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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 16.10.15

Cara ou coroa e a moral na política - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Cara ou coroa e a moral na política

 

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   Para os dirigentes e militantes do Partido Socialista, uma das hipóteses de intervir na formação de um governo com os resultados das eleições seria a do cara ou coroa de lançar a moeda. Evitaria as dores dos dilemas. Infelizmente, está prevista nas leis da Federação de Futebol, mas não na Constituição da República. A rever. Assim, há que escolher entre duas saídas.

É fácil de perceber que os próximos tempos vão ser muito difíceis para os portugueses e também para o governo. Isto é consensual. Perante esta evidência vieram à superfície duas fações do PS, a dos moderados do aparelho (digamos assim) e a dos idealistas.

Os primeiros, os sensatos são adeptos de um governo da PAF, com apoio do PS. Esta solução teria, segundo eles, várias vantagens, a PAF ficara com o odioso das decisões difíceis, o governo duraria dois anos, o que dava tempo para defenestrar o actual secretário geram, provocar uma crise e ganhar as próximas eleições, com novos dirigentes, os da sua fação. É uma solução tática. Para estes o povo é apenas a massa que, não tendo sido suficientemente será sovada, sofrerá mais uns tratos de polé até fermentar noutra maioria.   São adeptos de que o sacrifício e a dor são virtuosos, que o povo só aprende com pancada. Do quanto pior, melhor. Leninistas: entendem que o acentuar das contradições leva o povo à revolta e à eslha certa, neles.

Os segundos, os idealistas, entendem que o governo da coligação do PSD/CDS que foi agora crismada como PAF, causou uma devastação intolerável na sociedade portuguesa, desbaratando empresas, riqueza, quebrando o contrato social entre o Estado e os cidadãos, destruindo serviços públicos, exacerbando conflitos entre novos e velhos, entre ativos e pensionistas. Entendem que, um novo governo PAF acentuará os males e fomentará o fosso entre ricos e pobres, fomentará, como é reconhecido em todos os relatórios o aumento das desigualdade sociais. Para esta fação, vale a pena correr o risco de formar um governo que atenue as desigualdades, que alivie as penas e os sacrifícios. É uma posição de base moral.

Os técnicos de propaganda da PAF têm insistido na ideia de que a solução destes últimos é antinatural – a lógica deles assenta, de facto e há muito, no princípio de que o poder é o segredo do bom negócio. De que a política é o poder de dominar (ou modelar a seu jeito) a moral e o direito. O que é historicamente comprovado.

Uma fação do PS está em guerra civil, pronta a aliar-se à PAF, por questões de tática, a outra fação está disposta a correr riscos em nome de princípios – é uma estratégia. É neste pé que as coisas se encontram no PS. O presidente da República, como árbitro do jogo, podia lançar a moeda ao ar. Mas ele é parte interessada e escolherá a solução que favoreça os seus. Ele dará posse a um governo PAF. Esperará que a esquerda rejeite o programa, ou o orçamento. Atribuirá as culpas da ingovernabilidade à PAF. Esperará que a fação anti-costa do PS o derrube. Deixará esta situação ao seu sucessor, esperando que seja Marcelo e que este crie condições para daqui a um ano a PAF se possa aliar ao novo PS, um PS à maneira, mansinho, com lugares para os seus pequenos regedores. E assim se faz Portugal, uns vão bem, outros mal.

O povo, quer o que votou, quer o que se absteve, joga à raspadinha, ou no euromilhões. A solução da moeda ao ar era capaz de uma boa ideia. Portugal, além de estar na moda por causa dos tuc tuc, passava a sair nos jornais por escolher um governo pelo método da cara ou coroa.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 15.10.15

O regresso manso do salazarismo - Carlos Esperança

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   A colossal chantagem da comunicação social sobre António Costa, com os donos a comandarem a agenda, das confederações patronais e da própria Igreja católica onde o bispo António Marto, vidente de Fátima, por apelido e consanguinidade, revela o pavor da democracia quando os resultados não favorecem os interesses da pior direita, do pior PR e do pior governo do regime democrático.

Os humores e rumores dos manipuladores da Bolsa de Valores, dos terroristas das agências de ‘rating’ e dos oportunistas de todas as ocasiões, revelam também o pavor da perda do poder.

Hoje já não precisam de assassinar o líder da oposição, como Salazar fez a Humberto Delgado, basta-lhes dar voz aos que a não teriam, se não se passassem para o seu lado, e mobilizarem a sua máquina de terror.

No PSD de hoje não caberiam os antigos presidentes, Sá Carneiro, Emídio Guerreiro ou Nuno Rodrigues dos Santos, como já não cabem Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou António Capucho, tal como não cabe no CDS Freitas do Amaral, o fundador que foi expulso pelo bando de Paulo Portas.

Em Belém encontra-se ainda um salazarista reciclado, em fase terminal de mandato, e em S. Bento, ansioso e apavorado com a Justiça, um retornado ressentido.

Só falta mesmo organizarem uma manifestação espontânea de «ativo repúdio a António Costa» com um grupo de bandeiras à frente e de bandalhos atrás, com o público à força no meio e a força pública à volta, a uivar com toda a força «não queremos comunistas, não queremos comunistas, não…».

 

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por Augusta Clara às 11:00

Terça-feira, 13.10.15

A surpresa - Manuel Loff

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Público, 10 de Outubro de 2015

 

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal.

 

   O governo da austeridade foi ratificado pelos portugueses?! Depois de ter sofrido a maior sangria de votos desde que há democracia em Portugal (perdeu 730 mil, mais do que os 600 mil que perdeu em 2005, depois de Santana, ou em 1995, depois de Cavaco), o terceiro resultado mais baixo em 40 anos (38,6%, por pouco acima de 1975 e 2005), que lhe fez perder a maioria absoluta - o que ganhou a direita?

Ganhou ao PS, um campeonato que ela própria inventou. O problema é que Portugal não acaba nas fronteiras do PS, do PSD e do CDS, e que os outros 29% de votantes (com ou sem representação) estão hoje mesmo a fazer-se ouvir. Posso perceber que Passos&Portas (e Dijsselbloem&Schäuble) papagueiem o disparate de que o governo ganhou as eleições; mas não tem razão quem, deprimido, diz que “os portugueses têm o que merecem” - porque eles votaram efetivamente contra este governo! As eleições confirmam, aliás, o que dizem todas as eleições europeias: em nenhuma, a austeridade foi ratificada pelos eleitores. O sistema eleitoral britânico deu uma maioria aos conservadores com 36% dos votos; a coligação de Merkel perdeu milhões de votos e a maioria parlamentar, e pediu ao SPD para a deixar regressar ao governo. Mas não foram os eleitores a dar-lhes razão.

As oposições ganharam amplamente as eleições. 2.860 mil eleitores (53,1%) votaram nas candidaturas que se reivindicam da esquerda (isto é, o PS, o BE, a CDU, os pequenos partidos), mais 600 mil que em 2011, ao nível dos seus melhores resultados históricos, e exatamente o inverso das eleições de 2011. E imaginemos o impacto nos resultados se tivesse votado a maioria do meio milhão de novos emigrantes que abandonaram o país nos últimos cinco anos...

O PS não foi sozinho alternativa – e Costa não resolveu o problema. Ao contrário do que se assegurava há um ano, o pólo de atração do protesto não foi António Costa. O PS ganhou apenas 180 mil votos (de 28% para 32,4%). Juntamente com a derrota de Sócrates em 2011, o PS continua com os seus piores resultados desde 1991 (segunda maioria absoluta de Cavaco). Os partidos do “arco da governação” (ou, pelos vistos, da NATO, segundo Cavaco...) continuam em queda: no seu conjunto (PS, PSD, CDS) obtêm o resultado mais baixo desde 1985. O problema, portanto, não está nos líderes, não estava em Seguro, nem sequer em Costa. Era bom que os cultores das lideranças, tão de moda, que parecem julgar que o mundo se resume a uma leitura de marketeiro, reconhecessem que os eleitores também votam em ideias, em atitudes, o que explica que um milhão de portugueses tenham votado no BE e na CDU sem que precisassem de sentir que votavam Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa para Primeiro-Ministro. Os socialistas deveriam tentar perceber porque é que uma grande parte dos eleitores já não acredita (e de forma que parece consolidar-se) na alternância sem alternativa, no slogan de “só nós conseguimos pôr de lá para fora os que lá estão”, como ocorreu em 2005 (em seu favor) e em 2011 (contra o PS).

Afinal, isto virou mesmo à esquerda! E essa foi a surpresa destas eleições. Enganou-se quem, com a habitual ligeireza, desvalorizou o ciclo de maior contestação social dos últimos 30 anos, e achou que a esquerda “radical” bem podia sair à rua, convocada pela CGTP ou pelo Que Se Lixe a Troika!, porque, uma vez chegadas as eleições, todos voltariam ao redil e votariam nos “suspeitos do costume”. É ou não significativo que o BE tenha duplicado a sua representatividade depois de o terem declarado morto e, pelo contrário, quem, como o Livre, reclamava uma “esquerda de governo” e criticava a “esquerda de protesto”, tenha saído arrasado das urnas, perdendo metade dos poucos votos que obtivera para o Parlamento Europeu? É ou não significativo que a CDU, apesar do voto útil no PS e dos 260 mil novos eleitores do BE, tenha ganho mais apoio (sobretudo no Norte) pela 4ª eleição consecutiva?

Quem quis mudar a sério foi à esquerda do PS que confiou o seu voto: 1.113 mil votos (+315 mil), 20,7% de quem foi às urnas, constituem hoje um bloco sociopolítico (plural, como tudo na sociedade) de quem continua, apesar de toda a pressão das sondagens a favor do “voto útil”, a não confiar nos socialistas para fazer a mudança. Há meses escrevi-o aqui: desde 2005 que este bloco sociopolítico à esquerda do PS voltou a reunir a confiança de 1/3 dos eleitores de esquerda, como acontecera nos anos 70 e 80 e deixara de acontecer entre 1991 e 2005, com uma hegemonia do PS que entretanto se esfumou. E desta vez, o PS já só tem a confiança de três de cada cinco eleitores da esquerda.

É por isso que o PS perdeu as eleições – mas a esquerda as ganhou! É óbvio que PS, BE e CDU representam opções políticas diferentes, mas é mais relevante recordar que, depois de semelhante devastação social e económica como a que vivemos desde 2011, os três milhões de portugueses que neles votaram fizeram-no para impedir que este governo voltasse ao poder. E que é perfeitamente natural, e constitucional, que se tente uma solução alternativa de governo, mesmo que (como tudo indica) não passe por nenhuma aliança formal, com partilha de ministérios. Até podemos aceitar que todo o bicho careta passe na TV por especialista de futebol – mas era bom que se contivesse ao falar da Constituição e que não confundisse o sistema político com a Liga de Futebol, porque, desde que há parlamentos e eleições, as candidaturas mais votadas que não reúnem maiorias parlamentares cedem o lugar a quem as reúna! Se o PS tem dúvidas, veja o PSOE que constitui em Espanha governo com maiorias de esquerda, com ou sem a participação direta de parceiros, em muitas regiões autónomas e municípios onde o PP foi o partido mais votado, mas, justamente, onde não não reúne maioria. Ou que Willy Brandt só chegou ao poder na RFA, em 1969, constituindo uma coligação contra a CDU/CSU que ganhara as eleições sem maioria. E os exemplos podiam ser muitos mais... O que o PS escolher fazer vai ficar na memória de todos.

Jaime Neves na Presidência da República? Revelador do incómodo por que passa a direita portuguesa é o tom patético com que Cavaco, desrespeitando regras básicas da democracia, descreveu as condições para se poder fazer parte do governo de Portugal. De repente, o mais impopular dos presidentes, em fim de mandato, parecia Jaime Neves na noite do 25 de Novembro de 1975... Esta lengalenga da NATO, da “parceria atlântica” e dos tratados europeus é digna de uma uma espécie de democracia musculada, onde há uma espécie de oposição tolerável e outra que se for apanhada na rua já sabe o que lhe acontece... A oposição tolerável deveria humildemente lembrar-se do dogma (suponho que um misto de austeridade/Pentágono/o-que-o-Dijsselbloem-disser) a que se deveria reconhecer sujeito, fora do qual na cabeça de Cavaco não há nada. É verdade, ele não está sozinho nesta alucinação. Até entre socialistas que estão a encarar tudo isto da forma menos digna de todas (pura chicana partidária contra Costa que pode paralisar o PS durante meses), levantam-se vozes a recordar os valores “europeus” (há 40 anos diriam “ocidentais”) que partilharão com a direita. Os que agora acham que a maioria de esquerda de “bananas e laranjas” não existe, vislumbram uma outra, a atlântica, que Passos e Costa garantiram a campanha inteira que não existia. Se o PS cair nesta armadilha, bem pode antecipar o mais que provável futuro: Passos&Portas queixar-se-ão que os não deixam trabalhar, nova vitória da direita elegendo Marcelo a Presidente, que convocará novas eleições enquanto os socialistas estiverem ocupados com essa questão tão importante que é a de trocar Costa por outro...

Os que se mostram horrorizados com a possibilidade de um acordo de mínimos à esquerda denunciaram anos uma “esquerda do bota-abaixo” que, ao contrário de outros países, não contribui para a “governabilidade”. Deixaram-se surpreender com a frontalidade com que o PCP e o BE mostraram abertura para viabilizar um governo do PS para impedir o regresso da direita, não fazendo mais do que aquilo que disseram toda a campanha: que os seus votos não faltariam para procurar uma solução contra a continuação do que temos. O PS sabe que esse é o pressuposto básico de uma mudança. De um mínimo de esperança.

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal. E de que, afinal, a esquerda foi eficaz em convocar o 25 de Abril contra a austeridade.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 12.10.15

Sobre o programa "Eixo do Mal" do passado Sábado, 10 de Outubro - Augusta Clara

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Augusta Clara  Sobre o programa "Eixo do Mal" do passado Sábado, 10 de Outubro 

 

   Como no Sábado não vi o "Eixo do Mal", estive a vê-lo ontem e considero mais que justas as críticas que por aqui li (referia-me ao facebook).

Do programa só se salvou a prestação de Daniel Oliveira. Todas as outras foram para esquecer, incluindo a forma como o coordenador o encerrou, na minha opinião um prolongamento do lamentável "lapso" jornalístico de José Rodrigues dos Santos, quer pelas palavras quer pelo vídeo finais, prova da ausência de ética jornalística estar tão em moda.

Antes disso, já o escritor/jornalista ali tinha sido defendido qual principiante do ofício ameaçado pelas unhas das fantasmagóricas redes sociais à espera do seu primeiro deslize, segundo Luís Pedro Nunes, após aquela louvável reportagem que nos apresentou das ruas de Atenas na altura do referendo grego. Não admira, pois o próprio Luís Pedro Nunes vive apavorado pela hipótese duma invasão da nossa horda aos estúdios da SIC Notícias.

Mas o programa além de lamentável foi espantoso pela cambalhota daquele grupo que, antes das eleições e durante quatro anos, criticou duramente o governo de Passos/Portas pelo que todos conhecemos como uma criminosa acção executiva. Pois, todos os três, que não o Daniel, postos agora perante a hipótese de outro arranjo governativo que nos liberte desse indesejável grupo, argumentaram das mais variadas maneiras, acabando por legitimar qualquer forma que comporte os mesmos partidos, PSD e CDS, quando muito com apoio do PS, mas nunca um governo em que o PS se alie à esquerda parlamentar representada pelo PCP e pelo BE.

Seja qual for a legitimidade constitucional, os três jornalistas do "Eixo do Mal" preferem a solução em continuidade - quase, de certeza, pior - de todo o sofrimento por que os portugueses passaram a verem testada uma experiência governativa com um programa e propostas diferentes que tendam a libertar-nos do garrote das políticas neoliberais.

E esta cambalhota é tão clarificadora das suas genuínas opções que os mesmos jornalistas - Pedro Marques Lopes, Clara Ferreira Alves e Luís Pedro Nunes - exprimem a opinião sobre a curta duração de um ou de outro tipo de governo, ou seja dum governo de esquerda ou dum governo de direita, dentro dos parâmetros dos resultados eleitorais. Quer um quer outro terão vida breve, afirmam.

Depois veio a questão da eleição do próximo Presidente da República. E, aí, não há candidato que se salve senão Marcelo Rebelo de Sousa. Está lançado e eleito, com o bizarro anexo de já terem sugerido, como prova de confirmação da escolha certa, que lhe seja feita uma pergunta sobre a constituição do governo saído das legislativas.

Mais que bizarro, torcido e retorcido mas normal: o Presidente da República a eleger daqui a alguns meses que, por acaso e por enquanto ainda é só candidato (menos no espírito de alguns), um entre vários, é convidado a responder a uma pergunta sobre a formação dum governo que há-de tomar posse antes da eventualidade de ele vir a ser presidente. Se der a resposta certa nem é preciso haver eleições, digo eu. As estrelas televisivas brilham todas com a mesma intensidade.

É tudo normal menos a esquerda formar governo.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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