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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 17.09.18

A caminho da Internacional Fascista? - Augusta Clara de Matos

 

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Augusta Clara de Matos  A caminho da Internacional Fascista?

 

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   Que eu saiba a União Europeia, apesar de se intrometer muito nas políticas internas dos países e não dever, como há quem afirme por aqui e com razão, não contempla nos seus documentos fundadores uma união de países de regime fascista. Quando se formou não estava prevista a viragem que vários países da antiga Cortina de Ferro viessem a sofrer com a instalação da extrema-direita no poder. Já bastante antes do início deste processo nos lembramos das discussões havidas à volta da entrada ou não da Turquia como membro da União por ainda ali vigorar a pena de morte. Portanto, a União Europeia formou-se pelo agrupamento de várias democracias. Se internamente cada uma delas cumpre os requisitos que as caracterizam, isso é outra coisa.

Mas o caso da Hungria e de outros países como a Polónia e a Áustria já ultrapassam as malformações democráticas e assumem-se como regimes autoritários de características fascistas. São os direitos humanos mais básicos que estão a ser atacados, incluindo os dos refugiados que chegam à Europa a fugir das guerras e da penúria nos seus países; é o ataque às opções sexuais, políticas e religiosas dos seus cidadãos; é a perseguição às minorias étnicas como os ciganos e a anulação de outras liberdades típicas da democracia.
Países que adoptem regimes fascistas devem ser expulsos da União Europeia.

O fascismo está a alastrar rapidamente na Europa e não se vê ninguém tomar medidas que lhe ponham travão. Não se entende, por isso, a votação do PCP, um partido antifascista, contra as sanções propostas no Parlamento Europeu à Hungria. E escuso-me de rebater os argumentos que o partido, ultimamente, tem evocado quando se esperariam tomadas de posição contrárias às que adoptou – em relação ao regime Angolano de José Eduardo dos Santos, à eutanásia, às touradas, que me lembre agora – porque são tão inconsistentes que não têm ponta por onde se lhes pegue.

E eu não quero viver numa União Internacional Fascista!

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por Augusta Clara às 12:00

Quarta-feira, 09.03.16

Europa: deitem abaixo essas cercas - Gauri van Gulik

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Gauri van Gulik  Europa: deitem abaixo essas cercas

 

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Público, 7 de Março de 2016

 

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

 

   A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia.

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornaram-se em guardas fronteiriços da Europa, forçando migrantes e refugiados a recuarem, às vezes disparando contra eles.

Com quase todas as fronteiras terrestres da Europa seladas, mais de um milhão de refugiados e migrantes que se lançaram rumo à Europa em 2015 arriscaram a vida nas travessias por mar. Mais de 3770 pessoas morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em 2015, e mais 410 morreram já este ano. São vítimas directas da nova Cortina de Ferro da Europa e do que ela representa: a Fortaleza Europa. Em contraste, 138 pessoas morreram a tentarem passar o Muro de Berlim ao longo dos 28 anos em que este existiu.

Para aqueles que conseguem sobreviver à travessia, o sofrimento está longe de chegar ao fim, antes têm frequentemente de caminhar durante dias a fio, viajando através de numerosos países, a dormir ao relento, ao frio, até alcançarem a segurança num país com um sistema de asilo que funciona.

A Amnistia Internacional entrevistou refugiados em fuga da guerra e da perseguição no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque e na Síria. Preferiam não ter partido das suas casas, mas a maior parte teve de fugir para salvar a vida.

Como nos disse um homem oriundo do Afeganistão, sentado na Praça da Vitória, em Atenas, junto com a mulher grávida: "A minha família foi ameaçada pelos taliban. A minha mulher está grávida de oito meses. Não temos escolhas nenhumas... não sabemos o que nos vai acontecer a seguir".

É por isso que a nova Cortina de Ferro da Europa é tão irreflectida e de improvável sucesso como o foi a antiga. Enquanto houver violência e guerra, as pessoas vão continuar a vir. Até pode parecer que fechar fronteiras é uma resposta forte e firme dos políticos, mas verdade é que é ingénua e falta-lhe visão.

Sem dúvida que os números de pessoas a chegarem à Europa são altos. Mas apesar da retórica sobre "enxames" usada pelos políticos, o facto é que a Europa está a esquivar-se às suas responsabilidades internacionais, debilitando a Convenção sobre os Refugiados e deixando países mais pobres a carregar o peso da crise de refugiados. A verdade é que 85% dos 20 milhões de refugiados que existem no mundo vivem em países em desenvolvimento.

Governos totalmente dissociados de muitos dos seus próprios povos, os quais querem que os refugiados sejam bem acolhidos, andam a jogar à política do medo. Falam em "defender" as fronteiras mesmo quando estamos a ver famílias inteiras com pessoas de todas as idades, de bebés a idosos, nas costas da Europa.

Tal como com a antiga Cortina de Ferro, as cercas e muros de hoje são um sinal de políticas falhadas. E isto está a criar uma crise humana na Grécia, agora mesmo. Enquanto não existem soluções estruturais iminentes, a Europa está a pressionar os países dos Balcãs a fecharem aquela rota. Os países dos Balcãs estão a encerrar totalmente as suas fronteiras ou a abri-las só a sírios e iraquianos. Com o sistema de relocalização de refugiados da Grécia para outros países da UE a funcionar pouco e mal, aquele país está a transformar-se muito depressa numa armadilha, deixando dezenas de milhares de refugiados encurralados em condições de desespero e sem nenhuma informação sobre o que lhes vai acontecer.

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 07.12.15

Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo - Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira  Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo

 

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   Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.

 

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por Augusta Clara às 18:45

Sábado, 10.10.15

NATO, jogos de guerra, terrorismo e fascismo - José Goulão

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José Goulão  NATO, jogos de guerra, terrorismo e fascismo

 

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 NATO e Hungria vão tratar dos refugiados

 

Mundo Cão, 10 de Outubro de 2015

 

   A polícia de choque global, também conhecida por NATO, está numa fase das mais trauliteiras da sua história, superando os próprios e mais sinistros recordes, além de alargar o raio de acção em presença, eficácia, mobilidade e número de efectivos. Dos jogos de guerra no flanco sul, em áreas de intervenção às vezes também conhecidas pelas designações de Portugal, Espanha e Itália, agora considerados ainda mais importantes devido à “crise dos refugiados”, à proliferação de quartéis-generais em redor das fronteiras russas, ao reforço dos contingentes operacionais na Turquia ditado pelas operações russas contra os mais activos grupos terroristas, à multiplicação por três dos meios da “força de resposta” – A NATO nunca ataca, limita-se a responder – os gendarmes atlantistas não descansam na missão suprema, dir-se-ia divina, de preservar a democracia formatada pela ditadura financeira.

Numa comunicação feita há poucas horas, o social-democrata norueguês Jens Stoltenberg, destacado em funções de secretário-geral da aliança expansionista, anunciou que os efectivos da “força de resposta” vão ser aumentados para 40 mil apenas um ano depois de, em Gales, os expoentes doutrinários os terem fixado em 13 mil. O que mudou em menos de 365 dias exigindo esta ampliação exponencial? Stoltenberg respondeu por metade: o aparecimento “crise dos refugiados”, decorrente das convulsões a sul “do nosso flanco sul”. Quanto à outra metade, o secretário-geral foi omisso, mas nem precisou de ser explícito. A Rússia é a Rússia e agora não lhe bastava ter a querida “democratização” da Ucrânia debaixo de olho como se atreveu a ir combater o terrorismo no Médio Oriente, esse mesmo terrorismo que a NATO enfrenta heroicamente – e com tanta eficácia que os resultados da “primavera árabe” são os que estão à vista de todos.

No quadro da nova situação provocada pela “crise dos refugiados”, uma tragédia humanitária que para os governos dos membros da NATO é assunto a tratar manu militari, a aliança decidiu criar mais dois quartéis-generais em países para lá da antiga “cortina de ferro”. Tratando-se de refugiados, a NATO não poderia ter escolhido melhor a localização das duas novas estruturas operacionais: a Hungria e a Eslováquia, onde dois governos fascistas tratam como terroristas os que fogem da guerra em luta pela sobrevivência. A intimidade da NATO com o fascismo não é de fresca data, não se evidencia apenas na Ucrânia, na Hungria, em Estados do Báltico. Ela foi inscrita no seu código genético ao ter como fundador – logo como grande defensor da democracia – o Portugal salazarento. Por isso, quando um nazi como Anton Gerashenko, conselheiro do ministério do Interior de Kiev, apela ao Estado Islâmico para combater os russos seja no Cáucaso seja no Médio Oriente, em nome da democracia e da sharia (vertente política da ortodoxia islâmica), mais não faz do que respeitar o espírito de missão dos tutores atlantistas. O mesmo Gerashenko que, poucos segundos depois da queda sobre a Ucrânia do avião que fazia o voo MH17, anunciou que fora derrubado por um míssil russo. Uma sentença que ficou como versão oficial, em que ninguém acredita mas prevalece, quanto mais não seja porque é a da NATO e o que a NATO diz não se discute.

Para os que não estar a par do afã expansionista – e defensivo, claro – da NATO lembro que os quartéis-generais na Eslováquia e na Hungria vêm juntar-se aos que já funcionam na Bulgária, na Estónia, na Letónia, na Lituânia, na Polónia e na Roménia, sem contar com o servilismo do governo de Kiev, o qual integra a aliança sem lhe pertencer. O cerco à Rússia é evidente, comprovando-se assim que a NATO é uma instituição de cariz absolutamente defensivo através do respeito estrito por aquela máxima que não é apenas futebolística: a melhor defesa é o ataque.

Por isso, uma nota também sobre os exemplos mais recentes das acções defensivas da NATO e respectivas consequências. Foi em actos de defesa pura que a NATO atacou o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e que desencadeou a guerra civil na Síria, tal como esfrangalhara a Jugoslávia. Então, quando o secretário-geral Stoltenberg se queixa da “crise dos refugiados” como resultante das “convulsões” no sul do “nosso flanco sul”, saibam todos que a NATO nada tem a ver com isso, apenas alarga a sua presença e reforça a sua eficácia para se defender do maldito e insidioso terrorismo, o qual a NATO nunca treinou e financiou, nem nunca foi, como agora também não é, seu aliado na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo…

 

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por Augusta Clara às 18:38

Sexta-feira, 11.09.15

10 razões para não acolhermos refugiados, do blogue Por Falar Noutra Coisa

 Jornalista húngara pontapeia refugiados no campo de Röszke  

 

 

10 razões para não acolhermos refugiados

 

Por Falar Noutra Coisa, 10 de Setembro de 2015

 

   O debate sobre se Portugal deve ou não acolher refugiados sírios tem incendiado as redes sociais. Como eu gosto de ser um bom comburente também vou dar a minha opinião sobre o assunto. Vamos lá então ver os dez motivos que devem levar Portugal a recusar-se a receber refugiados sírios, esses patifes!

 
"Eles vêm para cá e não respeitam as nossas regras!"
 
Este argumento é colocado nos comentários do Facebook por alguém que o escreveu no seu smartphone enquanto conduzia. Depois, toldado pela raiva, passou dois vermelhos, atropelou uma velha e fez um manguito ao ultrapassar uma criança paraplégica. De repente, o português começou a dar muitíssimo valor às regras do seu país. Os portugueses adoram regras, toda a gente sabe disso e ai de quem venha para cá quebrá-las! O crime e a falta de civismo é propriedade intelectual dos portugueses e até temos patentes e tudo. Basta ver as estatísticas e perceber que a grande maioria dos muçulmanos, especialmente os que vivem no ocidente, é cumpridora e contribui para a boa cidadania. Basta ver os países com uma comunidade muçulmana enorme e que não é por causa deles que as coisas correm mal ou que estão piores do que Portugal. Têm as pancadas deles, claro, como nós também temos pessoas que escrevem livros com as conversas que tiveram com Jesus Cristo. Há malucos em todo o lado. A única coisa em que concordo é que entrar num banco ou bomba de gasolina, mascarado de ninja com uma burka, não devia ser permitido. Quero igualdade para todos e se eu não posso andar nu a passear o São Bernardo no metro, não quero cá mulheres tapadas da cabeça aos pés no meu pais. Já nos basta o falso puritanismo tão tipicamente lusitano.
 
"Eles estão a recusar comida!"
 
Argumentam muitas pessoas que acreditam nas publicações do Correio da Manhã e nas partilhas feitas no Facebook daqueles sites "www.somosbuecrediveis.todaaverdade.a.serio.com.br". São pessoas que após lerem as gordas de uma notícia não se dão ao trabalho de pesquisar um pouco e tentar perceber se é verdade, ou qual a razão que levou a isso. Estou a falar de várias notícias falsas que circulam nas redes sociais como aquela que mostra um vídeo onde os refugiados parecem estar a rejeitar comida. Os conspiracionistas do Facebook apressaram-se a concluir que era porque vinham em pacotes da Cruz Vermelha e que, por isso, os fazia lembrar Deus Nosso Senhor dos Católicos. Se pesquisarem um bocadinho vão descobrir o que realmente aconteceu: ao que parece, os refugiados estavam na fronteira entre a Macedónia e a Grécia, há três dias, no meio do nada e à chuva. Queriam passar, foram mal recebidos e maltratados, e decidiram fazer greve de fome para tentar acelerar o processo. Simples, não é? Mas mesmo que tivessem recusado por causa disso, era só uma minoria de palermas ali no meio de tanta gente desesperada. Se eu estivesse lá e me trouxessem uma caixinha com sushi, eu também os mandava à merda e recusava.
 
"Eles só querem ir para os países ricos!"
 
Comenta um símio com acesso à Internet enquanto recusa um convite para ir a um restaurante de sushi abaixo da qualidade a que ele está habituado. Os portugueses já tiveram várias vagas de emigração em busca de uma vida melhor, de mais trabalho e melhores condições para os seus filhos. Embora seja diferente, já que estes estão a fugir da guerra, acho que é fácil de perceber que eles, já que tiveram de desertar do seu país, queiram ir para onde lhes seja garantida uma melhor qualidade de vida e oportunidades. Quando se é recebido com gás pimenta e lacrimogéneo e com balas de borracha na Macedónia, por exemplo, e se é tratado como gado idoso na Hungria, se calhar fica-se desconfiado e prefere-se continuar a jornada até um país que sabem que não lhes fará isso. Quem usa este argumento são aquelas pessoas que fizeram birra quando os pais alugaram uma casa de férias sem piscina. São pessoas que acampam à espera do novo iPhone, para poderem continuar a debitar palermices no Facebook, mas com uma resolução melhor.
 
"Primeiro estão os nossos sem-abrigo!!!"
 
Fico muito contente em ver a preocupação com uma causa que me é muito querida. Os portugueses, afinal, preocupam-se imenso com quem tem o céu como tecto. Há esperança para Portugal! Com esta onda de solidariedade, espero que para a semana que vem nunca mais ver pessoas a dormir na rua. É bonito ver o PNR a fazer campanha com isso e a querer ajudar quem tanto precisa. Desde que não sejam "pretos", nem "maricas", claro. Nesse caso nem são dignos das pedras da calçada! Só se lhes forem atiradas à cabeça, obviamente. Sim, devemos ajudar os nosso sem-abrigo e quem passa dificuldades em Portugal, mas isso não implica que não se abram as portas a quem vem a fugir de uma guerra. Se metade das vozes que surgem com este argumento fizesse alguma coisa para ajudar, garanto-vos que não havia um único sem-abrigo nas ruas portuguesas. Esta alegação é como dizer «As andorinhas que migram para Portugal e fazem ninho na altura da Primavera estão a roubar os telhados que deviam ser dos nossos pintassilgos! Além disso cagam-me o carro todo! PS: Nada contra as andorinhas. Não sou racista!». 
 
"Se são refugiados, porque é que a maioria são homens?!"
 
Onde estão as mulheres e as crianças, para além daquela que deu à costa? Onde andam eles? Qualquer pessoa inteligente perceberá que em todas as vagas de migração primeiro vão os homens e, só depois, as mulheres e as crianças. Os homens vão em busca de um local melhor e de condições para depois poderem trazer a família sem a ter de a sujeitar a uma viagem que poderá ter como destino a morte. Eu percebo que fosse muito mais interessante ver desembarcar nas praias portuguesas botes cheios de ginastas suecas e contorcionistas búlgaras, mas é o que há meus amigos. Não sejam esquisitos quanto à raça, género e religião de quem precisa de auxílio. Vejam o lado bom, para crianças ranhosas cujos pais não as souberam educar, já bastam as nossas.
 
"Eu não sou racista, mas... os muçulmanos são todos terroristas é são bichos nos quais não podemos confiar! "
 
Concordo. Os muçulmanos são pessoas de merda. Mas os católicos também. E os ateus idem. No geral, as pessoas são uma merda. Aliás, é por isso que os migrantes em vez de se juntarem à jihad, ao lado do Estado Islâmico, preferem arriscar a vida para chegar a um país seguro e ainda livre da guerra santa. Sim, hoje há mais ataques terroristas perpetrados por alguém em nome de Alá do que em nome de Cristo. Dou-vos isso. Pelo menos, ataques com bombas e com fogo de artificio, porque se me perguntarem, contribuir para que milhares de pessoas morram com HIV dizendo-lhes que usar preservativo é pecado, talvez possa ser considerado um bocadinho terrorista. Não sei se sou eu que sou picuinhas, mas é o que me parece. Cometem-se atrocidades em nome da religião, seja ela qual for, e sim, há muitos países que são estados religiosos islâmicos que cometem crimes contra a humanidade. A Arábia Saudita é um deles, mas como é aliado e tem petróleo do bom, ninguém faz nada. Também se mutilam mulheres, genitalmente, em países maioritariamente cristãos. Aliás, o Islão só está atrasado em relação às cruzadas e à Inquisição, não são piores, chegaram foi mais tarde à festa. O único problema é acreditarem piamente que no céu estarão virgens gostosonas e safadas para lhes fazerem cafuné no turbante, depois de se rebentarem para defender o profeta. Se os católicos acreditassem tanto quanto eles, garanto-vos que andavam também aí a fazer merda como gente grande. É óbvio que a esmagadora maioria dos muçulmanos é pacífica. Infelizmente, há radicais que lhes dão mau nome. Radicais esses tão perigosos como quaisquer outros, seja qual for o credo ou clube de futebol.
 
"É um cavalo de Tróia do Estado Islâmico!"
 
Diz alguém, utilizando a expressão «cavalo de Tróia» que aprendeu apenas ao ver o filme com o Brad Pitt. Os jihadistas que enfaixaram aviões contras as torres gémeas não precisaram de uma estratégia tão elaborada, nem de vir num bote mata-vidas a arriscar a sua, para fazer estragos contra os infiéis ocidentais. Nem os do Charlie Hebdo. Nem os do metro de Londres. Nem os do metro de Madrid. Nem os da Dinamarca. Acho que é fácil perceber que eles, se quiserem muito, arranjam maneira de chegar cá, até porque é fácil entrar na Europa pela Turquia e depois passar para o espaço Schengen. Claro que é possível que lá no meio das centenas de milhares de refugiados venha um gajo ou outro mais avariado dos cornos, mas isso há em todo o lado. Por esse prisma não se ajuda ninguém, já que há sempre um sem-abrigo que vai gastar tudo em vinho em vez em vez de endireitar a vida. A Síria está como está porque está a combater o Estado Islâmico, em vez de lhes dar via verde para que passem e cheguem mais perto de nós. 
 
"Os países árabes que fiquem com eles!"
 
Sim, porque o Médio Oriente é a zona mais estável do mundo para onde toda a gente quer ir morar. Não há nenhum risco de a guerra se espalhar para os países vizinhos, que parvoíce. Nem há países árabes cujos governos financiam o Estado Islâmico e outros movimentos jihadistas... que ideia parva! Eu nem sei se os países árabes e civilizados (Que choque! Há disso?), estão a disponibilizar algum tipo de ajuda, mas mesmo que não, a obrigação de ajudar não é de ninguém, é de todos. Se os outros não ajudam, mais uma razão para sermos nós. Se vamos por essa ordem de ideias, quem os devia acolher eram os Estados Unidos da América, o maior causador da instabilidade naquela zona e que fecharam os olhos aos crimes horrendos que se iam fazendo na Síria. Fosse uma posição geográfica estratégica ou estivesse apinhada de petróleo, que tinham ido logo lá espalhar a democracia com os seus tanques e F-16s. «Portugal é o país que melhor sabe receber. É o país mais hospitaleiro.» ouve-se amiúde. Sim, mas desde que sejam estrangeiros brancos e com dinheiro e boas gorjetas para dar.
 
"Quem quer ajudar que lhes dê uma casa!"
 
Eu cá não quero sírios em minha casa. Nem pretos. Nem ciganos. Nem brancos, portugueses ou estrangeiros. Não quero ninguém na minha casa porque sou um gajo que não gosta de pessoas no geral nem de ter estranhos a invadir-me a privacidade. Se eu quisesse pessoas na minha casa fazia couchsurfing que ainda podia ser que aparecesse um grupo de modelos de lingerie da Letónia. Não quero ninguém em minha casa mas posso ser a favor que se criem locais e estruturas para ajudar quem precisa, ou não? Não me importo que os meus impostos (e as ajudas externas) sejam utilizados para garantir a segurança e o bem-estar de quem foge da guerra. Quem usa este argumento é quem diz «Acho muito bem que mandem a Cova da Moura abaixo e os realojem, desde que não seja num raio de 20km da minha casa.» Ainda assim, mais depressa tinha uma família de sírios com dez crianças a morar na minha dispensa e a comer-me as latas de atum, do que alguém que acha que se devem fechar fronteiras e deixar as pessoas à mercê do destino de que não tiveram culpa. Não sei se é por morada na Buraca, mas até acho que uns sírios iam melhorar a minha vizinhança.
 
"Porque estou a cagar-me para o sofrimento deles!"
 
Ora aqui está um excelente argumento e talvez o único que faz real sentido. A única razão para não se querer acolher refugiados é a falta de empatia pelo sofrimento alheio. É não estar disposto ao risco mínimo que é ter por cá uns poucos milhares de pessoas a fugir da guerra, por se valorizar muito mais a comodidade e a segurança pessoal. Eu percebo este argumento, eu também não como uma feijoada com a lágrima no olho por saber que há crianças a morrer à fome todos os dias. Admitam. Não vos interessa se eles morrem ou não, mesmo que tenham partilhado a foto da criança morta na praia, acompanhada de uma citação de um site brasileiro. Admitam que são um bocadinho racistas, xenófobos e que não gostam de muçulmanos. Admitam e deixem de ser hipócritas.
 
Até consigo perceber a razão de alguns destes argumentos e acho que se deve debater o assunto com inteligência e acautelar o futuro. Não acho que quem está contra que se acolham refugiados sejam tudo más pessoas. Algumas são só burras e desinformadas. Mesmo acreditando que alguns destes argumentos são válidos, é fácil colocá-los no prato de uma balança e ver que ela pende para o outro lado. Não está em causa ajudar refugiados sírios. Está em causa ajudar seres humanos. A maioria sem culpa nenhuma pelo que está a passar e que só teve o azar de nascer no lugar errado à hora errada. Não é Portugal, Espanha ou a Micronésia que devem ajudar. É o mundo que se tem que ajudar a ele próprio para que ainda haja alguma esperança desta merda não ir toda ao ar. Se calhar, mas só se calhar, talvez se evite violência a longo prazo ajudando quem precisa e não ostracizando e recusando-lhes condições para terem uma vida decente. Talvez haja mais terrorismo no futuro contra quem não os quis acolher, do que contra quem lhes deu a mão na hora de maior aperto. Digo eu. Não sei. As pessoas são um bocado mal agradecidas, é um facto.
 
Por fim, queria só descansar-vos e dizer-vos para se preocuparem muito, já que os sírios que acolhermos vão-se embora mal percebam a quantidade e gente hipócrita, sem compaixão e falsa moralista que há neste país. Advogam aos sete ventos a moral e os bons costumes, mas quando é para ajudar, está quieto ó pessoa de cor. Os sírios, mal percebam que não há emprego, fazem como muitos dos nossos jovens e emigram para países mais civilizados. Sim, porque acredito que a maioria dos sírios queira mesmo trabalhar e não ficar em casa a coçar a sacola dos girinos e a mandar postas de pescada no Facebook. Enfim, é a minha opinião. Vale o que vale. Quem gosta, gosta, quem não gosta, emigra para outro blogue e sai de casa para dar comida a um sem-abrigo. Está bom? Vá, boa continuação.
 

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por Augusta Clara às 08:00



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