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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.


(Adão no Paraíso)

Adão Cruz Preso à cidade

(fotografia de Manel Cruz)



Eva Cruz Os caramuleiros
O novo abrandar do confinamento logo acelerou a vontade de respirar ar puro. Desta vez o ar da Serra do Caramulo. O dia era um esplendor e a temperatura de Verão. A “Alma”, romance-poema de Manuel Alegre, enfeitou a memória dos caminhos de Águeda, por onde há muito não passávamos, quando começámos a subir a montanha, revivendo passeios de outros tempos com os filhos ainda crianças. Já quase no alto, o meu irmão Adão e eu Eva, encontrámos um recanto maravilhoso à beira do rio, com açude e ponte romana, por engraçada coincidência denominado “Parque de merendas Paraíso”. Ali abrimos o farnel que nos soube melhor do que a maçã, sem que ninguém nos expulsasse.
Chegados ao alto do Caramulo, uma das mais belas serras de Portugal, recordei de imediato a “prima Laurindinha”, prima com quem minha mãe viveu na juventude, e personagem do meu livro “Aurora Adormecida”. Por ali passou tristes dias da sua vida em busca da cura para a tuberculose. Os bons ares do Caramulo transformaram esta serra na estância sanatorial mais importante da Península Ibérica, estando o médico Jerónimo Lacerda ligado à construção do mais antigo sanatório do Caramulo, que data de 1922. Foi um médico visionário que conseguiu dotá-lo das melhores infra-estruturas para a época, dando assim um enorme contributo para a erradicação da tuberculose no país. Pois foi nesse mesmo sanatório que a prima Laurindinha esteve internada. De nada lhe valeu, infelizmente, pois a doença matou-a ainda muito nova. Outros sanatórios foram criados, tornando-se o Caramulo, nos anos vinte e trinta, na mais “elegante” estância de saúde do País. Sobre este assunto transcrevo aqui algumas passagens do meu livro: “O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, os doentes agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fraqueza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!”
Como satélites do grande sanatório, outros mais pequenos se espalharam pela montanha. E como os doentes, também foram morrendo ao longo do tempo. Hoje formam uma impressionante constelação de esqueletos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas e buracos entranhados de silêncio, solidão, pedaços de dor e saudade pelos que ali sofreram e ali morreram”. Com a erradicação da tuberculose, a estância do Caramulo foi votada ao abandono, mas a paisagem que os nossos olhos alcançam do cimo da Serra continua a ser de uma beleza única na sua lonjura a perder de vista e a conter a respiração. Nem tudo a morte levou, deixando viva a natureza em toda a sua plenitude. E foi a olhar ao longe que me veio lá do fundo da memória outra recordação, agora da minha infância, os Caramuleiros. Pelos dias frios de Inverno apareciam na minha aldeia, todos os anos, os Caramuleiros a vender carvão para o ferro de engomar e cobertores da serra. Dizia-se que vinham de muito longe, da Serra do Caramulo, e as crianças fugiam assustadas com as caras desconhecidas dessa gente pobre e estranha. Hoje já ninguém se lembra deles, nem dos ferros de brasas, nem dos cobertores serranos.
E assim, no meio dos montes, entre memórias e saudades, se passou este belo dia de desconfinamento, não só do corpo mas sobretudo do espírito.


Eva Cruz Branca de neve

(fotografia de Adão Cruz)

Eva Cruz A bateira submersa


(fotografias de Adão Cruz)
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Adão Cruz Ser médico. Observar e tratar doentes

O exercício da medicina é, sem dúvida, uma arte. Uma arte nobre e extremamente delicada. Assenta num pilar central e fundamental: a Competência. Mas a competência é multifactorial. Para além do inegável factor saber-conhecimento, outros há, sem os quais a competência poderá, simplesmente, não existir. Estes são muitos, mas podemos destacar como mais importantes uma sólida estrutura da consciência, a dignidade, a honestidade, o espírito de sacrifício, a humanidade e o BOM SENSO, indispensável em toda esta integração. Sabemos que o médico, como ser humano que é, está sujeito a erros, vicissitudes e até desvirtudes. Mas como todo o ser humano, tem direito a compreensão e perdão, quando as suas falhas são desvios meramente incidentais. O mesmo não acontece, como é óbvio, quando a sua conduta entra no campo lamacento da desonestidade, da irresponsabilidade e da perda dos valores éticos que integram esta incomparável profissão.

Eva Cruz Serra Mágica
A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.
Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.



Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.
Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.



Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.



“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.
Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.



Eva Cruz Senhora do Desterro

(Foto de Adão Cruz)
O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.
De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.
Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.
Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

Eva Cruz O espantalho do coronavírus

(Adão Cruz)
Há três semanas em clausura, completamente só e confinada às paredes de um apartamento, assaltava-me vezes sem conta a miragem do meu jardim, dos campos verdes e da minha casa da aldeia, com os seus recantos tão meus e tão agarrados à minha existência.
Foi decretado de novo o estado de emergência. Como cumpridora que sou, capacitei-me de que tinha de continuar a obedecer. Para além da saudade, havia também alguma emergência nesta minha saída, não pela falta de zelo de quem por lá trabalha mas por obrigações que cabem aos donos. Eu sabia que no período da Páscoa, as medidas seriam mais rigorosas, não se poderia sair do Concelho de residência. Decidi então munir-me de todas as precauções e, sem violar as regras, equipei-me dos pés à cabeça, peguei no carro e fui até ao meu pequeno mundo maravilhoso das Figueiras. Lá não correria perigo algum, pois estava isolada de tudo e de todos. Só aquela natureza no seu estado mais natural me inspirava a máxima confiança.
O problema era descer o elevador da minha residência até à garagem, caminhar no piso calcado e recalcado por tantos que por ali se movem. Envolvi-me num fino avental de plástico até aos pés, daqueles que se usam para dar banho aos doentes, enfiei as respectivas luvas e colei na cara a máscara branca.
Durante a viagem de cerca de dez quilómetros, retirei a máscara, pois nenhum vírus havia entrado à socapa no meu carro, ele também, bem fechado e em quarentena.
Quando cheguei ao velho portão da minha casa na aldeia, daqueles que ainda se abrem com ferrolhos, trinco e alavanca, resolvi deixar o carro cá fora. Pus de novo a máscara e as luvas e sorrateiramente abri apenas uma nesga do portão, não se desse o caso de andar por ali alguém.
De repente, uma revoada de pássaros, não sei se andorinhas, pardais ou estorninhos debandou em alvoroço e as pegas começaram a praguejar e a gritar naquele seu pio tão agreste. Um gato amarelo, que nem é meu, e por lá vive como se fosse o dono, mal me viu desapareceu que nem uma flecha. Ri-me sozinha e pensei que seria o contágio do coronavírus a assustá-los, ao gato e aos pássaros, ou aquela espécie de espantalho vivo que ali apareceu inesperadamente.
Despi a minha estranha indumentária, abri portas e portadas para deixar entrar o sol e o ar puro do campo, corri a casa de lés- a-lés, senti o cheiro de tudo a velho mas limpo, espreitei todos os cantos e recantos que me enchem de vida e voltei para o pátio. Palmilhei os campos, senti a refrescante mistura de tantas flores e aromas que por ali se abrem em pleno silêncio e liberdade e parei os olhos na cercadura lilás à volta do quintal. Nesta altura, um mar de glicínias que por lá se entrelaçam e enroscam nas vedações deixam tombar os seus cachos tão perfumados que o cheiro se sente e adivinha ao longe.
Enfeitei as jarras de Páscoa como fazia a minha mãe e coloquei na porta uma coroa de flores brancas e amarelas, o símbolo da Primavera e da cor do ovo, o cerne da vida. Polvilhei tudo com um profundo suspiro de esperança.
Pelo meio da tarde vim embora. Senti que os pássaros voltaram, talvez confiantes e contentes porque a dona apareceu e lhes enfeitou a casa de Páscoa.
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