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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Serge Halimi Os poderosos redesenham o mundo
(Dossier: Grande Mercado Transatlântico: multinacionais contra povos)
Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), II Série, Nº.92, Junho 2014, pgs. 1,6
Uma águia livre-cambista americana atravessa o Atlântico para assolar um rebanho de cordeiros europeus mal protegidos. Esta imagem invadiu o debate público na sequência da campanha para as eleições europeias. Ela impressiona, mas é politicamente perigosa. Por um lado, porque não permite compreender que também nos Estados Unidos há colectividades locais que podem vir a ser vítimas de novas normas liberais que as impediriam de proteger o emprego, o ambiente, a saúde. Por outro, porque desvia a atenção de empresas bem europeias - francesas como a Veolia, alemães como a Siemens - e tão apressadas quanto as multinacionais americanas em processar judicialmente os Estados que tiverem a fantasia de ameaçar os seus lucros. Por fim, porque negligencia o papel das instituições e dos governos do Velho Continente na formação de uma zona de comércio livre no seu próprio território.
O empenho contra o grande mercado transatlântico (GMT) não deve, portanto, ter como alvo um Estado particular - os Estados Unidos ou outro. O desafio da luta é ao mesmo tempo mais amplo e mais ambicioso: diz respeito aos novos privilégios reclamados pelos investidores de todos os países, talvez para os recompensar pela crise económica que eles próprios provocaram. Bem conduzida, uma batalha planetária deste tipo poderá consolidar solidariedades democraticas internacionais, hoie atrasadas por comparação com as que existem entre as forças do capital. (...)
Nota: a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique publica no actual mês de Junho o dossier completo sobre este tratado e as graves consequências da sua assinatura tanto para o futuro dos europeus como para o dos trabalhadores americanos.
Le Monde Diplomatique, 11 de Junho de 2014
Suspendre les négociations sur le grand marché transatlantique (GMT) ? L’ancien ministre de l’agriculture et député de l’Eure (Union pour un mouvement populaire, UMP) Bruno Le Maire l’envisage désormais. L’affaire BNP-Paribas — dans laquelle Washington poursuit l’établissement bancaire français pour avoir violé un embargo contre divers pays — nous y contraindrait : « Il faut mettre dans la balance l’affaire de la BNP et la poursuite des négociations. Si jamais nous n’avons pas gain de cause sur cette affaire de la BNP qui est une affaire politique avant tout, eh bien je pense que le président de la République doit indiquer qu’il suspendra les négociations entre les l’Union européenne et les Etats-Unis sur ce traité transatlantique », a expliqué M. Le Maire, le 11 juin 2014 sur RMC-BFM.
On ne peut toutefois exclure que M. Le Maire, qui vient d’annoncer sa candidature à la présidence de l’UMP, tienne compte de l’hostilité croissante de l’opinion française à un accord de libre-échange entre les Etats-Unis et l’Europe.
Déjà, le 6 juin, le ministre français des affaires étrangères Laurent Fabius avait lâché du lest sur RTL, expliquant que le GMT « ne peut exister que sur une base de réciprocité. (...) Evidemment, si dans le cas d’une banque européenne, c’était de l’unilatéralisme qu’il s’agissait, et non pas de réciprocité, ça risque[rait] d’avoir des conséquences négatives ». Un revirement considérable par rapport aux déclarations du président François Hollande le 11 février dernier, lors de sa visite d’Etat à Washington, qui réclamait au contraire une accélération de la négociation : « Nous avons tout à gagner à aller vite. Sinon, nous savons bien qu’il y aura une accumulation de peurs, de menaces, de crispations. »
Or des menaces, il y en a. Dans notre dossier de juin, nous en listions dix pour le peuple américain… et dix pour les peuples européens. Les promoteurs du GMT s’en inquiètent. Auraient-ils peur ?
Augusta Clara O GMT, os seus sinónimos ... e mataram eles o Trotsky!
(Adão Cruz)
Se os dirigentes da esquerda se preocupassem em esclarecer-nos sobre o que se negoceia e se pretende assinar em 2015 entre os EUA e a UE, talvez nos evitassem este mergulho na mediocridade do actual panorama político português. Porque, a ser assinado o tal mega-acordo denominado, entre outras designações - serão várias para proteger o segredo das cláusulas -, por Grande Mercado Transatlântico (GMT), dos Antónios, tanto nos faz que seja o Costa ou Seguro a ficar à frente do PS, como quem vierem a ser os futuros Primeiros-Ministros e Presidentes da República.
Quem passa a mandar são as multinacionais, não os Estados, e de forma muito pior do que a que tem vigorado nestes tempos da dita globalização. O tal acordo entre as actuais duas maiores potências comerciais mais propriamente deveria ser chamado Tratado da Escravatura Mundial.
Prevê-se a aprovação de legislação que nenhum Estado nem organização de qualquer natureza poderá contestar sob pena de ficar sujeito a multas milionárias aplicadas por um grupo de arbitragem privado internacional. Visa ultrapassarem-se todos os constrangimentos que têm impedido não só a redução das barreiras alfandegárias como a das "chamadas barreiras "não tarifárias" : quotas, formalidades administrativas ou normas sanitárias, técnicas e sociais". (1)
A esse propósito já no "Jornalistas Sem Fronteiras", sob o título "Países europeus submetem-se ao direito norte-americano", escrevia Pilar Camacho "Por estes comportamentos podemos ver o que se prepara através do o chamado acordo de comércio livre entre a União Europeia e os Estados Unidos” (TTIP), afirma María Concha Martínez, assessora no Parlamento Europeu. “Com leis europeias suspensas, na prática, ficaremos indefesos perante produtos norte-americanos de qualidade duvidosa para a saúde pública, como é o caso dos transgénicos, carne e derivados de animais alimentados com essas matérias geneticamente modificadas”, acrescentou. “Leis europeias que nasceram de tanta discussão e elaboração de estudos no sentido de defender os cidadãos podem agora ser ultrapassadas e invalidadas à revelia desses mesmos cidadãos”, segundo María Concha Martínez (2)
São as soberanias nacionais definitivamente hipotecadas aos senhores do dinheiro e às multinacionais que, atrás desta legislação, ficam com impunidade garantida para procederem à rapina dos recursos naturais de qualquer latitude, como a já posta em prática no roubo das sementes aos agricultores pela Monsanto de que tanto temos ouvido falar
E é destas janelas que se olha a Ucrânia, se ouve falar na ajuda do Ocidente à luta pela "democracia" contra as forças russas, mas com a participação dos grupos nazis promovidos e armados pelos EUA com o apoio dos dirigentes da UE. E é delas que se se vê passar a falsa informação com que nos intoxicam dia a dia.
Se quisermos analisar o que por cá se passa, temos que ir à janela das traseiras. É no quintal que os galos lutam por um lugar no poleiro.
Na sua monumental obra Vida e Destino, (3) durante a hecatombe da batalha de Stalinegrado, Vassili Grossman põe Stalin a interrogar-se se não teria errado ao liquidar tantos dos seus colaboradores mais próximos, entre eles Trotsky. Afinal, não teria Trotsky razão ao defender a extensão da revolução a outros países? Mesmo o ditador louco e sanguinário que foi Stalin pode ter tido um momento de lucidez naquele período dramático da história da União Soviética.
Verdade ou ficção é uma interrogação que não comporta hoje nenhum motivo para nos merecer dúvidas porque o ataque é global.
Como afirma Serge Halimi no Le Monde Diplomatique (versão portuguesa) deste mês de Junho "Bem conduzida [a luta contra o GMT] poderá consolidar solidariedades democráticas internacionais, hoje atrasadas por comparação com as que existem entre as forças do capital".
Se não ficarmos pelo galinheiro nem pela copa mundial.
(1) Raoul Marc Jennar e Renaud Lambert, "Globalização feliz, modo de usar", Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa), Nº. 92, Junho 2014, pág. 7.
(2) http://www.jornalistassemfronteiras.com/
(3) Vassili Grossman, Vida e Destino, Dom Quixote.
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