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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 23.04.15

DIA MUNDIAL DO LIVRO. Os livros - Manuel António Pina

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É então isto um livro, 

este, como dizer?, murmúrio, 
este rosto virado para dentro de 
alguma coisa escura que ainda não existe 
que, se uma mão subitamente 
inocente a toca, 
se abre desamparadamente 
como uma boca 
falando com a nossa voz? 
É isto um livro, 
esta espécie de coração (o nosso coração) 
dizendo ‘eu’ entre nós e nós? 
 
(in Todas as Palavras, Assírio & Alvim)
 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 16.01.15

O segundo gato - Manuel António Pina

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Manuel António Pina  O segundo gato

paul klee, gato e pássaro, 1928a.jpg

 

(Paul Klee)

 

Em cada gato há outro gato 
um pouco menos exacto 
e um pouco menos opaco. 
 
Um gato incoincidente 
com o gato, iridescente, 
caminhando à sua frente 
 
ou a seu lado, 
espírito alado 
do que é terrestre no gato. 
 
É o segundo gato 
que permanece acordado 
com o gato afundado 
 
em sono abstracto, 
aos seus pés enrolado, 
espécie de gato do gato. 
 
Ou que, mais tardo, 
deambula pela sala 
enquanto o gato se lava, 
 
às vezes assomando 
nos olhos do gato 
como um passado imóvel e 
 
enclausurado. 
O próprio gato 
não sabe 
 
que anda por ali 
algo que não cabe 
dentro nem fora de si. 
 
(in Todas as Palavras, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Segunda-feira, 31.03.14

Esplanada - Manuel António Pina

 

Manuel António Pina  Esplanada

 

 

(Paulo Ossião)

 

 

Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.

 

(in Todas As Palavras, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Segunda-feira, 07.10.13

CONVERSAS VADIAS - Agostinho da Silva entrevistado por Manuel António Pina

 

Conversas Vadias - Episódio 12

 

- 1990 -

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 15.06.13

A equação de Drake - Manuel António Pina

 

Manuel António Pina  A equação de Drake

(numa exposição de Ilda David

 

(Ilda David)

 

 

 

Entre duas águas

(entre H e HO)

corre uma água só

transportando a equação do mundo

até ao mais fundo

sítio do coração,

onde se torna vida o mundo

e a água respiração.

 

Vinda do mundo,

corre para dentro a vida da pintura,

entre tempo e tempo,

líquida e pura.

Volta-se uma última vez para trás,

e a única coisa que dela vês

é o seu olhar olhando-

-te e desprendendo-se de ti.

 

                                  9/5/99

 

(in Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, Assírio & Alvim) 

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 25.05.13

Os livros - Manuel António Pina

 

Manuel António Pina  Os livros

 

 

(Adão Cruz)

 

 

É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo 'eu' entre nós e nós?

 

(in Manuel António Pina, Todas as Palavras, Assírio & Alvim)

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por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 21.03.13

O regresso - Manuel António Pina

(Adão Cruz)

 

Como quem, vindo de países distantes fora de

si, chega finalmente aonde sempre esteve

e encontra tudo no seu lugar,

o passado no passado, o presente no presente,

assim chega o viajante à tardia idade

em que se confundem ele e o caminho.

 

Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama.

Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,

cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão primeiro

sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

 

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por Augusta Clara às 20:00

Terça-feira, 05.02.13

Coisas sólidas e verdadeiras - Manuel António Pina

 

Escreveu assim o Manuel António Pina em 1 de Agosto de 2012 no JN

 

(para a Carla Romualdo)

 

 

(Brassai)

 

 

   O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"

Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.

 

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por Augusta Clara às 17:00



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