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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 14.04.16

A lembrar-me de alguns belos contos de escritores portugueses ou de língua portuguesa - Augusta Clara

 

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Augusta Clara  A lembrar-me de alguns belos contos de escritores portugueses ou de língua portuguesa 

 

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- OS DESASTRES DE SOFIA - Clarice Lispector
- OS AMANTES - Jorge de Sena
- OS AMANTES - David Mourão-Ferreira
- O ECLIPSE - Maria Teresa Horta
- O JANTAR CHINÊS - Maria Ondina Braga
- CHUVA - Carlos de Oliveira
- MINSK - Gracliano Ramos
- O MISTÉRIO DA ÁRVORE - Raúl Brandão
- YASMINA E OS SEUS AMORES - Mário de Carvalho
- A REVOLUÇÃO - Aquilino Ribeiro
- O AVIADOR- Florbela Espanca
- EIRENE - Hélia Correia
- O PONTO DE VISTA DAS GAIVOTAS - Ana Teresa Pereira
- A PROVA DE FORÇA - Branquinho da Fonseca
- BEIJINHOS NO ROSTO - Rubem Fonseca

E hoje ficamos por aqui.

 

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por Augusta Clara às 16:00

Sexta-feira, 14.11.14

A Europa e os outros - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  A Europa e os outros

 

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   Por caso veio parar-me às mãos uma notícia já antiga a dar conta de que a União Europeia tinha atribuído a Portugal “um investimento” de mais de 347 milhões de euros ao longo de sete anos para cumprir vários objectivos de integração das comunidades ciganas e que o governo tinha aprovado uma “Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)” num Conselho de Ministros.

Mais recentemente surgiu a notícia de que crianças portuguesas no Luxemburgo tinham sido proibidas de falar português numa escola do Grão Ducado. Para o presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), a proibição pode levar também a um sentimento de desvalorização da língua materna, contrariando as políticas do Governo luxemburguês, que vem defendendo a importância do português para o sucesso escolar dos imigrantes.

As duas notícias não são importantes em si mesmas, mas são sintomáticas do modo como a Europa e os europeus se vêem hoje. Refletem a ideia politicamente correta de que a Europa é um espaço neutro, de todos, onde todos podem implantar as suas culturas, praticar os seus ritos, falar as suas línguas, adorar os seus deuses. E quanto mais afastadas do padrão civilizacional que os europeus foram construindo ao longos dos séculos, melhor.

Estas notícias expressam a fraqueza da Europa e explicam, em parte, a sua decadência. Refletem a crise dos valores através da perda de velhos saberes essenciais. Dizem-nos que nós, os europeus, não entendemos a Europa como a nossa casa, nem assumimos que nela somos nós os senhores e que os outros são nossos hóspedes. Um provérbio tsonga, um povo de Moçambique, diz que “o visitante é escravo do seu hospedeiro”, querendo significar que o hospedeiro pode exercer a sua autoridade sobre a visita. Um outro, também de África, diz que é a galinha da casa que indica o caminho à que chega.

A Europa tem uma má relação com a sua história desde a derrota da II Guerra Mundial e passou a envergonhar-se de si. Culpa-se do seu sucesso de séculos, do sucesso que a levou a impor aos outros espaços e aos outros povos os pilares em que todos eles assentam a sua actual organização política e económica: o estado-nação, o capitalismo, o socialismo, a industrialização, o comércio mundial, a separação das igrejas dos estados, o estado de direito, os direitos das mulheres e das crianças, que são, entre outros, contributos fundamentais da Europa para toda a humanidade. É claro que a Europa também tem heranças de má memória, a violência com que ocupou as Américas e a África, a Inquisição, a escravatura, duas guerras mundiais. Feito o balanço podíamos não nos orgulharmos do passado, de termos sido nós a ir pelo mundo, mas a questão é que nos penitenciamos por essa ousadia, pela nossa capacidade de transbordar. A questão é hoje em dia agravada porque os europeus têm para com os estrangeiros a complacência que não têm com os seus. Um cigano, um árabe, um africano podem falar nas escolas as línguas das suas comunidades de origem, mas uma criança portuguesa não pode falar português numa escola do Luxemburgo! As comunidades estrangeiras recebem apoios para serem integradas nos países europeus mesmo recusando as leis e os costumes destes, enquanto aos nacionais europeus pode ser retirado o apoio social no desemprego ou na doença. Um provérbio zulu diz mais ou menos que “quando estás numa aldeia estranha espera para ver como os seus habitantes fazem para caçar e para comer”. Um provérbio europeu dos nossos dias provavelmente diria a um estrangeiro: “ao chegares a uma aldeia europeia manda os locais caçar para tu comeres.”

Julgo que a expansão das ideias xenófobas se deve em boa parte à falta de definição dos papéis entre quem está e quem vem, à falta da sabedoria antiga dos povos que diziam que o estrangeiro só pode brincar com uma cana e não com uma faca.

Estas duas notícias refletem uma Europa paradoxal. Uma Europa onde os mesmos europeus pagam para integrar os ciganos – um povo que chegou à Europa no século XV e nunca abdicou da sua cultura, dos seus costumes e leis, apesar da fortíssima perseguição que lhe foi feita – e aplaudem (e pagarão) para desintegrar os escoceses e os catalães do Reino Unido e da Espanha! Onde os mesmos europeus pagam para que uma dada comunidade continue a celebrar casamentos forçados de crianças, a excluir as mulheres da educação, a nomadizar e aceita com bonomia a interdição de alunos de um país europeu falarem a sua língua na escola!

 

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por Augusta Clara às 10:00

Segunda-feira, 30.06.14

A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos - Nuno Pacheco

 

Nuno Pacheco   A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos

 

 

 

Público, 27 de Junho de 214

 

Desejar um futuro à língua portuguesa é desejar-lhe liberdade e diversidade. Ou seja: tudo o que hoje lhe tiramos.

 

   É sempre ingrato falar de algo tão usual como a língua, mas talvez seja por muito falarmos dela, com euforia e sem tino, que a ela sempre voltamos, como náufragos sem madeiros que nos valham num mar imenso. Vamos, pois, à língua e aos seus futuros.

Mas é impossível falar em futuro sem relembrar, ainda que brevemente, o passado. O tempo do galego-português (ou galaico-português, se preferirem), nascido do latim no ângulo noroeste da Península Ibérica, depois da presença romana iniciada em 218 a.C. Outras invasões e conquistas trouxeram outros falares. E se o latim escrito continuava como língua de cultura e transmissão de conhecimento, o português nascido de uma das línguas peninsulares (galego-português, castelhano e catalão; os bascos não haviam abraçado o latim e assim se mantiveram) viu o seu vocabulário, latino e grego na origem, enriquecer-se com palavras de origem germânica (menos) ou árabe (mais). O Testamento de D. Afonso II, que está na origem da mais recente euforia celebrativa, está datado de 27 de Junho de 1214 (faz agora exactamente 800 anos) e é, a nível oficial, o mais antigo documento escrito em língua portuguesa de que há registo. Mas o português não parou por aí, e às influências da proximidade com o castelhano (que chegou a ser usado como segundo língua falada e escrita, inclusive por Gil Vicente e Camões) veio depois a ser influenciado, a partir do século XVIII, pela língua francesa. Gramática, Ortografia e Lexicografia iam-se desenvolvendo desde o século XVI. E iam surgindo os dicionários e vocabulários, com realce para os de Bluteau e de Morais e Silva (ambos escritos e publicados já no séc. XVIII). Por onde andava o português falado, já então?

A crescer e a modificar-se, mas em caminhos diversos consoante as geografias. Portugal e Brasil, mantendo unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa (já o Brasil se tornara independente em 1822), caminhavam para uma óbvia e natural separação em termos de expressão linguística. A velhíssima mãe-língua, ela própria com ainda mais antigos progenitores e parentes, via os filhos crescer, sem contudo prestar atenção suficiente às suas necessidades e diferenças. África, neste campo, também por via da colonização, viu-se a braços com o português como língua oficial (de ensino, de administração) mas não de uso. Porque nesse papel estavam as línguas maternas, não as do colonizador. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tinham crioulos próprios (ainda hoje de uso comum no dia-a-dia), Guiné-Bissau, Angola e Moçambique tinham (e têm) várias línguas, correspondentes a etnias. E se os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial, isso deveu-se à necessidade de evitar divisões (escolher uma língua em detrimento de outra acirraria tribalismos) e ao mesmo tempo de aproveitar o esteio do conhecimento já semeado pelo português.

Depois disso? O vazio, ou quase. Quando, após as independências, os países africanos clamaram por professores, por ajuda no ensino, a resposta foi fraca ou nula. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau quiseram incentivar o português em finais dos anos 1970, mas com parco sucesso. Manuel Ferreira (1917-1992), professor e africanista célebre, autor de livros como Hora Di Bai ou A Aventura Crioula, escreveu em 1988 num livro intitulado Que Futuro Para a Língua Portuguesa em África? (curiosamente, a mesma pergunta que hoje repetimos mas com os olhos postos em ambições maiores) o seguinte: “Houve um período em que esses três países procuraram, insistentemente, socorrer-se de Portugal para a contratação de professores cooperantes, mas sabe-se de quanto os sucessivos Governos portugueses, socialistas ou social-democratas, mostraram estranhamente um soberano desdém pelos continuados apelos dos Governos desses países.” Agostinho Neto terá dito, então, que ia bater a outra porta: a do Brasil.

Pois foi exactamente no Brasil que a língua portuguesa tomou forma distinta, falada e escrita e isso deveria constituir motivo de orgulho. Ao contrário do desprezo a que foi votada África. Cuidou-se excessivamente da ideia de língua oficial, descuidando a língua de uso. Artifício útil para palestras, mas máscara de enorme incompetência. Quando hoje se levanta a bandeira dos “250 milhões de falantes”, Brasil e Portugal são contados na íntegra mas África e o Oriente (Índia, Macau e Timor) são esquecidos na realidade dos seus dias, das suas populações, mesmo que sejam lembrados num punhado de intelectuais, governantes e funcionários. Temos, por incompetência e cobiça, os olhos postos nas altas esferas do poder, mas esquecemos a aldeia, a sanzala, a tabanca. Não nos importamos de mentir quando, alardeando o português como “língua de negócios”, tratamos desses negócios naturalmente em inglês, não só no estrangeiro mas também em Portugal, como se o nosso idioma nos envergonhasse, subservientes como sempre ao que nos vem de fora e achamos mais capaz e mais útil. Como queremos que o português seja língua de trabalho no estrangeiro quando nem em Portugal o é? Quem queremos enganar com tais sonhos de expansão, quando os esforços têm sido contrários, no sentido de fechar, minguar, menorizar o português perante outros idiomas, esses verdadeiramente internacionais porque, em lugar de se auto-elogiarem, impõem-se, fazem-se ouvir. Os ingleses não falam da língua, falam a língua. Assim o deviam fazer os portugueses.

 

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por Augusta Clara às 10:00



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