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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 25.04.18

A nossa liberdade e a dos outros - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  A nossa liberdade e a dos outros

 

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   No dia em que celebramos a nossa libertação do regime fascista de Salazar e Caetano não consigo alhear-me da malvadez e da cobardia que assola outros povos e outros homens justos tratados, neste momento, como criminosos de alta perigosidade enquanto os verdadeiros crápulas gozam de liberdade vestindo a pele de carrascos.

O caso de Lula da Silva é paradigmático e torna-se desnecessário explicar o que já foi repetidamente explicado por conceituados advogados e outras personalidades do próprio Brasil e de todo o mundo. Não cessa a actuação fascista dos juízes, um que o condenou sem provas, o bandalho Moro, outra a juíza que tem proibido, contra a Constituição brasileira e contra todas as leis em vigor, as visitas a Lula até de advogados seus e de uma comissão do poder legislativo a quem é proibido impedir a fiscalização das condições em que um preso se encontra.

Em Espanha, onde os franquistas no poder já investem contra tudo o que mexe, até contra o amarelo das camisolas dos catalães, chega-nos hoje a notícia de que Cristina Fuentes, a presidente da região autónoma de Madrid, se viu obrigada a demitir-se pela revelação de um vídeo de 2011 a roubar cosméticos num supermercado, depois de já ter sido alvo de acusações sobre a obtenção fraudulenta de um mestrado. Assim marcha a política de Rajoy e do seu bando pró-franquista a favor da unidade do reino de Filipe VI.

Mas o que mais me revirou o âmago foram as notícias sobre a Síria.

Seguindo o padrão das descaradas guerras-negócio dos últimos tempos em que primeiro entra em cena o cartel das armas com todos os milhares de vítimas necessários ao lucro, segue-se o cartel da reconstrução. E, então, ouvi eu, a Síria “já” conta com donativos de quatro (4) milhões de dólares para se reerguer das cinzas. Também há Jonets das guerras.

Com toda a tristeza, raiva e revolta que me assalta, a única boa sensação é a de que a Síria resistiu à usurpação dos casposos do Ocidente.

Os povos sempre resistem à tirania, sempre. Na Síria, como na Catalunha, no Brasil e em Portugal.

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por Augusta Clara às 18:26

Segunda-feira, 16.04.18

Les animaux de la Macronésie - César Príncipe

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César Príncipe  Les animaux de la Macronésie

 

 

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   Um tal Emmanuel Macron, o pauvre diable que se senta com ar de monarca no Eliseu, declarou ao Mundo e a Marte que tem provas do emprego de armas químicas pelo regime sírio. O garçon de bureau Rothschild dispõe de fontes autorizadas: os Capacetes Brancos, bandidos angélicos e evangélicos, que actuam como encenadores e delegados de propaganda médica no terreno dos terroristas; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede natural em Londres, donde jorram informações diárias para o planeta e – claro – possui os seus serviços de intelligence à la carte, aptos a fabricar evidências à medida de Colin Powell e em tempo oportuno. Macron finge que acredita em si mesmo e inventou a Macronésie, a fim de assegurar um lugar que se veja e uma voz que se ouça à superfície do globo. O pauvre, abarrotado de problemas sociais em casa, oferece-se ao rambo Trump para ir à caça ao leão pelas estradas e sobretudo pelos céus de Damasco. E Theresa May, a inventora do fármaco Skripal, disponibilizou-se como enfermeira de drones.

É esta a parelha que tenta pregar um susto à Rússia: a ex-Grande França e a ex-Grã-Bretanha. A França, com o pigmeu de tacão alto Sarkozy, foi até à Líbia assassinar o financiador; a Inglaterra, com a dama de ferro Thatcher, foi até às Malvinas e obteve meia vitória militar. E não poderão ir muito mais além. Em termos de definição global de forças, a França e a Inglaterra esgotaram o potencial hegemónico no séc. XIX. Mas parece não haver maneira de se capacitarem da sua condição: não passam de duas fantasias pós-imperiais. Chegaram ao séc. XXI com um superego que não corresponde às circunstâncias. Não são as exibições de circo mediático que repõem a paridade geo-estratégica. Por isso, tementes de uma dura ensinadela (quem vai à guerra, dá e leva) prontificam-se a servir os USA e deita-fora. Pouco ou nada arriscam sozinhos. Não vá o diable tecê-las.

A guerra, em 2018, não se ganha com fanfarronadas do roy-soleil de la Macronésie nem bestialidades do hooligan Boris Foreign Office. Ou será que ninguém os detém até que os seus países se evaporem num sopro? Poupem o Musée du Louvre e oNational Theatre, meus senhores! Segundo os experts do royal power, em caso de conflito nuclear, mesmo selectivo, estas duas ufanas e medianas nações gozam de dez minutos para se benzerem e encomendarem a alma a Joana d'Arc e a São Jorge. Compete aos franceses e aos ingleses com mens sana exigir, com carácter de urgência, o desterro do casal Macron-May. Merkel afastou-se da armada do bidão de cloro . Um ex-presidente, Hollande, acaba de lembrar ao sucessor que os franceses costumam decapitar os monarcas. O próprio Pentágono reconhece que não tem provas credíveis da pulverização. Anda no seu encalço. Só conhece o caso do animal Assad pela Imprensa e pelas ditas redes sociais. Mas Macron está na posse da verdade revelada. Mas May convoca o Conselho de Guerra. Mas multiplicam-se os avisos, os agoiros, as reticências. Se os USA acabarem por dispensar os guerreiros franco-britânicos, será que estes avançarão de peito feito às balas, aos mísseis, aos gases, à hecatombe, à capitulação?

De qualquer modo, devido ao perigo que representam para a humanidade, embarquemos Macron para os cascalhos da Córsega e May para os rochedos de Gibraltar. Estão carecidos de descanso e algum estudo. Um dos manuais poderá ser de etiqueta. Por exemplo, Como Deverá Comportar-se uma Fera sem Garras ante um Predador de Grande Porte. La Fontaine, se fosse nosso contemporâneo, editaria uma fábula à propos: Les Animaux de la Macronésie.

 

Nota, 13/Abr/18/10h10: O facto do texto ter sido redigido na véspera dos bombardeamentos da Síria, não invalida nem uma letra da denúncia e do alcance da fábula Les Animaux de la Macronésie. Primeiro: as forças franco-britânicas não passam de chiens de guerre dos USA. Segundo: a operação de terrorismo aéreo do triunvirato não se aventurou ao ponto de uma contra-resposta da Rússia. Terceiro: a tríade não esperou pela chegada a Duma dos especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas/OPAQ, que conta com o sufrágio de 190 países (incluindo os atacantes), e estava prevista para o dia 14 do corrente. Os amigos da verdade adiantaram-se às conclusões. Já assim foi no Iraque: mandaram retirar do terreno os inspectores que procuravam e não encontravam as armas de destruição maciça que existiam nas irrefutáveis provas de Bush, Blair, Aznar e Barroso e nas ilustres cabecinhas do império mediático.

 

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por Augusta Clara às 04:06

Domingo, 01.04.18

Envenenamentos e as suas relevâncias - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Envenenamentos e as suas relevâncias

 

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   É triste viver-se num mundo onde a mentira impera sobre a verdade ou onde a verdade é manipulada consoante os interesses do momento de cada um dos poderosos. A mentira corre lesta e oculta a verdade com a maior das facilidades, com a maior leviandade e com toda a impunidade.

Theresa May e os seus amigos afirmam com mentirosa leveza que este caso de envenenamento com produtos químicos é o primeiro que acontece na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Só se for o primeiro praticado pelos serviços secretos ingleses porque todos nos lembramos do envenenamento – o método ainda não passou de moda – de Litvinenko, ex- agente do KGB, envenenado com polónio na própria Inglaterra. Então porquê esta omissão? Percebe-se, os envenenamentos não têm todos a mesma importância, depende dos objectivos que servem. A morte de Litvinenko, atribuída à Rússia de Putin, durou um tempo nas notícias e, depois, apagou-se. Era lá com eles, tinha a ver com a guerra da Tchechénia. Não servia os interesses do Reino de Sua Majestade.

Neste momento em que tinha havido troca de espiões entre um lado e o outro; em que a Rússia tinha assinado com os EUA o acordo contra as armas nucleares que o mutante que governa o império americano rasgou; que o exército russo ajudou a Síria a repelir os opositores terroristas alimentados pela falsa solidariedade da dita Coligação Internacional de que o país de Theresa May fazia parte, que necessidade teria a Rússia de criar tal conflito vindo envenenar alguém em território britânico?

Pergunto se ainda se justifica a lealdade a cediças alianças com países cujos caminhos nos sentimos obrigados a seguir quando a loucura de um deles, o mais poderoso, pode levar à morte de milhões de pessoas por mentiras forjadas à medida das suas conveniências?

O que deve Portugal agora ao Reino Unido para ter de dar aval à já destapada aldrabice de Theresa May?

O Governo português tem de manter-se alheado e não só, combater através de todos os canais diplomáticos, esta escalada em tudo semelhante àquela em que se baseou a mentira que destruiu o Iraque e mergulhou o mundo num verdadeiro inferno.

Esta nova mentira tem de ser desarmadilhada a tempo, antes que o seu reconhecimento chegue tarde. E, para isso, todos não somos demais.

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por Augusta Clara às 19:18

Segunda-feira, 14.08.17

Adão Cruz escreve sobre o conflito entre os EUA e a Coreia do Norte

  

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   Nada tenho a ver com a Coreia do Norte, seja de que ponto de vista for, a não ser, como cidadão do mundo, a sua inclusão nos graves problemas que ameaçam, neste momento, o futuro da humanidade. Mas pergunto. Por que razão, a Coreia do Norte há-de ser tida sempre, em qualquer conversa ou opinião como agressora, quando não agrediu ninguém e foi vítima de históricas e indescritíveis agressões, continuando a ser vítima potencial de uma constante ameaça de destruição maciça?

Por que razão, numa tentativa de falso equilíbrio no arame ou na corda bamba, a maioria das pessoas procura dar uma no cravo e outra na ferradura sempre que se referem à loucura de Trump, não deixando de referir, em consciente falsa igualdade de circunstâncias, a loucura do maluquinho nortecoreano? Seria melhor pararem um pouco para pensarem, por respeito a si mesmas.

Sendo eu inimigo de armas, sobretudo armas nucleares, pergunto que direito divino permite a países agressores que tantas tragédias têm provocado, desenvolverem permanentemente e sem limite armas nucleares para liquidarem outros países proibidos de as desenvolverem? Hipocrisia monumental que a minha mente não consegue entender.

Eu penso que se acabasse de uma vez, nem que fosse por milagre, a ganância cleptomaníaca, salteadora e predadora do imperialismo americano, o mundo seria, como pensa Oliver Stone, muito mais pacífico.

 

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por Augusta Clara às 03:50

Sexta-feira, 07.04.17

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

 

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.

Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.

Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.

Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.

Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.

Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.

Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.

A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…

Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

 

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por Augusta Clara às 23:43

Sábado, 05.03.16

Pronunciamento de generais contra Hollande - José Goulão

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José Goulão  Pronunciamento de generais contra Hollande

 

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Mundo Cão, 5 de Março de 2016

 

   Generais franceses na reserva publicaram uma carta aberta contra o chefe de Estado, François Hollande, acusando-o de ter “capitulado” na sua actuação contra a chamada “selva de Calais”, os miseráveis campos montados por refugiados fugidos às guerras no Médio Oriente e que esperam a oportunidade de atravessar a Mancha com destino ao Reino Unido. De acordo com Le Figaro, o jornal de direita que dá letra de forma à carta, muitos outros generais, entre os cerca de mil que estão na reserva, são da mesma opinião.

A generalidade da comunicação social francesa não esconde que este pronunciamento militar está alinhado com as posições da extrema-direita fascista contra os refugiados, uma vez que a carta serve de igualmente de protesto contra a detenção de um outro general, Christian Piquemal, ex-comandante da Legião Estrangeira francesa, por ter participado numa manifestação xenófoba não autorizada promovida por Pegida, uma filial do grupo de choque alemão e que gravita no universo dos bandos de assalto controlados pela Frente Nacional de Marine Le Pen. “Em vez de visar um soldado, general e patriota, convém estabelecer a ordem em Calais”, advertem os generais na carta. Estabelecer a ordem, segundo os subscritores, “inclui erradicar a selva – pode existir uma selva na República? – e o envio de todos os clandestinos para os países de origem”.

Nos países de origem dos refugiados, como se sabe, existem guerras nas quais têm participado activamente muitos generais franceses, tanto no âmbito da NATO como por decisão directa dos presidentes franceses Nicolas Sarkozy e François Hollande. A carta dos generais é omissa quanto a essa causa do problema – limita-se a defender o reenvio dos refugiados para o caos e a morte pelos quais o seu país tem elevada quota-parte de responsabilidade – preferindo destacar a “ironia” do facto de o general Piquemal “ter sido detido em nome da ordem pública, enquanto imigrantes ilegais continuam livres”.

Entre os signatários da carta estão o general Coursier, ex-comandante da Região Militar de Lille (que integra Calais), e os também generais Antoine Martinez e Jean du Vernier, além de Yvan Flot, ex-deputado da Frente Nacional pela região de Calais.

A designada “selva de Calais” é um vasto descampado entretanto ocupado por milhares de refugiados, em situação de degradação humilhante, e que pretendem alcançar o Reino Unido, onde o governo de David Cameron lhes fecha as portas, agora ainda com maior firmeza porque se considera forçado a cumprir a agenda da extrema-direita para tentar ganhar o referendo sobre a permanência na União Europeia.

A política da administração Hollande, interpretada no terreno pelo seu primeiro-ministro Manuel Valls, conhecido há muito pelas inclinações xenófobas, tem sido a de reprimir e desmantelar os acampamentos informais e desapoiados existentes na “selva”, ao mesmo tempo que manobra a crise em sintonia com as dificuldades do governo de Londres. A actuação que os generais qualificam de “capitulação” caracteriza-se pelo desmantelamento violento dos acampamentos de refugiados – a exemplo do que Valls está habituado a fazer com comunidades de ciganos em todo o país – sem ter conseguido ainda passar à prática o objectivo de os reenviar para os países de origem. Não se pode fugir ao artigo da Constituição que “determina a integridade do território”, lê-se no pronunciamento dos generais. “Os imigrantes ilegais entram massivamente em França e instalam-se em lugares como Calais”, acrescentam os militares, enquanto os habitantes de Calais vivem em “situação desastrosa, com medo de bandos mafiosos”.

Um dos promotores da iniciativa, Nicolas Stoquer, presidente da Confederação France Armée, explica que “foi a urgência da situação de crise que os empurrou a proceder de maneira descomplexada”.

Colocado perante o texto da carta, um diplomata francês em Bruxelas lamentou que os generais não se tenham pronunciado, em devido tempo, contra a participação das forças armadas francesas em guerras “sem razão e sem fim que estão na base da crise dos refugiados, o que prova também a incongruência das instituições europeias”. Antes dessas guerras, acrescentou, a Europa não sabia “o que era uma crise provocada pela afluência de refugiados”.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 04.04.14

Marguerite Duras faria hoje 100 anos

 

Os últimos dias da Guerra

 

   As pessoas estão nas ruas como de costume. Filas diante das lojas. Já há algumas cerejas. Compro um jornal. Os russos encontram-se em Strausberg e talvez mesmo mais longe, perto de Berlim. Espero também a queda de Berlim. Toda a gente espera por isso, o mundo inteiro. Todos os governos estão de acordo. O coração da Alemanha, dizem os jornais. As mulheres de deportados também: «Eles hão-de ver.» E a minha por­teira. Quando deixar de bater, estará tudo acabado. As ruas estão cheias de assassinos. Têm-se sonhos de assassinos. Eu sonho com uma cidade ideal, em cinzas, entre as ruínas da qual correria o sangue alemão. Jul­go sentir o odor desse sangue, é mais vermelho do que o sangue de boi, seria semelhante ao sangue de porco, não se coagularia, escorreria para longe, e, nas margens dos rios, mulheres em lágrimas nas quais eu daria pontapés no cu, e meteria o nariz no sangue dos seus homens. As pes­soas que neste momento, neste dia, sentem piedade pela Alemanha, ou antes não sentem ódio por ela, metem-me também elas dó. Muito es­pecialmente a espécie dos padres.

Um deles, nestes últimos dias, levou uma criança alemã órfã para o centro, com um sorriso nos lábios, explicando: «É um pequeno órfão.» Todo orgulhoso. Levando-o pela mão. Evidentemente, não está errado (ignomínia das pessoas que nunca erram), evidentemente que se devia ficar com ele, esse pobre rapazinho irresponsável. A espécie dos padres arranja sempre uma oportunidade para fazer caridade, a sua pequena Boa Acção alemã. E provável que, se eu tivesse esse miúdo, não o matasse, trataria dele. Mas porquê lembrar-nos que restam criancinhas na Ale­manha? Porquê lembrar-nos isso neste momento? Eu quero o meu ódio pleno e inteiro. O meu pão negro. Uma rapariga dizia-me há pouco tem­po: «Os alemães? Eles são oitenta milhões. Pois bem, oitenta milhões de balas arranjam-se, não?» Aquele que não sonhou este sonho sangrento a respeito da Alemanha pelo menos durante uma noite da sua vida, neste mês de Abril de 1945 (era cristã), está doente. Entre as voluntárias engra­vidadas pelos nazis e o padreco que traz o pequeno alemão, eu sou pelas voluntárias. Primeiro que tudo, o padreco nunca será voluntário, era pri­sioneiro de guerra, e depois, não há problema, a função clerical paga bas­tante bem ao seu homem para que ele não tenha de escolher - e pode bem perdoar todos os pecados, nunca cometeu pecados, tem muito cui­dado com isso. Que ele possa julgar-se no direito de absolver - não.

 

(in Cadernos da Guerra, Oceanos)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 31.07.13

A guerra que elas não entendem

 

A guerra que elas não entendem

 

 Nota: Chegou-me assim de várias pessoas e subscrevo.

 

É difícil comentar esta fotografia…
“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.”  

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por Augusta Clara às 17:30

Sábado, 19.01.13

Au Mali, une intervention française aux contours incertains - L'actualité vue par la rédaction

 

Au Mali, une intervention française aux contours incertains

 

(Le Monde Diplomatique)

 

 

jeudi 17 janvier 2013

 

 

Pour quels objectifs la France s’est-elle engagée militairement au Mali ? Pour empêcher des « terroristes islamistes » de prendre Bamako ? Pour reconquérir le Nord du pays ? Pour rétablir une légalité démocratique, ébranlée par une tentative de coup d’Etat ? Pour contribuer à « la guerre contre le terrorisme » et éviter la création d’un « Sahelistan » aux portes de l’Europe ?

 

Alors qu’en représailles à cette intervention, des djihadistes ont organisé une prise d’otages en Algérie qui semble s’acheminer vers un désastre, ce sont autant de questions auxquelles il n’est pas facile d’apporter des réponses, tant les déclarations officielles à Paris restent floues. Décidée dans l’urgence à l’appel d’un gouvernement à la légitimité ébranlée, cette expédition prend une ampleur inattendue, alors même que les pays africains tardent à s’engager et que les partenaires européens et américain se contentent de promettre un appui logistique. Sans buts clairs, le risque est grand d’assister à un enlisement et à faire ainsi le jeu des groupes les plus radicaux qui veulent « attirer » les Occidentaux dans des conflits sans fin : les guerres d’Irak et d’Afghanistan ont-elles réduit la menace terroriste ou l’ont-elles, au contraire, alimentée ?

 

L’expédition au Mali repose aussi la question des relations de la France avec le continent africain, de ses responsabilités, de ses méthodes d’action. Le temps de la Françafrique est, paraît-il, terminé. Pourtant, si les ressources de l’Afrique suscitent encore bien des convoitises, la volonté de contribuer à un développement économique, social et politique du continent semble absente des préoccupations européennes ou des organisations financières internationales. Mais seul ce développement peut garantir, à long terme, la stabilité et la prospérité.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 05.12.12

Deixei-a num ninho feito de terra - Albano Esteves Martins

Albano Esteves Martins  Deixei-a num ninho feito de terra

 

(Albano Esteves Martins é engenheiro civil, natural do Porto, actualmente a trabalhar em Angola)

 

(Adão Cruz)

 

   Tenta descansar, vê se dormes um pouco. Eu sei, as bombas, mas disparam à toa e estão muito longe. Estás na casa do Rei Leão, nada te acontecerá aqui. E eu volto já. Tenta descansar, tenta dormir. Deixo a Lua ligada? Se te juro que volto? Ouve só: volto. E vou trazer coisas boas para comer. Não minha filha, não trarei a tua mãe, é-me impossível, aceita-me com o que eu te posso dar. Viverás, viveremos, e encontraremos a tua mãe. Mas não hoje.

Deixei-a num ninho feito de terra e pequenos trapos no mais alto cubículo do Huambo, exactamente onde há 4 anos atrás eu e Jacinta nos abraçámos.

A guerra tinha tomado conta da cidade e cada esquina das muitas que era preciso dobrar para buscar um naco de vida, podia ser a última. Fugir da cidade implicava caminhar sobre um chão crivado de minas, de medo, um chão traiçoeiro que te deita por terra e te sepulta numa amálgama do teu próprio sangue, da tua própria terra e da tua própria carne, onde toda a ajuda que podes chorar é um tiro, limpo, numa esquina, ontem.

Ficámos assim até ao último latido do último cão.

Num olhar que já não cruzávamos há tanto tempo dissemo-nos que nada mais havia para continuar. E que não esperaríamos mais pelo fim da guerra dos outros: seríamos dois seres em paz numa cidade em guerra. E assim que sacudimos a poeira, o sangue, toda a guerra das nossas pobres roupas rompemos pela cidade de mãos dadas, num riso leve, num passo dobrado, numa nuvem do nosso amor, fulgurante, achado, reencontrado, sacudido do peso de alimentar apenas os corpos, de não lhes deixar esvair a carne.

Não houve um único tiro contra nós, não houve uma única bala perdida que nos encontrasse. Nem sei sequer o que foi na alma da chaimite que abrandou estupefacta em frente aos nossos risos e que nos seguiu com o seu canhãozito ridículo que só nos fez rir ainda mais. Sei que se assustou quando a Jacinta lhe bateu o pé e se foi. Sorrimos, outra vez, corremos outra vez com as mãos ainda dadas, talvez cantando, não sei, talvez.

A casa do Rei Leão é um cubículo na cobertura do velho Fapa, um edifício inacabado de 17 andares, na rua 5, em frente à saída para Benfica. Fomos amigos de infância mas foi lá que nos conhecemos como amantes, inocentes, claro, virgens, claro, de amor pelo menos, de amar pelo menos.

E foi lá que subimos para chorar abraçados o pôr-do-sol que sabíamos que não tardaria a ser engolido pela noite, o pôr da nossa loucura que sabíamos que não tardaria a ser engolida pela infame sanidade da sobrevivência.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. Sou o que lhe resta, quase nada.

Tenho que lhe levar um pouco de comida para depois de descansarmos tentarmos chegar ao avião que talvez poise por um momento apressado para levar os que couberem. Chegar lá não é fácil, não é seguro, não é. Mas talvez pela manhã, confundidos na pequena agitação matinal que é concedida às cidades em guerra, na hora em que os soldados, cansados de matar, adormecem.

Está fraca, esfaimada, morre a nossa filha. O meu tronco nú, os meus pés descalços, a minha fome, a minha vertigem, a minha parte da minha vida, escadas abaixo, calados, silenciosos, cheios de medo de não voltar.

Escondo-me do tanque que passa a ranger. Ouço uma rajada, um grito, um homem que morre. O tanque volta a ranger mas para longe. Vou tentar sair. Vejo agora que o meu corpo é branco, que eu sou branco, que não posso procurar nada assim, branco, branco, visível, alvo. Não voltarei se sair assim. Paro. Ouço e estranho o silêncio cortado por um outro grito. Mas não outro grito igual, não houve tiro, não houve rajada, nada rangeu nem o grito foi de dor ou raiva de nenhum homem. A mãe águia, o ninho da águia, como não me ocorreu, como? Subo, subo, corro escadas acima, subo, grito baixinho já vou, estou a chegar minha pequenina.

O ninho lá estava, no mesmo sítio onde onde eu e Jacinta ajudámos o seu filhote a voltar ao ninho. Deixa-me amiga, não ouço as crias, são ovos, tens quantos ovos? Deixa-me, salvei-te um filho um dia, salvo-te estes também deste mundo de tiros, de guerras, de gente malvada que mata crianças de tristeza e homens de razão. Deixa-me. Voa.

Não voou logo, não sei, deixou-se cair, talvez pensasse, não sei, asas abertas, desceu pelos ares abaixo sem me olhar, sem hesitar, parecendo saber tudo. No lugar dos ovos encontrei pequenas penas, velhas, sinais de que há muito as novas águias teriam já partido. Não faz sentido, o que faz aqui a águia se não há ovos, se não há crias?

Cambaleio para o cubículo, para a Teresinha.

Sou o que lhe resta, nada.

Sobre a cama de terra, já fria, uma pedra sobre um papel azul sem nada escrito. Entre os dois, uma pena de águia, enorme, linda.

 

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por Augusta Clara às 18:00



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