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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 12.08.15

Uma agressão que prossegue - José Goulão

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José Goulão  Uma agressão que prossegue

 

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Mundo Cão, 11 de Agosto de 2015

 

   Quarenta anos depois de terem sido escorraçadas do solo vietnamita, levando consigo um escabroso Nobel da Paz atribuído a um fabricante de ditadores chamado Henry Kissinger, as tropas imperiais continuam a matar. Os sinais da agressão terrorista dos Estados Unidos da América contra o povo do Vietname, cometida no âmbito da cruzada permanente supostamente para expurgar o comunismo da face da Terra, ainda estão vivos – não apenas na memória dos que a sofreram, mas na carne e no sangue de milhares e milhares de pessoas que nascem hoje, muito depois do auge da tragédia.

Tal como aconteceu em Hiroxima e Nagasaki, a arrogância, a insensibilidade e a desumanidade dos exércitos imperialistas deixaram mecanismos de morte com efeitos contínuos, de origem atómica nos casos do Japão e de acção química no caso do Vietname. Neste país, onde o exército norte-americano abriu vias para as suas ofensivas à força de napalm, cujas nuvens de chamas cremaram todas as formas de vida por décadas e décadas em extensas áreas territoriais, milhares de crianças continuam a nascer com malformações, problemas neurológicos e cancerígenos devido aos efeitos da dioxina decorrentes de um outro exercício de extermínio: neste caso, o cometido com recurso ao chamado agente laranja – aliás um herbicida que multinacionais continuam a comercializar alegando, e mentindo, que está livre de agentes nocivos para a vida humana.

De acordo com dados norte-americanos, as tropas enviadas por Washington para o Vietname lançaram 80 milhões de litros de agente laranja contaminados com 400 quilos de dioxina só em cinco anos da invasão, que se prolongou por 14 anos. Usado para destruir florestas e todo o tipo de vida que elas protegem, o agente laranja causou danos irreparáveis que funcionam ainda hoje como uma catástrofe em todo o Vietname e, acima de tudo, liquidou, afectou e continua a atingir milhões de vidas humanas através dos seus efeitos prolongados. Fontes de Washington pretendem explicar, de modo recorrente, que o uso do agente laranja não se destinava a atingir vidas humanas, mas sim a desfolhar florestas onde se acoitavam “os terroristas”. A coisa só correu mal, dizem, porque devido às pressões da guerra foi preciso recorrer a agente laranja de “purificação imperfeita”, pelo que a contaminação com dioxina provocou – onde é que já ouvimos isto? – “danos humanos colaterais”.

As vítimas vietnamitas do agente laranja formaram uma associação através da qual pretendem que o mundo conheça esta realidade tão escondida pelos canais da propaganda mundial, exigindo ainda que os autores da chacina e seus herdeiros políticos e militares assumam a responsabilidade por esses crimes de guerra e contra humanidade – com os quais nenhum tribunal internacional, em Haia ou qualquer outro lugar, parece disponível para se sobressaltar. Até agora, como é de esperar da mentalidade que governa a América e o mundo, não há responsabilidades a assumir. Se o napalm e o agente laranja continuam a matar quarenta anos depois, o azar é das vítimas.

Ironia do destino: em tempos, uma associação de veteranos de guerra dos Estados Unidos levantou uma acção legal em defesa de soldados que participaram na invasão do Vietname e foram também contaminados pela dioxina. Um acordo que previa indemnizações de 93 milhões de dólares foi invalidado em último recurso por uma sentença determinando que “não existe qualquer base legal” que sustente as alegações das vítimas, tanto em termos domésticos como nas leis internacionais.

As acções de extermínio cometidas pelas tropas imperiais contra o povo do Vietname, com a agravante de continuarem através de efeitos retardados, estão ao nível dos maiores crimes contra a humanidade que a História regista. Ao contrário dos conceitos defendidos pelo Nobel da Paz e criminoso de guerra Henry Kissinger, separando ditadores bons dos maus, também não existe terrorismo bom ou mau: há terrorismo. De que a invasão norte-americana do Vietname foi e continua a ser um exemplo.

 

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por Augusta Clara às 11:20

Quinta-feira, 14.05.15

Aldo Moro, 37 anos depois - José Goulão

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José Goulão  Aldo Moro, 37 anos depois

 

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Mundo Cão, 8 de Maio de 2015

 

   Nestes dias em que se celebra o fim da Segunda Guerra Mundial passam também 37 anos sobre o assassínio do antigo primeiro-ministro italiano e dirigente democrata cristão Aldo Moro.

Aldo Moro, morto pelo grupo esquerdista Brigadas Vermelhas, é o que reza a História, mentindo, pois os contadores da História oficial também mentem ou, pelo menos, como acontece neste caso, omitem parte dos acontecimentos, por sinal os fundamentais.

Os assassinos a soldo que invocaram as Brigadas Vermelhas poderiam ter invocado outra coisa qualquer, a Mafia, uma lógica maçónica como a Propaganda Due (P2) quando reivindicaram o sequestro de Moro e a sua execução, 55 dias depois. Jamais poderiam, porém, ter invocado os que de facto os manipularam, os serviços secretos italianos e os braços tentaculares de grupos clandestinos dentro da NATO, como a Gladio, cuja existência foi confirmada em 1990 pelo antigo primeiro ministro italiano Giulio Andreotti, que foi, na prática, um dos mandantes da morte do seu companheiro de partido.

Qual foi o crime cometido por Aldo Moro para ser executado, sem culpa formada nem julgamento, por serviços do Estado italiano e de uma aliança militar que leva a democracia a todos os cantos do globo? Um só: defendeu uma coligação entre os dois maiores partidos, a Democracia Cristã e o Partido Comunista, para governar Itália.

Aldo Moro pisou assim um risco vermelho e fatal. Ele, como qualquer outro dirigente do arco da governação, na altura não se dizia assim com tanta desvergonha mas o conceito existia implicitamente, sabia que não poderia, em situação alguma de resultados eleitorais ou crise política, abrir as portas do governo aos comunistas. Nem quando os comunistas fossem o partido mais votado, como chegou a acontecer em Itália. Nem a CIA, nem a NATO o permitiam. Todos os dirigentes que poderiam facilmente formar maiorias com os comunistas em países da Europa Ocidental obedeceram a essas ordens. Em Portugal também, como se sabe, desde que o PREC passou à história e a situação se “estabilizou”. Aldo Moro desafiou as ordens. E foi abatido.

“Vai pagar muito caro por isso”, ameaçou Henry Kissinger quando a estratégia de governo defendida por Aldo Moro se tornou pública. Foi Eleonora, a viúva de Moro, quem revelou a sentença ditada pelo então secretário de Estado norte-americano, Nobel da Paz e padrinho do grande pacifista chileno Augusto Pinochet.

“Matámos Moro”, confessou Steve Pieczenik, “negociador” enviado pelo Departamento de Estado norte-americano e pelo presidente James Carter para impedir que houvesse qualquer outra saída que não fosse a eliminação. Moro foi “sacrificado pela estabilidade de Itália”, admitiu Pieczenik em livro. Estabilidade? Onde já ouvimos isto? Mal chegou a Roma, Pieczenik integrou a “comissão” de crise que incluía o ministro do Interior Francesco Cossiga e os chefes dos três serviços secretos, todos eles membros da P2 e tutores, por inerência, das Brigadas Vermelhas. Foi a Comissão de Crise que lançou um primeiro anúncio público, e falso, atribuído às Brigadas Vermelhas, de que Moro estava morto. Cossiga, igualmente dirigente democrata cristão, confessou mais tarde que essa manobra foi uma maneira de preparar a opinião pública para o desfecho já determinado.

A execução de Aldo Moro é um episódio de guerra. De uma guerra que não acabou em 9 de Maio de 1945, nem com a queda do Muro de Berlim, uma guerra na qual os poderes financeiros ocultos ditam as regras através de marionetas políticas e militares descartáveis para acumularem sempre mais lucros, escorra o sangue humano que tiver de escorrer como garantia da sua “estabilidade”.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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