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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Lucia H.Issa EUA foram derrotados na Síria como num novo Vietname

Facebook, 31.03.2018
Há poucos meses, em uma manhã de sábado como hoje, eu voltava ao Brasil, vinda da fronteira da morte, de um campo de refugiados em Zahle e de Majdar.
Passei aquelas duas primeiras semanas tendo pesadelos com o que eu havia testemunhado, crianças cujas pernas e sonhos foram amputados, mulheres sírias lindas que tiveram seu rosto deformado com ácido pelos terroristas armados pelos EUA, um menino de 6 anos que tinha o olhar de um velho e me perguntara por que o mundo não os via. A moça de cabelos negros e longos como o meu e perdera uma filha de 3 anos num dos bombardeios dos EUA.
Há menos de um mês, escrevi que a guerra global na Síria, vendida por alguns veículos da imprensa como guerra local, estava chegando ao fim, e que os EUA haviam sido derrotados. Reafirmei o que eu vi na fronteira e o que me levava a acreditar na derrota norte -americana e no fato de que o governo sírio não tinha armas químicas. Vi cidades como Aleppo sendo recuperadas pelo exército sírio e os terroristas armados pelos EUA fugindo para as fronteiras. Os ingleses perceberam muito antes dos americanos que seriam derrotados e retiraram sem alarde suas tropas em setembro. Os ingleses sentiram logo que não ganhariam uma guerra utilizando um exército de terroristas e mercenários pagos para matar os sírios.
Ao saber que Trump decidiu retirar suas tropas da Síria , admitindo indiretamente a derrota, um pequeno alívio, uma certa esperança e muitas perguntas para as quais a menina dentro de mim não encontrá respostas invadiram meu coração.
A guerra não terminou completamente mas caminha para um desfecho que frustra os EUA e fortalece um mundo mais multipolar.
Mas por que permitimos que o ódio fosse alimentado dessa forma na Síria? Por que permitimos que 450.000 pessoas fossem assassinadas ao longo de sete anos? Por que permitimos, como humanidade, que os EUA financiassem e armassem terroristas? Por que permitimos que mais de 10 milhões de pessoas se tornassem refugiadas? Por que permitimos que até as narrativas sobre a guerra fossem manipuladas? Por que permitimos que crianças fossem mutiladas em nome de uma guerra que jamais foi por democracia, mas sim por gás e petróleo?
A guerra na Síria tem um grande derrotado. Os EUA, que viram a Síria se transformar num novo Vietnã. Mas não há vencedores absolutos.
Cidades inteiras foram destruídas e milhares de mulheres foram violentadas. Uma geração inteira foi dizimada.
Minha esperança, meu desejo de dar voz às mulheres refugiadas e denunciar os que alimentam o ódio no Oriente Médio são muito maiores, hoje maiores do que nunca, mas a dor da menina que sonha com um outro Oriente Médio ainda me dilacera.
NOTA: Lucia H. Issa, brasileira de origem síria, é Jornalista e Escritora. Trabalhou como jornalista e correspondente internacional no Jornal do Brasil e hoje é jornalista independente, com graduação em Comunicação Social e especialização em Linguagem e Semiótica, pela Universidade de Roma. É autora do livro-reportagem «Quando amanhece na Sicília...», premiado na Itália e no Brasil, sobre a luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia na Itália, onde entrevistou mais de 120 mulheres. Residiu em Londres, Florença, São Paulo e durante seis anos em Roma, de onde colaborou, como jornalista correspondente de alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros, como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e revista Istoé. Viajou por cerca de sessenta países do mundo, alguns deles devastados por guerras recentes e reportadas por ela, in loco, tais como, Sérvia, Kosovo, Palestina e Líbano. Actualmente, mora no Rio de Janeiro, onde é correspondente internacional e está terminando um novo livro-reportagem, sobre mulheres do Oriente Médio que lutam pela paz. É Embaixadora da Paz pelo Royal Society Group of London. Prémio Recife de Liberdade de Expressão, outorgado em 2015. Comenda Leonardo Da Vinci por seu trabalho pelos direitos humanos. Medalha Anita Garibaldi. Prémio Nelson Mandela de Defensores da Paz. Troféu Melhores do Ano, Curitiba , 2016, pelo conjunto de reportagens sobre a Palestina. Fala e escreve em português, árabe, italiano e inglês.
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