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Jardim das Delícias


Domingo, 04.10.20

GUERRA DA GUINÉ - Já não sei precisar, mas creio ser em Canquelifá- 1966 Os meus queridos "clientes" à espera da consulta de pediatria.

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por Augusta Clara às 22:37

Sexta-feira, 18.09.20

GUERRA DA GUINÉ -1967 BEGENE

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BEGENE

 

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   Esta velhota, fumadora de cachimbo, veio um dia ter comigo porque tinha o “Verme-da-Guiné”. Chamávamos a este verme “Dracontia”. Embora Dracontia seja o nome de uma das vinte e cinco mil espécies de orquídeas,  aqui  é  um parasita denominado “Dracunculus Medinensis” o qual produz uma doença chamada “Dracunculíase”. Pertence ao grupo das “Filarias” e é um parasita que é transmitido pela água infectada com larvas de Dracunculus. No intestino acasala-se com os machos, que depois morrem, e em seguida infiltra-se na pele, no tecido celular subcutâneo ( gordura debaixo da pele), onde cresce e se desenvolve, podendo atingir o tamanho  de um metro. Aloja-se em qualquer parte do corpo, mas aparece sobretudo nas pernas e abdómen. Não tem tratamento, podendo  causar graves infecções e processos inflamatórios. Vi alguns casos, e felizmente todos bem sucedidos, graças a uma técnica que alguém inventou, e quem a inventou, não há dúvida que “tinha esperto no cabeça”. Reparem bem na maravilha desta invenção. O parasita vem pôr os ovos (um a três milhões) quando está dentro de água. Para isso abre um pequeno orifício ulceroso e muito doloroso, onde enfia uma espécie de cabeça, semelhante ao escolex da ténia. Nesta mulher, essa úlcera estava na parte interna da perna, logo acima do tornozelo. Então, com uma pinça, agarra-se a cabeça, puxa-se suavemente para fora alguns centímetros (nunca por nunca partir ou romper, pois dessa forma fica o caldo entornado e nunca mais o conseguimos tirar), e enrola-se num palito, fixando-o à perna com adesivo. Ao outro dia, como o verme se sente preso, sai um pouco mais para o exterior e enrolamos mais uns centímetros, fixando de novo com adesivo. E assim sucessivamente, todos os dias, até sair por completo, o que pode levar semanas. Associamos alguma medicação analgésica, anti-infecciosa e anti-inflamatória.

Em 1986 havia cerca de 3,6 milhões de casos. Nesta altura, o Verme-da Guiné, existente em muitos outros países, está praticamente erradicado.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 15.09.20

GUERRA DA GUINÉ – 1966 CANQUELIFÁ

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CANQUELIFÁ

Eu estou à direita na foto. À minha direita o fi

Eu estou à direita na foto. À minha direita o filho do Régulo, a seguir o alferes Duarte e depois o Anso, chefe da milícia negra, que segundo constou foi fuzilado após a independência.

 

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A Meswuit

 

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A Sé Catedral

 

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O sino era uma jante de carro

 

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Os dois gémeos, filhos  do Anso, duas perolazinhas negras com quem eu, por vezes, me entretinha.

 

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À entrada da palhota do Régulo, que muitas vezes me convidava para beber qualquer coisa com ele.

 

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O Régulo, de óculos. Régulo do Pachisse ou Pachisi, não sei bem, uma região do Gabu Sara que nunca consegui definir ao certo.

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por Augusta Clara às 13:42

Quinta-feira, 10.09.20

GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico

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   O que está do meu lado esquerdo, de barbas, é o furriel Pimentinha, meu furriel enfermeiro, que ainda hoje me telefona uma a duas vezes por ano. A sua profissão, antes de vir para a guerra, era electricista, electricista do Hotel Estoril-Sol. Pois, meus amigos, transformou-se num excelente parteiro e melhor puericultor. Leu e releu a minha sebenta de obstetrícia e deixava os bébés todos perfumadinhos e polvilhados de pó de talco, o que fazia a delícia das mães.
 
Duas histórias sobre o Pimentinha:
 
Primeira:
Um dia de madrugada, apareceu uma parturiente com uma apresentação de pelve, isto é, com o bébé a nascer de rabito em vez da cabeça. É um parto difícil e perigoso. Tentei, quanto sabia, algumas manobras, o mais suaves possível, mas não fui bem sucedido. Virei-me para o Pimentinha e disse: - meu caro Pimentinha, logo que comece a raiar a manhã, peça uma evacuação “Y” (urgente) de helicóptero, para levar esta mulher para Bissau, e fui-me deitar. Algum tempo depois, entra o Pimentinha no meu quarto, dizendo cheio de entusiasmo: - sr. Dr. o catraio já está cá fora. Com muito jeitinho lá consegui tirá-lo.
 
Segunda:
O Pimentinha ia de avioneta a Bissau, acompanhar um soldado que tinha um enorme hidrocelo (líquido nos testículos). Logo pela manhã, a avioneta, uma Dornier levantou voo e meio minuto depois estatelou-se no solo. Felizmente não morreu ninguém, apenas o piloto fracturou uma vértebra. A carlinga da avioneta passou a ser a casota do nosso macaco.

 

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por Augusta Clara às 17:08

Sexta-feira, 28.08.20

GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS) A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS). A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses

   O velho Uíge atracou em Bissau no dia 13 de Maio de 1966. Entrámos dentro do forno da cidade. Aí aguardei um mês até ao meu destacamento para o mato. Eu e o meu colega e amigo Gomes Pedro, hoje professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Pediatria do hospital de Santa Maria. Ele seguiu para Cuntima, no norte da Guiné, perto da fronteira do Senegal, e eu embarquei para Canquelifá, no leste, próximo da fronteira com a Guiné-Conackry.

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Um velho Dakota levou-me até Bafatá. Dentro do avião, além de mim, ia o piloto, o co-piloto que tinha meia cara feita numa cicatriz, uma mulher negra sentada sobre o caixão do filho e um capitão que eu não conhecia de lado nenhum. Este capitão desembarcara momentos antes no aeroporto de Bissalanca, vindo do Porto, e seguia directamente para o mato. Confessou-me que transportava consigo alguma angústia, pois deixara para trás mulher e nove filhos. Três meses depois encontrámo-nos em Begene, no norte. Reconhecemo-nos e tornámo-nos muito amigos. Era o capitão Brito e Faro.

De Bafatá segui numa Dornier (foto) até Canquelifá, fazendo uma curta escala no Gabu-Sara, pequena povoação chamada cidade de Nova Lamego.
Permaneci em Canquelifá durante o terceiro trimestre de 1966. Muitas coisas boas e más aconteceram durante esse tempo. Relatá-las levava um livro. Na foto o “corpo clínico”. Eu, o meu furriel enfermeiro Alvim e maqueiros.

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Como sempre gostei muito de crianças, deixo aqui apenas três momentos como referência das coisas boas dessa minha estadia, e que são três pequeninos poemas dentre os muitos que em mim floriram nesse tempo.

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Fátima Demba, a minha companheira de todos os dias.

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Este miúdo, cujo nome já se me escondeu no fundo da memória, percorria semanalmente cerca de vinte quilómetros pelo meio do mato, para me vir consultar, trazendo-me sempre uma velha lata com meio litro de leite. Tinha um fígado do tamanho da barriga.

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Os dois gémeos filhos do Anso, dois enternecedores bebés que me preencheram alguns momentos de solidão. O Anso era chefe da milícia integrada na nossa companhia. Emprestava-me, muitas vezes, uma velha espingarda de carregar pela boca, para eu caçar uns patos na bolanha. Constou-me que fora fuzilado após a independência.

 

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por Augusta Clara às 17:19

Segunda-feira, 25.05.15

Pequenas grandes verdades - Adão Cruz

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Adão Cruz  Pequenas grandes verdades

 

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 (Rio Cacheu)

 

   Fiquei sempre com esta paradigmática sensação desde que, por volta de 1970, encontrei no átrio da Faculdade de Medicina da Salpétrière, em Paris, um busto holográfico de Hipócrates que parecia dizer-me: Mon fils, la vie est le chemin pour la rencontre de nous-mêmes. Mas já muito antes, na guerra colonial, as longas horas a olhar para o vazio se enchiam inesperadamente de pequenas explosões, não de granadas, mas de pequenas grandes verdades de um pensamento acorrentado à la rencontre de nous-mêmes.

Sentado numa pedra junto à margem, no meio do dilema entre vida e suicídio, depois de encontrar um dedo humano na boca do peixe-serra que tinha um fígado de um metro quadrado, dizia o filósofo, condenado a mais nove meses de mato por tentar embarcar para a metrópole uma G3, com o fim de matar o sogro que lhe havia violado a mulher: este é um sítio porreiro para alguém se suicidar, não acham? Mas não havia ninguém à volta para receber a pergunta. Concluiu que falava para si mesmo: Ora merda, ninguém me ouve. Mas têm de concordar que é um poço fundo, tão fundo que não dá tempo para chegar vivo lá abaixo.

A verdade procura sempre o amor na densidade dos processos e na empatia do sofrimento, clamava bem alto o meu amigo arquitecto, pés bem assentes no escuro do pequeno cais de madeira, entre a amplidão do espaço de uma noite estrelada e os limites das margens do Cacheu. Muito se tem falado sobre o facto de umas coisas da vida imitarem as outras ou não coincidirem com as outras. Não se trata de uma questão de imitação ou discordância, mas de procurar saber o que acontece quando duas coisas se juntam naturalmente para criar algo de novo, isto é, saber o que acontece se ambas descobrem a verdade absoluta ou se a verdade absoluta não é mais do que a verdade relativa e circunstancial dos momentos das nossas vidas. Não entendi muito bem mas compreendi perfeitamente porque é que ele trazia debaixo do braço meia dúzia de discos de Beethoven, em vez da espingarda.

Assim que for dia, se dia chegar a ser nesta escura paisagem, lembraremos o amigo que na véspera escrevia versos com sangue da primeira bala, com a força da vida que cedo se apagou na segunda bala, gritando entre sonhos para os jagudis que o miravam e esperavam comer-lhe o corpo: o valor simbólico da percepção da vida está para além das filosofias baratas, e lembra que entre as grandes verdades da vida, outras mais pequenas se encontram a uni-las, como o amor, a poesia…e a morte.

A lua ia já muito alta e caía a pique nas águas fundas do Cacheu. Eu e o padre capelão embarcávamos numa lancha LM, semelhante às que fizeram o desembarque da Normandia, em direcção a Binta que ficava vinte milhas a norte. Ele levava como missão confortar as almas e eu levava como missão tratar uma caganeira geral do pelotão que ali se encontrava. A margem esquerda do Rio Cacheu, o Ohio, era uma mata completamente cerrada de tarrafe, e território dos guerrilheiros. A meio do caminho, nas entranhas do mais absoluto silêncio, apenas apunhalado pelo arrepiante pio de alguma ave nocturna, o padre perguntou-me: o que é para si a verdade? E eu respondi: neste momento, para mim, a verdade não é esta enorme lua andar à volta da terra, mas as bazucas que eventualmente estarão por trás do tarrafe e nos farão mergulhar no fundo do rio, onde uma legião de jacarés esfomeados nos espera. A verdade para mim, caro padre, está no facto de estarmos aqui os dois, no coração da selva, sem termos a coragem de confessarmos um ao outro que não nos cabe um feijão no dito cujo. O Senhor com o breviário e eu com Les Damnés de la Terre, duas realidades completamente diferentes, unidas pela força de uma pequena verdade circunstancial.

E o Padre, com duas lanchas no fundo do rio desde há dois meses, ancoradas na sua cabeça, pedia explicações não se sabe a quem: Alguém tem de me indicar a saída da noite sem regresso, não pode haver quem não saiba o caminho da derradeira fome, do calor do resto de lume do último verso, não acha caro doutor? E eu respondi: já viu estes passarinhos fritos, amavelmente e inesperadamente oferecidos por dois fuzileiros no meio do rio Cacheu, noite fora, nos confins da selva? Somos quatro dentro de uma lancha perdida no tempo, meu amigo, dois fuzileiros, um crente e um ateu. Enquanto deus anda à deriva, esta metralhadora com balas do tamanho de um palmo, não.

Os gritos sem voz das mães dos filhos que por aqui ficaram nem sequer beliscavam o silêncio. Não havia mães nem filhos nem momentos de aflição. Apenas medo. A sensação de que o tempo era de morte e a superfície espelhada do rio um vidro vermelho de sangue deu-nos para conversar: a noite e o vazio estão na origem cosmológica do mundo. Sofrer pode ser apenas sorrir. A pequena grande verdade do ser dissolve-se na tensão interna de quem ama a vida. Não será verdade? E o fuzileiro, ainda com alguns passarinhos na sertã de meio metro de diâmetro avançou: já fiz muitas missões por este rio fora, mas nunca com um padre e um médico. Uma bênção e um privilégio, mas que, nem por sombras me dão a segurança desta Browning. E deu um beijo na metralhadora.

 

Já a lua se havia sumido e o sol faiscava nas três ou quatro garrafas vazias, quando abrimos os olhos, estendidos no convés. Ainda ecoavam nos ouvidos as pequenas grandes verdades libertadas pelo estimulante whisky que só os fuzileiros conseguiam no contrabando: Parecendo às vezes um lago tranquilo de um qualquer paraíso, diz o segundo fuzileiro…e embora os rios corram para o mar, este parece nascer do mar, avançando sobre nós e tentando afogar-nos como aconteceu no último afundamento da lancha. Pois é, comenta o padre: parece uma blasfémia, mas os desígnios de Deus nada mais são do que interacções sensoriais e perceptivas entre realidades virtuais e realidades reais indispensáveis à compreensão da vida e do papel do ser humano. Esta grande verdade nada mais produziu nos presentes do que um eructante soluço.

Não se riam. Assim como a dor transforma em humilde ignorante todo o que a sofre, também a mente humana no meio do cagaço discorre sabiamente sobre todas as filosofias, respondi eu, com as palavras ainda envoltas em vapores etílicos: nada se confunde plenamente, nada se distingue de forma absoluta, mas toda a nossa vida comporta áreas de intersecção muito importantes. Na relação gemelar entre os seres humanos só a queda da hegemonia dos disparates torna possível as pequenas verdades da simplicidade da vida no seu sentido antropológico.

 

Ao fim de dois dias, estancada a diarreia e reacesa a luz do Espírito Santo, alguém levantou, mais ou menos a despropósito, não o modus faciendi do seguimento para norte, mas a questão da transdisciplinaridade da vida, relação profunda e não superficial entre os saberes, uma das atitudes e estratégias fundamentais no avanço do conhecimento para a justiça, para a ética, para a solidariedade e cidadania, a fim de acabar com a puta da guerra. Dizia o alferes, já no fundo da garrafa de bagaço que trouxera de férias: Ainda há quem pense que existe um qualquer tipo de antagonismo entre imaginação de natureza poética, política, e bélica, mas não há. O que há é uma relação podre entre a razão e anti-razão, levando à morte das pequenas verdades e à destruição do ser humano.

 

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 (entre Binta e Guidage)

 

Ora, nada destas filosofias tinha a ver com a terrível picada de vinte quilómetros que tínhamos pela frente, através da selva, durante sete horas, entre Binta e Guidage, já na fronteira do Senegal, a fim de acalmar alguns apanhados da cuca, pertencentes ao pelotão que lá se encontrava desterrado. O ataque de um enxame de abelhas selvagens a meio do caminho, ataque mais temido do que uma emboscada, foi uma daquelas pequenas grandes verdades que se agarram como crude ao caminho da memória. Como não havia qualquer deus na farda do padre capelão a receber as angústias dos homens, concedi a mim mesmo a difícil tarefa de ser eu o senhor e dono do nosso desígnio. Com muita sorte e pequenas verdades dentro de uma caixa de ampolas de hidrocortisona, conseguimos reverter dois graves choques anafilácticos.

Diga-me lá meu caro padre, de que nos servem as grandes verdades?

Servem para lhe pagar, com todo o gosto, a pequena verdade de uma cerveja, quando chegarmos a Guidage.

 

As pequenas grandes verdades da vida continuam a dizer-me que a relação do Homem com os inúmeros fenómenos que o rodeiam, com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende, é a mais poderosa essência da vida. A razão do Homem, fruto da obediência ao facto de existir…é um facto. Três perguntas: não será esta cerveja saída do fundo do bidon de gelo para uma goela a quarenta graus, um milagre?

Acha que algum dia a terra engolirá os exércitos genocidas que se empanturram de vidas e se embebedam de sangue para glória do Senhor dos Exércitos?

Há alguma razão para andar com um colar de orelhas ao pescoço ou dar um sabonete Lux às bajudas e fuzilá-las de seguida?

O capelão, com um pé no Senegal e outro na Guiné – a fronteira era o caminho da fonte – encolheu os ombros, sorriu e sentenciou: sempre haverá espinhos nos olhos e aguilhões nos flancos da vida.

Sim, respondi, sempre haverá grandes verdades na noite do Homem.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 02.07.14

O parto - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O parto

 

 

O Adão Doutor - 1967

 

   Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes.

Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituia um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava.

Com o tempo as janelas foram-se abrindo e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.

As mulheres de Begene e não só de Begene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista- das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode.

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde. Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante.

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura.

Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca àcerca de infec­ções e higiene, àcerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente.

Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse.

Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento.

Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné.

Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe.

Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

"Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu.

A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?...

A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de ADÃO DOUTOR".

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 06.06.14

O Tanque - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O Tanque

 

 

(Manuel Cruz)

 

 

   O alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Begene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo que eu,  o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade.

Amigo desde o acampamento da  Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.

Embarcamos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do movimento nacional feminino e o malabarístico safanço dos filhos e patriotas da situação.

Embalados pelas ondas do mar da Mauritânia e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo. demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.

O Alferes Almeida e eu, pertencíamos à mesma Companhia.

Eu como Médico e ele como atirador, comandante de pelotão.

Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné, estivemos separados.

Fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da República da Guiné-Conacry.

Ele esteve de intervenção durante algum tempo.

Quando a Companhia se fixou em Begene já eu lá me encontrava.

Um avião fora buscar-me a Canquelifá para vir prestar assistência à última Companhia de farda branca que em breve regressaria à metrópole, sendo substituída por aquela em que estávamos integrados.

De novo juntos, o Alferes Almeida e eu, programamos o nosso futuro no sentido de transformar os dias quentes e incertos que se anteviam, nos melhores dias da nossa vida.

Outra coisa não era de esperar do seu espírito folgazão e irrequieto, da sua grande alma de vinte anos.

E vivemos juntos acontecimentos fabulosos.

Ele era todo patriota, à sua maneira.

Cascava nos colonos a cuja família pertencia, e gramava bestialmente os pretos.

Mas soberania era soberania, e por isso ali estava para a defender.

Ele lia na altura Morreram pela Pátria de Mikail Cholokow.

Eu lia Os Condenados da Terra de Frantz Fanon, que ele dizia ser a minha bíblia de anticolonialista subversivo.

Penso, no entanto, que poucas pessoas gostaram tanto de mim como aquele moço.

Ajudou-me, quase sem querer a conhecer as gentes e os costumes da Guine, e contribuiu de forma sublime, ainda que um tanto inconsciente, para o maravilhoso entendimento do internacionalismo, do anti-racismo e solidariedade entre os povos.

Julgo que se ele tivesse vivido até a fim da comissão deixaria de chamar turras aos guerrilheiros que o mataram.

Foi num dia em que eu me sentia muito triste.

O Almeida procurou animar-me, lembrando-me o chuveiro que havíamos inventado a partir de um bidon e de um ralo de regador, e que borrifava sobre nós mais belos minutos do dia.

Desta vez um tanque que construímos com uns restos de cimento encontrados numa arrecadação, e que iria proporcionar-nos, apesar da sua estreiteza de três metros por um, algumas belas banhocas.

A inauguração estava marcada para esse dia e o Almeida, atrevido, imprudente e um tanto irresponsável, já se tinha deslocado sózinho a Barro para arranjar galinha que servisse de manjar no festejo.

Barro era um pequena aldeia nativa a onze quilómetros de distância, onde a Companhia mantinha um pelotão.

Toda a picada estava minada e as emboscadas eram constantes.

Mas a galinha estava do lado de cá.

A meio da madrugada o Almeida acordou-me:

-  Já que não vens comigo fazer a patrulha, meu cobardesito de merda, fazes um bom xabéu com essa galinha, para mereceres o mergulhe no tanque.

Eu respondi-lhe:

- Tem mas é juizinho nessa bola, não te armes em herói, senão nem a galinha comes.

- Cobarde, um cobardesito é o que tu és, retorquiu sorridente, com um aceno amigo que nunca mais haveria de fazer.

Eram dez horas da manhã quando a nossa velha GMC irrompeu pela cerca de arame farpado, em correria demasiada para o seu velho e gasto motor, como se ela própria sentisse  tragédia que transportava no bojo: o corpo do Alferes Almeida, crivado de balas dos pés à cabeça.

Puxei de um cigarro mas não consegui segurá-lo entre os dedos.

E nunca tomei banho no tanque.

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim, 1994)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 06.09.13

A guerra colonial, os crimes de guerra e os retornados - Carlos Esperança

 
Carlos Esperança  A guerra colonial, os crimes de guerra e os retornados
 
 
 
   Há quem, justamente, desaprove o apodo de “retornado ressentido” com que qualifico Passos Coelho e outros adversários implacáveis do Estado de direito e dos direitos sociais dos portugueses.
Entendamo-nos. Fui combatente na guerra colonial e não deixo de condenar os crimes cometidos por militares portugueses, varridos para debaixo do tapete.... O culpado maior de todos os crimes foi o salazarismo, responsável por uma guerra injusta, criminosa e inútil, quando éramos tão atrasados que até a aceitar o direito dos povos à autodeterminação fomos os últimos.
Mas não podemos esquecer os massacres, perpetrados durante a guerra colonial, de que Wiriamu  ficou como paradigma da violência gratuita e da crueldade assassina. Não nos julguem como se todos fôssemos o alferes Robles ou o comandante Alpoim Calvão que Cavaco continua a condecorar.
Não sou insensível aos dramas dos retornados, alguns familiares meus, entre os quais conto numerosos amigos e correligionários. Sinto orgulho na forma como Portugal acolheu as vítimas da independência das antigas colónias, rapidamente integrados e que muito contribuíram para o progresso do País.
Não sou xenófobo. Não me move o mais leve resquício de vingança contra quem julgou erradamente ser legítima a guerra que envolveu um milhão de jovens portugueses, onde morreram vários milhares e um número, incomparavelmente maior, ficou estropiado e ainda hoje lambe as feridas e suporta os traumas.
Tal como não esqueço os bombardeamentos sobre palhotas, onde arderam mulheres e crianças, também não esqueço os retornados que incendiaram sedes do PCP e do PS no país que também era seu e que tudo fazia para minorar a tragédia dos que regressaram, como não esqueço os terroristas que entusiasticamente aderiram ao ELP e ao MDLP.
Ser retornado, tal como ter sido militar na guerra colonial, não é crime, é uma desgraça comum. Crime é defender a legitimidade da guerra em que se participou ou vingar-se de ter sido vítima da descolonização. É este último defeito de Passos Coelho que execro e não deixarei de denunciar até o ver removido das funções que nominalmente exerce.
De uma vez por todas, aqui ficam a explicação e o contexto em que, na minha opinião, é justo designar como retornado ressentido, vingativo e incompetente o atual PM.
 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 13.03.13

Aerograma (Carta de um soldado de Calambata) - João de Melo

João de Melo  Aerograma (Carta de um soldado de Calambata)

 

 

   À serra da Canda, amor, aos morros do Seixel vai demoradamente fixar-se a amargura das noites de guerra. Calambata, sabes?, é uma trégua fuzilada, um morto que não morre mas adormece. Aqui o tens vivo, as mãos fechadas sobre a sua metralhadora. Pior do que estar de sentinela, pior que tudo são as chamas ao longe, os olhos que me vigiam. Sente-se um homem espiado pelas próprias árvores, ouvindo carrilhões impossíveis na calada da noite. Escrevo-te, amor, por não saber nem o dia nem a hora. Com o medo de estar apenas vivendo à beira do medo. Que escrevo. Colunas partem à Magina, recebem de volta a notícia dos ataques aos quartéis do Norte, o M'Pozo, a Mama Rosa, a Madimba, o Luvo, e a gente pensa que há-de ser um dia também a destruição de Calambata, amor. Amor, diz-se já que Calambata é apenas o som da nossa respiração: ama-se a vida devagarinho, como nos repugna o cheiro a bálsamo dos mortos que partem a qualquer hora do dia. Palavras dispersas pingam da infusa do silêncio. Palavras. As palmeiras, por exemplo. Os imbondeiros, as mulembas. Perderam a memória dos séculos. Um dia, amor, as armas serão somente objectos de museu: os campos hão-de lavrar-se com charruas, nas oficinas trabalharão bigornas, puas, enxós, o esmeril das mãos que nos combateram, e a piaçaba dos cabelos encher-se-á da poeira das madeiras, nas serrações. Era bom, amor, que se ouvissem os guindastes nos cais, os alcatruzes das noras, o uivo do vento nas grandes searas do Sul. Bom que o mar erguesse a voz um pouco acima do sal até à alegria das lágrimas. Amor, é provável que não existam brancos inimigos nas picadas de Nambuangongo. Os brancos não podem, amor, continuar aqui nas serras da Calambata, a alimentar a morte das minas, dos morteiros, dos canhões. Será chegado o tempo, de se cobrirem as crateras das granadas, de despoletar os trilhos, de pintar os furos das balas no corpo das árvores da Binda. Por isso te escrevo, amor, antes da minha morte. Nunca pisei uma lavra de milho ou mandioca, sabes? Escrevo. Não chicoteio o suor do negro da tonga. Não troco meu sapato velho, minha cerzida camisa, meu garrafão de aguardente, pelo corpo da menina no alembamento. Escrevo, amor: reconstruí vós as sanzalas de quantos se foram embora, para que possam ainda regressar, viver. Pergunta-lhes por mim, amor. O que fazia. O que inventava por vezes. O que escrevi eu aqui. Que branco caçambuleiro esse, que diferente estava me chamar ainda? Que branco esse, polícia lhe tinha raiva, lhe estava sempre xingar a voz da denúncia, quase mesmo ia caindo na prisão do esquecimento? Que branco, amor? Minha pele tem o ardor das anchovas da ração de combate, da pasta de fígado (os perseguidos guerrilheiros sul-africanos, lembras-te, amor?). Mas tudo isso eu fui trocando pelo desejo e pelo gosto da moamba de galinha e pelo ácido do abacaxi com pancadinha discreta na curva do ombro, como a dizer: coragem!
É o que escrevo aqui, agora, sentado na noite. No sítio onde estou, amor. De frente para os morros que cercam Calambata cercada de guerra pelo Norte. A pensar, amor, que há em mim um morto que não morre.

(in «Autópsia de Um Mar de Ruínas», romance, 7ª.ed.)

(Respigado de "Navegar é Preciso")

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por Augusta Clara às 15:00



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