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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 27.05.16

Ele que tinha ouvido absoluto ... - Herberto Helder

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Herberto Helder  Ele que tinha ouvido absoluto ...

 

john tibbott, o som do silêncio1.jpg

(John Tibbott, "O som do silêncio")

 

 

ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas                                                                                 

                                                    do verso livre

ouvia a cada nó de sílaba

um silêncio de morte

(in Servidões, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 18:30

Terça-feira, 20.10.15

Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra

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Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra 

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 07.05.15

A identidade dos contrários - Edouard Roditi

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Edouard Roditi  A identidade dos contrários

 

jaya suberg3a.jpg

 

(Jaya Suberg)

 

 

Sonho que sou louco, e na minha loucura

Sou mais sensato que num sonho

Ou acordado, com medo que me tenham por louco

Meus companheiros de sonho.

 

Meu bom senso é diária loucura,

Para um mundo em vigília que atribui

Mais vigília e atenção mais funda

À razão do que a razão possui.

 

Sonho é minha vida diária, cada dia

Simula e dissimula até loucura

E razão serem ambas semelhantes,

E eu ajo enquanto sonho.

 

No sonho, o bom senso e a loucura,

Na loucura, o sonho e o dia a dia

Ligados, entre si todos semelhantes:

Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato.

 

(in As Magias, versões de Herberto Helder, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 28.03.15

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro - Herberto Helder

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Herberto Helder  Havia um homem que corria pelo orvalho dentro

 

 

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por Augusta Clara às 19:00

Quarta-feira, 25.03.15

"Li algures que os gregos antigos ..." - Herberto Helder

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Herberto Helder  "Li algures que os gregos antigos ..."

 

 

herberto helder1.jpg

 (fotografia de Alfredo Cunha)

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguirem-se da terra,
os grandes poemas desaparecerem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afaste de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluído, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que eu ao menos me encontrasse a

paixão e eu me perdesse nela,

a paixão grega 

                                                               

(in A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 16:00

Terça-feira, 24.03.15

Morreu Herberto Helder

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Filipa Melo  Grão de sal em bocas impuras

(Crítica ao seu último livro) 

 

herberto helder.jpg

 

 

 

Sol, 12 de Junho de 2014

 

   A poesia nasceu de um espanto, disse Aristóteles. Com base na ilusão, surge um objecto que figura uma interpretação da vida e da reação do poeta perante os estímulos e a provocação. Medo, defesa e elaboração estão na raiz poética desde os tempos primitivos, negociando com o amor e a morte do corpo. Neste caso, o poeta dedicou-se a condensar fragmentos do mundo em movimento primitivo e, para tal, deu a sua própria vida à linguagem. Hoje, diz-se e diz-nos: «filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo, […] filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando dormem,/ essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas/ onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte».

Agora, o poeta está nu, no final da vida como no começo do mundo (ou na poesia da juventude) e por isso pede «que um qualquer erro de ortografia ou sentido/ seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro». Mais irónica, livre, fulgurante e moderna do que nunca, a metapoesia de Herberto Helder é a confissão magnífica de quem «queria fechar-se inteiro num poema/ lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena».

A Morte Sem Mestre é uma elegia, um lamento confessional, alimentado pela mensagem fúnebre dos poemas antigos, «tão fortes eram que sobreviveram à língua morta» e ainda vibram «entre os objectos técnicos no apartamento,/ rádio, tv, telemóvel,/ relógios de pulso». O poeta continua a cantar o presente das coisas mesmas, ainda em busca de uma luz de dentro, iluminando e despedaçando tudo. O acaso, o hermético, o concreto uniram-se após décadas de experiência da palavra, garimpando poesia como «um organismo internamente coerente e bastante» (ao JL, 1964). O que espanta é o arrojo, a vitalidade furiosa e orgânica deste livro, escrito aos 83 anos do poeta, e na sua melhor forma.

Herberto Helder: Magnífico poeta obscuro

A poesia inédita de Herberto Helder surge de novo em edição limitada. A restrição imposta pelo poeta resulta afinal num marketing infalível.

Quantos serão agora os felizardos? A Porto Editora, nova chancela de Herberto Helder (por três décadas foi a Assírio & Alvim), não o revela, mas é provável que só 5000 exemplares de A Morte Sem Mestre cheguem aos leitores. O novo livro de poesia inédita traz um CD com cinco poemas ditos pelo poeta madeirense. O design da capa reproduz o modo como encaderna os volumes da sua biblioteca, em papel de embrulho e com os títulos manuscritos a caneta de feltro vermelha. Por «vontade expressa» do autor de 83 anos, a sua poesia continua a ter só primeiras edições, integradas, após correcções, em volumes de obra completa e definitiva. O próximo sairá até ao final do ano, incluirá Servidões (de 2013 e cujo ebook está, «durante 30 dias», à venda na Wook) e talvez já A Morte Sem Mestre.

Há mais de 40 anos que Herberto Helder não dá entrevistas. A fotografia que publicamos é a mais recente, entre meia dúzia ainda acessíveis. Diz-se que é um misantropo radical, não atende telefonemas e impede os outros de falarem de si. O que se diz aumenta a aura mítica do auto-recluso, o maior poeta português vivo.

Entre a estreia em 1958, com O Amor em Visita, e o lançamento de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, as primeiras edições da poesia de Herberto Helder dificilmente se esgotavam. Serviam para o poeta avaliar o seu público, mas sobretudo para confirmar a obra, o que justificava a ausência de reedições. Todavia, em Servidões, o livro mais confessional, esta opção adivinha-se como compromisso com o valor ético da arte: «disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada». Nos últimos três livros, a expressão do poeta é cada vez mais directa, mais nua, menos rasurada. Na epígrafe de A Morte Sem Mestre, diz: «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental/ é de facto intencional.» Nos 28 poemas que se seguem, confirma o abandono do mundo, a ascese de uma identidade restrita às margens da poesia e de uma poesia votada à linguagem, não ao diálogo. De acordo com o que disse ao JL, em 1964: «Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. […] Decepcionar é garantir o movimento.»

Seremos poucos com primeiro acesso aos seus poemas, talvez em nome da preservação do universo interior do poeta, onde reside a justificação para tão vital recusa da visibilidade. Mas os tempos, cada vez menos permeáveis ao que é singular, secreto e intocado, corrompem qualquer viabilidade dos gestos rebeldes à margem da comunicação e do marketing. Thomas Pynchon, o mais esquivo autor norte-americano, aceitou participar, em 2004, em dois episódios de The Simpsons, dando a própria voz à sua caricatura, que surgiu com um saco enfiado na cabeça. Como tantas vezes alertou Mário Cesariny: «Já não há escândalo.»

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 02.09.14

"Não sei como dizer-te ..." - Herberto Helder

 

 

Herberto Helder  "Não sei como dizer-te ..."

 

 

(foto de Miguel Cunhal)

 

 

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
 
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
 
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
 
que te procuram.
 
(in "A colher na boca")

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por Augusta Clara às 17:00

Sexta-feira, 30.05.14

Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas - Herberto Helder

 

Herberto Helder  Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas

(dito por Fernando Alves)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 28.02.14

Nada pode ser mais complexo ... - Herberto Helder

 

Herberto Helder

 

(Alexandre Bastos)

 

 

nada pode ser mais complexo que um poema,

organismo superlativo absoluto vivo,

apenas com palavras,

apenas com palavras despropositadas,

movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,

nada mais que isso,

música,

e o silêncio por ela fora

 

(in Servidões, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 03.12.13

Os comboios que vão para Antuérpia - Herberto Helder

 

Herberto Helder  Os comboios que vão para Antuérpia

 

(Manuel Amado)

 

 

 

   Em janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o natal. Algo desa­parecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, por­que estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pen­sava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam pos­sivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos com­boios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus — um com­boio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia — que pos­sivelmente (evidentemente) não era.

Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho de ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita — tímida mas tenazmente viva — num quintal próximo. Esta árvore metia medo: era como a esperança em mim mesmo, ou uma ainda mais ambiciosa aposta: a fé do­lorosamente contraditória nos homens. Nos homens? Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado. Apesar de tudo também sou um ho­mem. Tenho capacidades de amor. Amo a minha seme­lhança com todos os homens, mas desespero nesse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que se consiga partir de Antuérpia depois de lá chegar num desses comboios rangentes. Antuérpia não é um sítio final. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiros, o silêncio, as pessoas, as vozes, a matemática impe­netrável das suas multiplicações e desmultiplicações, e o fluxo e refluxo das imagens. Em Antuérpia há pros­titutas, há um calor humano degradado, a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém tenha um dia res­suscitado em Antuérpia. Não sei.

O lugar em que penso é difícil, sempre difícil.

Ao norte existe o rio Escalda. De lá se parte, che­ga-se ao mar. Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confi­ança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode.

 

 

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por Augusta Clara às 15:00



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