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Jardim das Delícias


Terça-feira, 14.04.15

"Quanto mais velho estou ..." - Günter Grass

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 Günter Grass  "Quanto mais velho estou ..."  

 

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   (...) Quanto mais velho estou, mais frágil me fica a bengala da cronologia. Mesmo quando consulto, por serem úteis, catálogos de amarelecidos ou mesmo se quisesse, através da Internet, ficar a saber ao certo, com a ajuda de alguns exemplares da revista Der Monat de meados dos anos cinquenta, aquilo que afirmo como acontecimento a partir de agora marcante, ficaria pendurado na imprecisão.

Certo é que, antes de a Anna e eu seguirmos viagem, com nossa tenda laranja-avermelhada, em direcção a sul, rompeu querela sobre arte em Berlim, que durou até ao ano seguinte, mais ainda, até depois da morte de Karl Hofer, e que ainda deveria irritar os vanguardistas de então, de tal forma se discutiu radicalmente, reivindicando o conceito «do Modernismo»; tomei só marginalmente partido na disputa.

Furioso, porque magoado, Hofer defendia a pintura figurativa definida pela imagem do humano, contra a primazia absoluta atribuída a imagens não figurativas, cujo estilo era propagandeado como «pintura informal» e, nos catálogos de arte, elogiado como o Modernismo mais moderno.

O adversário dele na querela chamava-se Will Grohmann crítico de arte que só valorizava aquilo que, no julgamento de Hofer, tinha como consequência o «deslizar para as névoas longínquas do nada». Escreveu artigos contra a intolerância reinante e chegou mesmo ao ponto de advertir para aproximações ao «estado nazi dos líderes provinciais».

Não foi oficialmente, como director na nossa escola, mas como combatente isolado que o velho senhor batalhou: via a arte amea­çada por «decoradores de superfícies» como Kandinsky e defendia Paul Klee, que chamava um «poeta pintor», contra o «kitsch horrivel­mente colorido» do russo.

Em consequência disso, foi caluniado a muitas vozes como «anquilosado e ultrapassado», como «adversário, cego de raiva, do Modernismo» e, em suma, como «reaccionário». Palavras, conceitos, os novíssimos «ismos» concorriam uns com os outros. A querela alas­trou para a Associação dos Artistas. Houve membros que saíram.

Quando Hofer, por fim, acusou ainda a América de ser o país de origem do novíssimo dogma - lá o novo em si era valorizado só pela novidade e considerado bom para o negócio - , foi insultado como comunista encapotado e de imediato se levantou uma suspeita que - como era habitual na altura -, embora tendo sido rapidamente abafada, voltou décadas mais tarde. Pesquisadores de arquivos afir­maram que os serviços secretos americanos, a CIA, tinham promo­vido, por cálculo político, a pintura não figurativa e dita informal por ser decorativamente inofensiva, e também porque assim o con­ceito de «Modernismo» prometia passar a ser propriedade fixa do Ocidente.

Quando evoco, com os olhos de hoje, esta querela e a peso, torna-se claro com que intensidade o conflito entre Hofer e Grohmann, o austero retratista do humano e o papa da arte daqueles anos, deu rumo ao meu trabalho artístico; tal como na disputa entre Camus e Sartre, que determinou a minha postura política posterior, tornando-me partidário de Camus, decidi-me a favor de Hofer,                                                       

A exclamação dele «Oh divino Klee, se tu soubesses o que se tem passado em teu nome!» tornou-se citação. E quando nos dava a entender a nós, alunos de Belas-Artes do princípio dos anos cinquenta, que «o problema central das artes plásticas era e seria o ser humano e tudo quanto anda à volta do humano, o eterno drama», o apelo dele, por muito patética que seja a entoação, ecoa até aos meus dias de velhice. (...)

(in Descascando a cebola. Autobiografia 1939-1959, Casa das Letras)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 13.04.15

Qué día tan negro....maldita sea la parca - Luís Sepúlveda

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   Qué día tan negro....maldita sea la parca.

Mal día este lunes 13. A la marcha de Maspero se debe agregar también la de Eduardo Galeano.
A veces faltan las palabras, o sobran, o son inútiles, o salen y sobre el papel o la pantalla queda un trozo nuestro. Me une a Eduardo Galeano la argamasa férrea y severa de los compañeros y un amor de hermanos latinoamericanos.
Nos pateamos ciudades del exilio, ¡ay ese mate tan discutido en el expreso Colonia- Paris de los años 80!, o ese milico analfabeto que en la cárcel de Temuco nos permitió tener un ejemplar de Las Venas Abiertas de América Latina porque lo consideró un libro de primeros auxilios, todo, todo es recuerdo ahora, o memoria, que tomamos como las hojas secas del único jardín que tuvimos, o quisimos tener, o creímos tener, y no permitimos que se deshaga en nuestras manos.
Alguna vez, en un abrazo, porque Eduardo Galeano dice que los encuentros entre compañeros son paréntesis marcados por dos abrazos, le dije gracias hermano por La Canción de Nosotros, esa novela escrita en la derrota y para que los derrotados sintiéramos que valió la penas esa batalla, que valió la pena darla y perderla, pese al precio pagado.
Hasta siempre Eduardo Galeano. Hasta siempre oriental. Hasta siempre hermano.
 

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Nota de edição: morreu hoje, também, o escritor alemão Günter Grass, premiado com o Nobel da Literatura. Amanhã aqui se publicará um texto da sua autobiografia "Descascando a Cebola". 

 

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por Augusta Clara às 18:00



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