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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
(Alfredo Cunha, Iraque 2014)
José Saramago História de um muro branco e de uma neve preta
Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.
A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.
Não tarda que saiam todos para o quintal. Vai ser lançado ao ar o foguete de três respostas, esse que, cumprindo a tradição, anunciará aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo onde aguardará o retoque final da canela e da calda de açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir fazendo e desfazendo grupos em torno do avô, que sopra um tição trazido da lareira e o aproxima do cartucho de pólvora amarrado ao caniço. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas responderam-lhe como das outras vezes: “Ainda és muito pequeno, para o ano que vem”. A Família tem razão: é preciso ter cuidado com as crianças.
A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de fagulhas vivíssimas, silva como uma serpente, e logo é um dragão rugindo que sobe para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto, quase tocando as primeiras estrelas, estala, estraleja, cobrindo os ecos de outro foguete distante. O caniço desce com uma luz mortiça que desmaia, e vai cair longe, nos olivais que rodeiam a casa, sobre as ervas cobertas de geada. Com este tempo não há perigo de que pegue fogo às árvores. De súbito, a Família diz que está frio e volta para casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança a quem não deixaram ajudar a lançar o foguete. Tinham deixado a porta aberta, o interior da cozinha arrefecera. A Avó acode a espalhar na fogueira uma mão-cheia de aparas, desgalha um ramo seco de oliveira, parte-o com as mãos calejadas, mas é com suavidade que depois chega os troços à chama, como se estivesse a alimentá-la. O lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha, e depois, indiferente, alheado, a pensar noutra coisa, recomeça o seu eterno ofício de fabricante de cinzas.
A Família gira em redor da mesa, arruma-se nas poucas cadeiras que há, trazidas algumas de outras casas, uns quantos escabelos pouco firmes, um caixote velho posto em pé. Os rostos estão sorridentes e corados, e têm nomes e apelidos, mas, para a Criança, são, antes de tudo, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos, um enorme e complicado corpo de animal que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças ou o Dragão-Que-Não-Dorme. Sobre a mesa trava-se uma gesticulação ruidosa de facas e garfos, de mãos, de dentes, uma contínua mastigação que deforma os rostos e engordura as bocas. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Também tem uma história para contar, só está à espera duma pausa, dum momento mágico em que todos se calem, acaso emudecidos por um anjo que passou deixando apenas a imagem de um dedo imperioso sobre os lábios cerrados. O momento está a chegar por fim, uma a uma calam-se as bocas da Família, é agora ou nunca, a Criança inspira fundo, rompe o silêncio, começa a falar. A Família olha surpreendida, dá alguma atenção, mas não muita nem por muito tempo, não dura, não pode durar, as vozes regressam do silêncio, e é o Pai que lhe corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança.
Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória.
As Crianças estão sempre a nascer. Às vezes nascem de explosivas alegrias, de achados incríveis, de deslumbramentos únicos, mas o mais frequente, uma vez após outra, é nascerem de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida. Há que ter muito cuidado com as Crianças, nunca me cansarei de o dizer. Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora e mandou os seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que não empregou esta linguagem, o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira”. Uns com lápis, outros com aguarelas, outros com papel recortado, alguns pintando com os dedos, todos cumpriram o melhor que puderam. Apareceu tudo quanto é costume nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores, São José, a Virgem e, inevitavelmente, o Menino Jesus. Bem feitos uns, mal feitos outros, toscos ou esmerados, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da Professora. Ali mesmo ela os viu e lhes pôs nota. Ia marcando “bom”, “mau”, “suficiente”, como se com esses juízos os marcasse para a eternidade. De repente. Ah, quantas vezes ainda teremos de dizer que é preciso muito cuidado com as crianças! A Professora segura um desenho nas mãos, um desenho que não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
“Porquê?”, pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.
Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso.
Este conto (se o é) tem a sua origem em duas crónicas, “Um Natal Há Cem Anos” e “A Neve Preta”, publicadas no jornal A Capital no final dos anos 60 e que hoje podem ser lidas mais comodamente no volume Deste Mundo e do Outro. A junção delas (que de certa maneira é também fusão) aconteceu em 1995 e teve como destino uma revista espanhola entretanto desaparecida. Relidas hoje, novamente refeitas, estas velhas crónicas perguntam se o muro branco ainda lá está e se ainda há quem tenha de continuar a pintar a neve com tinta preta. Por mim, acho que sim. Quem dera que sejam muitos os que tenham razões para pensar que não
(Coord. Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)
José Saramago Demissão
(Adão Cruz)
Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos, se dependentes. (in Os Poemas Possíveis) |
José Saramago
(Adão Cruz)
(...)
"A grande e decisiva arma é a ignorância. É bom, dizia Sigisberto, no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, o padre Agamedes que explique isto melhor, e que só o trabalho dá dignidade e dinheiro, porém não têm de achar que eu ganho mais do que eles, a terra é minha, quando chega o dia de pagar impostos e contribuições, não é a eles que vou pedir dinheiro emprestado, que aliás sempre foi assim, e será, se não for eu a dar-lhes trabalho, quem o dará, eu e eles, eu que sou a terra, eles que o trabalho são, o que for bom para mim, bom para eles é, foi Deus que quis assim as coisas, o padre Agamedes que explique melhor, em palavras simples que não façam mais confusão à confusão que têm na cabeça, e se o padre não for suficiente, pede-se aí a guarda que dê um passeio a cavalo pelas aldeias, só a mostrar-se, é um recado que eles entendem sem dificuldade. Mas diga-me, senhora mãe, bate também a guarda nos donos do latifúndio, Credo, que esta criança não regula bem da cabeça, onde é que tal se viu, a guarda, meu filho, foi criada e sustentada para bater no povo, Como é possível, mãe, então faz-se um guarda só para bater no povo, e que faz o povo, O povo não tem quem bata no dono do latifúndio que manda a guarda bater no povo, Mas eu acho que o povo podia pedir a guarda que batesse no dono do latifúndio, Bem digo eu, Maria, que esta criança não está em seu juízo, não a deixes andar por aí a dizer estas coisa que ainda temo trabalhos com a guarda.
O povo fez-se para viver sujo e esfomeado. Um povo que se lava é um povo que não trabalha, talvez nas cidades, enfim, não digo que não, mas aqui no latifúndio, vai contratado por três ou quatro semanas para longe de casa, e meses até, se assim convier a Alberto, e é ponto de honra e de homem que durante todo o tempo do contrato se não lave nem cara nem mãos, nem a barba se corte. E se o fizer, hipótese ingénua de tão improvável, pode contar com a troça dos patrões e dos próprios companheiros. É esse o luxo da época, gloriarem-se os sofredores do seu sofrimento, os escravos da escravidão. É preciso que este bicho da terra seja bicho mesmo, que de manhã some a remela da noite à remela das noites, que os sujos das mãos, da cara, dos sovacos, das virilhas, dos pés, do buraco do corpo, seja o halo glorioso do trabalho no latifúndio, é preciso que o homem esteja abaixo do animal, que esse, para se limpar, lambe-se, é preciso que o homem se degrade para que não se respeite a si próprio nem aos seus próprios."
(...)
José Saramago - Levantado do Chão
José Saramago Moby Dick em Lisboa
Lembram-se? Moby Dick é aquela gigantesca baleia branca que o capitão Ahab persegue nas páginas do romance de Herman Melville. É (dizem os exegetas autorizados da obra) uma encarnação do mal, sobre que se obstina, surdo a conselhos e razões, o ódio de Ahab. Ao longo de centenas de páginas, ficamos a saber tudo a respeito da caça da baleia no século XIX e de como se faz uma obra-prima literária. Moby Dick, agora título de livro, é provavelmente o maior romance de toda a literatura norte-americana.
Pois Moby Dick veio a Lisboa. Vinda do vasto Atlântico, apareceu ao largo, numa manhã enevoada, doente, ferida de morte, talvez perdida entre desencontradas correntes. Virou para a cidade os olhos frios e redondos, e o seu pequeno cérebro registou difusamente a ondulação das colinas, que tomou por enormes vagas carregadas de corais soltos. Receou-se do grande temporal e quis voltar atrás, mas a maré, que enchia, empurrava-a para dentro do estuário. Os golfinhos rodeavam a grande massa meio morta que rolava ao balanço dos movimentos vagarosos da cauda. Começava o funeral do gigante.
Pela margem do rio, os automóveis acompanhavam o lento avanço da baleia. Havia binóculos apontados, muitos deles apenas habituados a focar coristas no Parque Mayer ou primas-donas em S. Carlos. E os pescadores à linha olhavam envergonhados aquela espécie de ilha flutuante que resfolgava a espaços. Todo o rio era pasmo e assombro. Só as gaivotas, que separam tudo quanto flutua em duas grandes categorias, o que se come e o que não se come, avaliavam, sôfregas, no seu voltejo incansável, a qualidade da iguaria, e gritavam a todos os ventos o advento de uma era de abundância.
Moby Dick ia perdendo as forças. Já a corrente a desviava para a margem, para a ignomínia do encalhe definitivo, para as águas baixas, poluídas dos dejectos de um milhão de seres humanos. Se a baleia não fosse um animal certamente obtuso e sem memória, viria agora à rede do estilo a lembrança dos grandes e abertos mares por onde navegara no tempo da sua robustez. Mas o corpo meio afundado desagregava-se, a pele estalava e embebia-se de água — ao passo que os olhos turvos mal distinguiam os barquinhos que a mareta sacudia e os curiosos que dentro deles disparavam máquinas fotográficas contra a primeira baleia da sua vida.
Ninguém deu pelo minuto exacto em que Moby Dick morreu. O seu corpo imenso estava a extinguir-se aos poucos, agora este lado do dorso, agora aquela barbatana, a seguir a cauda, a cabeçorra informe, até que uma célula remota, perdida entre os grandes arcos das costelas, se dissolveu na massa fétida que invadia tudo. Os curiosos afastaram-se apertando o nariz, os barqueiros deram balanço ao negócio inesperado mas de curta duração — e a baleia ficou sozinha, imóvel, enquanto as águas do rio marulhavam à sua volta, e por baixo os peixes atacavam o ventre liso e vulnerável.
A cidade, nessa noite, conversou muito.
No dia seguinte, os jornais afirmaram que a baleia seria queimada. Não o foi. Rebocaram--na para o largo e desfizeram-na em bocados. Vivera o seu tempo, e acabara de triste maneira, degradada, como um simples ouriço que a ressaca vai rolando na praia.
E eu pergunto: Que estranho caso ou presságio trouxe aqui de tão longe este animal? Por que veio Moby Dick, entre duas náuseas, morrer a Lisboa? Quem me dirá porquê?
(in José Saramago,Moby Dick em Lisboa, 98 Mares, EXPO 98)
Pilar del Rio Glorieta José Saramago
De los Cuadernos de Lanzarote, 31 de diciembre de 1994:
“Escribo entre las 12 de la noche y las 12 de la noche. La Península ya entró en 1995, aquí nos quedan veinte minutos de 1994 por vivir. En Canarias no hacemos las cosas por menos: necesitamos 24 campanadas para pasar de un año a otro. Los amigos que vinieron de Portugal y de España miran con desconfianza los relojes, como sin saber dónde se encuentran… El tiempo es una tira elástica que se estira y se encoge. Estar cerca o lejos, allá o acá, solo depende de la voluntad. En la península ya acabaron los fuegos artificiales. La noche de Lanzarote es cálida, tranquila. ¿Nadie más en el mundo quiere esta paz?”
Esta paz: la que José Saramago encontraba entre los meandros del Río Almonda cuando era niño y que, tantos años después, recuperó en los volcanes de Timanfaya o mirando el mar de Puerto del Carmen desde la ventana de su despacho, desde este lugar que hoy nos acoge en lo que a mí me parece un abrazo de la tierra al hombre que quiso habitarla.
Hoy es un día de gratitud y también de mirarnos a nosotros mismos, al pasado que fuimos, que nos urge y nos convoca a no olvidar. Lanzarote es grande cuanto más grande es su ambición. Esta es la isla del desarrollo sostenido que nos enseñó César Manrique, Reserva de la Biosfera que no quiere dejar de serlo por prospecciones petroleras miles de veces protestadas, es un lugar de encuentro donde el paisaje se impone como la estimulante compañía que necesitan los creadores para describir el mundo y los demás para vivir con una dimensión humana.
José Saramago sintió Lanzarote, esta “tierra – cuerpo”, de forma tan intima y profunda que hasta su estilo literario se modificó, como dejó dicho en La estatua y la piedra, conferencia dictada en Italia, ahora ya libro que camina por varios países. Ahí cuanta José Saramago que el contacto con la secura y el reconocimiento de los poros de la piedra le llevó a interesarse más por la materia de la que está hecha la estatua que por los pliegues que el escultor obtiene cuando la modela. Y surge en Lanzarote un escritor renovado, más directo, que no usa bosques floridos, prefiere la erupción volcánica para contar el mundo, y escribe Ensayo sobre la ceguera o Ensayo sobre la lucidez o La Caverna, que son golpes en la conciencia del lector, una llamada de atención para que no seamos ciegos pudiendo ver. Estos libros, y otros, nacieron, para nuestra alegría, en este lugar que ahora podemos visitar y, tal vez, sentir las vibraciones que a él le motivaron.
Es día de agradecer, decía:
En nombre de la familia de José Saramago, en el de la Fundación que lleva su nombre, supongo que en el de tantos lectores repartidos por el mundo, doy las gracias en primer lugar al Ayuntamiento de Tías, que por unanimidad decidió que esta rotonda que tantas veces lo vio pasea se llamaría José Saramago. Gracias querido alcalde.
También al Cabido de Lanzarote, Gracias presidente, que con el equipo de gobierno se empeñó en que el proyecto fuera realidad.
Gracias Consejera, porque el gobierno de Canarias es sensible al valor de José Saramago para el archipiélago.
Y gracias a Ester Fernández Viñas, a José Perdomo Guillén y a Javier Pérez Fernández-Fígares autores de este hermoso monumento que ha de darnos sombra es las horas difíciles.
Queridos amigos: si esta casa y esta biblioteca contienen dentro a José Saramago, a su espíritu libre, combativo y creador, esta rotonda representa el mejor Lanzarote, el de quieres respetan y agradecen, la tierra inmensa que reconoce a los suyos y suyos son quienes la aman y la protegen de la devastación.
Hoy es un día de fiesta con un punto de añoranza. Hace tres años que estamos sin José Saramago, tres años ya que sentimos su falta, aunque no su ausencia. Este olivo de tronco recio y ramas aladas nos recordarán que nosotros fuimos sus interlocutores, la tierra y las personas que eligió para quedarse. Como el acero de este olivo, la luz que nos auxilia y la insobornable amistad.
Muchas gracias.
Pilar del Río
Tías, Lanzarote, 15-6-2013
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Un olivo de acero de cinco metros recuerda a José Saramago en Lanzarote Agencia EFE
Inaugurada El Olivo, escultura homenaje al escritor José Saramago La Voz de Lanzarote
Un olivo de acero para Saramago El Universal (Venezuela)
Em Lanzarote
Há quase dez anos José Saramago trouxe de Azinhaga uma oliveira e plantou-a em sua casa. Viajou com a pequenina árvore entre as pernas, equilibrando-a no avião, e cuidou para que ela se adaptasse ao forte vento e o solo rochoso da ilha. Agora, tantos anos depois dessa viagem e três depois de sua morte (no dia 18 de junho de 2010), Lanzarote “plantou” uma oliveira de aço de cinco metros de altura em homenagem ao Nobel português.
Neste sábado, dia 15 de junho, na presença de amigos, familiares e moradores da ilha, sob o sol e o vento característicos de Lanzarote, foi inaugurada a Glorieta José Saramago. Está localizada no início da rua onde morou o escritor e onde agora funcionam a Casa-Museu e a Biblioteca José Saramago, no município de Tías. No centro da rotunda está a escultura de autoria de Ester Fernández Viña, José Perdomo Guillén e Javier Pérez Fígares: uma enorme figura de aço com as iniciais J e S no formato de oliveira, símbolo de sabedoria e árvore tão querida pelo autor de Ensaio sobre a Cegueira.
“É um abraço da terra ao homem que a quis habitar”, disse Pilar del Río no seu discurso. “Hoje é um dia de gratidão e também de olharmos para nós mesmos, para o passado que fomos, que nos urge e nos convoca a não esquecer”, acrescentou a presidenta da Fundação José Saramago. Pilar também recordou César Manrique e o seu labor pela preservação ambiental, ideia compartilhada por Saramago e um dos princípios basilares da fundação que leva o seu nome. “Em Lanzarote surge um escritor renovado, mais direto, que não usa bosques floridos, preferindo a erupção vulcânica para contar o mundo”, apontou Pilar após citar o ensaio de Saramago intitulado A estátua e a pedra, publicado este ano pela Fundação. “Agradeço ao Ayuntamiento de Tías, que por unanimidade decidiu que essa rotunda que tantas vezes o viu passar se chamaria José Saramago”, finalizou.
“A oliveira de aço é a expressão de reconhecimento e gratidão, com testemunhos, diante de sua casa, na terra compartilhada”, disse o Presidente da Câmara de Tías, José Francisco Hernández. “Estamos devolvendo a Saramago algo que nos havia entregue antes: respeito e dedicação”, acrescentou o Presidente, que também recordou que o escritor colocou o nome de Lanzarote em seus livros e em sua biografia: “De alguma forma, pode-se dizer que onde ele ia, nós estávamos com ele”.
Inés Rojas, Ministra da Cultura e Assuntos Sociais de Canárias, encerrou o ato num discurso improvisado e emotivo sobre o escritor. “Não queria recordá-lo como o grande literato que foi, porque isso muitos já o fizeram, mas como um referente num momento difícil como aquele por que estamos a passar. Saramago, já tens uma oliveira plantada em Lanzarote”.
Finda a cerimónia, as portas da biblioteca da Casa foram abertas e os presentes brindaram pela memória de José Saramago.
Texto publicado em http://www.josesaramago.org
José Saramago As mulheres são mais fortes
Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?
José Saramago, in 'L'Orient le Jour (2007)'
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