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Charles Hussain, Beirute Forças especiais turcas e americanas treinam terroristas nas vizinhanças de Kobane
Terroristas do Estado Islâmico treinando na Turquia
15 de Outubro de 2014
Os Estados Unidos criaram uma estrutura especial de âmbito civil e militar para fornecer armamento aos grupos de terroristas islâmicos que continuam a ser treinados no território da Turquia para intervir na guerra civil síria contra o regime de Damasco, segundo fontes diplomáticas ocidentais em Beirute.
A estrutura nasce no âmbito de uma intensa troca de contactos nos últimos dias entre altos quadros operacionais turcos e norte-americanos dos sectores da espionagem. Estes contactos desmentem as divergências que se dizem existir entre Washington e Ancara em relação ao combate contra os terroristas do Estado Islâmico. A única condição exigida aos mercenários em treino na Turquia para poderem receber armamento norte-americano é não pertencerem ao Partido da União Democrática, por assentar sobretudo na comunidade curda da Síria, que os dirigentes turcos e norte-americanos consideram aliada do regime de Bachar Assad. Não é conhecida qualquer disposição que vete o treino e o fornecimento de armas a membros do Estado Islâmico ou de qualquer outro grupo aparentado da Al-Qaida, segundo as fontes diplomáticas.
“Caem por terra as últimas ilusões que ainda poderiam restar quanto ao suposto empenhamento de meios aéreos norte-americanos contra o Estado Islâmico”, afirma Ahmed Kelani, professor turco que leciona em Beirute. “O regime fundamentalista turco e os seus aliados da NATO, principalmente os Estados Unidos, mantêm a política de alimentar a guerra civil na Síria através do terrorismo islâmico e marginalizam os sectores que combatem de facto o Estado Islâmico”, acrescenta o professor.
Os intensos contactos entre operacionais turcos e norte-americanos têm-se registado ultimamente aos níveis dos serviços secretos e dos Estados-Maiores militares. O director do serviço de espionagem turco MIT, Hakan Fidan, esteve há dias em Washington, onde se encontrou com John Brennan, chefe da CIA; uma delegação do Pentágono é esperada a todo o momento em Ancara, enquanto o comandante das operações militares no Sudeste da Turquia, Erdal Ozturk, tem viagem marcada para a capital federal dos Estados Unidos. Este general é o principal responsável pelos combates contra a guerrilha curda na Turquia, a única força que enfrenta efectivamente o Estado Islâmico no Curdistão Iraquiano, a par de grupos curdos do Iraque.
Os grupos de mercenários para infiltrar na Síria são treinados por forças especiais turcas e norte-americanas na província de Sanliurfa, no sul da Turquia, segundo as mesmas fontes diplomáticas na capital libanesa. O território é vizinho da zona de Kobane,no Iraque, onde milhares de civis curdos estão cercados, à mercê do Estado Islâmico.
“Para apurarmos até que ponto chega a mistificação propagandística de que o mundo está a ser alvo basta perceber que enquanto governos de vários países pedem aos turcos e aos norte-americanos que protejam a população de Kobane da violência dos terroristas do Estado Islâmico, nas vizinhanças estão presentes forças especiais turcas e norte-americanas que treinam mercenários islâmicos ditos do Exército Sírio da Liberdade mas que na verdade irão reforçar todos os agrupamentos terroristas que lutam contra Assad, incluindo o Estado Islâmico, Frente Sal-Nursa e outros afins da Al-Qaida”, afirma o professor Kelani. “Não esqueçamos”, acrescenta, “que o presidente turco Erdogan é um dos financiadores da Al Qaida, conforme se percebeu através dos recentes escândalos em Ancara”.
Charles Hussain, Beirute
Em Kobane as bandeiras negras hasteadas pelos assassinos do chamado Estado Islâmico, que não existe como tal, vão desaparecendo graças à resistência dos curdos a quem o governo turco, em vez de apoiar, combate.
David Graeber(*) Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria?
Mulheres curdas em armas na defesa de Kobane
Em 1937, o meu pai ofereceu-se para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República Espanhola. Um possível golpe fascista foi temporariamente interrompido por uma revolta operária, liderada pelos anarquistas e socialistas, a que se seguiu, em grande parte de Espanha, uma verdadeira revolução social, levando a que cidades inteiras fossem geridas de forma directa e democrática, as indústrias ficassem sob o controle dos trabalhadores e tivesse havido uma participação radical das mulheres.
Os revolucionários espanhóis esperavam criar um modelo de uma sociedade livre que pudesse ser seguido por todo o mundo. Em vez disso, as potências mundiais puseram em prática uma política de “não-intervenção” e mantiveram um rigoroso bloqueio à república, mesmo depois de Hitler e Mussolini, os signatários declarados, começarem a fazer chegar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminaram com a repressão da revolução e alguns dos massacres mais sangrentos de um século sangrento.
Nunca pensei que, durante a minha própria vida, iria ver isto acontecer de novo. Obviamente, nenhum facto histórico acontece na realidade duas vezes. Há milhares de diferenças entre o que aconteceu em Espanha em 1936 e que está a acontecer hoje em Rojava, as três províncias de maioria curda do norte da Síria. Mas as semelhanças são tão impressionantes, e tão angustiantes, que sinto que é minha obrigação dizer, como alguém que cresceu numa família cuja acção política era, em muitos aspectos, definida pela revolução espanhola: não podemos deixar que tudo termine, outra vez, da mesma forma.
A Região Autónoma da Rojava, como existe hoje, é um dos poucos pontos brilhantes – ainda que seja muito brilhante – a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência, como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais oficiais têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem que ser uma mulher), há mulheres e conselhos de juventude, e, num eco notável da organização “Mujeres Libres” (Mulheres Livres) de Espanha, existe um exército feminista, a milícia “YJA Star” (“União de Mulheres Livres “, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico.
Como pode uma coisa destas acontecer e ser ainda ignorado quase por completo pela comunidade internacional, e mais ainda, em grande parte, pela esquerda internacional? Ao que parece, principalmente, porque o partido revolucionário de Rojava, o PYD, é aliado do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), um movimento de guerrilha marxista, que desde os anos 70 está envolvido numa longa guerra contra o Estado turco. A Nato, os EUA e a UE classificam-no oficialmente como uma organização “terrorista”. Enquanto isso, os esquerdistas, na sua maioria, descrevem-nos como stalinistas.
Mas, na verdade, o próprio PKK já não é absolutamente nada parecido com o velho partido leninista, de cima abaixo, que já foi. A sua própria evolução interna e a transformação intelectual do seu próprio fundador, Abdullah Ocalan, que aconteceu quando estava na preso numa ilha turca desde 1999, levaram-no a mudar completamente de objectivos e tácticas.
O PKK já declarou que nem sequer pretende criar um Estado curdo. Em vez disso, inspirado em parte pela visão do ecologista social e anarquista Murray Bookchin, adoptou a visão de “municipalismo libertário”, apelando aos curdos para criarem comunidades livres de auto-governo, com base nos princípios de democracia directa, que em conjunto podiam ultrapassar os limites das fronteiras nacionais – que se espera que, ao longo do tempo, se tornem cada vez mais sem sentido. Desta forma, a proposta que fazem é de que a luta curda se possa tornar um modelo para um movimento global em direcção a uma democracia genuína, uma economia cooperativa e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.
Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um cessar-fogo unilateral face ao Estado turco e passou a concentrar os seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas nos territórios controlados por si. Alguns questionaram quão sério isto seria na realidade. De forma clara, continua a haver traços autoritários. Mas o que tem acontecido em Rojava, quando a revolução síria deu a oportunidade aos radicais curdos de realizarem experiências deste género num grande e contínuo território, sugere que isto é tudo menos uma obra de fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares foram constituídos, as propriedades do regime foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores – e tudo isto apesar dos ataques continuados por parte das forças de extrema-direita do ISIS (Estado Islâmico). Os resultados vão de encontro a qualquer que seja a definição de uma revolução social. Pelo menos, no Médio Oriente estes esforços têm sido notados: sobretudo depois das forças do PKK e de Rojava terem aberto com êxito uma passagem através do território do ISIS no Iraque para salvarem milhares de refugiados Yezidi, presos no Monte Sinjar, após os peshmerga locais terem abandonado o terreno. Essas acções foram amplamente celebradas na região, mas curiosamente não receberam quase nenhuma atenção por parte da imprensa europeia ou norte-americana.
Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques e artilharia pesada, de fabrico norte americano, capturados às forças iraquianas, para se vingar de muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em Kobane, afirmando a sua intenção de massacrar e escravizar – sim, literalmente escravizar – toda a população civil. Enquanto isto, o exército turco está na fronteira impedindo que reforços e munições cheguem aos defensores (de Kobane, ndt), e os aviões dos Estados Unidos fazem-se ouvir em ocasionais e simbólicos ataques rápidos – aparentemente, apenas para que não se diga que não fizeram nada quando um grupo, contra o qual afirma estar em guerra, esmaga os defensores de uma das grandes experiências democráticas do mundo.
Se se fizesse um paralelismo hoje com os falangistas de Franco, superficialmente devotos e assassinos, com quem seria senão com o ISIS? Se há um paralelismo com as Mujeres Libres da Espanha, com quem será senão com as mulheres corajosas que defendem as barricadas em Kobane? O mundo – e desta vez da forma mais escandalosa de todas, a esquerda internacional – vai ser outra vez cúmplice ao deixar que a história se repita?
(*) Artigo do antropólogo anarquista David Graeber publicado hoje [9 de Outubro] no “The Guardian”.
Tradução “Portal Anarquista”
sites anarquistas com informação sobre a situação na fronteira sirio-turca:
https://www.facebook.com/WorkersSolidarityMovement?fref=ts
http://www.alternativelibertaire.org/?Reportage-Photo-Les-anarchistes
em turco: https://www.facebook.com/anarsihaber
O grupo turco Acção Anarquista Revolucionária (DAF) veio reforçar a defesa de Kobane
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