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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 07.04.17

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

 

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.

Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.

Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.

Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.

Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.

Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.

Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.

A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…

Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

 

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por Augusta Clara às 23:43

Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

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por Augusta Clara às 15:15

Segunda-feira, 23.11.15

O caos desce sobre a Europa - José Goulão

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José Goulão  O caos desce sobre a Europa

 

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       Olhemos para a Europa de hoje.

Estado de emergência em França pelo menos durante três meses, no país onde a privacidade dos cidadãos deixou de ser um direito fundamental e o chefe de Estado pretende alterar a Constituição invocando a versão mais recente da chamada “guerra contra o terrorismo”, formulação de péssima memória.

Instauração de comportamentos próprios de Estados policiais em vários países da União Europeia, assim se informando os terroristas de que os seus objectivos de intimidação se estendem bem para lá dos atentados, instalando-se pela coacção psicológica e através da atemorização imposta pelos meios ditos de resposta, estratégia em que o comportamento da comunicação oficial alinhada nada tem de inocente.

Reforço das tendências xenófobas, racistas e persecutórias contra minorias, cada vez mais agravadas, e a ritmo exponencial, pela chegada massiva de refugiados e o modo como é encarada pelos governos e respectivos megafones. Vaga de refugiados que chega dos países artificialmente desmantelados com a colaboração de dirigentes europeus e de onde brota também o terrorismo.

Multiplicação de muros e barreiras através do espaço europeu como parte do combate aos refugiados e reforço dos controlos de fronteiras ao compasso da falsa dicotomia entre segurança e serviços de espionagem, absolutizados estes em sintonia com os venenosos sound-bites que pregam a necessidade de um big brother para garantir “o nosso civilizado modo de vida”.

Institucionalização do revanchismo nazi com a cumplicidade da NATO, o que é evidente em países como a Estónia, a Letónia, a Ucrânia – onde o regime foi instalado com a cumplicidade da União Europeia – Hungria, Polónia, Eslováquia, Bósnia, Croácia, território do Kosovo, a par de ameaças concretas de se tornar poder em países como a França.

Desagregação irreversível da União Europeia, enredada na teia de erros impostos arbitrariamente para combater erros, tudo em defesa do austeritário neoliberalismo, da ditadura financeira e de uma moeda cruel num cenário generalizado de catástrofe social que as desumanas políticas governamentais aprofundam.

A lista de factos poderia continuar e está na mente e nas reais inquietações dos cidadãos. Esta é a Europa que temos, nas mãos de irresponsáveis insensíveis, robots tecnocráticos cujas políticas militaristas e de agressão, com recurso comprovado ao terrorismo, estão na origem do ricochete que vitima civis inocentes já de si inquietos com as limitações à sobrevivência num duro dia-a-dia.

Muitos dos poucos que conhecem a “teoria do caos” idealizada nos anos setenta pelo lobista israelita de nacionalidade norte-americana Leo Strauss, depois recriada e aplicada por Paul Wolfowitz, Cheney, Powell, Rumsfeld e outros membros do gang neoconservador, consideram-na o suprassumo da “teoria da conspiração”.

Acham irrelevante que Wolfowitz seja igualmente um lobista israelita de nacionalidade norte-americana; omitem que ele mesmo, como membro da administração Bush filho, ajudou a criar as condições para a invasão e desmantelamento do Iraque; não admitem que esta operação seja a fonte original do caos gerado no Médio Oriente, escorrendo agora para a Europa enquanto os Estados Unidos se barricam contra as consequências.

Recordando: a “teoria do caos” estabelece que nenhuma potência mundial pode ter condições para rivalizar com os Estados Unidos da América, devendo a União Europeia manter-se sob o controlo político, económico e militar norte-americano. Nem que, para tal, seja preciso nela instalar o caos.

No estado a que as coisas chegaram, porém, o menos importante é concluir se estamos ou não perante uma “teoria da conspiração”. Porque poucos terão dúvidas de que o caos desce sobre a Europa perante uma União Europeia em agonia. Os dirigentes europeus foram no engodo e, um após outro, engoliram todos os sucessivos iscos lançados por Reagan, Bushes, Clintons, Obama e demais padrinhos de Washington que daí lavam as suas mãos enquanto continuam a fingir que nada têm a ver com o Estado Islâmico, a Al-Qaida, al-Nusra e outras comunidades de assassinos a soldo onde também pode encontrar-se o dedo sangrento dos serviços secretos israelitas.

 

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por Augusta Clara às 17:30

Quarta-feira, 03.06.15

Cristãos desde sempre no Iraque agora em fuga ao “Estado Islâmico” - Alexandra Lucas Coelho (em Erbil)

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Alexandra Lucas Coelho (em Erbil)  Cristãos desde sempre no Iraque agora em fuga ao “Estado Islâmico”

 

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 Refugiados cristãos em Erbil  SAFIN HAMED/AFP

 

 

Público, 30 de Maio de 2015

 

Entre os cristãos que fugiram de Mossul, há quem não pense voltar mesmo que o “Estado Islâmico” saia. Porque os vizinhos, árabes sunitas, ajudaram a expansão jihadista. Segundo retrato de uma região desfeita por todos os erros.

 

   Na porta do contentor, um autocolante em inglês diz: “Salvem os cristãos do Iraque”. Lá dentro há uma família, e à volta outros contentores, outras famílias, uma pequena parte das dezenas de milhares de cristãos iraquianos que fugiram do “Estado Islâmico”, a parte que se acha a salvo e com sorte, porque um contentor é melhor do que uma tenda.

No pátio desta igreja, em Erbil, capital do Curdistão Iraquiano, contentores funcionam até como sala de música, de computadores, de brincar, o que alegra o tempo mas não reverte a história. Vizinhas por baixo de um calendário com a Virgem, adolescentes numa mesa de pinguepongue ou meninos com Legos: refugiados como milhões de iraquianos no seu próprio país, a maior parte dos quais em acampamentos onde a chuva entra, o sol queima.

É assim desde o Verão de 2014, quando o “Estado Islâmico” mudou o mapa oriental ao desfazer a fronteira entre a Síria e o Iraque. Os domínios do auto-proclamado Califado são hoje maiores do que, por exemplo, a Grã-Bretanha, e Erbil já esteve cercada, vai-não-vai para cair. Ainda há um mês a cidade tremeu quando um carro-bomba explodiu a algumas ruas daqui, junto ao Consulado Americano. Militantes do “Estado Islâmico” conseguiram atravessar o Curdistão, território que lhes é hostil, estacionar o carro em Ankawa, o bairro mais cosmopolita de Erbil, e fazê-lo explodir, matando três pessoas e ferindo 14. Atingiram assim, em simultâneo, um alvo americano e o bairro cristão, cheio de refugiados.

“As pessoas foram chegando desde 7 de Agosto de 2014, quando o ‘Estado Islâmico’ começou a atacar os cristãos em Qaraqosh”, conta Daniel Al Khoury, o jovem padre de 25 anos que recebe o PÚBLICO. Estamos apenas a 80 quilómetros de Mossul, a maior cidade do Iraque controlada pelo “Estado Islâmico”, e Qaraqosh fica a meio caminho. Os jihadistas dominaram Mossul a 10 de Junho, foram avançando na direcção de Erbil, até que a 7 de Agosto se deu a debandada de Qaraqosh, 60 mil cristãos, segundo o padre Daniel, mais outros 60 mil em diferentes regiões. “Os peshmerga [combatentes curdos] tinham prometido proteger aquelas povoações mas no último momento avisaram que já não seria possível. Então as igrejas começaram a tocar os sinos.” Era de noite, os cristãos juntaram-se para fugir em carros, autocarros, umas poucas dezenas ficaram para trás, por não terem acordado ou sido localizadas. “Ainda falámos com eles durante dois meses mas agora não sabemos o que lhes aconteceu, se estão vivos ou mortos.” O fluxo de refugiados dividiu-se pelas cidades do Curdistão, Duhok, a norte, Suleymaniah, a sul, Erbil a leste.

Só nesta igreja, Mar Elia, são 118 famílias, ao todo 546 pessoas. “No começo eram 1600. Chegaram sem nada, dormiram no jardim, a igreja começou a distribuí-los por outros espaços.” Ficou cerca de um terço. “A ONU trouxe tendas, mas era demasiado quente, e havia recém-nascidos.” Há fotografias desses dias, aulas a serem dadas dentro de tendas. “Depois outras organizações trouxeram tendas à prova de água, e há dois meses chegaram os contentores.”

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 13.12.14

Iraque, 2014 - Alfredo Cunha

iraque, 2014, erbil,campo de refugisdos sírios e

 

Erbil, campo de refugiados na periferia desta cidade do Curdistão

Reportagem sobre os refugiados de guerra, Sirios e Iraquianos (cerca de 900 mil ) só nesta região) para o projecto "Três Décadas de Esperança" da AMI.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 09.09.14

Estado Islâmico - José Goulão

 http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

José Goulão  Estado Islâmico

 

 

   A indignação sobe de tom. Até o Conselho de Segurança da ONU, conciliador perante guerras e agressões contra países soberanos, reclama a liquidação do Estado Islâmico e respectivo “califado” instalado manu militari em territórios do Iraque e da Síria.
Será tarde para apagar o fogo? A política de factos consumados que caracteriza os comportamentos ocidentais no Médio Oriente já terá aberto o seu caminho estratégico primário – o desmantelamento territorial do Iraque e a criação de bases capazes de garantir a continuação da guerra contra a Síria – mas  terá graves problemas para lidar com as chamas e travar o monstro que criou, mesmo que, por absurdo, pretendesse fazê-lo.
As supostas decapitações de jornalistas norte-americanos mobilizaram sectores da opinião pública internacional e círculos de comunicação social em lamentos que chegam embebidos em enxurradas de lágrimas de crocodilo. Para trás ficaram fuzilamentos às centenas, crucificações em massa, cenários de tortura e até actos públicos de canibalismo como imagens de marca dos mercenários do Estado Islâmico por onde passaram ou nas regiões em que se instalaram. Nessas alturas a carnificina era apenas parte de um “avanço surpreendente” tornado possível devido ao prolongado vazio de poder em Bagdade. E Barack Obama garantia que tinha “todas as opções em aberto” para responder à progressão dos “terroristas”, opções essas que se transformaram no que está a ver-se: nada que impeça os criminosos de consolidar o seu califado e prosseguir o contrabando de petróleo através da Turquia e Israel para destinos sem dúvida civilizados e democráticos.
Para consumo propagandístico, o Estado Islâmico – que inicialmente se chamava ainda “do Iraque e do Levante” – é o “mais terrível e sangrento grupo terrorista islâmico de sempre”, quiçá pior que a famigerada Al-Qaida, tão útil afinal em guerras como as da Síria e da Líbia.
À semelhança da rede fundada por Bin Laden, também o Estado Islâmico é obra e criatura dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Israel, talvez a melhor definição seja a de “filhote da NATO”.
Um jornalista deve dar novidades e evitar repetições, é verdade, mas às vezes esses princípios técnicos podem esperar perante memórias menos sólidas ou os efeitos nefastos dos tsunamis da propaganda global oficial.
O Estado Islâmico, tal como várias outras organizações terroristas islâmicas que lançaram e fomentam a guerra civil síria, é um instrumento dos governos que pretendem mudar o regime sírio, tal como mudaram os do Iraque, da Líbia, do Egipto...: Estados Unidos, França, Reino Unido, União Europeia, Israel, NATO. As provas, mesmo escondidas, abundam e Edward Snowden já confirmou a sua autenticidade com base em documentação da Agência Nacional de Segurança (NSA) norte-americana. O Congresso dos Estados Unidos votou secretamente a concessão de milhões de dólares de apoio aos grupos que combatem contra Damasco pelo menos até 30 de Setembro; o Estado Islâmico e outros grupos afins beneficiam de apoio militar logístico e de socorro nos Montes Golan ocupados por Israel; os mercenários islâmicos movem-se em veículos novos de fabrico norte-americano e dispõem de armamento ucraniano, certamente canalizado desde que o regime de Kiev foi “democratizado”; apesar da indignação e das sentenças do Conselho de Segurança, o petróleo de que o Estado Islâmico se apropria no Iraque continua a ser contrabandeado através da Turquia para portos israelitas e daí para o mundo; e, para que conste, não são os curdos manipulados pelos poderes internacionais que governam Bagdade que combatem o Estado Islâmico, mas sim os resistentes curdos da Síria e da Turquia.
O Estado Islâmico é um bando de carniceiros e criminosos? Parece que sim. Que dizer então dos seus criadores, financiadores, mentores e tutores?

 

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 09.09.14

No ovo da serpente - Viriato Soromenho Marques

 

Viriato Soromenho Marques  No ovo da serpente

 

 

 

   Diário de Notícias, 5 de Setembro de 2014

   Quando se pergunta pelas causas da barbárie que campeia no autodesignado Estado Islâmico do Iraque e Levante, ergue-se um muro de silêncio. Isso explica-se por um paradoxo: tudo indica que para enfraquecer os fundamentalistas será preciso uma intervenção armada externa. Contudo, os fundamentalistas só ganharam o seu atual poderio pela sucessão de intervenções armadas, insensatas e incompetentes, do Ocidente. Vejamos. Os primeiros responsáveis chamam-se G. W. Bush e Blair. A sua invasão do Iraque em 2003, não só derrubando Saddam Hussein como destruindo o Estado iraquiano, é a raiz de todos os males. Entre nós isso tende a ser esquecido, pois a maioria dos comentadores de assuntos internacionais bateu palmas aos semeadores da democracia pelo cano das espingardas... O assassínio de Kadhafi, em outubro de 2011, ainda é mais sinistro. A Líbia é hoje um paraíso do terrorismo internacional porque Sarkozy persuadiu a NATO a ser, durante meio ano, a força aérea de grupos "rebeldes", entre os quais os que hoje ameaçam as cidades do Ocidente com os aviões comerciais, recentemente roubados no aeroporto de Tripoli. Suspeita-se que Sarkozy pretendia encobrir a revelação do volumoso financiamento de Kadhafi à sua campanha eleitoral de 2007. E a situação só não é pior porque os Comuns recusaram há um ano uma proposta de Cameron que visava usar o poderio aéreo britânico (e, por arrastamento, talvez o dos EUA e da França) contra o regime de Assad na Síria. Se isso tivesse acontecido, os fundamentalistas, provavelmente, já dominariam Damasco. A barbárie tem de ser combatida. Mas é avisado não esquecer que a génese dessa barbárie habita também entre nós. No cabotinismo da atual política externa ocidental. Que se esquece dos princípios e erra na definição de interesses e prioridades.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 01.09.14

«Una donna yazida costa 12 dollari» - Luca Geronico

 

 

 

Luca Geronico  «Una donna yazida costa 12 dollari»

 

 

 

 

 

Avenire.it, 22 de Agosto de 2014

 

   «Quindicimila dinari, circa 12 dollari».  Tanto vale una donna yazida al mercato  di Mosul. «Omar, un mio caro amico  musulmano, ha finto di essere uno di loro: ha comprato tre ragazze per farle scappare. Adesso sono  qui a Erbil, protette dai servizi segreti», spiega Hussam Salem, attivista della Yazidi solidarity and fraternity league.
«Genocidio» pare una parola troppo pesante sulle labbra di questo ragazzo più serio dei suoi 27 anni. «Non è la prima volta nella storia per noi yazidi», ti dice  lui con molta calma e dignità. Con la sua “League”, sta catalogando foto e testimonianze. Primi dettagli, prime prove, di quella che tutti i superstiti sperano diventi  una causa alla Corte penale internazionale per crimini contro l’umanità.
Difficile avere adesso una stima del numero delle vittime:  famiglie scappate a Duhok a piedi, altre messe in salvo con il ponte aereo, altre che hanno varcato il confine. Primi “reperti”, di una storia da ricostruire. Il primo racconto del genocidio è un tragico ritornello: «Ad Ardan, nelle montagne del Sinjar, sono stati uccisi  415 uomini e bambini: fucilati o sgozzati. Tutte le donne sono all’aeroporto di Tell Afar», la cittadina in mano all’Isis. Tutte rapite, come le tre ragazze di Mosul.  Ferocia, che si può trasformare in faida intercomunitaria:  quando gli uomini dell’Isis sono arrivati a Tell Afar, metà sciita e metà sunnita, gli sciiti sono scappati sulle montagne. «Noi yazidi li abbiamo accolti,  un gesto di solidarietà fra popolazioni perseguitate  ». Apertosi un corridoio, gli sciiti sono scappati  a Sud e «alcuni gruppi sunniti, per vendicare di aver ospitato gli sciiti, hanno assalito il villaggio degli yazidi. Sono stati loro a portare quelle donne all’aeroporto  di Tell Afar», spiega Hussam. Faide etnicoreligiose  di bande assassine, mentre la gran parte della  popolazione ha aperto le porte di casa ai profughi: «A Bashika abbiamo accolto quelli che fuggivano da Mosul. Nessuna distinzione etnica o religiosa».
Anche la fuga sui monti del Sinjar si è tramutata in una  trappola diabolica. «Bambini e anziani abbandonati  e morti di fame. Un mio amico – dice mostrando  la foto di una ragazzina Down di 16 anni – ha abbandonato  la figlia sul ciglio della strada. Handicappata,  non riusciva più a camminare. Per fortuna è sopravvissuta  a due giorni di digiuno. Adesso è in salvo in un campo profughi a Duhok».
L’elenco potrebbe continuare, una lista che Hassan aggiorna ogni sera mentre di giorno, assieme al collecting  documents, distribuisce cibo e coperte con “Un ponte per”, l’ong italiana presente in Iraq da oltre 20 anni. Giustizia, per la Lega degli yazidi, in questo  momento significa «protezione internazionale: la chiediamo alle Nazioni Unite e anche al Vaticano».
Protezione e sicurezza, dove le forze presenti sul terreno,  nelle scorse settimane, hanno fallito. «Lo chiediamo  anche alla Santa Sede. Prima il Papa chiedeva di proteggere i cristiani, adesso chiede di proteggere le minoranze. Parole per noi importantissime». A due passi dall’ufficio di “Un ponte per”, nel parco davanti  alla chiesa siriaco-cattolica di Mar Shimuni, si aspetta  l’arrivo di un carico di materassini dell’Unhcr. Hussam saluta gentile e va ad aggiornare il suo archivio: il tempo farà giustizia.

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 20.08.14

Salvem-nos! - Apelo de Vian Dakhil, representante da minoria yazidi no Parlamento Iraquiano

 

Vian Dakhil  SALVEM-NOS!

 

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por Augusta Clara às 11:00

Terça-feira, 19.08.14

Ataques de Obama no Iraque são “desumana cortina de fumo” - Charles Hussain, Beirute

http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

Charles Hussain, Beirute  Ataques de Obama no Iraque são “desumana cortina de fumo”

 

 

 

11 de Agosto de 2014

 

   Os Estados Unidos e o Reino Unido voltaram a atacar militarmente no Iraque mas entre os objectivos proclamados pelos seus dirigentes não está o de impedir a divisão do país, realçam fontes diplomáticas em Beirute e Bagdade.
Contactado telefonicamente a partir da capital libanesa, um deputado laico do Parlamento iraquiano declarou que as medidas adoptadas nos últimos dias pela Administração norte-americana em relação ao Iraque “ilustram a deriva em que se encontram o presidente Obama e alguns dos seus aliados no Médio Oriente”.
A mesma fonte lamentou que “a inquietação de dirigentes ocidentais com o martírio da minoria religiosa yezidi às mãos do Exército Islâmico não passe de um show off pretensamente humanitário que chega com atraso e ignora localmente outros martírios, como os de cristãos iraquianos crucificados em massa, sem falar já na conivência de Washington com o massacre de seres humanos que prossegue em Gaza”.
“Os ataques americanos são localizados e, pela forma como decorrem, não causam qualquer perturbação à implantação do Exército Islâmico no centro-norte do Iraque e nordeste da Síria, apenas afectam conjunturalmente o seu poder em zonas em redor de Mossul”, revela o mesmo deputado. “Ou seja”, deduz, “não é a divisão do Iraque que preocupa o presidente Obama; o que o incomoda é um acontecimento que pode afectar a desejada participação curda na formação de um governo em Bagdade”.
A minoria religiosa yezidi rege-se por convicções ancestrais em que se conjugam princípios pré-cristãos de origem persa e de várias outras religiões monoteístas. A sua base étnica é curda e o facto de os massacres cometidos pelos fundamentalistas radicais do Estado Islâmico no seio dessa comunidade terem tido uma resposta no mundo anglo-saxónico que não existiu noutras situações idênticas deve-se à perturbação que causou nas relações entre os dirigentes curdos iraquianos e o Estado Islâmico, que têm sido de compreensão e partilha territorial entre ambas as partes.
“É a hipocrisia do costume”, afirma em Beirute um dignitário cristão maronita, o padre Salman Bustros. “As operações em defesa dos direitos humanos variam segundo as conveniências de momento dos senhores dos exércitos. Os irmãos yezidis merecem-me tanto respeito como os irmãos cristãos ou os de Gaza que sofrem martírios, por isso esta maneira  de agir americana e inglesa é, no mínimo, repugnante”, acrescentou.
Entre diplomatas europeus em serviço em Beirute, designadamente franceses e alemães, as recentes medidas tomadas por Obama em relação ao Iraque, e que são “para se prolongar”, têm cada vez mais “o aspecto de uma desumana cortina de fumo para desviar as atenções internas e aliadas do que está a passar-se em Gaza”, segundo um funcionário da Embaixada francesa. “Desde o início do avanço do Exército Islâmico no Iraque que Obama tem afirmado que todas as opções estão em aberto, não devendo ir além de ataque aéreos localizados”, lembrou. “Porque não os usou então para conter o avanço e os faz agora, transformando mais uma tragédia humanitária num simples pretexto que não invocou em situações anteriores idênticas? Recordo que quando os terroristas islâmicos começaram a avançar no Iraque praticaram fuzilamentos em massa de centenas de pessoas, enterradas logo em valas comuns, massacres aliás testemunhados em imagens que correram mundo, perante a inércia de Washington”.
Um adido da Embaixada alemã, que solicitou o anonimato, sublinhou de modo muito crítico a declaração da senadora democrata e chefe da Comissão de Espionagem do Senado, Dianne Feinstein, segundo a qual os ataques contra o Estado Islâmico se fazem agora porque o “grupo representa uma ameaça na nossa rectaguarda”. “Estes são os argumentos que deviam ficar guardados na cabeça de quem os pensou, porque desacreditam qualquer estratégia e as verdadeiras intenções de quem deveria levar a sério a função de defender vidas humanas”, lamentou o diplomata alemão. “Afinal”, acrescentou, “o Estado Islâmico é para os dirigentes dos Estados Unidos da América uma ameaça à sua rectaguarda e, ao mesmo tempo, um aliado na Síria e, quem sabe, no desmantelamento do Iraque”.

Charles Hussain, Beirute

 

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por Augusta Clara às 08:00



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