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Jardim das Delícias


Domingo, 21.05.17

A terceira via para o abismo - José Goulão

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José Goulão  A terceira via para o abismo

 

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Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». 

 

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   A epidemia potencialmente letal que atinge hoje os partidos socialistas e social-democratas terá começado com Anthony Blair à frente dos trabalhistas britânicos, embora a degeneração gradual viesse de trás.

No entanto, a conversão ao ultraconservadorismo de Thatcher e Reagan, a submissão às inquestionáveis ordens do mercado, as ânsias de privatização do Estado e os ataques sem piedade aos direitos sociais e laborais dos cidadãos representaram um salto qualitativo na degradação, a que se foram juntando, numa vertigem que agora se conclui ser suicida, as mentiras na cena internacional, o culto da guerra, a rapina generalizada.

Aproveitando depois o balanço e as circunstâncias propícias da História ocorridas na transição da década de oitenta para a de noventa do século passado, os agentes da paciente conspiração norte-americana em Itália infiltrados nos Partidos Socialista e Comunista aceleraram a sua missão e, nos escombros das duas entidades históricas, ergueram o Partido Democrático, à imagem e semelhança do seu homónimo dos Estados Unidos – isto é, sem funcionamento orgânico e seguindo orientação económica neoliberal – que definiram como sendo a nova «esquerda», daí em diante a única com vocação de poder.

Há pouco mais de um ano, o então presidente francês, François Hollande, eleito pelo Partido Socialista, defendeu que os novos tempos exigiam um «hara-kiri do PS», uma transformação em algo de ideologia muito mais abrangente e indefinida, que imaginou como «Partido do Progresso»; na mesma altura, um dos primeiros-ministros que nomeou durante o seu mandato, Manuel Valls, declarou a necessidade de o Partido Socialista mudar de nome.

Há poucos meses, o ministro da Economia de ambos, Emmanuel Macron, também ele uma figura do PSF, lançou o movimento En Marche que, sem militantes e estrutura mas com financiamento dos bancos e banqueiros para os quais trabalhou, e com o apoio operacional de agentes enviados pelo Partido Democrático dos Estados Unidos, o catapultou quase do zero até à Presidência da República.

Enquanto isso, o candidato oficial do PS – ou do que dele resta – ficou abaixo dos sete por cento nas eleições presidenciais, abandonado pelo aparelho do partido, pela sua Fundação Jean Jaurès e pelas figuras de proa, com destaque para Hollande e Valls, que logo se puseram en marche com Macron.

Em tudo o que é comunicação social situacionista, a nível interno e internacional, as manobras conduzidas em torno da figura de Macron serviram para redesenhar «a esquerda» institucional, embora o candidato agora presidente tenha sido inicialmente definido como «centrista». O resto é «extrema-esquerda» ou «esquerda radical», isto é, organizações «desfocadas» da realidade, «agarradas ao passado», incapazes de se adaptarem aos novos conceitos evolutivos, em suma, entidades que se atrevem a rejeitar a doutrina única e oficial, o capitalismo selvagem.

Dos casos citados a propósito do Reino Unido, Itália e França, só os trabalhistas britânicos ainda resistem à dissolução, por continuarem a recorrer, pelo menos até agora, a consultas às bases partidárias para elegerem os dirigentes e não ao artifício anti partidário das primárias, importado, claro, dos Estados Unidos da América. Porém, mesmo desacreditado perante o reconhecimento geral dos seus crimes e mentiras no drama do Iraque, Tony Blair e a sua teia de propaganda voltam a estar activos na intriga e desestabilização do Partido Trabalhista, de modo a reencaminhá-lo na senda da destruição que muitos outros estão a percorrer.

Os casos de Itália e França são exemplares. Renzi e Macron parecem saídos da mesma forma tecnocrática de políticos robotizados em práticas de direita, envolvidos na mentira, agora cada vez mais grosseira, de que eles são «a esquerda».

Outras situações do género, que traduzem a destruição de partidos socialistas, estão consumadas ou na calha. Em Espanha, a deriva do PSOE é total, acelerada depois de ter entregado o poder, de novo, aos neofranquistas de Rajoy; e, na Alemanha, o SPD está a pagar cara a submissão feita de cumplicidade ao autoritarismo de Merkel.

Na Grécia, a miniaturização do PASOK é idêntica à do PS francês, embora sem o efeito Macron; pelo menos por enquanto, embora não seja seguro que o tsiprarismo, cada vez mais fiel às ordens de Bruxelas à custa do ainda e sempre penalizado povo grego, não vá no mesmo sentido.

Na Holanda e na Bélgica, os partidos da Internacional Socialista pulverizaram-se devido ao envolvimento na gestão da crise, praticando políticas de direita – e até de extrema-direita e xenófobas, sob o interessante pretexto de travar a influência da extrema-direita. Hollande não foi, portanto, o caso único, embora tenha ido mais longe ao governar em estado de excepção durante grande parte do mandato.

No mundo nórdico, os partidos da social-democracia, outrora reis e senhores, afundam-se em situação de deriva depois de se terem rendido à prática neoliberal, por vezes seguindo os conservadores ou então tomando a iniciativa – também para «retirar espaço» à direita.

Nos países do leste europeu, a social-democracia mal viu a luz do dia depois da extinção da União Soviética. Nasceu já neoliberal e limitou-se a colaborar na afirmação do populismo e da extrema-direita como verdadeiros gestores do capitalismo selvagem.

Às práticas thatcheristas de Blair, os politólogos sempre em busca de baptismos para «novas esquerdas» chamaram «terceira via». Para onde? Para o socialismo, pois claro, de acordo com as suas doutas elucubrações em forma de mensagens propagandísticas primárias. Na verdade, mais uma via para o capitalismo puro e duro, à moda de Friedman e dos «Chicago Boys» que criaram «o milagre de Pinochet» – por fim o capitalismo isento de quaisquer inquietações sociais e com as pessoas, livre da mais ínfima das sequelas keynesianas.

Com maior ou menor convicção, os partidos socialistas e social-democratas seguiram Blair incarnando o flautista de Hamelin, institucionalizando-se como o «lado esquerdo» do sistema bipolar que governou a União Europeia como partido único, até estatelar-se estrondosamente, em 2008, nos frutos podres da subserviência ao casino financeiro – a «crise».

Se alguém tiver dúvidas, pode consultar as decisões do Parlamento Europeu tomadas ao longo de anos e anos: em matérias de cultura, questões de consciência e até direitos teóricos, é possível detectar diferenças entre os comportamentos dos membros do Partido Popular e do Grupo Socialista; mas quando se chega aos assuntos económicos, laborais, à imposição da austeridade, às medidas financeiras, de combate à crise ou de estruturação autoritária da União Europeia e da Zona Euro, aí a convergência é praticamente total entre os dois blocos.

A verdade é que a conjugação da crise com os efeitos sociais, a que se junta o problema dos refugiados resultante de guerras pelas quais a União Europeia também é responsável, desmoronou a arquitectura política de partido único com duas tendências. Na entropia resultante em que vivemos, na qual multidões de cidadãos desorientados, manipuladas pelos aprendizes de feiticeiros peritos em explorar o medo e a insegurança, são cativadas por apelos de populistas mais ou menos envernizados, por mensagens trabalhadas à maneira de anúncios de refrigerantes, ou até por fascistas retintos, as esquerdas que permanecem fiéis ao humanismo, à cidadania e às pessoas quase não conseguem fazer-se ouvir.

No meio das ruínas da arquitectura política em extinção tornou-se evidente que o papel da social-democracia oficial na gestão do neoliberalismo, mesmo temperada pela «terceira via», se tornou descartável, inútil. Cumpriu o papel, mas cabe agora à direita pura e dura, nas suas variantes que chegam até aos extremos do populismo e do fascismo, gerir o sistema neoliberal.

O arrastamento da crise, desmentindo a teoria dos ciclos altos e baixos da economia, tornou o funcionamento do sistema praticamente impossível em democracia. É preciso afastar os cidadãos do direito de decidirem, seja pela força, pelo autoritarismo em liberdade condicionada, pela intoxicação tecnocrática disfarçada de inovação política.

Por isso os Partidos Socialistas caem como pedras de dominó. A maioria dos seus dirigentes instalam-se no novo espaço. Onde já se encontra, há muito, a instituição que conduz este processo de modo cada vez mais indisfarçado: o Partido Democrático dos Estados Unidos. Daí que Hillary Clinton, senhora da guerra com as mãos sujas de sangue de milhões de mortos e feridos e do sofrimento de milhares de refugiados, seja a figura de referência da Internacional Socialista de hoje. Está encontrada mais uma «nova esquerda», agora sim fazendo inequivocamente parte da direita.

Porém, como sabemos, nem todos os dirigentes socialistas apanharam a boleia de Blair e discípulos: existem casos de resistência a alguns valores essenciais; além disso, os chefes que fogem deixam para trás multidões de cidadãos que não estão dispostos a acompanhá-los como os ratos seguiram o flautista de Hamelin – e assim volto ao velho conto de Grimm.

Por isso, a esquerda – ou as esquerdas, se preferirem – têm agora milhões de seres humanos como destinatários de mensagens que sejam capazes de mobilizar o combate contra um adversário poderosíssimo mas cada vez mais definido e identificável, por muito que use e abuse da intoxicação, do ilusionismo e da mistificação.

Para que as mensagens sejam unificadoras da mobilização e dinamizadoras dos objectivos de luta é necessário que as esquerdas decidam, de vez, deixar de se dividir e engalfinhar em torno de ilusões que a realidade está cansada de desmascarar: a burla do «mercado livre», o mito «europeísta», a ideia absurda de que a União Europeia é «regenerável», a mentira de que é possível compatibilizar a democracia e a soberania com a obediência aos ditadores servindo Bruxelas e a moeda alemã, também chamada única ou euro.

Num dia, que está próximo pela força das circunstâncias, a Internacional Socialista mudará também ela de nome, sem precisar de fazer hara-kiri. Grande parte dos seus membros já o fizeram. Se preferir continuar a chamar-se assim, ficará como um imprestável paquiderme em busca do seu cemitério.

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por Augusta Clara às 00:17

Quinta-feira, 28.01.16

E sexo de cavalo à mostra, ofende? - Ferreira Fernandes

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Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2016

 

   Um tipo com uma rodilha branca na cabeça, e em cima dela nem uma canastra de fanecas, um quase ayatollah mas um total presidente iraniano - enfim, Hassan Rohani - podia talvez ofender-se com uma estátua romana feita há dois mil anos, que era uma cópia duma estátua grega feita há 2300 anos... A Vénus Capitolina sai do banho, é certo, mas tenta esconder, embora em vão, os seios com a mão direita e a região genital com a mão esquerda. Dir-me-ão, a senhora é tão bela, antiga e de mármore, que não podia ofender ninguém. Mas, lá está, como se pode garantir o que vai na cabeça de alguém que leva na cabeça uma rodilha sem canastra? Fica, pelo menos, um talvez... E a dúvida transforma-se em certeza quando o da rodilha leva um cheque de 17 mil milhões para negócios vários: tape-se a estátua! Calma, não foi tão simbólico assim, não foi com uma burca, foi com uma caixa do IKEA. Quatro tábuas à volta, um tampo e dois mil anos de história apagados. Uf!, Roma ainda não é o Estado Islâmico, não dinamita, só esconde. E não foi por extremismo religioso, mas só por miserabilismo moral. Uma pequena caixa para a Vénus Capitolina, um grande salto à retaguarda para a Humanidade. Ora, nisto de recuar, o problema é o gosto que se entranha. Matteo Renzi, desde ontem o pobre diabo que governa a Itália, levou Roahni para uma sala onde havia a estátua equestre de Marco Aurélio. Olhem o terror nos olhos de Renzi: e pila de cavalo à mostra, ofende?

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 03.06.15

A minha amiga italiana - Djarah Akan (Castel Volturno CE, Italia )

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Djarah Akan (Castel Volturno CE, Italia)  A minha amiga italiana

(tradução de José Colaço Barreiros)

 

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(Alice Vegrova)

 

 

 

Nota de edição: José Colaço Barreiros é hoje agraciado na Embaixada de Itália com um prémio que lhe foi atribuído pela sua actividade de grande qualidade como tradutor.

 

   “Lê bem” diz-me ela, enquanto agita com orgulho o seu novo cartão de identidade. Na foto parece a versão negra de Ana Bolena, tem o ar orgulhoso de sempre, aquela expressão a fingir de altiva que eu reconheceria onde quer que fosse. Desta vez também não há sorrisos pepsodent para ninguém, ela nunca sorri senão por pedido muito especial, e no fundo faz bem porque não tem nada que dê vontade de rir, que raio. Como não lhe dar razão, quando teve de esperar dois anos para receber aquela trampa da cidadania?

Agora já a tem na mão, já não se rala com a papelada toda que teve de preencher para chegar àquela meta, que afinal não me parece que a tenha mudado assim tanto. Pergunto-lhe com ironia: “Hazy, como te sentes, eh? Como é ser cidadã italiana? Agora já te sentes poderosa, hem?”

Olha para mim de esguelha, sorri (como é lindo, às vezes) e diz-me: “Sinceramente não lhe ligo nenhuma, mas ao menos agora posso ter a liberdade de fazer o que quero”.

Para mim e Hazel, a liberdade de fazer o que se quer significa ter a possibilidade de denunciar injustiças, liberdade de se poder deslocar de um país para outro, livremente, liberdade de tomar a palavra. Significa subir à tribuna sem sofrer a chantagem do documento, significa sentir-se legitimado a dizer não.

Dir-me-ão que estas coisas se podem fazer tranquilamente mesmo sem ter a cidadania, mas vão lá dizê-lo aos milhares de migrantes que atravessam o mar morrendo afogados no mediterrâneo, só porque tiveram o azar de nascer na parte errada do mundo: a que é depredada e explorada. Vão lá dizê-lo à prostituta ucraina que é violentada pelo cliente e que nunca poderá denunciar nada disso porque é clandestina e não tem documentos. Vão lá dizê-lo à dama de companhia polaca que, como filha de pais alheios, trata dos afectos familiares dos outros, sem poder cuidar dos seus, obviamente tudo a negro e sem contrato. Ter um status jurídico subalterno, passível de chantagens e de exploração, significa sobretudo isto, significa silêncio, invisibilidade, significa não existir, ou melhor, só existir em certos momentos da nossa vida. Nós, filhos de imigrantes aqui nascidos, sabemos bem o que significa sermos tratado como homens e mulheres de segunda.

Contamos pouco ou mesmo nada, as pessoas acham-nos uns híbridos, numas suscitamos curiosidade, para outras somos o símbolo da decadência da pátria e da cultura italiana (vd. a liga de Salvini, Casapound, Irmãos de Itália e todo o universo de escrotos ambulantes que pairam em volta destas realidades políticas). Nunca há quem nos pergunte o que pensamos deste assunto da justiça exclusiva à italiana, ou da xenofobia irrompante que está a sufocar a Itália inteira nestes tempos de crise.

Continuam a dizer que a Justiça em exclusivo não é relevante neste momento, que a Itália te mais em que pensar, mas eu vivo na Itália, foi aqui que eu nasci e vocês não têm a mais vaga ideia do que significa viver debaixo da chantagem da renovação da licença de estadia. Mesmo tendo aqui nascido, de dois em dois anos tenho de ir à polícia onde me dão uma espécie de cartão telefónico em que posso carregar os dias válidos para residir legalmente em Itália. Exactamente como quando se paga para ter a internet e os minutos grátis até ao fim da validade. Só que no meu caso carregam os dias da nossa vida, naturalmente em edição limitada. Eles é que decidem se podes ficar ou tens de voltar para África. Eu sou ghanesa, e o Ghana afinal é um belo país. Uma vez vi-o no Google Earth, é pequeno comparado com a Nigéria. A minha mãe mostrou-me fotografias da sua aldeia. Vi muitos documentários na tv, no discovery channel e falta pouco para ter de fazer um exame na universidade em que um parágrafo fala precisamente da história do povo dos Akan, de que faz parte a minha mãe. Coisa séria, em suma! Amo profundamente a África e fora de ironias, não sei se se percebeu que nunca lá estive fisicamente. É lá que está o meu coração, mas o meu corpo nunca saiu daqui. Durante seis meses da minha vida fui clandestina. Não foi opção minha, mas era um período difícil e houve ciladas burocráticas que levaram a isso.

Andava pelas ruas com medo de ser detida pela polícia para qualquer controlo dos documentos, caminhava de olhos no chão para não levantar suspeitas e sentia-me mal, era presa de um pânico total até voltar a casa. Tinha de ir à Universidade e, a certa altura até pensei abandoná-la, pelo menos enquanto não se arrumasse esta situação. Era clandestina, não me sentia criminosa só por a minha licença de estadia ter caducado, mas sabem aonde vão parar os que forem apanhados sem documentos? Vão parar aos CIE. Centros de identificação e expulsão. Eu nasci em Santa Maria Capua Vetere, na província de Caserta mas poderiam prender-me e transferir para um CIE, um campo de concentração para migrantes sem documentos. É uma prisão, mas não é uma prisão, e embora tenha sido abolido o crime de clandestinidade, és tratado como criminoso, submetido a violências e torturas psicológicas. Digam lá se não é uma tortura ser separado da sua família, de amigos e de afectos que conhecias toda a vida… a ideia de nunca mais poder ver os meus amigos enchia-me de terror. Hoje em dia as coisas estão diferentes, em troca de um lauto pagamento concederam-me mais dois anos de estadia. Custa-me a acreditar ter sido a minha mãe obrigada a desembolsar tanto dinheiro para nos permitir a mim e às minhas irmãs viver no país em que nascemos. Dinheiro quer provavelmente eu nunca verei todo junto nas minhas mãos. Recordo quando era pequena e a mamã me dizia “amanhã vamos à polícia”. Entava explicar-me com uma cderta doçura e delicada leveza que sem a licença nos meteriam à força num avião e expediriam para África, o que, pensando bem agora, não teria sido tão mau como isso. Ela, que era fugira à pobreza e àquela família de colonos ingleses em cuja casa era criqada de servir, não tinha nenhuma intenção de regressar. Nunca na vida! Pelo menos enquianto não recuperasse tudo o que o ocidente lhe tinha espoliado. Há tempos, de dois em dois anos era o despertador às quatro da manhã. Enlatadas que nem sardinhas numa fétida e apertada camioneta de carreira em direcção a Caserta, eu e a minha família levávamos três horas a chegar ao nosso destino… Ao chegarmos diante da polícia, viam-se por todo o lado pessoas que aguardavam desesperadamente que o agente de serviço berrasse o número seguinte, desprezando as últimas inovações no sector dos serviços públicos. Ao cabo de mais umas horas passadas de pé chegava a nossa vez. Os agentes fardados são todos iguais quando estão do outro lado do vidro e olham para ti como se quisessem arrancar-te a cabeça à dentada. Tu só queres sair dali e levar a tua licença mas até isso te fazem pagar, e se não fores gentil, se demonstrares nem que seja o ínfimo vestígio de ressentimento… cuidado, são como os elefantes, têm boa memória e não se esquecem da tua cara. Isto era assim há muitos anos. Agora as coisas na polícia de Caserta mudaram um pouco, mas a verdade é que uma rapariga como eu que não tenha feito o requerimento aos dezoito, chegando aos vinte e um, bem pode esquecê-lo. Além disso sem um rendimento suficientemente elevado nem sequer podes entregar o requerimento. Que destino adverso… Agora a minha amiga é Italiana e estou felicíssima por ela que ao menos já se safou. Para mim é um alívio saber que tirou esse peso de cima. O mesmo não poderei dizer de mim. Jus soli, sanguinis, culturae. Disseram tanta coisa a volta deste tema, as pessoas libertam ancestrais pulsões racistas quando se fala de “raízes” e de “italianidade”. Claro. Raízes. Quais raízes exactamente? E qual italianidade? As culturas não são mónadas separadas de que não pode entrar nem sair nada, as identidades são mutáveis, fortemente subjectivas e sujeitas ao dinamismo de um tempo que se altera continuamente. As culturas consolidam-se, não se constroem e esta consolidação nasce da migração, sem a qual esta humanidade nunca teria visto a luz do dia. A pátria e esta presumida e ridícula italianidade só existem quando há guerra, campeonatos internacionais de futebol o concursos culinários. Desaparece no resto do tempo. Os disparates sobre a pureza da raça italiana e das invasões bárbaras, deixemo-los para os fascistas. No resto do nosso tempo sejamos mulheres e homens e tudo o que na minha opinião nos possa unir é a vontade de não sermos oprimidos. Vivemos a cultura das opressões de género, de raça e sinceramente não sei o que fazer de todo este lixo.

Eu entretanto continuo a lutar para obter a cidadania. Tenho esse direito, Nasci aqui como qualquer outra pessoa e não vejo razão para o Estado teimar em criar diferenças e discriminações raciais assentes em base jurídica. No caso de correr mal já sei o que fazer. Vou salvar de morrer afogado o chihuahua de uma riquíssima múmia que more num desses bairros da gente de dinheiro, do tipo Vomero ou Posillipo. Já imagino as parangonas dos jornais com a minha foto de perfil melhorado graças ao bicho. “Rapariga de cor salva cão de abastada senhora da zona. O país indigna-se. Jus só para italianos injusta. Cidadania honorária já”. Porque como todos sabemos, puxa mais um pêlo de cão do que um carro de bois…

 

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por Augusta Clara às 16:00

Sábado, 18.10.14

Renzi e seus irmãos - José Goulão

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 http://www.jornalistassemfronteiras.com/

 

José Goulão  Renzi e seus irmãos

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12 de Outubro de 2014

   Em Itália, o artigo 18 do Código de trabalho transformou-se numa fronteira e num símbolo. É a disposição que obriga os empresários a readmitir trabalhadores despedidos sem justa causa e que sobreviveu até agora no meio do avassalador processo de “flexibilização” do mercado de trabalho, a designação propagandística com que se apresenta o desmantelamento de leis, direitos e regras que asseguravam alguma dignidade ao trabalho e aos trabalhadores.
Nestes tempos em que a “riqueza” circulante no mundo é criada sobretudo pela especulação, outros truques e crimes da alta finança e em que os bens criados pelo trabalho são subprodutos submetidos à selva da manipulação financeira, o artigo 18 em Itália, como outros afins que ainda restam aqui e ali, erguem-se como barreiras ou escolhos que só atrapalham.
Em Itália chegou a hora de o liquidar. Silvio Berlusconi, figura da direita e da trapaça neoliberal, tentou fazê-lo mas não conseguiu. Quem se apresenta agora na primeira linha do combate pela revogação do artigo 18, e com fôlego para não desistir, é Mateo Renzi, o primeiro ministro dito o “chefe da esquerda”, nova vedeta de referência do mundo do “socialismo”.
Ao contrário do que dizem alguns politólogos, Mateo Renzi não é nada de novo no panorama do regime global. É um seguidor natural do trabalho desenvolvido por Blair em Inglaterra, Schroeder na Alemanha, Zapatero e outros em Espanha, Hollande em França, Papandreu na Grécia, Sócrates e outros em Portugal, estes com caminho livre desde o momento em que o dinossauro excelentíssimo do socialismo à portuguesa anunciou que metia “o socialismo na gaveta”.
O que distinguirá por ora Renzi, tal como Hollande em França, Sanchez em Espanha e outros que se perfilam, é o processo como chegaram ao poder, o das célebres eleições primárias, uma aberração da democracia representativa com base nos partidos. Através das primárias, os partidos – chamem-se como chamarem – dissolvem-se numa ganga onde desaparecem as ideias, as diferenças, a representatividade de sectores da sociedade, tudo se resumindo ao poder pelo poder numa política feita para gerir os padrões económicos únicos sob a tutela suprema do mercado, o instrumento da ditadura da finança.
A adopção das eleições primárias é mais um salto qualitativo no processo de transformação do multipartidarismo no bipartidarismo à americana, convergindo tudo para um regime de conteúdo único. São poucos, e anacrónicos, os que hoje ainda analisam a política norte-americana em termos de “esquerda”/Partido Democrata, “direita”/Partido Republicano.
A Europa vai por aí com a metáfora do “arco do poder”. Tal como o artigo 18, Renzi, o seu grande inimigo de agora, é igualmente um símbolo. Ele emergiu de primárias num partido que não se chama nem socialista, nem social democrata mas sim “democrata”, à imagem e semelhança do seu inspirador americano, depois de ter engolido socialistas e comunistas de antanho numa primeira amálgama. E Renzi, por seu lado, chegou da democracia cristã depois de, através da conversão ao catecismo neoliberal, ter feito gato sapato da própria doutrina social da Igreja Católica.
As luzes que envolvem Mateo Renzi como apóstolo do renascimento da “esquerda” ao serviço da governação única neoliberal são tão óbvias como justas tendo em conta a sua missão. O  primeiro passo que deu quando se tornou chefe do Partido Democrata foi chamar Berlusconi – que caíra completamente em desgraça – para com ele cozinhar uma lei eleitoral capaz de eternizar o bipartidarismo esquerda-direita, acabando com a “ingovernabilidade” e “as crises governamentais” decorrentes da “fragmentação partidária dos parlamentos”, garantindo assim a estabilidade absoluta para as “reformas” necessárias à consolidação do regime de ideologia única.
Os êxitos e a ribalta de Renzi reflectidos na imprensa convertida em propaganda ajudaram a criar uma confraria, pelo que vão surgindo os seus irmãos políticos tocando a mesma flauta encantatória, arrastando crédulos, desiludidos, descrentes e desesperados.
A verdade, porém, é que estes renzis trazem mais do mesmo, vêm para acabar com os artigos 18 e afins, ainda que alguns acordes pareçam pertencer a uma música diferente. Pura ilusão.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 22.01.14

O laboratório - José Goulão

 

José Goulão  O laboratório

 

 

 

   Há coisas em que a tradição ainda é o que era. Durante muitas décadas, desde o pós-guerra, a Itália foi considerada como uma espécie de laboratório de manobras políticas tendentes a manipular a verdadeira vontade dos eleitores. Uma espécie de tubo de ensaio para receitas que, respeitando formalmente a democracia serviam (e servem) para a deturpar, prejudicando maiorias e beneficiando os interesses de elites.
Fica apenas um exemplo para encurtar conversa: os Estados Unidos da América, através da CIA, impuseram que o Partido Comunista Italiano (PCI) jamais entrasse no governo de Roma, mesmo que fosse maioritário, como chegou a acontecer. A única vez em que os comunistas asseguraram uma maioria governamental, mesmo sem entrar no executivo, isso custou a vida ao primeiro ministro, o democrata cristão Aldo Moro.
A tradição renova-se. Em Itália já não existe Partido Comunista, nem o Partido Socialista, ambos e outros foram amalgamados no chamado Partido Democrático como quando poderosas máquinas se ocupam dos destroços para que tudo fique compactado numa lixeira.
Quando nasceu, gerado nas cambalhotas com que foram acompanhadas a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, o Partido Democrático olhou-se ao espelho e pretendeu ver o seu homónimo norte-americano. E de facto logo alinhou no colaboracionismo neoliberal, que como uma epidemia varreu todos os partidos socialistas, sociais democratas e aparentados, ditos “a esquerda” oficial. Por isso está hoje coligado com a direita para aplicar as receitas de Bruxelas e da Srª Merkel.
Ao que parece, porém, isso não chega. É preciso regressar ao laboratório. A nova vedeta da política italiana, a par do palhaço Grilo, é Matteo Renzi, presidente da Câmara de Florença, que há mês e meio tomou conta do Partido Democrático com um programa em que avultam o saneamento de dirigentes que ainda vinham do passado e a reforma do país.
Mal aqueceu o lugar, Renzi chamou o expoente da extrema direita Silvio Berlusconi, recém-transformado em cadáver político graças à expulsão do Senado por burlar o Estado, e ressuscitou-o. Na sede do Partido Democrático, ambos cozinharam uma nova lei eleitoral que tresanda a golpe de Estado contra a democracia através da institucionalização do bipartidarismo para que a Itália não fique “sujeita à chantagem dos pequenos partidos”. Registemos que a iniciativa partiu do Partido Democrático e não de Berlusconi, ao contrário do que incautos poderiam pensar.
Através da projectada nova lei eleitoral, o Partido Democrático de Renzi e a Forza Italia de Berlusconi preparam-se para tomar o poder, partilhando-o em alternância ditatorial. A semelhança com o partido único, porque prevalece o sistema de economia neoliberal, é absoluta.
A artimanha da lei é escabrosa: o partido que tiver 35 por cento transforma automaticamente esse pecúlio em 53 a 55 por cento, o necessário para governar com maioria absoluta. Se nenhum chegar aos 35 por cento haverá segunda volta, a disputar apenas pelos dois maiores ou por duas coligações que venham a formar. Claro que o eleitor terá direito a escolher no meio de uma nuvem de partidos, mas se quiser que o seu voto tenha utilidade só optando por um dos dois.
Sabemos que em França, Reino Unido, Alemanha, Espanha, as coisas já são assim, pratica-se, de facto, o bipartidarismo. Mas em Itália ensaia-se o caminho para o tornar regime institucionalizado. Isto é, doravante quando e onde o “arco da governação” neoliberal correr riscos amanha-se a lei eleitoral para que os riscos desapareçam. E dar-se-á como exemplo a mui democrática “estabilidade italiana”.

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por Augusta Clara às 08:00



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