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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Gil Bárbaros
Visão, 12 de Março de 2015
Porque é que os jihadistas do Estado Islâmico destroem monumentos, estátuas da civilização assíria, de há três mil anos? Não é por serem, como eles dizem, obras de arte de uma religião idólatra, incitando, hoje ainda, à idolatria. Quem é atualmente incitado pela cultura antiga mesopotâmica à idolatria? Aquelas justificações são absurdas.
Mas talvez o terrível instinto de morte dos jihadistas acerte quando deteta na arte da civilização mesopotâmica uma ameaça aos seus dogmas. Quem não reage às destruições no Iraque com um profundo sentimento de pânico, como se fosse vítima de uma catástrofe pessoal imediata? Fomos atingidos do mesmo modo com a notícia da destruição dos budas de Bamiyan que nos deixou perturbados, indignados e impotentes perante um ato mortífero, irreversível, irremediável. Qualquer coisa morreu em nós com o atentado ao Museu e à Biblioteca de Mossul e, depois, com o ataque à cidade histórica de Nimrud.
A brutalidade com que foram executados choca-nos como se fossem cenas apocalípticas. À maneira das decapitações reais, os «martelos, picaretas, berbequins» e bulldozers arrasaram as estátuas e esculturas de Nimrud. Sábado, os bulldozers começaram a destruir a maravilhosa cidade de Hatra. Para nós, que nos preocupamos com a possibilidade ameaçadora de um visitante de um museu tocar com um dedo num quadro, aquelas imagens são explosões de bombas. Nada comparável com o modo como o regime nazi tratou a «arte degenerada» do modernismo europeu. Os nazis criavam rituais para destruir as obras de arte - e roubavam-nas para proveito próprio. Os jihadistas desprezam os rituais, são puros bárbaros que usam a tecnologia ocidental para infligir selvaticamente morte e medo. Esta brutalidade aberta, exposta no espaço público mundial, caracteriza a sua estratégia do terror: não se visa só o medo, mas o caos através do pânico.
AQUI, TAMBÉM, os jihadistas diferem dos nazis. Estes escondiam os campos de concentração, querendo mostrar uma sociedade alemã «normal». Os extremistas islâmicos fazem tudo para transmitir de si a imagem de uma comunidade diferente, incompreensível e inaceitável pelo Ocidente. 0 objetivo é desestabilizar, fragilizar e provocar o caos no mais íntimo das certezas e do sentimento de segurança: «Como é possível que enterrar crianças vivas, decapitar, queimar publicamente homens em jaulas seja ditado por regras que asseguram a vida de uma sociedade?» A esta pergunta, o Estado Islâmico responde: «É possível. Olhem para nós.» E, com esta certeza irredutível atirada ao Ocidente com a firmeza de um bulldozer a esmagar estátuas milenárias, o fundamentalismo islâmico procura suscitar nele, magicamente, a adesão à sua crença.
A destruição do património artístico do Iraqui é um atentado à vida de todos os homens, no mundo inteiro. Não só porque abre um campo de possibilidades aterradoras (e se as bombas rebentassem no Louvre ou no Met de Nova Iorque?), mas porque fere e mutila a nossa identidade de seres humanos. Se sofremos na pele com as notícias das catástrofes provocadas pelos jihadistas é porque no nosso espírito e no nosso corpo está inscrita a memória viva da antiga Assíria. Mesmo se nunca ouvimos falar de Sumérios, da Babilónia, de Hammurabi ou da escrita cuneiforme Não se trata de «lembranças», mas da memória inconsciente transmitida de geração em geração e de século em século, de que são feitos os corpos, as línguas e a inserçãc de um indivíduo e de um grupo no espaço e no tempo do mundo. No desdobramento motor do meu corpo está virtualmente gravada a existência das pirâmides do Egito. Se a grande pirâmide de Gizé fosse destruída por um atentado, o meu corpo transformar-se-ia inconscientemente. Habitamos o planeta integrando o seu território no espaço do nosso corpo, e o nosso tempo é feito da memória imemorial da Terra.
Luca Geronico «Una donna yazida costa 12 dollari»
Avenire.it, 22 de Agosto de 2014
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