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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 19.04.18

Tão cosmopolitas que eles são - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Tão cosmopolitas que eles são 

 

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   Porque é que as cidades não podem ter bairros antigos com gente lá dentro?

Como é que uma vereação socialista cede à explosão da especulação imobiliária que está aí outra vez sem ter nada a ver com isso? Só pelo turismo? Não acredito.

As cidades têm de preservar a sua história e essa opção, por si só, potencia o turismo, regula-o e educa-o não permitindo que, a pretexto da entrada de divisas, hordas invadam desenfreadamente as ruelas e os bairros mais antigos cuja população, na sua maioria, envelhecida e pobre merece viver em paz os anos tardios das suas vidas.

Eu sei que os cosmopolitas de pacotilha que por aí abundam consideram quem tem esta opinião um careta que “não tem mundo”, não está aberto ao futuro, etc., etc. etc.  Mas cosmopolitismo, na minha opinião, exige inteligência e gosto estético.

Ninguém nega que as cidades têm de evoluir, como tudo na vida e Lisboa já tem uma cidade nova na zona oriental. É pena que seja mais um amontoado de arranha-céus, muitos só ao alcance de detentores de vistos gold, e não se tenha aproveitado para praticar uma arquitectura arrojada mas bela como Óscar Niemeyer fez com Brasília,

Voltando aos bairros antigos do centro: para que serve uma autarquia que, em vez de recuperar as casas, interior e exteriormente, deixando em paz os seus habitantes, tratar dos pavimentos das ruas e preservar as características desses bairros também protegendo o seu património comercial e cultural – em Lisboa, têm desaparecido muitas lojas de qualidade, os cafés, os cinemas, as livrarias - aceita com toda a desfaçatez que “vem aí uma epidemia de despejos” como se fatalmente não tivesse nenhum poder na cidade?

Tenho ouvido dizer a alguns arquitectos que a sua arte tem muito a ver com o bem-estar das pessoas. Pois, por aqui, tudo se está a passar ao contrário.

Amigos cosmopolitas, olhem lá para isto com olhos de ver, sem preconceitos de “p’ra frentex”.

 

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por Augusta Clara às 20:03

Sábado, 28.11.15

Lisboa, Rua do Alecrim - Galeria de Arte Urbana, GAU

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por Augusta Clara às 12:00

Quarta-feira, 12.08.15

No futuro dos mortos - Jorge Silva Melo

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Jorge Silva Melo  No futuro dos mortos

 

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Público, 26 de Janeiro de 2002 

 

   Há quem tema trovoadas, dentistas, gatos pretos. Eu receio é arquitectos (excepto o Pedro Borges, meu amigo)!

Passo pela Gare do Oriente e só penso em como, daqui a 30 anos, haverá gigantesco surto de pneumonia, desço a horrenda escada branca do auditório de Serralves e só penso nas pernas e braços a engessar (com gesso marca Siza?) Vejo como destruíram o palco excepcional do Tivoli e penso no que farão ao Trindade, ao São Luiz, mal seja dada a municipal ordem de restauro. Vejo um futuro desabrigado, exposto a correntes de ar, inseguro, frágil, entre monumentos sem acústica possível. O papel selado, símbolo esquecido do poder, passou à marca do arquitecto, nova mercadoria.

Vivo por entre o que quiseram os arquitectos do salazaris­mo, moro num daqueles Cassiano Branco de risco-ao-meio (o meu é melhorzinho porque de gaveto e em terreno muito acidentado, o que obrigou o Mestre do Pré-Arquitectado a corrigir o modelo), num bairro (ao pé do Jardim das Amoreiras) que desenhou o que sonhavam os jacobinos do que seria a vida operária e acabou por ser, nos anos 30, a Nova Judiaria, fazendo cruzar pelas ruas os estran­geirados sotaques dos que fugiam a Berlim ou Varsó­via.... Setenta anos depois, a sociedade para que foi cons­truído este primeiro-direito,  arrumada em quartos interiores, marquises, uma sala de visitas e outra de jantar, dispensa, copa — nada dis­so existe. E aqueço a carne assada desobedecendo à sua or­dem. Porque a vida não fica presa pelas paredes imaginadas para uma sociedade que logo a seguir se desfez.

É essa a maldição que pesa sobre os arquitectos: obede­cer à encomenda é necessariamente condicionar o futuro (prendê-lo ao passado).

Um dos mais estrepitosos exemplos será o do Cine-teatro Crisfal em Portalegre, faustoso edifício inaugurado por Amélia Rey Colaço para cimentar uma cidade burguesa depois do sangrento esmagamento das revoltas operárias dos anos 50. É um feíssimo casarão que supunha que o ci­nema continuaria a ser com Charleton Heston, que o teatro seria sempre a Laura, que as famílias salazaristas não iriam água abaixo

Vivemos no futuro que esses mortos nos ditaram, os ma­landros que não queriam que mudássemos de vida nem de cinema nem de esposa. Mas mudámos.

Por isso, hoje, que páro na rua de S. Francisco Xavier e me sento num dos modestos cafés deste Centro Comer­cial do Restelo, não posso deixar de, realmente recolhido, me comover. Em 1956 — e foi de cinza e bréu esse antes-Delgado —-, um arquitecto sensível, dotado, culto, exigente e inteligente (Raúl Chorão Ramalho que morreu a 9 de Janeiro, com 88 anos) deixou-me uma rua doce, pensada em que habitação, passeios e lojas se conjugam, em que ventos se acalmam, num suave deslizar que não chega mas vai em direcção ao rio. Está deteriorado o centro, alguns dos andares abandonados, há vidros partidos, as drogarias e mercearias estendem os seus bens passeio fora naquela terna miséria de tanta loja desta cidade. Mas era uma cidade assim desempoeirada, luminosa, não imponente, discreta, a cidade em que eu gostava de viver. Desta aposta maravilhosa de Chorão Ramalho nada transbordou para o resto de Lisboa nos cinquenta anos que se lhe seguiram. Mas hoje, em que aqui vejo uma bátega de água através da vidraça, agradeço ao arquitecto a “hipótese de cidade" que nesta ruazinha me deixou.

E penso na Violeta que segunda-feira fará nove anos: em que Lisboa viverá? Para que Violeta estarão os arquitectos a condicionar a vida? Que fará ela da pala do Siza, do novo estádio de Braga? Terá casas para amar ou para ela só deixamos propaganda, imponência, arquitectura de aparato tão ligada ao poder terreno como acusamos a Igreja de ter estado sempre?

(in Século Passado, Cotovia)

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sábado, 13.06.15

Carta de Lisboa - Manuel Hermínio Monteiro

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(fotografia de Jorge Azevedo

 

 

(Outras fotografias de "Lisboa é poesia" e autor desconhecido)

   Eu era pequeno quando vivia numa aldeia do Norte. E admirava-me com o incompreensível esmero posto pela minha tia-avó nas encomendas que periodicamente enviava para Lisboa, para uma tal Exma. Senhora Dona Angela. Não existia retrato desta senhora que os mais idosos diziam ser tão distinta quanto velha. Mas lembro-me que a tia es­colhia para ela as inesperadas maçãs de São João. Os figos temporãos. As primeiras uvas. Os melhores enchidos. Para a minha imaginação infantil, aquela Senhora, que preenchia os envelopes com elegante e avantajada caligrafia à pena e persistia em indicar no endereço o caminho do correio via Corgo, há décadas substituído por outro curso, era a ima­gem de Lisboa. Imaginava-a vivendo na Torre de Belém ou no Castelo de São Jorge e o aqueduto das Águas Livres, que vinha no livro da escola, levava, com certeza, a água à sua fonte. Ela era certamente a irmã ou a mulher de Salazar.

Recebida, em Lisboa, a encomenda, logo respondia a Dona Angela retribuindo com revistas brasileiras, números atrasados do Cruzeiro ou da Manchete, alguns jornais e pequenos objectos cuja utilidade se ignorava, deixando, por isso, perplexa a minha velha tia, enquanto os miúdos iam folheando, cuidadosamente, as revistas brasileiras, mirando as coxas do carnaval e acabando por saber pelos ultrapas­sados jornais que o homem tinha descido na Lua. Os tem­pos mudam muito?

Em Lisboa sabemos muito pouco das terras que nos rodeiam, contentes que andamos por termos um rio largo com manias de mar, com um Governo que ordena à nossa beira. Com altas torres que não param de crescer. Com o imbricado de ruas que desaguam em outras ruas e estas em praças que abrem para novas ruas. E nós, que não vemos o fim desta teia, julgamo-nos inconscientemente num mundo infindável, esclarecido por uma televisão, jornais e rádios que também estão logo aqui, ao nosso lado. Tudo nos pare­ce fácil e acessível e, por isso, o lisboeta ganhou a sua pe­quena sobranceria e o mando de quem guarda ainda a sobre­peliz do império. Para muitos alfacinhas há um país de cóco­ras à sua volta, ligados pelos fios por onde circulam a voz e o ditame da capital. Não foi assim em Outubro de 1910?

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Agora, digo-te eu, Lisboa é indiscutivelmente uma cida­de bela. Mais de um mês fora e morre-se de saudades. Mas esta cidade, perdido o Cais da Ribeira, vai perdendo o seu Rossio. O seu Centro. Os seus jardins. O seu «cheira bem», levando com a maior desfaçatez os seus filhos do Passeio Público e dos cafés para as bafientas caves dos centros co­merciais. É uma tristeza! E assistimos indiferentes, impoten­tes e revoltados à destruição da cidade. O destino de Lisboa é ser cada vez mais uma cidade internacional, menor entre as maiores, vendida que vai sendo aos estrangeiros.

Lisboa precisa, mais do que nunca, de estímulo e de li­gação ao restante país. Os lisboetas que não têm alguém por esse Portugal fora, sofrem de desenraizamento. Os bairros de Lisboa são bonitos como o são as suas casas. Mas o lis­boeta não apaga a nostalgia dos velhos soalhos de castanho. Dos móveis sucessivamente herdados. A luz de interior das clarabóias do Norte. As longas tardes de Verão presas à cal dos montes do Sul. O verde e o azul das Ilhas rodeadas de vozes marinhas. E nas casas? As velhas fotografias dos ante­passados barbudos, de chapéu e gravata mal amanhada e olhar firme, em cima das cómodas ou das cristaleiras, ao lado de Cristos a quem o tempo apagou as chagas, relicá­rios, flores secas com o perfume antigo batido pelo intermi­nável tique-tique de grandes relógios de pêndulo, vindos desde o princípio do tempo...

O lisboeta tem remorsos por sentir que a natureza e o tempo circular pertencem à província e, por eles, uma gran­de parte do Universo. Ele sabe que agora, nos fins do Verão, abóboras grandes e amarelas brilham nos telhados. Cheira a alfazema e a feno. E os fumos que se levantam nos lamei­ros misturados de neblinas dizem pelos campos que o Verão se vai... E então o lisboeta corre a ler Cesário e Caeiro en­quanto o sol escorre baço pelos vidros das Amoreiras. Mas se te escrevo é porque nos falta uma outra parte. Falta-nos a tua voz. Se não escreveres, nunca mais digas que Lisboa tem a mania que sabe, que manda e te abafa a expressão.

(in K, n.° I, Outubro 1990)

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 04.06.15

Lisboa filmada por drone

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por Augusta Clara às 12:00

Quarta-feira, 12.11.14

As razões de John Malkovich para se instalar em Lisboa

 

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por Augusta Clara às 19:30

Sábado, 20.09.14

Galerias Romanas em Lisboa

 

Galerias Romanas, na Rua da Prata - Lisboa

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 20.02.14

A velha Lisboa, que bom percorrê-la - Mário de Carvalho

 

Mário de Carvalho  A velha Lisboa, que bom percorrê-la

 

 

   A velha Lísbia, que bom percorrê-la. Flanar, laurear, por aqui e ali. Cidade aprazível. Um gosto leve que a tudo resiste. Hoje vadiei pelo Bairro Azul e S. Sebastião. Outro dia por Campo de Ourique. E ocorre de cada vez a sensação grata de paisagem urbana única que bem concilia a espessura histórica com a beleza elegante dos ambientes. “Quem me dera em Lisboa”, escreveu uma vez um poeta, quando estava longe. Privilégio que eu tenho de viver na cidade. A falta que ela me fez, em certo tempo…A foto que se segue foi uma amabilidade de Fernando Penim Redondo que tirou o retrato à Rua das Enfermeiras da Grande Guerra. É a segunda vez que coloco esta imagem no Facebook. A rua não tem nada de especial, a não ser, talvez, a compostura pequena burguesa das formas. E o bairro de nomes republicanos ressonantes e bigodudos. O miúdo de mim vivia no prédio de cima, à esquerda. Era numa dessas varandas que o meu pai, em cada cinco de Outubro, deixava desfraldada a bandeira da República. Desafiante e isolada. Por aqui brinquei, para cima e para baixo. Aqui morava também o Quim João que não pode ter morrido. Ao sítio em que a imagem é tomada, confluência com a Rua do Triângulo Vermelho, chegavam os saltimbancos, estendiam o tapete, davam cabriolas e pediam esmola. Olhares de fome que não esquecem. Por detrás dos prédios da esquerda, havia escadas de ferro, quintais com nespereiras, pátios ladrilhados, óptimos para hóquei em patins, saguões fundos e escuros, milhões de gatos. Treinava-se boxe. Nós, miúdos, a ver, debruçados no muro. Parece que o próprio Belarmino Fragoso foi ali fazer um bocado de luvas. Por aqui estacionava o amola-tesouras que também arranjava guarda-chuvas e punha “gatos” na louça. De vez em quando, pelas manhãs, uma velha vendedeira de figos arrastava-se, rua cima, com um pregão agudo, estranhíssimo: “Quem quer figos, quem quer almoçar”. O meu prédio tinha uma outra porta nas traseiras. Mas foi por esta que o meu pai saiu quando o prenderam. MdC

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 26.11.13

Lisboa à hora do almoço

 

A qualquer hora é sempre bela

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por Augusta Clara às 13:00

Domingo, 24.11.13

Lisboa dourada

Lisboa dourada ao pôr do sol

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por Augusta Clara às 19:17



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