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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Clara Ferreira Alves As lágrimas de crocodilo
Expresso, 5 de Setembro de 2015
Os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegar aqui. Para trás ficaram os condenados à morte
E de repente toda a gente se comove. Em quatro anos de guerra, o sofrimento e as mortes na Síria, e no Iraque, não comoveram muitos jornalistas ou espectadores sentados por essa Europa fora. No último inverno, vi crianças ranhosas e friorentas, pés roxos e nus nas neves do Monte Líbano. Vi mulheres sírias e órfãos a prostituírem-se nas ruas de Beirute, vi a superpopulação dos campos de refugiados palestinianos, incapazes de acolherem mais um ser humano por falta de espaço. E vimos as imagens dos corpos despedaçados por barrel bombs, as fomes de Yarmouk, os ataques químicos. Não foi por falta de filmes online, colocados por combatentes, resistentes e sitiados sírios, que deixámos de ver no que a Síria se tornou. Ou o Iraque, onde todos os dias há mortos. O ISIS mobiliza-nos as atenções com a barbaridade do dia, que usa como instrumento de terror e propaganda, e cobre com esta cortina negra o resto do Médio Oriente. O Iraque está a desfazer-se. A Síria já se desfez. O Líbano está por um fio. A Jordânia aguenta-se com esforço. O Egito é um Estado falhado. E a Turquia aproveita para destruir os curdos. Em todos estes conflitos, para não falar do desastre da intervenção na Líbia ou no Iémen, a Europa comportou-se de um modo egoísta e indiferente. Pagou resgates e deixou aos americanos a tarefa de limpar os estábulos de Aúgias. Na verdade, se a invasão do Iraque em 2003 foi um trabalho americano, a Europa foi o parceiro da coligação. Sobretudo o entusiástico Tony Blair, originário de um país que recusa receber mais migrantes, refugiados ou todos os nomes que se vão inventar para os milhões de apátridas e desgraçados que trepam as muralhas e se rasgam nos arames farpados. O horror sírio, ou iraquiano, não motivou uma negociação de fundo, uma cimeira capital, uma mesa-redonda, um diálogo, um princípio. Os americanos decidiram bombardear o ISIS, a Europa não decidiu nada para variar.
De repente, a Alemanha é a campeã dos migrantes e refugiados. O cinismo pessimista tende a ver nestes pronunciamentos mais propaganda do que pragmatismo. A Alemanha sabe que a crise grega a fez ficar mal aos olhos do mundo e tem a oportunidade histórica, a sra. Merkel tem-na, de se reabilitar. E de forçar o resto dos europeus. A Alemanha tem a única liderança forte numa Europa fraca e tem a capacidade industrial para absorver mão de obra barata porque ainda precisa dela.
Há anos que criámos os novos campos de concentração, onde concentrámos os africanos, que vieram antes dos sírios e afegãos e iraquianos, e ninguém se comoveu. Os cadáveres nas praias de Tarifa, os condenados a morrer no deserto, recambiados, não provocaram uma lágrima. A crise destas migrações existe há anos e é preciso perceber que os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegarem aqui. Para trás ficaram os condenados à morte, as vítimas de conflitos que ajudámos a provocar e das “primaveras” árabes que o jornalismo e as correntes sociais promoveram com sentimento. Ninguém se lembra de perguntar aos países ricos do Golfo, irmãos da mesma fé, quantos refugiados sírios receberam. O Qatar? Zero. Os Emirados, sobretudo os ricos Dubai e Abu Dhabi? Zero. A Arábia Saudita? Zero. O Kuwait? O Bahrain? Omã? Zero. E são estes sunitas que atiçam a guerra perante a nossa apatia. E por que razão a Europa e os Estados Unidos não os pressionam sabendo que manipulam a guerra para hegemonias e demonstrações regionais de força? Duas respostas. Venda de armas, um dos grandes negócios ocultos da recomposição dos mapas, e um negócio onde os estados legítimos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Alemanha, etc., têm fontes prodigiosas de financiamento. A Alemanha e os Estados Unidos bateram recordes de venda de armas no Golfo em 2014. E petróleo, a moeda de troca e o pão nosso de cada dia. Um dia, os drones que o Ocidente vende serão uma arma terrorista.
A situação do Médio Oriente é hoje a mais explosiva e volátil e com mais repercussões de sempre. Composta pela nova guerra fria com a Rússia de Putin. Os imparáveis fluxos migratórios vão forçar e reforçar partidos de extrema-direita, acender racismos, distorcer demografias, criar máfias, alimentar o extremismo e terrorismo islâmicos e as suas subculturas identitárias e criminais, mudar o mapa político da Europa e o espaço Schengen. Não vão apenas criar riqueza e contribuir para a economia europeia, como dizem os académicos. Uma integração séria custará biliões. É, de longe, o problema mais grave da Europa, acumulado com a anemia económica e com a condenação da população jovem a migrar dos países europeus em austeridade. Bater no coração e proclamar o amor ao próximo nada resolve na frente da batalha. É a retaguarda imoral da piedade virtual.
José Goulão Movem-se peças estratégicas no Médio-Oriente
Mundo Cão, 9 de Abril de 2015
A Arábia Saudita prepara a invasão terrestre do Iémen e uma eventual anexação deste país; os Estados Unidos concluíram um acordo secreto com o Irão; em Israel, um pronunciamento militar palaciano revela que a tropa está a perder a paciência com Netanyahu. Movem-se peças estratégicas no Médio Oriente.
O acordo secreto estabelecido entre os Estados Unidos e o Irão, ao cabo de negociações iniciadas há dois anos em Omã e que agudizou a tensão entre Netanyahu e Obama a níveis nunca antes imaginados, confirma que o Irão há muito abandonou qualquer ideia de uso do nuclear para fins militares, o que está de acordo com o decreto religioso proclamado ainda por Khomeiny, em 1988, contra as armas de destruição massiva. Nos termos desse entendimento, que está por detrás das negociações 5+1 de Genebra, o Irão modera o tom em relação às instâncias internacionais, veda o acesso de sectores extremistas às áreas sensíveis do regime e conserva as influências adquiridas na Palestina, Líbano, Síria, Iraque e Bahrein desde que se comprometa a não expandir a revolução. Na prática, está em desenvolvimento uma partilha do Médio Oriente em zonas de influência directa do Irão e da Arábia Saudita, sob controlo do eixo Estados Unidos-Israel – isso desde que Netanyahu e a sua estratégia do Grande Israel do Nilo ao Eufrates sejam neutralizados.
A recente formação em Israel do grupo de pressão designado Commanders for Israel Security, juntando alguns dos mais sonantes nomes das forças armadas israelitas na reserva, confirma que a deriva sionista pelos antros da extrema-direita anexionista e expansionista causa preocupação nas forças armadas, onde se considera que a continuação desta política é susceptível de ameaçar a sobrevivência do próprio país. E quando o exército – corpo determinante do regime – pensa desta maneira Netanyahu não pode sentir-se tranquilo, daí algumas das suas recentes posições de força desafiando Obama e apostando tudo nos republicanos.
A Arábia Saudita, à cabeça da NATO regional alargada ao Sudão e a Marrocos, também conhecida como “coligação sunita”, prepara a invasão terrestre do Iémen depois dos bombardeamentos aéreos que vem realizando. A operação já tem nome, Decisive Storm (Tempestade Decisiva). A petroditadura saudita tem 100 mil homens prontos para a operação, a que se juntarão tropas egípcias, jordanas e paquistanesas, pelo menos. A ofensiva começará pela cidade setentrional de Saada e tem como objectivo liquidar o poder recentemente conquistado pelos huti xiitas, em coligação com os sunitas de índole urbana partidários do antigo presidente Al-Saleh. Riade quer evitar a secessão do país e por isso o objectivo principal é tomar o porto meridional de Adem, porta de escoamento de petróleo para as rotas do Índico e polo de referência da importante produção petrolífera do país. No quadro de partilha de zonas de influência, Washington não descarta a possibilidade de a Arábia Saudita anexar o Iémen.
O plano geral existe na cabeça dos estrategos da Administração Obama, ansiosos por criarem condições propícias à transferência de tropas do Médio para o Extremo Oriente, no quadro da estratégia de “Polo Asiático” tão querida da Casa Branca. No meio destas cogitações percebem-se, porém, muitas pontas soltas. Uma delas é o monstro do Estado Islâmico, que terá de ser “domesticado” pelo financiador, a Arábia Saudita; outra é a luta de poderes em Israel, cujos resultados não podem ser desligados da iminência de eleições presidenciais norte-americanas. Outra ponta solta, não menos relevante, é o facto de esta estratégia de partilha de influências entre o Irão e a Arábia Saudita ser engendrada à custa da Rússia. Moscovo, porém, tem muitos trunfos na manga e não irá facilitar os arranjos.
José Goulão Quando a vergonha é pouca
O Egipto e o Qatar bateram de frente na última reunião da Liga Árabe por causa do Estado Islâmico. Nada mais previsível, é a ordem natural das coisas, o primeiro ficou com o Estado Islâmico em casa ao permitir que outros lhe façam os trabalhos de casa, e o segundo financia-o.
O assunto passou quase despercebido, se é que não foi escondido, à douta comunicação social agora entretida a demonizar o Estado Islâmico, e com fartas razões para isso. Mas escapando-lhe o essencial.
E o choque entre o Egipto e o Qatar faz parte do essencial, o oportunismo, a falta de vergonha e a desumanidade que campeiam nas relações internacionais.
O Egipto está em pânico com o Estado Islâmico porque o grupo se instalou no Sinai, onde continua a reforçar-se, em grande parte devido às consequências do golpe militar que, com o apoio dos Estados Unidos, da União Europeia e da NATO, restabeleceu o regime castrense no país trocando o general Mubarak, fora do prazo de validade, pelo general Al-Sisi. Além de terem espezinhado todos os valores democráticos manifestados através do movimento de Primavera Árabe – que no Egipto foi genuíno – os militares e os seus patronos lançaram-se numa caça contra a Irmandade Muçulmana, a qual, entre muitas culpas, a única que não tem é a de ter ganho com vastas maiorias absolutas todas as eleições livres e limpas realizadas no país. Para o melhor e o pior, é assim que funciona a democracia.
Até aqui, os militares egípcios foram compagnons de route do Qatar e outros regimes que têm como regime-mãe a ditadura terrorista da Arábia Saudita. O caldo entornou-se a seguir, principalmente quando a caça à Irmandade Muçulmana iniciada pelos militares egípcios provocou uma radicalização, óbvia, do islamismo egípcio, oportunidade que o Estado Islâmico não enjeitou. O Egipto viu-se então a braços com mais este problema, que o Qatar e todas as outras ditaduras do Golfo, sob a batuta da Arábia Saudita, continuam a alimentar sem que tal obste a que prossigam as suas alianças políticas, económicas e militares com o civilizado Ocidente.
Não é necessário ir muito fundo na análise para se perceber que qualquer estratégia montada contra o Estado Islâmico estará votada ao fracasso se não assentar no isolamento das petromonarquias do Golfo, os seus principais financiadores e recrutadores. Ora nem essa entidade una e indivisível que dá pelo nome de eixo Estados Unidos-Israel, nem a União Europeia, deram qualquer sinal de confrontar a Arábia Saudita, o Qatar e apêndices com as consequências do seu apoio ao terrorismo islâmico. Pelo contrário, a família real saudita continua a refastelar-se nos Estados Unidos, a fazer circular toneladas de petrodólares sujos pelos circuitos financeiros internacionais; o Qatar é o menino bonito que prepara os estádios das mil e uma noites para o mundial de futebol de 2020, construídos com sangue de escravos; o Dubai & companhia transformaram-se em mecas do turismo novo-rico e em sujeitos admirados dos discursos basbaques de marionetes da política europeia, com Hollande e Renzi à cabeça; e o Bahrein continua a acoitar a estratégica Quinta Esquadra norte-americana.
Enquanto isso, o Egipto vê-se a contas com o Estado Islâmico no meio de uma crise social sem solução, mas em vez de o combater no Sinal vai fazer-lhe guerra na Líbia, isto é, cumpre a tarefa de que a NATO o incumbiu e que é a de tentar por um bocadinho de ordem num país que a NATO deixou no caos em que se encontra, fazendo-o desaparecer do mapa, que não do mapa dos grandes negócios do petróleo.
Por tudo isto, o Egipto e o Qatar bateram de frente na última reunião da Liga Árabe. É a ordem natural das coisas quando a ordem internacional é guiada pela falta de vergonha.
José Goulão A progressão do caos
A diplomacia económica e militarista que domina o mundo fabricando instabilidade e guerras civis para exportar a sua “democracia padrão” atingiu um limite crítico no Egipto. Já fora advertida na Argélia, no início dos anos noventa, já fora obrigada a um descarado golpe de rins na Palestina em 2007, mas ao destapar a caixa de Pandora egípcia começa a sentir – que não é o mesmo ...que perceber – os efeitos da irresponsabilidade criminosa com que gere o poder da sua força.
Depois do que está a passar-se no Egipto nada voltará a ser como dantes nas relações entre os neocruzados ocidentais e o Médio Oriente. Os fios com que Washington e Israel, na companhia dos seus obedientes aliados da NATO e da União Europeia, têm manipulado as marionetas regionais não apenas se embaraçaram no Cairo como deram um nó cego muito difícil de desatar. É difícil acreditar que as administrações de Washington, Telavive e Bruxelas não soubessem que através da “primavera árabe” iria chegar o tempo da afirmação do islamismo político. A prova de que sabiam é que rapidamente começaram a infiltrar e a manipular as transformações e a entender-se com os grupos religiosos dominantes e influentes para tentarem modelar a nova situação consoante os seus interesses. Para isso não cuidaram sequer de distinguir entre o chamado “islamismo moderado” e o radicalismo islâmico, com o qual os poderes ocidentais têm cúmplices relações desde o Afeganistão dos anos oitenta e a ex-Jugoslávia dos anos noventa.
Passemos em revista o cenário deixado pela relação íntima entre os regimes ocidentais e os desenvolvimentos da “primavera árabe”: governos islamitas confessionais na Tunísia, onde o terrorismo contra a oposição se tornou moeda corrente, e no Egipto; caos na Líbia depois da intervenção militar da NATO, onde o governo instaurado em Tripoli não tem espaço para governar entre milícias religiosas e sectárias e o país se cindiu entre a Cirenaica e a Tripolitânia; guerra civil na Síria, onde a NATO apoia uma oposição dominada pelo radicalismo islâmico sunita, na qual se destacam grupos da rede da Al Qaida; transposição gradual da guerra civil síria para o Líbano. No Iraque, onde a “primavera” foi levada pela invasão norte-americana, prevalecem as forças centrífugas sectárias cultivadas desde o início pelos governadores instalados por Washington.
A situação no Egipto veio demonstrar de forma sangrenta que esta política se esgotou e a emenda é pior do que o soneto. Secretamente, a diplomacia ocidental decretou que o esmagador domínio eleitoral da Irmandade Muçulmana e dos grupos radicais não valeu e inventou um “governo transitório” de personalidades sob custódia militar. As forças armadas egípcias são um braço militar norte-americano no Médio Oriente.
Barack Obama interrompeu por momentos uma animada partida de golfe para condenar vagamente os militares egípcios pelas matanças dos últimos dias proibindo-os de participar em próximos exercícios militares mas não pondo em causa o auxílio logístico, financeiro e operacional. Obama fez mais uma vez de Pilatos decretando que só os egípcios podem resolver o problema que criaram. O presidente julga que nos esquecemos das declarações feitas há pouco tempo pelo seu secretário de Estado, John Kerry, segundo as quais o golpe militar no Egipto foi um acto para “correcção do caminho da democracia”.
Os resultados da “correcção” estão à vista. Entretanto, existem informações fidedignas de que Estados Unidos e Israel cultivaram boas relações com a Irmandade Muçulmana no Egipto durante grande parte do tempo em que esteve no poder, tal como acontece com as suas congéneres da Turquia e da Síria, onde são das mais activas aliadas dos desígnios da NATO. Falta saber o que correu mal com Morsi e o fez cair em desgraça.
A diplomacia e as instâncias internacionais, entre elas a ONU – cada vez mais uma correia de transmissão da NATO através do actual secretário geral – apelam agora aos militares egípcios e ao governo de transição para que restaurem a democracia através de eleições.
Ora não é segredo para ninguém que eventuais eleições irão proporcionar nova vitória esmagadora da Irmandade Muçulmana. E depois? Kerry vai outra vez “corrigir o caminho” da democracia, sucedendo-se novas matanças? No Egipto falhou a primeira experiência democrática e falhou agora a respectiva “correcção”. Nada do que poderá seguir-se funcionará, em tese, repetindo-se o que ficou para trás.
Para já, o mais populoso país árabe está à beira da guerra civil e um nó cego ata os fios políticos que têm sido manipulados até aqui. Abre-se um enorme buraco negro no Médio Oriente: três países vizinhos de Israel estão em guerra civil, o mesmo acontecendo, na prática, com o Iraque; a tragi-comédia das negociações entre Netanyahu e Abbas aprofunda a divisão palestiniana. As monarquias ditatoriais do Golfo, com a cumplicidade de Washington, da NATO e da Turquia, incentivam guerras entre comunidades sunitas e xiitas, com perseguições a outras minorias religiosas.
E são os irresponsáveis criminosos que o criaram quem continua a gerir a progressão deste caos.
Do que mais precisará Benjamin Netanyahu para se convencer de que cresce por todo o mundo o apoio à existência dum país chamado Palestina, livre do terrorismo de Estado com que o poder sionista tem massacrado aquele povo?
Mas parece que não há nada que o convença, mesmo depois da Assembleia Geral das Nações Unidas ter declarado a Palestina como Estado “observador”, semelhante ao do Vaticano, o que não lhe dando por si só o estatuto de membro de pleno direito da ONU – só o Conselho de Segurança lho poderá conferir -, reconhece a soberania do povo palestiniano sobre o seu território.
Na votação a Europa teve um importante papel: a maior parte dos países, entre os quais a França, a Espanha, a Itália e Portugal, votaram a favor, o que terá incomodado Israel dado fazer grande parte das suas trocas comerciais com o continente europeu. As abstenções vieram do Reino Unido, de alguns países bálticos e da Alemanha que, apesar do complexo de culpa que continua a carregar pelo holocausto nazi, não se coíbe das suas actuais pretensões expansionistas.
A verdade é que Netanyahu não obedece a nada nem a ninguém. As posições veiculadas pelos embaixadores de Israel e dos Estados Unidos na ONU fizeram eco das suas palavras segundo as quais a decisão das Nações Unidas viola os Acordos de Oslo porque os assuntos relativos a israelitas e palestinianos terão que ser resolvidos por acordos bilaterais e não por decisões tomadas em fora internacionais. Como se Israel não tivesse, vezes sem conta, violado todos os acordos, nomeadamente o de Oslo, ao continuar, por exemplo, ainda hoje a construir colonatos.
As “boas intenções” de Israel estão marcadamente expressas nas palavras do jornalista Gilad Sharon, filho de Ariel Sharon – o responsável, em conivência com as milícias de extrema-direita libanesas, pelo massacre dos palestinianos dos campos de Sabra e Shatila – que recentemente (18 de Novembro) afirmou num editorial do Jerusalem Post que Israel precisa de "espalmar bairros inteiros de Gaza. Espalmar tudo em Gaza. Os norte-americanos não pararam em Hiroshima porque os japoneses não se renderam de modo suficientemente rápido e, por isso, Nagasaki também foi atingida." (1)
Era bom que pudéssemos acreditar que os Estados árabes mais poderosos estavam, finalmente, ao lado dos seus irmãos pobres da Palestina. Infelizmente, o abandono a que os têm votado em favor dos jogos negociais com os países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos da América, o principal suporte de Israel no seu esmagamento, poucas ou nenhumas garantias dão dum volte face urgente e absolutamente indispensável para meter Israel na ordem, apesar das recentes “primaveras” desabrochadas na região.
Na minha opinião, o virar de costas destes países à Palestina tem um peso mais determinante do que o da rivalidade entre o Hamas e as outras organizações da Resistência, como se quer fazer crer junto da opinião pública mundial.
Não querendo parecer cínica, interrogo-me: haverá alguém verdadeiramente solidário com aquele povo? Talvez os povos deste mundo - contando com os movimentos de grupos de judeus que, dentro e fora de Israel, se vêm manifestando contra a política de chacina do seu governo -, a quem o desmascaramento da máquina infernal dos senhores do dinheiro abriu os olhos.
Na solidariedade desinteressada dos poderes instituídos, nessa, salvo raríssimas excepções, acredito pouco.
(1) "A decisive conclusion is necessary" , por Gilad Sharon, 18 November 2012, The Jerusalem Post
My name is Eman.
I am 18, a first year student at university where I study physical therapy. I have lived my whole life in Gaza. My dream is to one day study in the United States. My dream, also, is simply to survive.
I want to share with you something I wrote during the last few weeks when we were being bombarded from above by bombs, drones and fighter jets that were largely paid for by the United States. In Gaza, there is no place to flee. Every one of us is waiting for his/her destiny. In other words, every single minute you have the feeling that you could be the next victim in Gaza. Israel is using an insane amount of force and power against us. They are using the entire might of their Air Force, including F16s and drones, against us. Very close to our house, there were at least 8 air strikes.
Every airstrike shakes our doors, windows causing a great panic for us and particularly for our children. Over the past three nights, our best wish is to have a proper few hours of sleep. My father went to the market to buy us food, we were very scared to let him go since Israeli drones could have targeted him. We are cooped up in one room, with limited access to communication due to intentional, regular electricity blackouts.
The nighttime is very scary for us, because that is when Israel intensifies its airstrikes all cross the Gaza strip. No matter where you are in the Gaza Strip, one can easily hear the massive loud explosions and can only imagine the horror that is happening to family and friends caught in the cross-fire. We listen to local radio stations broadcasting from Gaza.
Every single minute, there are reports of deaths, injuries, and immense destruction to our homes, schools, and infrastructure.
In Gaza, empty fields have been regularly bombarded. Gaza is a very densely populated civilian area. These bombardments are designed to terrorize us.
Our children carry the physical and mental scars of trauma of a defenseless war. I always say we are children. We have done nothing to deserve this brutality. While at the same time, our children have faced the daily threat of violence and death from above, and have been subjected to a starvation diet imposed by Israel's control of our borders. The effects on their brain development and their health will last a lifetime.
Today, I am grateful the ceasefire seems to be holding. Please sign this letter to Obama - http://www.obamaletter.org/ - so my family and friends don't have to endure this yet again.
With love and hope for freedom and a just peace,
Eman Qwaider
P.S. Thank you for forwarding my letter.
Nota de edição: a Carta Aberta ao Presidente Obama conta já com 35.683 assinaturas. Mas é preciso recolher mais.
José Goulão Ilusão Cruel
(Pablo Picasso)
O suspiro de alívio resultante do cessar-fogo em Gaza proclamado através do mundo pelo irmão muçulmano que preside ao Egipto, com o ámen da senhora Clinton e o habitual encolher de ombros do primeiro ministro de Israel, é uma ilusão com pés de mentira e cenário de manobras estratégicas cada vez mais complexas e, por via disso, de consequências seguramente mais imprevisíveis.
Uma ilusão que é cruel para os que voltarão a ser as principais vítimas quando ela tragicamente se desfizer – os habitantes de Gaza e os palestinianos em geral.
Calaram-se temporariamente as armas mas o que aconteceu para além da pompa e circunstância do anúncio? Israel prometeu que não bombardeia Gaza, que não comete mais execuções extra judiciais de dirigentes do Hamas e que irá ampliar a disponibilidade de movimentos dos cidadãos do território; o Hamas compromete-se a não lançar mísseis contra o território israelita. Ambos os lados garantem que continuam com os dedos no gatilho, o primeiro-ministro israelita ameaça que se houver quebra da trégua a resposta será mais violenta ainda, mas o problema de fundo subsiste: o criminoso e asfixiante bloqueio à Faixa de Gaza, que até o conservadoríssimo primeiro-ministro britânico Cameron qualifica como “prisão a céu aberto”.
O que aconteceu como reflexo de mais este episódio de uma guerra sem termo, além da liquidação de 185 habitantes de Gaza, famílias inteiras, algumas dezenas de crianças e da destruição de mais edifícios num território em escombros?
Aconteceu que o novo poder da Irmandade Muçulmana no Egipto se tornou figura de pleno direito da chamada “comunidade internacional”, respeitável mediador como foi durante décadas o agora proscrito Mubarak, e que para tal recebeu o diploma do regime norte-americano, que é quem tem, como se sabe, a última palavra nestas coisas. Bem… talvez essa palavra já seja a penúltima porque Benjamin Netanyahu continua a dispor de todas as facilidades para dizer – sobretudo fazer – mais qualquer coisa.
A passagem do poder islamita no Egipto neste teste interessava a muita gente. Principalmente à administração norte-americana, que mantém na prática o status quo em relação ao segundo maior aliado na região e logo numa altura em que o ramo sírio da Irmandade Muçulmana recebeu, ainda que de maneira disfarçada, a chefia da coligação anti-Assad fabricada no Qatar para chegar a Damasco. Interessa, e muito, a Israel, que vê sufragados os acordos “de paz” de Camp David pelos islamitas egípcios e fica com o inimigo Hamas sujeito a influências de dois islamismos antagónicos – Egipto e Irão – e de costas cada vez mais voltadas para o governo palestiniano de Ramallah.
Com este episódio em Gaza aconteceu também que a iniciativa do presidente palestiniano Mahmud Abbas de pedir de novo o reconhecimento da Palestina na ONU ficou soterrada nas ruínas geradas pelos acontecimentos. Tal iniciativa passará a ser lida à luz de uma torrente de novos e velhos dados que servirão de alibi determinante para os que não querem aceitar essa declaração – e que são também os que decidem em derradeira instância.
Quando o cessar-fogo for quebrado, o que acontecerá inevitavelmente porque a continuação do bloqueio o garante, o megafone mediático mundial encarregar-se-á de ditar quem foi, ilibando o mediador egípcio e permitindo a Benjamin Netanyahu, se disso necessitar para fins eleitorais, o recomeço dos bombardeamentos, das execuções e também a invasão terrestre, que continua a estar operacional.
Para a “comunidade internacional”, de consciência tranquila devido aos denodados esforços diplomáticos feitos, a segurança, a dignidade e a liberdade dos cidadãos de Gaza, o direito legítimo dos palestinianos a terem o seu Estado podem e devem continuar adiados, como sempre. Nada mais natural porque eles são os culpados de tudo o que lhes acontece, não é isso que dita a inquestionável verdade oficial?
[*] Jornalista
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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