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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 12.05.16

Áustria outra vez - José Goulão

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José Goulão  Áustria outra vez

  

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Mundo Cão, 11 de Maio de 2016

   Dizem que a História não se repete; ou que se repete como farsa. Porém, ninguém pode garantir, apesar de asserções tão veementes, que ela não se repita como tragédia. Pode acontecer, parece mesmo que já está a acontecer sob os circunspectos narizes das eminências da União Europeia, porém tão ocupadas a estrangular a Grécia, a decifrar os oráculos de arbitrariedade do BCE e do Eurogrupo, a subverter as vontades legítimas dos portugueses, a devolver refugiados aos campos da morte, a minar o voto referendário dos britânicos, a bajular o sultão turco, a pretender caçar terroristas que não precisam de extraordinários talentos para estarem sempre dois passos à frente da parafernália de espionagem virada contra a privacidade do cidadão comum.

Adolf Hitler era austríaco, recorda-se. Isso não quer dizer que a Áustria seja um berço de führers nazis; mas também não se pode garantir que a semente geradora de um se tenha tornado improdutiva. Porque quando se lêem resultados eleitorais onde um herdeiro político do criminoso que desencadeou a Segunda Guerra Mundial atinge os 35 por cento à primeira – mais uns pozinhos do que os nazis alemães obtiveram no sufrágio que lhes ofereceu o governo em 1933 – deduz-se que o caso é de monta, deveria ser levado a sério.

Sobretudo porque não é um caso isolado na Europa, embora tenha a enorme carga, e não apenas simbólica, de ter emergido na Áustria. Há os bandos da senhora Le Pen em França; o governo e os seus grupos de assalto fascistas na Ucrânia, entronizado um pela santíssima aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos, treinados outros por militares norte-americanos, na reserva ao que dizem; há também as maquinações governamentais fascistas nos países nórdicos e bálticos; os garrotes do nacionalismo aristocrático ultramontano com que os governos polaco e húngaro asfixiam metodicamente os seus povos; há ainda o imperador pan-turco Erdogan, o garante de que as guerras no Médio Oriente estão para durar enquanto brinca com as vidas de milhões de fugitivos, abrindo-lhes ou fechando-lhes as portas da sobrevivência com as mãos untadas pelo dinheiro surripiado aos contribuintes europeus.

Para lá do Atlântico, Trump reina como um vingativo salvador de desvalidos e descontentes sobre o pântano republicano e a criminosa mentira democrática; nas Filipinas triunfa eleitoralmente El Castigador, o nacionalismo terrorista que comanda hordas de esquadrões da morte invocando a injustiça social, assustadora, que as “elites políticas” – assim lhes chama – têm aprofundado usando o Estado como se fosse coisa sua.

Na Venezuela, na Argentina, no Brasil, amanhã na Bolívia, quiçá no Uruguai, os fascistas outrora com fardas de generais e carrancas de carrascos, hoje de polo de marca, ou de fato e gravata e sorriso de gel, estão a dar largas ao ódio de vingança há muito acumulado contra as transformações democráticas e populares, comandados, como sempre, pela batuta de Washington.

Tudo isto acontece, aqui e lá, sobre os escombros dos sistemas tradicionais de poder, entre eles o tão famoso “bloco central” em que a sanguessuga neoliberal assentou o seu regime, usando a democracia para subverter a democracia. A realidade não é assim tão simplista, tem variantes, mas o que conta são os resultados: alargamento do fosso das desigualdades, mais milhões empurrados para junto dos milhões de deserdados, a fome e as epidemias alastrando, centenas de milhões de seres humanos à deriva pelo planeta, e o mundo nas mãos de meia dúzia de eleitos que ninguém elegeu e que usam a Terra como o seu quintal, manejando os cordelinhos das marionetas políticas – parece ter chegado o momento em que só as genuinamente fascistas lhes servem.

Enquanto isto acontece, a comunicação social dominante oferece-nos uma realidade paralela embalada no basbaquismo das maravilhas tecnológicas, e assim transforma a ficção em vida para consumo, na mais conseguida e universal das lavagens aos cérebros.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 05.03.16

Pronunciamento de generais contra Hollande - José Goulão

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José Goulão  Pronunciamento de generais contra Hollande

 

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Mundo Cão, 5 de Março de 2016

 

   Generais franceses na reserva publicaram uma carta aberta contra o chefe de Estado, François Hollande, acusando-o de ter “capitulado” na sua actuação contra a chamada “selva de Calais”, os miseráveis campos montados por refugiados fugidos às guerras no Médio Oriente e que esperam a oportunidade de atravessar a Mancha com destino ao Reino Unido. De acordo com Le Figaro, o jornal de direita que dá letra de forma à carta, muitos outros generais, entre os cerca de mil que estão na reserva, são da mesma opinião.

A generalidade da comunicação social francesa não esconde que este pronunciamento militar está alinhado com as posições da extrema-direita fascista contra os refugiados, uma vez que a carta serve de igualmente de protesto contra a detenção de um outro general, Christian Piquemal, ex-comandante da Legião Estrangeira francesa, por ter participado numa manifestação xenófoba não autorizada promovida por Pegida, uma filial do grupo de choque alemão e que gravita no universo dos bandos de assalto controlados pela Frente Nacional de Marine Le Pen. “Em vez de visar um soldado, general e patriota, convém estabelecer a ordem em Calais”, advertem os generais na carta. Estabelecer a ordem, segundo os subscritores, “inclui erradicar a selva – pode existir uma selva na República? – e o envio de todos os clandestinos para os países de origem”.

Nos países de origem dos refugiados, como se sabe, existem guerras nas quais têm participado activamente muitos generais franceses, tanto no âmbito da NATO como por decisão directa dos presidentes franceses Nicolas Sarkozy e François Hollande. A carta dos generais é omissa quanto a essa causa do problema – limita-se a defender o reenvio dos refugiados para o caos e a morte pelos quais o seu país tem elevada quota-parte de responsabilidade – preferindo destacar a “ironia” do facto de o general Piquemal “ter sido detido em nome da ordem pública, enquanto imigrantes ilegais continuam livres”.

Entre os signatários da carta estão o general Coursier, ex-comandante da Região Militar de Lille (que integra Calais), e os também generais Antoine Martinez e Jean du Vernier, além de Yvan Flot, ex-deputado da Frente Nacional pela região de Calais.

A designada “selva de Calais” é um vasto descampado entretanto ocupado por milhares de refugiados, em situação de degradação humilhante, e que pretendem alcançar o Reino Unido, onde o governo de David Cameron lhes fecha as portas, agora ainda com maior firmeza porque se considera forçado a cumprir a agenda da extrema-direita para tentar ganhar o referendo sobre a permanência na União Europeia.

A política da administração Hollande, interpretada no terreno pelo seu primeiro-ministro Manuel Valls, conhecido há muito pelas inclinações xenófobas, tem sido a de reprimir e desmantelar os acampamentos informais e desapoiados existentes na “selva”, ao mesmo tempo que manobra a crise em sintonia com as dificuldades do governo de Londres. A actuação que os generais qualificam de “capitulação” caracteriza-se pelo desmantelamento violento dos acampamentos de refugiados – a exemplo do que Valls está habituado a fazer com comunidades de ciganos em todo o país – sem ter conseguido ainda passar à prática o objectivo de os reenviar para os países de origem. Não se pode fugir ao artigo da Constituição que “determina a integridade do território”, lê-se no pronunciamento dos generais. “Os imigrantes ilegais entram massivamente em França e instalam-se em lugares como Calais”, acrescentam os militares, enquanto os habitantes de Calais vivem em “situação desastrosa, com medo de bandos mafiosos”.

Um dos promotores da iniciativa, Nicolas Stoquer, presidente da Confederação France Armée, explica que “foi a urgência da situação de crise que os empurrou a proceder de maneira descomplexada”.

Colocado perante o texto da carta, um diplomata francês em Bruxelas lamentou que os generais não se tenham pronunciado, em devido tempo, contra a participação das forças armadas francesas em guerras “sem razão e sem fim que estão na base da crise dos refugiados, o que prova também a incongruência das instituições europeias”. Antes dessas guerras, acrescentou, a Europa não sabia “o que era uma crise provocada pela afluência de refugiados”.

 

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por Augusta Clara às 18:00



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