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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Goulão Tsunami silencioso no Médio Oriente
Mundo Cão, 25 de Juho de 2015
A notícia passou quase despercebida, mas ainda assim causou algumas dúvidas e perplexidades: a Arábia Saudita e a Rússia, arqui-inimigos de longa data, assinaram um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos. Em termos mais prosaicos: a petromonarquia comprou 16 centrais nucleares a Moscovo para entrarem em funcionamento dentro de meia dúzia de anos.
Isto é, o maior exportador mundial de petróleo decidiu poupar nos combustíveis fósseis, aproveita a tecnologia associada para desenvolver projectos de dessalinização de águas e elegeu como parceira uma empresa tutelada pelo governo do infiel Vladimir Putin.
É assim, tal e qual. Mas a notícia não passa de um pequeno abalo, uma simples réplica do enorme e silencioso tsunami que por estes dias atinge o Médio Oriente.
O epicentro do magno sismo, como já se focou nestas linhas, é a próxima assinatura de um acordo (que são pelo menos dois) entre outros arqui-inimigos, os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão. Para consumo geral, um dos acordos é o chamado 5+1, que teoricamente acaba de vez com o mito das nunca existentes ambições iranianas ao nuclear militar; outro é bilateral e traduz uma espécie de partilha de zonas de influência norte-americanas e iranianas em amplos espaços do Médio Oriente, com repercussões colaterais, que podem ou não ser danosas, consoante a perspectiva.
Rezam as fugas de bastidores que os Estados Unidos reconhecerão tacitamente as zonas de influência do Irão em dois terços do Iraque, na Síria, em grande parte do Líbano; em contrapartida, Teerão conforma-se em não “exportar” a revolução islâmica.
Rodrigo Sousa e Castro O seu a seu dono, a Grécia no divã e a teoria da vacina
Até o comentador socialista Santos Silva, tido como compostinho e moderado aventou a venenosa teoria da "vacina" para vergar a Grécia.
Segundo ele a UE poderia deixar "cair " a Grécia e isso seria exemplar para quem lhe quizesse seguir os passos.
Na TV ao lado, José Manuel Fernandes, numa atrabiliária explicação do que dificilmente perceberá ( os fundamentos e saidas para a crise da Grécia), enveredou pelo mesmo caminho.
Qualquer psicólogo recém formado, veria ali uma manifesta exibição de uma projecção freudiana. De facto, toda a direita portuguesa deseja no íntimo e ardentemente o descalabro, e bancarrota da Grécia , mas hábilmente insinua que será a Alemanha a querer fazer isso.
O Embaixador Seixas da Costa, prezado amigo aqui no FB, tentou sem sucesso explicar ao eimpedernido jornalista que a questão era mera e exclusivamente politica e que ele podia esquecer as contas de merceeiro com que tentava explicar a questão.
Infelizmente o sr Embaixador perdeu uma excelente oportunidade de explicar aos companheiros de debate e ao público em geral que a questão grega não é Politica mas ESSENCIALMENTE GEOPOLITICA, e é nesse quadro que Tsirpas se move e vai vencer.
Eu explico:
- 1. Os USA e a UE vivem hoje um desafio geopolitico tremendo de confrontação aberta com o espaço da Eurásia ( China/Rússia);
- 2. O confronto está já num patamar elevado, tendo o bloco ocidental iniciado um processo sancionário da Rússia que dia a dia se agrava;
-3.Junto das fronteira russas a sudoeste trava-se já uma guerra aberta e em escala preocupante;
-4. Se o bloco Ocidental está já disposto a entregar sem quaisquer garantias milhares de milhões de euros à Ucrânia para conter as ambições de Putin, poderá deixar cair a Grécia e correr o risco de alterar dramaticamente os equilibrios no Mediterrânio Oriental, no Mar Egeu e no flanco Sul, o mais poroso e vulnerável da NATO ? ?
Claro que não senhores comentadores , e Tsirpas sabe-o. Olhem para o sinal FATAL que deu logo no primeiro dia ao receber o embaixador russo.. Continuem-se a entreter com retóricas vazias. O António Costa agradece. Assim nem precisa de se mexer ou assumir qualquer politica , os tranpolineiros do costume fazem o trabalho por ele.
Nota de edição: Privatizações canceladas na Grécia. Veja aqui.
Noam Chomsky "Triste espécie. Pobre Coruja de Minerva"
(Tradução de Tiago Franco)
OUTRASPALAVRAS, 7 de Outubro de 2014
Não é agradável contemplar os pensamentos que devem estar passando pela mente da Coruja de Minerva, que alça voo ao cair do crepúsculo e toma para si a tarefa de interpretar cada era da civilização humana — esta mesma que pode, agora, estar se aproximando de um final inglório.
Nossa era começou há quase 10 mil anos, na região da Crescente Fértil. Estendeu-se, a partir das terras do Tigre e Eufrates, pela Fenícia, na costa oriental do Mediterrâneo, chegando ao vale do Rio Nilo e de lá para além da Grécia. O que está acontecendo nesta região fornece dolorosas lições sobre o abismo ao qual a espécie humana pode chegar.
As terras do rios Tigre e Eufrates têm sido palco de horrores indescritíveis nos últimos anos. A ofensiva de George W. Bush e Tony Blair em 2003, que muitos iraquianos compararam à invasão mongol do século XIII, foi mais um golpe letal. Destruiu grande parte do que havia sobrevivido às sanções da ONU, dirigidas por Bill Clinton contra o Iraque e condenadas como “genocídio” por ilustres diplomatas como Denis Halliday e Hans von Sponeck, que as administravam antes de renunciarem em protesto. Os devastadores relatórios de Halliday e von Sponeck receberam o tratamentos usualmente dispensado a fatos indesejados…
Uma das conseqüências terríveis da invasão estadunidense-britânica é descrita em um “guia visual para a crise no Iraque e na Síria” do New York Times: a radical mudança da Bagdá, que tinha bairros mistos em 2003, para os atuais enclaves sectários — sunitas ou xiitas — aprisionados em ódio amargo. Os conflitos causados pela invasão espalharam-se e estão agora rasgando toda a região em farrapos.
Boa parte da área do Tigre e Eufrates está dominada pelo ISIS e seu auto-proclamado Estado Islâmico. Uma caricatura sombria da forma mais extremista do Islã radical, que tem sua origem na Arábia Saudita.
Augusta Clara O GMT, os seus sinónimos ... e mataram eles o Trotsky!
(Adão Cruz)
Se os dirigentes da esquerda se preocupassem em esclarecer-nos sobre o que se negoceia e se pretende assinar em 2015 entre os EUA e a UE, talvez nos evitassem este mergulho na mediocridade do actual panorama político português. Porque, a ser assinado o tal mega-acordo denominado, entre outras designações - serão várias para proteger o segredo das cláusulas -, por Grande Mercado Transatlântico (GMT), dos Antónios, tanto nos faz que seja o Costa ou Seguro a ficar à frente do PS, como quem vierem a ser os futuros Primeiros-Ministros e Presidentes da República.
Quem passa a mandar são as multinacionais, não os Estados, e de forma muito pior do que a que tem vigorado nestes tempos da dita globalização. O tal acordo entre as actuais duas maiores potências comerciais mais propriamente deveria ser chamado Tratado da Escravatura Mundial.
Prevê-se a aprovação de legislação que nenhum Estado nem organização de qualquer natureza poderá contestar sob pena de ficar sujeito a multas milionárias aplicadas por um grupo de arbitragem privado internacional. Visa ultrapassarem-se todos os constrangimentos que têm impedido não só a redução das barreiras alfandegárias como a das "chamadas barreiras "não tarifárias" : quotas, formalidades administrativas ou normas sanitárias, técnicas e sociais". (1)
A esse propósito já no "Jornalistas Sem Fronteiras", sob o título "Países europeus submetem-se ao direito norte-americano", escrevia Pilar Camacho "Por estes comportamentos podemos ver o que se prepara através do o chamado acordo de comércio livre entre a União Europeia e os Estados Unidos” (TTIP), afirma María Concha Martínez, assessora no Parlamento Europeu. “Com leis europeias suspensas, na prática, ficaremos indefesos perante produtos norte-americanos de qualidade duvidosa para a saúde pública, como é o caso dos transgénicos, carne e derivados de animais alimentados com essas matérias geneticamente modificadas”, acrescentou. “Leis europeias que nasceram de tanta discussão e elaboração de estudos no sentido de defender os cidadãos podem agora ser ultrapassadas e invalidadas à revelia desses mesmos cidadãos”, segundo María Concha Martínez (2)
São as soberanias nacionais definitivamente hipotecadas aos senhores do dinheiro e às multinacionais que, atrás desta legislação, ficam com impunidade garantida para procederem à rapina dos recursos naturais de qualquer latitude, como a já posta em prática no roubo das sementes aos agricultores pela Monsanto de que tanto temos ouvido falar
E é destas janelas que se olha a Ucrânia, se ouve falar na ajuda do Ocidente à luta pela "democracia" contra as forças russas, mas com a participação dos grupos nazis promovidos e armados pelos EUA com o apoio dos dirigentes da UE. E é delas que se se vê passar a falsa informação com que nos intoxicam dia a dia.
Se quisermos analisar o que por cá se passa, temos que ir à janela das traseiras. É no quintal que os galos lutam por um lugar no poleiro.
Na sua monumental obra Vida e Destino, (3) durante a hecatombe da batalha de Stalinegrado, Vassili Grossman põe Stalin a interrogar-se se não teria errado ao liquidar tantos dos seus colaboradores mais próximos, entre eles Trotsky. Afinal, não teria Trotsky razão ao defender a extensão da revolução a outros países? Mesmo o ditador louco e sanguinário que foi Stalin pode ter tido um momento de lucidez naquele período dramático da história da União Soviética.
Verdade ou ficção é uma interrogação que não comporta hoje nenhum motivo para nos merecer dúvidas porque o ataque é global.
Como afirma Serge Halimi no Le Monde Diplomatique (versão portuguesa) deste mês de Junho "Bem conduzida [a luta contra o GMT] poderá consolidar solidariedades democráticas internacionais, hoje atrasadas por comparação com as que existem entre as forças do capital".
Se não ficarmos pelo galinheiro nem pela copa mundial.
(1) Raoul Marc Jennar e Renaud Lambert, "Globalização feliz, modo de usar", Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa), Nº. 92, Junho 2014, pág. 7.
(2) http://www.jornalistassemfronteiras.com/
(3) Vassili Grossman, Vida e Destino, Dom Quixote.
Santiago Alba Rico Democracia y geopolítica
Santiago Alba Rico (Madrid, 1960) estudió filosofía en la Universidad Complutense de Madrid. Entre 1984 y 1991 fue guionista de tres programas de televisión española (el muy conocido La Bola de Cristal entre ellos). Ha publicado artículos en numerosos periódicos y revistas y, entre sus obras, se cuentan los ensayos "Dejar de pensar", "Volver a pensar", "Las reglas del caos" (libro finalista del premio Anagrama 1995), "La ciudad intangible", "El islam jacobino", “Vendrá la realidad y nos encontrará dormidos”, “Leer con niños”, “Capitalismo y nihilismo” y "El naufragio del hombre", así como dos antologías de sus guiones: “Viva el Mal, viva el Capital” y “Viva la CIA, viva la economía”. Es también autor de un relato para niños de título "El mundo incompleto" y ha colaborado en numerosas obras colectivas de análisis político (sobre el 11-S, sobre el 11-M, sobre Cuba, sobre Venezuela, Iraq, etc.). Desde 1988 vive en el mundo árabe, habiendo traducido al castellano al poeta egipcio Naguib Surur y más recientemente al novelista iraquí Mohammed Jydair. Fue asimismo guionista de la película Bagdad-Rap (2004) y es autor de una obra teatral, "B-52", estrenada en 2010. En los últimos años viene colaborando en numerosos medios, tanto digitales como en papel (la conocida web de información alternativa Rebelión, Archipiélago, Ladinamo, Diagonal etc.). En Venezuela ha publicado junto a Pascual Serrano el libro “Medios violentos (palabras e imágenes para la guerra)” (El Perro y la Rana, 2007). En Cuba ha publicado “La ciudad intangible” y “Cuba; la ilutración y el socialismo”. Su último libro, "Noticias", se ha publicado en la editorial "Caballo de Troya" en mayo de 2010. En marzo de 2011 publica "Túnez, la revolución", donde recoge las crónicas escritas bajo el nombre de Alma Allende durante la revolución tunecina del 14 de enero.
Si se trata sólo de proteger la existencia de un linaje o un régimen, como en Arabia Saudí o en Siria, política interior y política exterior coinciden hasta el punto de que los gobiernos tratan a sus propios ciudadanos como a extranjeros, fichas negociables o sacrificables en la partida geoestratégica de la que depende su supervivencia. Si se trata de proteger un régimen económico, como en el caso de los EEUU, la dimensión imperialista tiende a interiorizar los otros territorios y los otros pueblos como medios para asegurar los intereses “nacionales”. Pero incluso los gobiernos más representativos y democráticos -los de América Latina- se dejan imponer el criterio de la conservación -volviéndose por tanto conservadores- y sucumben al realismo de las trampas para pájaros. No digo que no haya que hacerlo; digo que no hay ninguna diferencia ideológica entre afirmar, como hace EEUU, que Pinochet en otro momento o ahora el general Sissi “están dando pasos hacia la democracia” y apoyar a Bachar Al-Assad, como hace Venezuela, por su “heroico anti-imperialismo”. Las razones geo-estratégicas son siempre de derechas porque ignoran o impiden la autodeterminación de los pueblos; por eso, este modo de razonar resulta particularmente chirriante cuando se utiliza desde la izquierda, y más si no se presenta como el inevitable reconocimiento de una derrota soberana de los propios principios en un contexto de dilemas y peligros sino como una defensa de los mismos pueblos que esta política exterior conservadora desprecia y sacrifica.
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