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Jardim das Delícias


Sábado, 16.04.16

"Mas lá em cima, nas falésias brancas da poesia ..." - Lawrence Durrell

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Lawrence Durrell  "Mas lá em cima, nas falésias brancas da poesia ..."

(tradução de Carlos Leite)

 

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(Autor desconhecido)

 

   Mas lá em cima, nas falésias brancas da poesia, o vento fresco não pára de ressoar aos ouvidos e os asfodelos tremem e inclinam-se entre as rochas nuas com os seus cardos agressivos. Conheci uma vez um botânico austríaco que passou algum tempo acampado na coluna dorsal da ilha, pois são três as pequenas montanhas em linha, como vértebras. Procurava uma determinada planta que cresce nas rochas; contou-me de maneira muito convincente que, um dia, estando sentado na famosa falésia sentado a olhar para o mar lá em baixo, de repente viu-se envolvido por uma bruma branca que subira do mar. Era uma emanação muito diferente de qualquer outra, condensada numa forma de contornos definidos. No seu interior, ouviu os gemidos das gaivotas e também o chamamento de vozes humanas. O fenómeno era tão estranho que teve medo e pegou rapidamente nas suas coisas e fugiu dali. Egon Kahr era o nome dele. Alguns meses mais tarde, caiu dum apartamento do último andar dum prédio em Atenas e morreu; tinha um telefone na mão que fora arrancado da parede. Não se encontrou nenhuma explicação. Mas era precisa? Na Grécia, histórias como esta pairam no ar, prenhes dum sentido que nunca se torna claro, histórias lendárias, dotadas duma existência autónoma, auto-suficiente, e tão absurdas como um eco."

 

(in As Ilhas Gregas, fragmento, tradução se Carlos Leite) [fala-se da falésia donde Safo saltou para o mar, na ilha de Lefkáda]

 

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por Augusta Clara às 17:45

Quarta-feira, 09.03.16

Europa: deitem abaixo essas cercas - Gauri van Gulik

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Gauri van Gulik  Europa: deitem abaixo essas cercas

 

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Público, 7 de Março de 2016

 

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

 

   A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia.

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornaram-se em guardas fronteiriços da Europa, forçando migrantes e refugiados a recuarem, às vezes disparando contra eles.

Com quase todas as fronteiras terrestres da Europa seladas, mais de um milhão de refugiados e migrantes que se lançaram rumo à Europa em 2015 arriscaram a vida nas travessias por mar. Mais de 3770 pessoas morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em 2015, e mais 410 morreram já este ano. São vítimas directas da nova Cortina de Ferro da Europa e do que ela representa: a Fortaleza Europa. Em contraste, 138 pessoas morreram a tentarem passar o Muro de Berlim ao longo dos 28 anos em que este existiu.

Para aqueles que conseguem sobreviver à travessia, o sofrimento está longe de chegar ao fim, antes têm frequentemente de caminhar durante dias a fio, viajando através de numerosos países, a dormir ao relento, ao frio, até alcançarem a segurança num país com um sistema de asilo que funciona.

A Amnistia Internacional entrevistou refugiados em fuga da guerra e da perseguição no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque e na Síria. Preferiam não ter partido das suas casas, mas a maior parte teve de fugir para salvar a vida.

Como nos disse um homem oriundo do Afeganistão, sentado na Praça da Vitória, em Atenas, junto com a mulher grávida: "A minha família foi ameaçada pelos taliban. A minha mulher está grávida de oito meses. Não temos escolhas nenhumas... não sabemos o que nos vai acontecer a seguir".

É por isso que a nova Cortina de Ferro da Europa é tão irreflectida e de improvável sucesso como o foi a antiga. Enquanto houver violência e guerra, as pessoas vão continuar a vir. Até pode parecer que fechar fronteiras é uma resposta forte e firme dos políticos, mas verdade é que é ingénua e falta-lhe visão.

Sem dúvida que os números de pessoas a chegarem à Europa são altos. Mas apesar da retórica sobre "enxames" usada pelos políticos, o facto é que a Europa está a esquivar-se às suas responsabilidades internacionais, debilitando a Convenção sobre os Refugiados e deixando países mais pobres a carregar o peso da crise de refugiados. A verdade é que 85% dos 20 milhões de refugiados que existem no mundo vivem em países em desenvolvimento.

Governos totalmente dissociados de muitos dos seus próprios povos, os quais querem que os refugiados sejam bem acolhidos, andam a jogar à política do medo. Falam em "defender" as fronteiras mesmo quando estamos a ver famílias inteiras com pessoas de todas as idades, de bebés a idosos, nas costas da Europa.

Tal como com a antiga Cortina de Ferro, as cercas e muros de hoje são um sinal de políticas falhadas. E isto está a criar uma crise humana na Grécia, agora mesmo. Enquanto não existem soluções estruturais iminentes, a Europa está a pressionar os países dos Balcãs a fecharem aquela rota. Os países dos Balcãs estão a encerrar totalmente as suas fronteiras ou a abri-las só a sírios e iraquianos. Com o sistema de relocalização de refugiados da Grécia para outros países da UE a funcionar pouco e mal, aquele país está a transformar-se muito depressa numa armadilha, deixando dezenas de milhares de refugiados encurralados em condições de desespero e sem nenhuma informação sobre o que lhes vai acontecer.

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 24.02.16

A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza - José Goulão

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José Goulão  A saga dos refugiados que a Europa criou e agora despreza

 

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Mundo Cão, 24 de fevereiro de 2016

 

   Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.

Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.

As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.

Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.

Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.

A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.

Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.

O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.

Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.

A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.

Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.

 

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por Augusta Clara às 16:20

Segunda-feira, 07.12.15

Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo

 

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   Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.

 

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por Augusta Clara às 18:45

Terça-feira, 28.07.15

A fuga de capitais como instrumento da conquista moderna - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  A fuga de capitais como instrumento da conquista moderna

 

 

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Público, 28 de Julho de 2015

 

A corrida aos depósitos bancários, que a União Europeia incentivou na Grécia, é apenas mais uma arma da guerra europeia.

 

1. Mesmo sem saber tudo, temos hoje uma boa ideia do ambiente das negociações que levaram ao terceiro empréstimo da troika à Grécia e dos argumentos que estiveram em cima da mesa. Sabemos que a discussão não foi uma civilizada troca de argumentos mas uma operação de coacção à boa maneira mafiosa, com a reiterada exposição de um catálogo de ameaças feitas à Grécia pelos “parceiros”.

Sabemos que a negociação não foi um jogo de cedências mútuas, mas algo que um dos participantes comparou a uma sessão de tortura. E sabemos, explicadas por Tsipras, as razões fundamentais que fizeram com que o primeiro-ministro grego não desse o famoso murro na mesa e batesse com a porta, mas acabasse por dizer “nai” às propostas a que uma significativa maioria de gregos tinha acabado de gritar “oxi” nas ruas e nas urnas. Antes de mais, o mandato: Tsipras acha que não tinha mandato para bater com a porta porque os gregos, maioritariamente, num exemplo de distorção cognitiva que ficará para a história, não querem sair do euro. Depois, a realidade: a Grécia não tinha (não tem) nem euros nem moeda estrangeira que permitisse criar uma almofada, por mínima que fosse, para garantir as necessárias compras ao estrangeiro.

Mas há uma outra razão, de não menor peso, que foi referida por Tsipras mas pouco aparece na imprensa internacional: a fuga de capitais da Grécia nos últimos cinco anos, que está calculada em 250 mil milhões de euros. O problema não é só o facto de o dinheiro não estar nos bancos gregos e não poder alimentar o investimento de que a Grécia precisa. O problema é que, num cenário de saída do euro e violenta desvalorização de uma futura moeda grega - há estimativas de 50% - este capital poderia regressar em força à Grécia para comprar tudo o que tivesse valor e adquirir, no cenário de escassez e confusão que ocorreria nos primeiros meses do Grexit, uma influência desmesurada, equivalente à que 500 mil milhões de euros poderiam conferir hoje. Uma invasão não pelo ar nem pelo mar nem por terra mas “por euro”.

Esta particular fuga de capitais - não apenas a preocupação dos detentores do capital em pô-lo a bom recato para evitar uma eventual desvalorização ou mesmo o seu confisco, mas o seu estacionamento num porto de abrigo para regressar com força redobrada para pilhar o que estiver à mão — é algo a ter em conta. Devido a este fenómeno, uma saída do euro pode ter como consequência um movimento de brutal concentração do capital nas mãos das pessoas que tenham a capacidade para o exportar previamente.

2. A fuga de capitais da Grécia não é um normal fruto da crise do euro. Ao contrário, ela foi activamente estimulada ao longo dos últimos meses (desde a eleição do Syriza) e mesmo antes (desde o crescimento do Syriza) por uma campanha internacional orquestrada que tentou espalhar o medo entre os pequenos e grandes depositantes e investidores convencendo-os de que as suas poupanças e investimentos não estariam seguros numa Grécia governada à esquerda. Basta reler as declarações nas últimas semanas de dirigentes da UE, políticos europeus de todos os costados e analistas diversos, constantemente “alertando” para a possibilidade, conveniência ou inevitabilidade de o governo grego impor um controlo de capitais para perceber a mensagem subliminar.
Há um interessante artigo publicado no site do think-tank americano Peterson Institute for International Economics antes das eleições gregas de Junho de 2012, onde a direita receava um descalabro dos partidos tradicionais e uma enorme subida do Syriza, que tem como título, para quem não queira perceber: “How a Bank Run Can Be Part of the Solution” (“Como uma corrida aos bancos pode ser parte da solução”)

Aí se escreve, preto no branco: “Qualquer pessoa que queira manter a Grécia no euro deve retirar o seu dinheiro dos bancos. Ainda que os políticos que são a favor do programa do FMI provavelmente vão ficar calados, o PASOK e a Nova Democracia deviam de facto encorajar a corrida aos bancos. Podiam, por exemplo, publicar no YouTube as imagens das filas às portas dos bancos para tornar a mensagem mais clara!”

E, mais à frente: “O exemplo da Grécia ilustrou um novo factor: o facto de a ameaça de uma corrida aos bancos acontecer em qualquer país que esteja a considerar sair do euro actua como o equivalente de um ataque nuclear preventivo sobre as forças políticas que defendam essa saída. Devido ao exemplo grego, os populistas em toda a zona euro acordaram para uma nova realidade política: serão acusados de uma destruidora corrida aos depósitos se prosseguirem as suas estratégias de saída do euro.”

O autor deste texto, Jacob Funk Kirkegaard, que esteve em Portugal numa conferência que teve lugar na Assembleia da República sobre dívida pública em Dezembro de 2014, é particularmente brutal, mas declarações deste tipo, às vezes suavizadas por um verniz pseudo-democrático, foram feitas a partir de Bruxelas centenas de vezes nos últimos meses por políticos de diversos quadrantes.

jvmalheiros@gmail.com

 

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por Augusta Clara às 11:20

Sábado, 25.07.15

A lição grega - António Guerreiro

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António Guerreiro  A lição grega 

 

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   Recapitulemos as principais lições que até os mais distraídos tiveram obrigação de aprender com a crise grega: 1º) A relação credor–devedor está hoje no centro da vida económica, social e política. Ela veio substituir a relação capital–trabalho que pertence a uma fase anterior do capitalismo e introduziu uma nova técnica de poder e uma nova “governamentalidade”. Essa relação produz um novo sujeito universal que é o “homem endividado” tal como ele foi definido e analisado pelo sociólogo Maurizio Lazzarato. A principal actividade do homem endividado (tal como o seu análogo colectivo: o país endividado) é pagar. Nas antigas sociedades disciplinares, ele seria preso se não pagasse, mas as actuais sociedades não o querem encerrado porque isso seria remetê-lo para o exterior e é preciso que ele não saia do interior da esfera dos credores para continuar a pagar. 2º) A dívida é inesgotável, impagável e infinita. Foi com o capitalismo financeiro que a “divída finita e móvel” de antigamente se tornou “dívida infinita”, como a dívida do homem perante Deus. Esta dívida que não pode ser resgatada funciona segundo o modelo do pecado original: no reino dos homens, o devedor nunca acabará de pagar a sua dívida. Recordemos que, para a teologia cristã, existe uma única instituição legal que não conhece interrupção nem fim: o inferno. Mas há aqui umdouble bind: segundo a lógica do capital, um povo é tanto mais rico quanto mais se endivida. Se a dívida não fosse infinita e o devedor pudesse, num determinado momento, saldar as suas dívidas, deixava de haver capital, o capitalismo extinguia-se porque desaparecia a relação de forças entre devedores e credores e a dominação política e a assimetria que essa relação supõe. Lazzarato, mostrando que o capitalismo consiste em encadear dívidas umas nas outras, até elas se tornarem infinitas, estabelece uma analogia entre o funcionamento do crédito e a condição em que se vê Joseph K, a personagem de O Processo, de Kafka. 3º) Apesar de a dívida ser impagável e infinita, é necessário manter publicamente a aparência (uma crença que deve circular publicamente) de que ela é finita e pagável. A dívida da Grécia é tão infinita como a de muitos outros países. Mas o problema é que, por várias circunstâncias, ela entrou no campo de uma racionalidade que lhe retirou a máscara que protege muitas outras. Sem essa máscara, ela exibiu-se como monstruosa, isto é, algo que se mostra e, assim sendo, cresce sem controlo. O capitalismo financeiro não vive sem o motor da dívida, mas precisa que se mantenha a promessa de que ela será honrada. Honrá-la não é pagá-la, é manter a possibilidade da fuga em frente. A catástrofe dá-se quando essa fuga é interrompida. 4º) A moeda especificamente capitalista é a moeda de crédito, a moeda-dívida, e não a moeda-troca. O capitalismo financeiro não tem nada a ver com o doce comércio da moeda-troca. Aí estamos numa relação simétrica. A racionalidade do capital é a de uma relação assimétrica. Trata-se de uma “racionalidade irracional” cuja condição normal é o “estado terminal”. 5º) O discurso dos economistas pertence hoje, de direito, à mesma ordem do discurso dos padres e dos psicanalistas: esta é a conclusão a retirar do que foi dito no ponto anterior. 6º) O capitalismo sempre foi capitalismo de Estado. Deleuze e Guattari já o tinham dito em 1972, no Anti-Édipo, mas agora percebemos perfeitamente que o capitalismo nunca foi liberal. A crise grega mostrou-nos claramente até que ponto se deu a integração e a subordinação do Estado à lógica financeira: o Estado age por conta dos credores e das suas instituições supranacionais.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 24.07.15

A Alemanha como problema - Boaventura Sousa Santos

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Boaventura Sousa Santos  A Alemanha como problema

 

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Público, 23 de Julho de 2015

 

O maior problema da Europa não é Grécia. É a Alemanha. Há pouco mais de dois anos (5 de Maio de 2013) publiquei um texto neste jornal intitulado O Diktat Alemão no qual descrevia as justificações dadas pela Alemanha no início da Primeira Guerra Mundial para as atrocidades que cometeu contra um pequeno país, a Bélgica, que se recusara a colaborar com os seus desígnios bélicos.

 

   O modo destemperadamente cruel como a Alemanha se está a vingar de um acto de desobediência de um outro pequeno país, a Grécia, obriga-nos a rever a história recente da Europa e, a partir dela, a pensar o nosso futuro comum. Não se trata de ressuscitar fantasmas há muito enterrados e muito menos de supostos sentimentos anti-germanistas que só poderiam accionar, por oposição, sentimentos filogermanistas. Isso aconteceu há setenta anos e as discussões havidas de pouco valeram aos povos europeus (e não europeus) massacrados por uma guerra cruenta. Trata-se apenas de rever as soluções que foram dadas ao problema alemão depois da Segunda Guerra Mundial, de analisar os seus limites e imaginar outras possíveis soluções.

O problema alemão sempre foi o de ser grande de mais para a Europa e pequeno de mais para o mundo. De um lado, o expansionismo dos impérios alemão e austro-húngaro, do outro, uma das mais pequenas potências coloniais europeias, com um curto período colonialista (1884-1919), e sem sequer deixar a língua alemã entre os colonizados, ao contrário do que aconteceu com as outras potências europeias. Para não falar da guerra franco-prussiana (1870-1871), dominada pelo desejo de Bismarck de unificar a Alemanha sob a égide da Prússia e pelo temor da França de que daí adviesse um excessivo domínio alemão sobre a Europa, a arrogância bélica da Alemanha nas duas guerras mundiais do século XX causou uma devastação sem precedentes. Só na Segunda Grande Guerra morreram 60 milhões de pessoas, 3% da então população mundial. Em 1945, a solução encontrada para conter o problema alemão foi a divisão da Alemanha, uma parte sob controle soviético e outra, sob controle ocidental. Esta solução foi eficaz enquanto durou a guerra fria. Com a queda do Muro de Berlim (1989) e a subsequente reunificação da Alemanha houve que encontrar outra solução.

Deve notar-se que a reunificação da Alemanha não foi desenhada como um novo Estado (como muitos democratas da Alemanha Oriental queriam) mas sim como uma ampliação da Alemanha Ocidental. Isso levou a pensar que a solução estava afinal encontrada desde que em 1957 se criara a Comunidade Económica Europeia (mais tarde União Europeia), com a participação da Alemanha Ocidental e com o objectivo, entre outros, de conter o extremo nacionalismo alemão. A verdade é que esta solução funcionava “automaticamente” enquanto a Alemanha estivesse dividida. Depois da reunificação, ela dependeria da autocontenção da Alemanha. Esta autocontenção foi durante os últimos vinte e cinco anos o terceiro pilar da construção europeia, sendo os outros dois o consenso nas decisões e a progressiva convergência entre os países europeus. O modo como foi sendo “aprofundada” a UE foi revelando que os dois primeiros pilares estavam a ceder e a criação do euro deu um golpe final no pilar da convergência. A importância transcendente da crise grega é a de revelar que o terceiro pilar também ruiu. Devemos aos gregos o trágico mérito de mostrar aos povos europeus que a Alemanha não é capaz de se autoconter. A nova oportunidade dada à Alemanha em 1957 acaba de ser desperdiçada. O problema alemão está de volta e não augura nada de bom. E se a Alemanha não é capaz de se autoconter, os países europeus têm rapidamente de a conter. O antigo chanceler alemão, Helmut Schmitt, viu este perigo com ímpar lucidez ao afirmar há muitos anos que, para seu próprio bem e o bem da Europa, a Alemanha não devia sequer tentar ser o primeiro entre iguais. Mal podia ele imaginar que a Alemanha se converteria em poucos anos no primeiro entre desiguais. E não nos sossega pensar que a Alemanha de hoje é uma democracia, se essa democracia for über alles. Não nos esqueçamos de que a terapia da imposição violenta exercida contra a Grécia foi praticada antes contra uma região derrotada da Alemanha, a Alemanha Oriental, durante o processo de reunificação e, de facto, praticada pela mesma personagem, Wolfgang Schäuble, então ministro do Chanceler Helmut Kohl. A diferença crucial foi que, nesse caso, a fúria financeira de Schäuble teve de ser politicamente contida por se tratar do mesmo povo alemão. Os gregos e, daqui em diante, todos os europeus pagarão caro por não serem alemães. Isto, a menos que a Alemanha seja democraticamente contida pelos países europeus. Não vejo muitas vantagens em reagir defensivamente com o regresso ao soberanismo. Em verdade, o soberanismo está já instalado na Europa, só que sob duas formas: o soberanismo ofensivo dos fortes (encabeçado pela Alemanha) e o soberanismo defensivo dos fracos (tentado pelos países do sul, a que se junta, ainda meio atordoada, a própria França). No contexto europeu, o soberanismo ou o nacionalismo entre desiguais é um convite à guerra. Daí que, por mais ténue que seja a possibilidade de êxito, há que tentar reconstruir a União Europeia sobre bases democráticas, uma Europa dos povos onde deixem de dominar burocratas cinzentos e não eleitos ao serviço dos clientes mais fortes ante a distração fácil de representantes democraticamente eleitos mas politicamente desarmados.

Estas soluções não resolverão tudo pois o problema alemão tem outras dimensões, nomeadamente culturais e identitárias, que se revelam com particular virulência em relação aos países europeus do sul. Em carta dirigida ao seu amigo Franz Overbeck, em 14 de Setembro de 1884, Friedrich Nietzsche zurzia “o medíocre espírito burguês alemão” pelo seu preconceito contra os países do sul da Europa: “frente a tudo o que vem dos países meridionais assume uma atitude entre a suspeita e a irritação e só vê frivolidade… É a mesma resistência que experimenta em relação à minha filosofia… O que detesta em mim é o céu claro”. E concluía: “um italiano disse-me há pouco: ’em comparação com o que nós chamamos céu, o céu alemão é uma caricatura'”. Traduzido para os tempos de hoje, é crucial que os europeus do sul convençam os alemães de que o céu claro do sul não está apenas nas praias e no turismo. Está também na aspiração do respeito pela diversidade como condição da paz, da dignidade e da convivência democrática.

Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 21.07.15

É perigoso ficar já "farto" de falar da Grécia - José Pacheco Pereira

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José Pacheco Pereira  É perigoso ficar já "farto" de falar da Grécia

 

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Público, 18 de Julho de 2015

 

A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza. 

 

   Eu sei que está toda a gente farta da Grécia, de ouvir notícias sobre a Grécia, de falar da Grécia. O sistema mediático tem este efeito de rápido cansaço e gera também a vontade de passar para outra coisa ou outra causa. Para além disso, tudo parece já estar decidido e não vale a pena chover no molhado. Vale, vale.

Depois há a sensação de derrota dos filo-helenos, seja dos políticos pró-Syriza, seja dos admiradores mais dos gregos do que do Syriza. Todos partilham uma sensação incómoda porque mistura sentimentos de traição, humilhação, derrotismo, impotência, tudo coisas pouco amáveis para a auto-estima.

Ainda pior é ver a alegria dos que, ao lado de personagens como Dijsselbloem, gozam a sua vingança contra Varoufakis que, de todo não respeitava o holandês pedestre, e contra os gregos que tiveram o arrojo de votar “não”. Digamos que é o clube português dos fans de Dijsselbloem, que festeja a vitória em artigos nos locais certos, nas redes sociais e nos comentários, numa espécie de jogo de futebol contra o clube português dos fans de Varoufakis, no qual, imagine-se a brilhante inteligência, incluem… António Costa.

Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. O problema é que sabem: querem manter-se no poder e prosseguir um programa de revanche social e política contra os que desde o 25 de Abril lhes roubaram o direito natural de mandar.

É por isso que me é inaceitável o argumento salomónico que muitos socialistas usam para se justificar, atribuindo “culpas” ao governo grego e à “Europa”, umas concretas e com alvo, as outras abstractas e genéricas, como se o resultado final se devesse ao modo como os gregos se comportaram nas negociações e não à recusa sempre sistemática dos alemães e do Eurogrupo em negociar fosse o que fosse, com o apoio dedicado dos socialistas. Os gregos podem ter feito todas as asneiras possíveis, que isso não justifica o que se passou. Mesmo os meses que durou isto tudo, não foram os meses necessários para negociar qualquer coisa, mas os meses necessários a colocá-los entre a espada e a parede e por fim vergá-los. Nunca, jamais, em tempo algum, poderia ter sido de outra maneira, porque nunca quem manda desejou que fosse de outra maneira.

Muitas das propostas gregas logo de início eram bastante moderadas (recordam-se de como os fans de Dijsselbloem disseram que os gregos tinham vergado como Hollande…), mas a perigosidade evidente de um governo como o do Syriza obter qualquer ganho de causa era inaceitável para governos como o português e o espanhol, e era uma bofetada para os socialistas colaboracionistas. A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza.

Os alemães e os seus acólitos tinham um programa de humilhação, com um acordo que foi afinal escrito pelo Syriza a branco, para eles o reescreverem a preto. O acordo com a Grécia, na realidade um diktat, só tem uma lógica: obrigar os gregos a engolir tudo o disseram que não desejavam. Não tem lógica económica, nem financeira, tem apenas uma lógica política de humilhação. Querias isto? Pois levas com um não-isto. Foi assim que foi feito o chamado acordo.

E não me venham com o argumento de “confiança”, por parte de governantes como Merkel, Rajoy e Passos Coelho que apoiaram Samaras e a Nova Democracia até ao fim, sabendo que apoiavam um governo corrupto e oligárquico, coisa que o Syriza nunca foi acusado de ser. Esse governo “confiável” literalmente evaporou centenas de milhares de milhões de euros e permitiu que a Grécia, endividando-se até ao limite, funcionasse como tapete rolante para reciclar a dívida dos bancos franceses e alemães para os contribuintes europeus. E não me falem de “confiança” face a um acordo-diktat em que ninguém acredita, em que ninguém “confia” e que assenta no poder e no cinismo.

É uma exibição brutal de poder, que coloca a Grécia a ser governada de Bruxelas e Berlim, por gente que vai decidir os horários das lojas ao domingo, quem pode ter uma farmácia, como funcionam as leitarias e as padarias, e quem pode conduzir ferrys para as ilhas. Mas há mais: são revertidas decisões constitucionais de tribunais gregos e, como em Portugal se fez, mudanças legais para acelerar despejos, expropriações, falências e para retirar aos trabalhadores direitos sindicais e de negociação.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 20.07.15

A capitulação grega e Wolfgang Schäuble - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  A capitulação grega e Wolfgang Schäuble

 

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   Após a reunião do Eurogrupo, sobre o ‘caso’ grego, pensei em Cervantes, na Inquisição e na Pide, numa estranha viagem em que revivi literatura, história e política. À primeira fui buscar D. Quixote, investindo contra moinhos de vento, Tsipras, debalde, a brandir a espada; na segunda vi a Contrarreforma a flagelar com sádicos instrumentos de tortura a heresia grega de dizer impagável a impagável dívida, cujo adjetivo ninguém permite e o implacável Schäuble a querer a humilhação do mensageiro e a imolação da Grécia, qual Torquemada ao serviço da Inquisição do ultraliberalismo.

Mas foi a história recente de Portugal que me levou a perceber o drama de Alex Tsipras. Recordei os presos políticos exaustos, após meses de tortura, noites de insónia, ameaças à família, a vacilarem para salvar uns a troco de traírem outros, ele que tinha contra si portugueses, espanhóis e outros camaradas de insolvência.

Antes do 25 de Abril, magoava-me a dureza com que resistentes julgavam outros, quem não resistia à tortura, consciente dos limites humanos da resistência e da tempestade que varre um preso entre a solidão, o terror e a fidelidade que deve, no estado de torpor em que o colocavam, perante o dilema de quem devia salvar. Quem vacilava era acoimado de rachado.

É à luz do passado que hesito em julgar o presente. Afinal a Sr.ª Merkel foi uma pomba, sem que a Alemanha prescinda de decidir quem substituirá Tsipras no próximo resgate.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 19.07.15

“Alemanha manda na Europa e ela consente? Isso não é habitual…” - José Mujica

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José Mujica  “Alemanha manda na Europa e ela consente? Isso não é habitual…”

 

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O ex-presidente uruguaio José Mujica diz que a ão europeia da crise grega foi “brutal”, convertendo-se na “herdeira da Europa colonialista”. E conclui que “a Alemanha do nosso tempo conseguiu em grande minfoGrécia, 18 de Julho de 2015

 

O ex-presidente uruguaio José Mujica diz que a gestão europeia da crise grega foi “brutal”, convertendo-se na “herdeira da Europa colonialista”. E conclui que “a Alemanha do nosso tempo conseguiu em grande medida o que tentou alcançar por outras vias, sem a mesma sorte”.

Reagindo ao acordo imposto a Atenas no passado fim de semana, José Mujica declarou que o que aconteceu em Bruxelas foi “uma coisa brutal”. “É como se a Europa tivesse criado um protetorado”, diz o ex-presidente do Uruguai, que aponta o dedo à responsabilidade de Berlim no desenlace da cimeira.

“A Alemanha impõe a sua economia e alta tecnologia, mas não só. Na realidade, esta Alemanha de hoje manda na Europa. As suas decisões são duras e definitivas. É pegar ou largar. E de forma natural, estejam ou não convencidos, o resto da Europa consente-o, o que não é habitual na história europeia dos últimos 2000 anos”, defendeu Mujica no seu programa de rádio “Hablando al Sur”. “A Alemanha do nosso tempo conseguiu em grande medida o que já quis alcançar por outras vias, mas sem sorte”, prosseguiu Mujica.

“Esta decisão da Europa, não apenas no conteúdo mas também na forma, obriga-nos a pensar de novo que no fundo esta Europa que decide é uma herdeira da Europa colonialista”, defendeu Pepe Mujica, o ex-presidente uruguaio que conquistou a simpatia dentro e fora de fronteiras por fazer questão de ocupar o cargo recusando os seus privilégios e vivendo como um cidadão comum.

O atual senador uruguaio repetiu as críticas em público, quando participava numa homenagem ao ex-responsável do Banco Interamericano de Desenvolvimento, afirmando que “na Europa não são tão eficientes como se diz”, uma vez que “já gastaram 380 mil milhões de dólares e não conseguem resolver o assunto, sendo que a Grécia tem uns 12 ou 14 milhões de habitantes”.

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por Augusta Clara às 19:30



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