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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Goulão A Síria depois de Munique
Mundo Cão, 16 de Fevereiro de 2016
As centrais de propaganda postas em acção no âmbito do projecto de destruição da Síria, a pretexto da instauração da democracia, receberam os resultados da reunião internacional de Munique com inegável contrariedade e, desde então, lançaram uma onda de confusão e desinformação para abafar os passos no sentido da pacificação do país que foram dados na capital bávara.
Como se percebe olhando as páginas dos principais diários e semanários europeus, e dedicando alguma atenção aos serviços noticiosos radiofónicos e televisivos, os russos passaram a ser os maus da fita, violadores ostensivos de um pretenso cessar-fogo. Bachar Assad reapareceu como o demónio a quem os russos sustentam e, para que conste, os grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Al-Qaida quase parecem pobres vítimas da clique de Damasco.
Passemos então em revista os resultados da reunião do Grupo Internacional de Apoio à Síria realizada há dias em Munique e as suas repercussões no teatro de guerra.
O grupo integra 17 países, designadamente os Estados Unidos e a Rússia, as principais potências da União Europeia, a Turquia, Israel, Qatar e Arábia Saudita. A reunião reafirmou a validade das resoluções 2253 e 2254 do Conselho de Segurança da ONU e também o acordo de Genebra de 2012, que determinam como objectivo a formação em Damasco de um governo de união nacional estabelecido por consenso mútuo – isto é, ao contrário do que países como a França e a Arábia Saudita continuam a insistir, o presidente em exercício, Bachar Assad, deverá ser parte da solução. O que Munique veio clarificar foi a exclusão dos grupos terroristas do processo de união nacional, uma vez que não depuseram as armas; pelo contrário continuam a recebê-las e a engrossar em número de mercenários, devido aos apoios logísticos e financeiros incessantes da Turquia e da Arábia Saudita.
Em termos práticos, a reunião de Munique entregou o processo negocial ao secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e ao ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov. O negociador da ONU fica, de facto, sob a tutela destes; ao secretário-geral adjunto da ONU, Geoffrey Feltman, é retirado o dossier sírio. Esta decisão é da máxima importância: Feltman foi um dos ideólogos golpistas da Ucrânia e, como representante dos falcões neoconservadores de Washington, tem usado o cargo para sustentar, sem excepção, os grupos terroristas introduzidos na Síria. Por isso, na reunião de Munique foi deliberado que os apoios humanitários a desenvolver a partir de agora serão apenas isso: humanitários. Feltman utilizava-os para abastecer os grupos terroristas, Estado Islâmico incluído, o que está abundantemente provado.
A decisão de Munique que tem merecido os favores mediáticos como objecto de confusão, de modo dar a impressão de que as tropas russas e de Damasco estão a violá-la, é a declaração da cessação de hostilidades prevista para dentro de dias.
Na verdade, essa trégua ainda não está em vigor. Por outro lado, o acordo de Munique não só legitima a intervenção russa, iniciada em 30 de Setembro do ano passado e que alterou profundamente os dados da guerra, como salvaguarda a continuação da guerra contra quatro grupos terroristas: Daesh ou Estado Islâmico, Al-Nusra ou Al-Qaida, Ahrar el-Sham (Movimento Islâmico dos Homens Livres da Síria) e Jaysh El-Islam (Exército do Islão). O Ahrar el-Sham é apoiado pela Turquia e o Qatar, treinado por instrutores paquistaneses e tem ligações aos talibãs afegãos; O Jaysh El-Islam está subordinado à Arábia Saudita, os seus instrutores pertencem ao exército privado norte-americano Blackwater-Academi e tem ligações à Al-Qaida.
Perante este jogo de interesses percebem-se as ameaças proferidas precisamente pela Turquia e a Arábia Saudita, cujos governos se declaram prontos a invadir a Síria. O primeiro-ministro turco disse nas últimas horas que “não permitirá” a “queda” de cidades sírias fronteiriças nas mãos do exército de Damasco. Isto é, uma potência estrangeira, por sinal da NATO, declara-se disposta a impedir militarmente que o exército de um país restaure a soberania e a integridade desse país. Esta sim é uma violação grosseira do direito internacional e dos acordos já negociados sobre a Síria.
O acordo de Munique e a reafirmação da validade do acordo de Genebra de 2012 só foram possíveis com a alteração da relação de forças no cenário de guerra, decorrente da intervenção russa iniciada em 30 de Setembro e da ofensiva terrestre do exército sírio lançada em 6 de Janeiro deste ano. Em quatro meses, os aviões russos destruíram a maior parte das fábricas de armamentos e munições usadas pelos grupos terroristas, dos bunkers subterrâneos, dos depósitos de combustíveis e meios de contrabando de petróleo, centros de comando e comunicações do Estado Islâmico e da Al-Qaida. A ofensiva terrestre síria libertou várias frentes, aeroportos, vilas e aldeias na maior parte do país, com excepção dos bastiões terroristas do nordeste.
Os resultados da ofensiva russa fizeram ruir o boicote contra o acordo de Genebra de 2012, montado pelos neoconservadores norte-americanos sob a designação de “amigos da Síria”, apoiados por Alemanha, França, Reino Unido, Turquia, Israel, Arábia Saudita, Qatar e também pela Exxon-Mobil, a Blackwater-Academi e pelo fundo de investimento KKR. São fáceis de perceber a ambiguidade e mesmo a contrariedade manifestadas pelos países citados, com destaque para a França, a Arábia Saudita e a Turquia, perante o protagonismo da Rússia e dos Estados Undos chancelado na reunião de Munique, e que traduz uma pronunciada guinada da administração Obama perante o problema sírio. Esta viragem da Casa Branca não é mais do que o alinhamento com o parecer do poderoso grupo de pressão Rand Corporation, que já no Outono de 2014 chegara à conclusão de que a integridade territorial e a pacificação da Síria, com um governo estável em Damasco, é a solução mais favorável aos interesses dos Estados Unidos.
Não é a Rússia que viola os acordos que vão sendo estabelecidos sobre a Síria; é a União Europeia que, mais uma vez, está a perder o comboio, atrelando-se desta feita às ditaduras islâmicas da Turquia, Arábia Saudita e Qatar e, na prática, aos seus ramos terroristas em acção. Entretanto, o primeiro ministro de François Hollande, Manuel Valls, conseguiu inscrever o estado de emergência na Constituição do país da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Diz ele que é para “combater o terrorismo”.
Robert Fisk Os EUA e os ataques de Israel à Síria
Publicado no Esquerda.Net em 7 de Maio de 2013
Os iranianos e o Hezbollah são acusados de intervir na Síria, o Qatar e a Arábia Saudita canalizam armas para os rebeldes e agora os israelitas também entraram.
Luzes no céu sobre Damasco. Outro raide israelita – “ousado”, é claro, nas palavras dos apoiantes de Israel, e o segundo em dois dias – contra os arsenais e instalações militares de Bashar al-Assad. A história já parece familiar: os israelitas queriam evitar que um carregamento de mísseis iranianos Fateh-110 chegasse às mãos do Hezbollah no Líbano; essa carga estaria a ser enviada pelo governo sírio. Pelo menos, segundo uma “fonte da espionagem ocidental”. Anónima, evidentemente. E abrindo a velha questão: por que motivo, no momento em que o regime sírio luta pela vida, iria enviar mísseis modernos para fora da Síria?
Mas os próprios sírios confirmaram oficialmente que os israelitas atingiram instalações militares. E não pela primeira vez durante a rebelião. O Fateh-110 – a nova versão, pelo menos – tem um alcance de talvez 250 km. E podia realmente atingir Tel Aviv a partir do Sul do Líbano. Se o Hezbollah de facto adquiriu algum. Mas por que os sírios os enviariam, como afirmaram também fontes dos EUA na noite passada, quando os próprios americanos disseram em dezembro que os sírios tinham usado os mesmos mísseis terra-terra contra as forças rebeldes na Síria?
Por outras palavras, o regime sírio estaria preparado para dispensar os seus foguetes para o Líbano quando já os estava a usar na brutal guerra na Síria... Agora há outras perguntas a fazer. Se a força aérea síria pode usar os seus MiGs de forma tão devastadora – e com tantos custos civis – contra os seus inimigos no interior da Síria, por que não teriam podido enviá-los para proteger Damasco e atacar os aviões israelitas? Não é suposto que a força aérea síria proteja o país de Israel? Ou os MiGs simplesmente não têm condições técnicas de enfrentar o equipamento avançado israelita (americano)? Ou isso seria ir demasiado longe?
Muito mais importante, contudo, é o facto de Israel estar a intervir na guerra síria. Pode dizer que o seu alvo eram apenas as armas destinadas ao Hezbollah – mas estas armas também estão a ser usadas contra as forças rebeldes sírias. Ao reduzir o arsenal destas armas, está desta forma a ajudar os rebeldes a derrubar Bashar al-Assad. E como Israel se considera uma nação ocidental – o melhor amigo e melhor aliado militar dos EUA no Médio Oriente, etc., etc – isto significa que “nós” estamos mais uma vez envolvidos na guerra, diretamente e em ações aéreas.
Vamos ver se os EUA e a UE condenam os ataques aéreos israelitas. Duvido. O que significaria, se ficarmos silenciosos, que os aprovamos. Silêncio, para citar Sir Thomas More, significa consentimento.
Assim, os iranianos e o Hezbollah são acusados de intervir na Síria – o que é verdade, apesar de essa intervenção não ter a extensão que nos querem fazer crer – e o Qatar e a Arábia Saudita canalizam armas para os rebeldes – verdade, mas não são suficientes, como vos dirão os rebeldes sírios – e os israelitas também entraram. Agora estamos militarmente envolvidos.
Robert Fisk escreve para o Independent. Esta coluna foi rebuplicada pelo Counterpunch e traduzida por Luis Leiria para o Esquerda.net.
Israel ataca instalações militares sírias
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