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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 07.12.15

Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo

 

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   Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.

 

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por Augusta Clara às 18:45

Sexta-feira, 20.11.15

Terrorismo verbal - José Goulão

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José Goulão  Terrorismo verbal

 

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Mundo Cão, 19 de Nobembro de 2015

 

   O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.

Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.

Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.

Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.

Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.

As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.

O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.

Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 06.07.15

O direito à dignidade - José Goulão

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José Goulão  O direito à dignidade

 

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Mundo Cão, 6 de Julho de 2015

 

   De um lado um grito de dignidade; do outro a surdez e o manobrismo irresponsável do costume.

A senhora Merkel e o senhor Hollande responderam à declaração clara e transparente do povo grego de que não aceitam continuar a pagar com austeridade mortal os erros que não lhe podem ser assacados, assumindo que é preciso respeitar a vontade manifestada nas urnas. No entanto, o espectáculo que as instituições europeias estão a dar no arranque do pós-referendo, e ainda a procissão vai no adro, é o de um circo de manobras e declarações onde se percebe tudo menos o desejo de respeitar a mensagem grega.

Isto é, no seu formalismo habitual, os chefes do Directório que dá ordens na União Europeia proclamaram o respeito pela democracia; e logo os seus subordinados voltaram ao mesmo comportamento chantagista, com destaque para o inenarrável socialista holandês Djesselboem, que chefia a Zona Euro – uma espécie de pau mandado do senhor Schauble às ordens dos especuladores financeiros - em cujas declarações apenas se lê um desejo de vingança e de ajuste de contas contra os gregos. Entretanto, em segundo tempo, a senhora Merkel contradiz o que declarou poucas horas antes advogando que “ainda não há condições para recomeçar as negociações entre a União Europeia e a Grécia”. Por outras palavras, quiseram democracia e agora esperem para dançar a música que nós tocamos.

O ministro grego Varoufakis terá sido uma das primeiras vítimas deste manobrismo, a acreditar na versão oficial de Atenas. Não custa nada perceber, relendo declarações proferidas por alguns dirigentes europeus, que o afastamento do ministro que não se arrojava aos pés dos mandantes europeus e do FMI às ordens dos credores seja uma das condições impostas para o reinício das negociações. Os senhores da Europa, que chamam terroristas a quem lhes aprouver e convenha, estão muito indignados por o senhor Varoufakis lhes ter chamado terroristas a propósito da campanha de intimidação, medo e terror que montaram para que os gregos respondessem sim à austeridade. Afinal não é de Varoufakis que pretendem vingar-se, é dos gregos, contra quem o terrorismo não funcionou.

No domingo, a povo grego não se limitou a reabilitar a democracia como instrumento ao serviço de todos os europeus – assim o saibam aproveitar liquidando, país a país, a ditadura do chamado arco da governação.

Os gregos reabilitaram também o direito à dignidade e, para isso, derrotaram a monstruosa campanha de propaganda local, com ecos mundiais, que a si mesma se chama comunicação social; derrotaram a chantagem contra a democracia emitida de Bruxelas, prometendo o caos no caso de o não vencer; torpedearam o terrorismo do Banco Central Europeu, que tentou criar a anarquia nos bancos gregos seguida de um esvaziamento dos cofres através da fuga de capitais em massa; por fim, derrotaram ainda as sondagens – não nos esqueçamos do papel nefasto destas contra a democracia – que prometeram um “empate técnico” até ao derradeiro instante num referendo em que as duas partes ficaram, afinal, separadas por um fosso superior a 22 pontos percentuais. Isto é não “margem de erro”, nem “engano”, nem fruto de “situações imprevisíveis”. Isto foi, sem qualquer margem de erro, uma burla.

Ao darem um tão sonoro grito de dignidade, os gregos vão precisar de ser firmes e de contar com a solidariedade dos outros povos europeus vítimas desta tragédia, porque o contra-ataque vai ser terrível. Não é possível pagar a dívida grega e não é por isso que existe qualquer legitimidade em chamar caloteiros aos cidadãos da Grécia em geral. Em primeiro lugar, as dívidas renegoceiam-se, reestruturam-se de maneira a que seja criadas condições de crescimento económico e de funcionamento pleno das economias para que possam ser amortizadas.

Além disso, não são os gregos em geral, e entre eles as maiores vítimas da austeridade, os responsáveis pelo estado calamitoso a que chegou a dívida soberana do país. Os vícios de corrupção, nepotismo, evasão fiscal, de viver acima das possibilidades são fruto de décadas de governação desempenhada pelas duas famílias políticas que formaram o arco da governação, agora desfeito na Grécia – socialistas (PASOK) e direita - em conluio com os bancos nacionais e internacionais, entre eles o famigerado Goldman Sachs, como se sabe. Foram elas que fizeram chegar a dívida a 120 por cento do PIB, quando soaram as campainhas de alarme, e que depois disso, rastejando perante Bruxelas e a troika, se submeteram a um memorando de “ajuda” que a fez trepar, até agora, para 170 por cento do PIB.

O primeiro ministro de Portugal em exercício disse, a propósito da Grécia, que não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Está a ver o filme ao contrário, tal como lhe acontece em relação a Portugal: a Grécia (e os outros países assim submetidos) não têm recebido ajudas, têm sido assaltados e saqueados. Os gregos limitaram-se a dizer, pela segunda vez em seis meses, que não querem continuar a ser roubados.

 

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por Augusta Clara às 15:50

Sexta-feira, 19.06.15

As escolhas fascistas de François Hollande - José Goulão

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José Goulão  As escolhas fascistas de François Hollande

 

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Mundo Cão, 18 de Junho de 2015

 

   Falemos de François Hollande, o presidente da República Francesa eleito depois de escolhido pelo Partido Socialista através desse suprassumo da modernidade democrática chamado “eleições primárias”, o qual, da primeira à última análise, serve para baralhar processos e distorcer escolhas.

Bastaria o percurso realizado até agora por Hollande no Eliseu para torcer o nariz às supostas virtudes das “primárias” porque, sem correr o risco de exagerar, o chefe de Estado francês nada tem de socialista e quanto a ser ou não um democrata, a ver vamos.

Seguidor rastejante de Angela Merkel e Barack Obama, a pontos de tentar superá-los nos dislates para revelar o quanto lhes é fiel; adulador do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, logo cúmplice das suas malfeitorias e violações de direitos humanos; ambíguo (o adjectivo é suave) em tudo quanto diz respeito ao terrorismo, François Hollande é um desastre internacional. Somem-se a sua vocação para servir o grande patronato francês, para legislar contra os trabalhadores, para semear a austeridade e teremos um exemplo perfeito do que não deve ser um chefe de Estado num regime presidencialista, e logo de uma grande potência como a França.

Para conhecer melhor Hollande é importante identificar os seus principais mentores na tarefa, isto é, conhecer quem um presidente socialista escolheu como principais conselheiros.

O chefe da sua Casa Militar, o homem que superintende sobre as decisões de Hollande relacionadas com a guerra e a paz, alianças e inimigos, é o general Benoît Puga. Pois o general Puga é um militar colonialista e fascista, membro da seita fundamentalista católica criada por monsenhor Lefèvre e que passou pelas chefias dos departamentos de operações especiais e de espionagem militar. O general Puga entrou em funções no Eliseu pela mão do presidente Sarkozy e depois o socialista Hollande adoptou-o como um dos seus. Não pode dizer-se, portanto, que François Hollande se tenha enganado na escolha: ao reconduzir quem reconduziu sabia perfeitamente que iria trabalhar com um militar saudoso das guerras coloniais e um neocolonialista que, além disso, se revê nas práticas israelitas.

O chefe da Casa Diplomática do presidente socialista é Jacques Audibert, que além de se identificar igualmente com a extrema-direita é conhecido por ser “um americano com passaporte francês”. Ficaria quase tudo dito, embora haja mais no currículo: Audibert é um agente do governo israelita no Eliseu, unha e carne com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, que foi aliás quem negociou o apoio financeiro à campanha de Hollande – ilegal à luz das leis francesas – pelo Qatar e a família Rockfeller através da Exxon-Mobil. Audibert reúne na sua figura o culto pela extrema-direita e os interesses dos lobbies israelitas.

Antes de chegar ao Eliseu pela mão de Hollande, Jacques Audibert tinha, aliás, passado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde saneou todos os diplomatas de reconhecida competência nas relações com os países árabes, remetendo-os de preferência para a América Latina, e abrindo as portas aos que dançam a música tocada por Netanyahu e companhia.

Talvez por tudo isto uma das primeiras atitudes de Hollande, depois de eleito, tenha sido a de declarar a França, no seu todo, como responsável pelas atrocidades contra os judeus cometidas pelo regime de Vichy, sob a tutela de Pétain. Isto é, Hollande confundiu uma situação de excepção no Estado francês, a vigência de um regime ilegítimo, não assente em eleições e subordinado à Alemanha Nazi, com o Estado de direito de uma França democrática e republicana. Uma atitude grave, abusiva, um insulto à Resistência e aos democratas franceses cometida pelo socialista Hollande e que não é certamente uma gaffe, é uma escolha.

Quando chegou ao Eliseu, Hollande já deixara há muito o socialismo numa qualquer gaveta perdida na sua meninice, se a teve; pelo caminho deixou também algures a democracia, substituída por uma “lepenização” que representa uma enorme burla contra os milhões de cidadão que, saturados de Sarkozy, nele um dia confiaram.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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