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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Lídia Jorge "Cai a chuva no portal"
(Edvard Munch)
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.
Lídia Jorge "O dia dos prodígios"
(Foto de Alfredo Cunha)
(...)
Maria Rebôla parou no postigo da porta. Ofegante como uma posta.
— O que faz vossemecê nessa triste posição? No dia em que se acaba de saber que soldados e grandes chefes fizeram uma revolta?
E como José Jorge Júnior se erguesse sobre os joelhos.
— Não sabe ainda que em Lisboa os soldados fizeram uma revolução para melhorarem a vida de toda aquela gente? Uma re vo lu ção? Um grande golpe?
E que todos os sinais do céu agora têm sentido?
-— Um golpe? Perguntou José Jorge Júnior. No governo de Lisboa? Duvidoso pela sua mouquidade. Escarranchado sobre os joelhos das suas pernas. Os soldados. Deve haver muito sangue nas valetes dessa terra, a esta hora, oh Maria. Deve haver. Gente morta por toda a parte. Ai deles se se levanta a peste com este sol da primavera. E cinco vezes abriu as mãos disposto a levantar-se. Quem matou quem?
— Olhe, tio José Jorge. Se alguém matou alguém deus ressuscitou a todos, porque estão a dizer que não houve nenhuma baixa. E as maravilhas nessa terra são tantas que dizem. Afirmam a pés juntos. Que só há música, flores e abraços. Dizem. Que de repente os ausentes estão a chegar. Os cegos vêem sem óculos nem outro aparelho. Os coxos deixaram de dar saltinhos, ficando as pernas da mesma altura. Mesmo os manetas tocam violino. De repente. To cam vi o li no. Tio José Jorge. Mas agora não faça mais perguntas que todas são a mais. É tudo o que sei, isto que acabo de contar.
Por isso arrancou do chão dois baldes de água cinzenta, e abalou com pressa. Redonda de talho, avental debaixo do braço. No portal calcou os sapatos, pendurando tudo o que era bocha e mama disse.
— E agora vou-me embora, porque só isto é sabido. E embora todos falem da mesma coisa, ninguém se atreve a inventar uma parcela que seja, por respeito ao fundamento da verdade. Da pura verdade.
José Jorge Júnior sentou-se à porta sobre uma cadeira de tabua. Fundo côncavo. E com o assento aí enterrado foi abalado por um remoçamento a partir dos pés. Esperancinha, tira o lenço que vou falar contigo. E ele mesmo lho arredou da cara. Houve em Lisboa um grande golpe de es ta do. Quem lá vai, ou está, fica pasmado de tanta ousadia e decisão. Pas ma do. Um alvoroço muito intenso e inquieto lhe encheu o espírito. Se procurasse um pauzinho para a mão esquerda, ajudado pelo bordão da direita, encostando o ombro pelos muros e valados, chegaria rápido. Quando ouvisse mais gente falar e correr como Maria Rebôla.
(...)
(in O Dia dos Prodígios, Dom Quixote)
A Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega (AELG) entrega no dia 4 de Maio, durante a XIV edição dos prémios AELG, o galardão de Escritora Galega Universal à escritora Lídia Jorge.
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