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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Carlos de Matos Gomes A nudez da Joana
Sem entrar em intimidades pessoais, acreditem que vejo nus há dezenas de anos, que frequentei lugares de nudez do mais rasca ao mais sofisticado, aqui em Portugal, no estrangeiro e além-mar. Ao vivo, em fotografia, em escultura, em pintura. Até em sonhos. Vi nus belos e horrorosos. Não é da moral, nem da estética do nu, nem de pudores, nem de direitos de cada um ao seu nu que me interessa. Mas do nu como mensagem. No caso, do nu como propaganda política.
Não gosto de políticos nus, porque nos políticos me interessa o que eles têm vestido. Porque é o que eles vestem que me diz quem eles são, o que querem, o que pensam de si e dos outros. É através do que vestem que eu sei o respeito que têm pelos outros. Como se adequam a cada momento da vida e da história. Cavaco Silva, por exemplo, de fato e gravata numa feira, hirto como um manequim a quem a roupa de cidade assentará sempre mal, parecerá sempre uma carapaça, diz muito mais do político do que Cavaco Silva nu, seja lá onde for.
A nudez de Joana Amaral Dias diz-me várias coisas, a primeira é a falta de originalidade. Há dezenas de anos que revistas internacionais de moda e comportamentos urbanos fazem capas com o corpo nu de mulheres mais ou menos conhecidas. Nada de novo. Nem o nu, nem o atraso com que essa moda aqui chegou. A segunda é a associação do nu ao minimalismo: o nu é a ausência. Onde os adeptos deste tipo de nu referirão a ausência de preconceitos, eu percebi a ausência de ideias a transmitir. O nu transmite, ou pretende transmitir um choque. No caso de Joana, um choque de liberdade e de modernidade. Já agora, para referir outro nu, o da cabeça nua e também exposta da mulher de Passos Coelho, um choque de piedade e de solidariedade. A publicidade vive destes choques. Por detrás do nu, está vestido um produto. Seja um voto, seja um champô. Por detrás do nu, está o fotógrafo e o vendedor.
A barriga nua da Joana e a cabeça nua da mulher do primeiro ministro são cartazes de produtos que necessitam deste choque para serem vendidos. Se esses produtos necessitam da nudez para se imporem no mercado, desconfio que não sejam bons produtos. A Amália Rodrigues nunca precisou de cantar nua para ser uma grande, uma genial cantora. Salgueiro Maia nunca precisou de se fotografar nu para ser aquele que foi capaz de comandar a mais difícil operação militar da nossa história contemporânea e a que mais profundas consequências teve para a nação que somos. Desde logo a que abriu portas à democracia e à descolonização. Churchill, que proferiu o discurso do sangue suor e lágrimas que mobilizou forças contra o nazismo, embora por vezes despachasse dentro da banheira, nunca se fotografou nu, embora acredite que não tomasse banho vestido.
Ao nu, o que é do nu, à política o que é da política. O nu na política é, por norma, má propaganda e está associado à nudez das mensagens. Quando a manteiga é pouca, dizia um amigo meu, tem de ser muito bem espalhada. Eu não acredito que a nudez, seja a da barriga, seja a da cabeça, ajudem a espalhar a pouca manteiga que cada um dos atores tem para nos oferecer com o pão que também não é abundante.
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