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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Ilan Pappe Israeli Myths & Propaganda
O Professor israelita Ilan Pappe revela a verdade sobre a guerra Israelo-Árabe de 1948 e a limpeza étnica da Palestina
http://www.jornalistassemfronteiras.com/
Castro Gomez (Rostov do Don) Em Rostov do Don: o grito de alarme das vítimas de “limpeza étnica”
(foi há um mês)
Em Rostov do Don (Associated Press)
3 de Julho de 2014
Os serviços das Nações Unidas calculam que mais de cem mil cidadãos ucranianos se refugiaram na Rússia desde que os responsáveis pelo aparelho de segurança de Kiev decidiram atacar militarmente as províncias do Leste e Sudeste da Ucrânia para “repor a ordem constitucional no país”.
As autoridades russas montaram acampamentos na região de Rostov do Don e procuram minorar os efeitos da tragédia humana. A maior parte dos refugiados são mulheres e crianças e chegaram praticamente com a roupa que tinham no corpo quando foram forçadas a fugir aos bombardeamentos das tropas ucranianas. Os refugiados passam a ter direito a um período de permanência de um ano, em vez dos 90 dias que vigoravam até ao início do êxodo, e os responsáveis de acolhimento procuram que todos os adultos tenham acesso a emprego e os mais jovens encontrem lugares nas escolas.
“Estamos a ser vítimas de uma limpeza étnica e o mundo aceita que os de Kiev digam que têm autoridade para a fazer”, afirma Ielena Alexandrova, fugida de Kramatorsk juntamente com uma filha de 13 anos. “Não sei do meu marido, não consigo notícias dele, ficou a tentar convencer a mãe a fugir mas entretanto perdemos o contacto”.
Em Kramatorsk não há água nem luz. “Os bombardeamentos são cegos, hordas fascistas andam à solta, usam bombas de fósforo, queimam a nossa gente, querem obrigar-nos a fugir – não sei o que mais é preciso para se falar numa limpeza étnica”, insiste Ielena.
“Não somos separatistas, não somos pró-russos, nem terroristas nem outras coisas que nos chamam no ocidente, como se fôssemos uns bichos raros, gente com peçonha”, lamenta Viktoria, mulher de 60 anos de Kondrashkova, aldeia que continua a ser sistematicamente arrasada pelas tropas de Kiev. Tenta distribuir os familiares pelas duas tendas que lhe foram facultadas e não cala a revolta: “Somos gente, somos ucranianos como todos os outros, falamos russo, queremos continuar a falar russo e depois? Tínhamos vizinhos que falam ucraniano e foi preciso estes fascistas tomarem conta do governo de Kiev para déssemos por isso, sempre nos entendemos, sempre vivemos em paz”.
Muitas destas famílias distribuídas pelo acampamento que vai crescendo viviam da agricultura. “Semeámos mas não vamos colher, ficaram lá as nossas terras tratadas, os nossos animais, tudo aquilo que era a nossa vida”, lamenta Olga, que declina revelar o nome de família. “O meu marido e o meu filho mais velho ficaram lá, a combater contra os novos fascistas, as milícias do Sector de Direita e da Guarda Nacional. Nunca pensaram em fazer guerra, até que a guerra entrou pelas portas da nossa casa, espezinhou a nossa horta.”
Poroshenko “é tão mentiroso e criminoso como os outros, mesmo que tenha chegado depois e digam que foi eleito”, sublinha Viktoria, inconformada, revoltada. “Todos eles estão no governo por golpe e com que direito dizem que vêm restabelecer a ordem nas nossas terras? A ordem deles é roubar: não é por acaso que estão a oferecer terras nas nossas províncias aos soldados que se alistem para nos vir matar. São as nossas terras que eles se preparam para lhes oferecer. É como disse Ielena, isto é uma limpeza étnica”.
São mais de cem mil, grande parte deles concentrados em Rostov do Don, no coração da terra cossaca. Muitos ficaram pelo caminho. Os que pretendem “restabelecer a ordem constitucional” pela força das armas são os mesmos que se recusam a abrir corredores humanitários às populações que fogem do massacre ou lhes reservam “campos de filtração” para impedir que os “verdadeiros ucranianos” sejam contaminados “pelos outros”.
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José Goulão Limpeza étnica
4 de Maio de 2014
O absurdo é o pão-nosso-de-cada-dia mas ainda sobra espaço para nos surpreendermos com a insensibilidade e a inconsciência do que se noticia e comenta sobre os acontecimentos na Ucrânia, principalmente no Sul e Sudeste do país.
Sabemos, por experiência acumulada, que neste mundo há limpezas étnicas boas e limpezas étnicas más. Na guerra dos Balcãs eram boas quando feitas por muçulmanos da Bósnia, croatas, albaneses do Kosovo e muito más, criminosas até, as feitas por sérvios. Também é boa a limpeza étnica de palestinianos que Israel tornou rotina há mais de 60 anos e prossegue hoje, sem travão, na Cisjordânia, em Jerusalém Leste, sendo que o que acontece em Gaza também o é.
A limpeza étnica que começou nas regiões de maioria russófona da Ucrânia, por sinal onde se concentra o que resta das fontes de indústria e energia do país, parece ser das boas. Por enquanto evita chamar-se-lhe o que é, até que a coisa seja mais ostensiva.
A operação que o exército às ordens do aparelho militar e de segurança fascista que tomou o poder em Kiev desenvolve em Slaviansk, Odessa, Kramatorsk e outras cidades e regiões tem um objectivo subjacente: uma limpeza étnica daqueles que, para os ucranianos que se acham puros, são escumalha, “moskals”, gente para apunhalar, fuzilar, pôr a andar, pelo menos é o que gritam as hordas organizadas que se juntam ao exército na grande manobra de intimidação em curso.
O que está no terreno é uma operação terrorista, de terrorismo de Estado, promovida por um governo ilegítimo colocado no lugar por potências internacionais e que agora pretende silenciar e, de preferência, ver-se livre das oposições, não importa como.
Em terminologia ocidental, aquilo que é escumalha para os ucranianos puros, fascistas e governantes, são os “pró-russos”, os “separatistas”, palavras recitadas como se fossem insultos.
Quase ninguém ousa pronunciar – há dignas e honrosas excepções – os termos que qualificam esses resistentes: antifascistas, federalistas, pessoas que não querem ser cidadãos de segunda no seu país por falarem uma outra língua e terem eventualmente uma religião diferente da seguida pela elite de Kiev.
O que está igualmente em curso é uma provocação a Moscovo. A coberto dela, os Estados Unidos e a NATO continuam a reforçar o cerco junto às fronteiras europeias da Rússia, fazendo da Ucrânia um membro informal mas efectivo da Aliança Atlântica.
Até quando a Rússia aguentará o desafio que é a perseguição organizada a comunidades de um país vizinho que têm inegáveis e reconhecidas afinidades com os russos? E depois de a paciência moscovita se acabar?
Terá o comum dos mortais alguma noção dos tremendos riscos para o planeta do que está a acontecer na Ucrânia, limpeza étnica incluída?
Nota de edição: este blogue, na nova fase do JSF, publicará na íntegra os artigos do seu director, o jornalista José Goulão, a quem agradece o privilégio.
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