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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 23.02.15

Servil, mas coerente - José Goulão

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José Goulão  Servil, mas coerente

 

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   O presidente da Comissão Europeia admitiu o pecado da austeridade e logo se levantaram vozes revoltadas no interior da União Europeia, dirigidas pelo marechal de campo Schauble, atiçando os SS de estimação contra os desmandos verbais do seu homem em Bruxelas.

O curioso é que Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão, não disse nada de novo. Ainda ele era presidente do Eurogrupo, antes deste boneco articulado que parece esvoaçar despistado e acaba sempre no colo do atrás citado Schauble, já recomendava que não deveria carregar-se na austeridade, porque a economia não cresceria. Não porque os povos sofressem, notem bem; mas porque a economia não cresceria.

Isto diz Juncker desde 2011, porém a austeridade continuou e, como ele advertia, e por uma vez na vida tinha razão, a economia da União Europeia continua tão paradinha como estava, ou mais.

Não haja ilusões, porém, quanto à confissão compungida de Juncker. Foi coerente ao fazê-la, mas ele não é mais do que um funcionário tecnocrata de quem o colocou em Bruxelas, isto é, Berlim. Berlim decidirá e Juncker obedecerá, como sempre tem feito, diga o que disser.

Mas vamos às reacções à confissão do presidente da Comissão Europeia. Levantou-se um grande alarido, diz-se que a União Europeia está dividida, a senhora Merckel até se abespinhou com os seus irmãos social-democratas, nada que não se resolva no bom e fraterno espírito mercantil. Em última análise, e porque dizem haver pendências, elas serão solucionadas pelo árbitro, mais uma vez Berlim. E Berlim, creio que não há dúvidas, é a senhora Merckel, o senhor Schauble, o BCE, a valente guarda pretoriana das máfias financeiras e bancárias, conhecidas pela designação utilitária de Credores.

Pois os credores não abrem mão dos créditos, quais cães-de-fila com a presa bem abocanhada, e querem que se faça sangue porque, pela primeira vez em muito tempo, estão acossados. A ordem austeritária estabelecida pelos altos comandos da União Europeia treme como nunca, ainda que o abalo, por ora, seja insuficiente para que as correntes guiadas pela democracia e o respeito dos direitos humanos “tomem Berlim”, como canta Cohen e Tsipras adaptou, e fez muito bem. Para mal destas correntes humanistas, um solista não chega, é preciso coro.

Além de Juncker, há outra entidade muito coerente na defesa acérrima da austeridade e nos maus-tratos infligidos ao seu próprio povo, em nome da tal máfia que manda a partir de Berlim: o governo de Portugal. Igual a si mesmo, coerente no servilismo ao mercado, mesmo que isso represente estraçalhar a vida do seu povo, o primeiro ministro de Lisboa atirou-se a Juncker. Qual pecado, qual carapuça, estamos muito bem, a austeridade é óptima, nunca sentimos que a troika pusesse em causa a nossa dignidade, garantiu depois o senhor Marques Guedes.

Registemos de duas premissas que assentam como fato feito por medida ao governo de Portugal em funções: pode ser-se coerente e servil ao mesmo tempo; e para sentir a dignidade ultrajada é preciso tê-la. 

 

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por Augusta Clara às 08:00



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