problemas que insinuam a possível eclosão de uma guerra com o emprego de armas que poderiam pôr fim à existência humana.
  "John McCain, aliado incondicional de Israel"
Existem sujeitos inescrupulosos, ao que parece não poucos, que consideram um mérito sua disposição a morrer, mas sobretudo a matar para defender vergonhosos privilégios.
 
Muitas pessoas se assombram ao escutar as declarações de alguns porta-vozes europeus da Otan quando se expressam com o estilo e o rosto das SS nazistas. Em algumas ocasiões, até se vestem com trajes escuros em pleno verão.
 
Nós temos um adversário bastante poderoso como é o nosso vizinho mais próximo, os Estados Unidos. Advertimo-los de que resistiríamos ao bloqueio, ainda que isso pudesse implicar um custo muito elevado para nosso país. Não há pior preço do que capitular frente ao inimigo que sem razão nem direito te agride. Era o sentimento de um povo pequeno e isolado. O restante dos governos deste hemisfério, com raras exceções, tinham-se somado ao poderoso e influente império. Não se tratava, de nossa parte, de uma atitude pessoal, era o sentimento de uma pequena nação que desde o início do século era uma propriedade não só política, mas também econômica dos Estados Unidos. A Espanha nos cedeu a esse país depois de termos sofrido quase cinco séculos de colonialismo e de um incalculável número de mortos e perdas materiais em luta pela independência.
 
O império se reservou o direito de intervir militarmente em Cuba em virtude de uma pérfida emenda constitucional que impôs a um Congresso impotente e incapaz de resistir. Além se serem os donos de quase tudo em Cuba - abundantes terras, as maiores centrais açucareiras, as minas, os bancos e até a prerrogativa de imprimir nosso  dinheiro -, proibia-nos de produzir grãos alimentícios suficientes para alimentar a população.
 
Quando a URSS se desintegrou e o Campo Socialista também desapareceu, continuamos resistindo, e juntos, o Estado e o povo revolucionários, prosseguimos nossa marcha independente.
 
Não desejo, contudo, dramatizar esta modesta história. Prefiro ressaltar que a política do império é tão dramaticamente ridícula que não tardará muito a passar à lixeira da história. O império de Adolf Hitler, inspirado na cobiça, passou para a história sem mais glória do que o alento que deu aos governos burgueses e agressivos da Otan, que os converte no palhaço da Europa e do mundo, com seu euro, que assim como o dólar, não tardará a transformar-se em papel imprestável, chamado a depender do yuan e também dos rublos, diante da pujante economia chinesa estreitamente unida ao enorme potencial econômico e técnico da Rússia.
 
Algo que se converteu em um símbolo da política imperial é o cinismo.
 
Como se sabe, John McCain foi o candidato republicano às eleições de 2008. O personagem saiu à luz pública quando em sua condição de piloto foi derrubado enquanto seu avião bombardeava a populosa cidade de Hanói. Um foguete vietnamita o alcançou em plena ação e a aeronave e o piloto caíram em um lago situado nas imediações da capital, fronteiriça com a cidade.
 
Um antigo soldado vietnamita já reformado, que ganhava a vida trabalhando nas proximidades, ao ver cair o avião e um piloto ferido que tratava de se salvar, movimentou-se para ajudá-lo; enquanto o velho soldado prestava essa ajuda, um grupo da população de Hanói, que sofria os ataques da aviação, corria para ajustar contas com aquele assassino. O mesmo soldado persuadiu os vizinhos de que não o fizessem, pois já era um prisioneiro e sua vida devia ser respeitada. As próprias autoridades ianques se comunicaram com o governo, rogando que não agissem contra esse piloto.
 
À parte as normas do governo vietnamita de respeito aos prisioneiros, o piloto era filho de um almirante da Armada dos Estados Unidos que tinha desempenhado um papel destacado na Segunda Guerra Mundial e ainda estava ocupando um importante cargo.
 
Os vietnamitas haviam capturado um peixe grande naquele bombardeio e como é lógico, pensando nas inevitáveis conversações de paz que deveriam pôr fim à guerra injusta que lhes haviam imposto, desenvolveram amizade com ele, que estava muito feliz de tirar todo o proveito possível daquela aventura. Devo dizer que não foi nenhum vietnamita que me contou isso, nem eu jamais teria perguntado. Eu li sobre isso, que se ajusta completamente a determinados detalhes que conheci mais tarde. Também li um dia que Mister McCain escreveu que, sendo prisioneiro no Vietnã, enquanto era torturado, escutou vozes em espanhol assessorando os torturadores sobre o que deviam fazer e como fazê-lo. Eram vozes de cubanos, segundo McCain. Cuba nunca teve assessores no Vietnã. Seus militares sabem de sobra como fazer sua guerra.
 
O general Giap foi um dos chefes mais brilhantes de nossa época, que em Dien Bien Phu foi capaz de situar os canhões por selvas intrincadas e abruptas, algo que os militares ianques e europeus consideravam impossível. Com esses canhões, disparavam desde um ponto tão próximo que era impossível neutralizá-los sem que as bombas nucleares afetassem também os invasores. Os demais passos pertinentes, todos difíceis e complexos, foram dados para impor às forças europeias cercadas uma vergonhosa rendição.
 
A raposa McCain tirou todo o proveito possível das derrotas militares dos invasores ianques e europeus. Nixon não pôde persuadir seu conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, de que aceitasse a ideia sugerida pelo próprio presidente, quando em momentos de relaxamento lhe dizia: Por que não lançamos uma dessas bombinhas, Henry? A verdadeira bombinha chegou quando os homens do presidente trataram de espionar seus adversários do partido oposto. Isso, sim, não podia ser tolerado!
 
Apesar disso, o mais cínico no senhor McCain foi sua atuação no Oriente Médio. O senador McCain é o aliado mais incondicional de Israel nas teias do Mossad, algo que nem os piores adversários teriam sido capazes de imaginar. McCain participou junto a esse serviço na criação do Estado Islâmico que se apoderou de uma parte considerável e vital do Iraque, assim como segundo se afirma, de um terço do território da Síria. Tal Estado já conta com receitas milionárias, e ameaça a Arábia Saudita e outros Estados dessa complexa região que fornece a parte mais importante do combustível mundial.
 
Não seria preferível lutar por produzir mais alimentos e produtos industriais, construir hospitais e escolas para os bilhões de seres humanos que deles necessitam desesperadamente, promover a arte e a cultura, lutar contra enfermidades massivas que levam à morte mais da metade dos doentes, enviar trabalhadores da saúde ou tecnólogos que segundo se vislumbra, poderiam finalmente eliminar enfermidades como o câncer, o ebola, o paludismo, a dengue, a chikungunya, a diabetes e outras doenças que afetam as funções vitais dos seres humanos?
 
Se hoje é possível prolongar a vida, a saúde e o tempo útil das pessoas, se é perfeitamente possível planificar o desenvolvimento da população em virtude da produtividade crescente, a cultura e o desenvolvimento dos valores humanos, o que esperam para fazê-lo?
 
Triunfarão as ideias justas ou triunfará o desastre.
 
Fidel Castro Ruz
31 de agosto de 2014, às 22h25
 
Fonte: Cubadebate
Tradução de José Reinaldo Carvalho, Blog da Resistência

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