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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 01.06.15

Nunca na vida te deixarei sozinho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Nunca na vida te deixarei sozinho

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(desenho de Manuel Cruz)

 

   Nunca na vida te deixarei sozinho, disse a Isabel ao seu marido joãozinho na véspera de meter outro homem na sua cama. A Isabel não andou na Faculdade para assim falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres paridas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, o torvelinho das tonturas do Joãozinho. Joãozinho, servente da messe, sabia a mulher que tinha e todo se babava quando a gente dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais pura que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não morria.

Um dia… Encontrava-me eu frente à palhota da Isabel, limpando com uma compressa embebida em permanganato de potássio as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais, quando ouvi atrás de mim uma voz de asas, leve de tempo onde não havia destino, medida por lonjuras de sonho. – Sr. Doutor, Sr. Doutor. Do peito me nasceu um soluço que só anos mais tarde se escapou. - Olá Isabel, que bela surpresa! – Doutor, tenho galinha que consegui arranjar e vou fazer frango à cafreal para Doutor e nosso Capitão. – Isabel, tu és um anjo, e nosso capitão, todo católico, vai pensar que é dádiva do céu, quando eu lhe contar.

Todos somos fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. O capitão não mediu a fome nem a galinha, esqueceu a comunhão do Padre Gama, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite. Ao cair da noite, lá fomos os dois à palhota da Isabel, enquanto o Joãozinho lavava a loiça na messe. A Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado apenas em sumo de limão e piripiri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola. Notei que os olhos do capitão se cruzavam constantemente com os meus, não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.

-Doutor, nosso Capitão, tenho gira-disco e morna, mim dançar para doutor e nosso capitão. Não nos empenhámos em perceber como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o nosso frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre nós quando a Isabel iniciou o streeptease.

Não me lembro do sabor da galinha. Recordo apenas uma espécie de vento fustigando as entranhas, reduzindo-me a um calção e uma camisa, ardendo dentro de mim com sabor a cinza. Olhámos um para o outro, sorrimos, assumindo o que sempre estivera assumido, antes de darmos ao espírito a momentânea liberdade de um passeio pelo sonho que morre ao pé dos coqueiros. Aconteceu nessa noite ou na noite seguinte. O Joãozinho entrou em casa e deu com alguém a fugir da cama da Isabel. Pobre do Joãozinho, sofreu mais com a sova que deu na mulher do que com a traição. Sofreu mais pelo avesso do que ela dissera na véspera, nunca na vida te deixarei sozinho, do que em todas as noites que passara enterrado na bolanha à espera de turra. Doeu muito mais do que picada de escorpião.

Isabel apresentou queixa no Chefe de Posto. Argumentava e provava com as equimoses dificilmente visíveis na sua pele de negra. Dolorosas como as equimoses em pele de branca. Afastara bondades de Joãozinho, denegrindo sua violência, grande de mais para coisa de momento. Não ser vontade de ela mas força de imaginação que vem de dentro. Destino de todo fogo que acende rápido.

Foi constituído o tribunal. Perante o Chefe de Posto, Capitão e eu, compareceram queixosa e réu. O Joãozinho estava disposto a perdoar, a despeito de um sonoro desabafo, bengala de toda a sua alma, letra de toda a sua filosofia, resguardo de toda a sua defesa. – Boca de ela ser boca de mim, olho de ela ser olho de eu ver, dor de ela corpo de mim qui dói, vida de ela valer morte de mim, mim ca pude pensar que Zabel durme cum gajo na cama de mim, dibaxo di memo tecto…inda si foi sinhô dôtô ou nosso capeton…!

(NOTA: Este conto, verdadeiro, já foi publicado, tendo deixado dúvidas em quem o leu. Para que dúvidas não restem, nem o médico nem o capitão algum dia estiveram na cama da Isabel).

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 24.10.14

Transparências - Adão Cruz

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Adão Cruz  Transparências

 

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(Manuel Cruz)

 

 

   Era uma tarde quente, ardente, daquelas que queimam a Guiné na época do calor.

A pele derrete e a camisa fma dificilmente se suporta, colada ao corpo.

A sêde é permanente nestes dias de fogo.

E foi para beber que eu me sentei numa das mesas da esplanada térrea do café.

Um dos muitos lagartos verde-amarelos, colados aos ramos que nos faziam sombra, olhava-me fixamente como que estranhando a minha presença por estes lados.

Vim a Bissau com alguns feridos e aproveitei para gozar, de copo em copo, os dois ou três dias de folga que antecediam o regresso a Begene, na fronteira do Senegal. Quanto mais o sol ardia, mais eu sorvia até à alma a divina frescura daquela cerveja.

Esgotar a vida num copo fazia-me rir e pensar.

Há copos que valem uma vida e vidas que não valem um copo.

Aproximou-se de mim um rapazito de dezassete ou dezoito anos, perguntando-me se queria engraxar os sapatos.

Eu disse que sim, mais atraído pela necessidade de con­versa do que pela limpeza.

Engraxar os sapatos em Bissau era requinte demasiado para um homem do mato, de farda rasgada e galões emprestados.

Estaria bem para os oficiais do Quartel General e outros que tais, bem comidos e bem trajados à custa dos que aguentavam a guerra.

Aqueles senhores que todos conhecemos e que da guerra apenas sabiam o que se contava e o que lhes interessava impingir como feitos próprios na hora do regresso.

Os heróis da cerveja e da virgindade das bajudas.

—  Donde és, perguntei ao moço negro que já se havia sentado na minha frente.

—  De Teixeira Pinto, Sinhô dotô, manga de anos que mim ca vai na terra. Caminete ca pude por causa de emboscada, e avioneta dinheiro ca tem.

—  Tens saudades da família?

—  Si tem dotô! dotô também tem.

—  Se eu te der o dinheiro da viagem, tu vais?

Nesta altura a carita negra encheu-se de luz, os olhos fugiram dos sapatos, faiscaram e espetaram-se em mim, incrédulos.

—  Verdade dotô? chê, sabia demás!

— Achas que estou a brincar?

Ele notou que os meus olhos não enganavam.

Abanou a cabeça como que a certificar-se de que não estava a sonhar, fez uma pausa, pegou na garrafa de cerveja e disse, de olhos marejados:

—  Dotô ca pude sabê meu contentamento.

Dotô, em garrafa a gente vê tudo.

A gente vê se é água, se é vinho ou cerveja.

Dotô, eu queria que neste momento cabeça de mim fosse garrafa, para dotô ver contentamento que está dentro de ela.

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim)

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quarta-feira, 18.06.14

Abibe Tal - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Abibe Tal

 

(Manuel Cruz)

 

 

   O Abibe era muito feio.

Negro como um tição.

A única coisa que no seu corpo branqueava eram os dentes, inseridos à distância da boca.

Mas tinha um coração grande, muito maior que a feiura. Não o coração de carne que lhe batia no peito, mas o irmão gémeo, o coração dos sentimentos e do afecto.

O Abibe pertencia à milícia e era nosso empregado, ajudando na cozinha e na limpeza.

Fez-se por sua livre vontade meu impedido, afeiçoado e amigo.

Limpava o quarto, fazia a cama, conseguia arranjar uns mangos e umas bananas e tratava de tudo o que eú lhe pedia.

A densidade de incidentes bélicos no pequeno território da Guiné era muito maior do que nas outras colónias.

A terrível fama da sua guerra alastrou como fogo. Comparada à do Vietname.

Ser destacado para a Guiné constituia uma condenação ao apodrecimento e ao risco de regressar encaixotado.

Os aquartelamentos eram rodeados de arame farpado e troncos de palmeira, com abrigos subterrâneos, fre­quentemente flagelados.

Eu próprio ajudei a cavar trincheiras, ligando os nossos quartos às casernas e a uma enfermaria subterrânea, onde guardava soros e medicamentos de urgência, in­dispensáveis em situações de ataque.

Em tais condições de vida, era grande o valor de um companheiro e amigo como o Abibe Tal.

Mas não era só a guerra o mal que se temia.

As doenças constituiam outro flagelo que a ninguém poupava.

Nem o médico.

Por isso adoeci com paludismo.

Mais que uma vez.

Para quem não sabe, contrair o paludismo ou malária, é uma coisa terrível.

A doença mais espalhada no mundo, uma das mais fre­quentes nos trópicos e terrivelmente penosa nos acessos agudos.

Mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas afectadas em todo o planeta.

De características clínicas particularmente graves nas regiões tropicais.

O surto febril é indescritível.

Arrepio súbito e violento, grandes picos de febre, mal-estar do outro mundo, astenia intensa, machadadas na cabeça, palpitações, contracções, sufocação, sêde de toda a água, fenómenos sensoriais indefiníveis, corpo der­retido em suores por dentro e por fora.

O tremor generalizado mais parece um terramoto com epicentro no peito.

O vómito não mede distâncias.

 

Neste estado o Abibe me encontrou.

—   Ché dotô, tu tá memo lixado, mim ter que dar mezinha, mim ser dotô de dotô!

—  Meu caro Abibe, preciso que me descubras sem falta uma galinha, custe o que custar, não consigo comer nada e uma canja sabia demais.

—    Mim fala no Seco, dotô manga de favor a Seco, dotô sempre trata filho de ele, mulher de ele, dotô sempre dá mezinha todo família, ele tem que arranja galinha. Pouco tempo depois o Abibe entra no quarto com a cara do avesso.

Os dentes pareciam mais salientes e uns laivos de espuma apontavam os cantos da boca.

Os olhos faiscavam de raiva.

—    Dotô, aquele fideputa diz ca tem galinha, manga de ingrato, mim sabe que ele tem galinha, ele escunde galinha mas eu mato ele.

—   Deixa lá, tudo se há-de resolver.

 

A noite caíra, mansa e quente, noite da Guiné.

O meu corpo sossegara, trégua das sezões e acção dos remédios.

Novas réplicas do terramoto seriam de esperar mas o que contava era o momento.

Estava eu ruminando a fraqueza, quando entra o Abibe sorridente com todos os dentes de fora, segurando nas mãos um prato de canja fumegante.

—   Dotô aqui tem canja, toma ela.

—   Onde encontraste a galinha?

—   Munto fácil dotô, mim espera noite, Seco vai na reza, mim faz emboscada e fana dois galinha, pa hoje, manhã e outro dia.

Fideputa, manga de ingrato!

 

O Abibe era solteiro e mais tarde ou mais cedo haveria de casar.

Por isso precisava de quinhentos pesos e duas vacas, o preço da noiva.

Eu disse que lhe daria tantos quinhentos pesos quantas as mulheres que ele comprasse, mas vacas é que não tinha. Quando me vim embora o Abibe continuava solteiro. Choramos os dois, num abraço eterno de despedida, onde cabia o mundo.

Sei que ele faria feliz quem dele se achegasse. Escreveu-me há cerca de dois anos, dizendo que tinha duas mulheres e oito filhos.

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim, 1994)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Sexta-feira, 06.06.14

O Tanque - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O Tanque

 

 

(Manuel Cruz)

 

 

   O alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Begene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo que eu,  o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade.

Amigo desde o acampamento da  Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.

Embarcamos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do movimento nacional feminino e o malabarístico safanço dos filhos e patriotas da situação.

Embalados pelas ondas do mar da Mauritânia e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo. demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.

O Alferes Almeida e eu, pertencíamos à mesma Companhia.

Eu como Médico e ele como atirador, comandante de pelotão.

Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné, estivemos separados.

Fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da República da Guiné-Conacry.

Ele esteve de intervenção durante algum tempo.

Quando a Companhia se fixou em Begene já eu lá me encontrava.

Um avião fora buscar-me a Canquelifá para vir prestar assistência à última Companhia de farda branca que em breve regressaria à metrópole, sendo substituída por aquela em que estávamos integrados.

De novo juntos, o Alferes Almeida e eu, programamos o nosso futuro no sentido de transformar os dias quentes e incertos que se anteviam, nos melhores dias da nossa vida.

Outra coisa não era de esperar do seu espírito folgazão e irrequieto, da sua grande alma de vinte anos.

E vivemos juntos acontecimentos fabulosos.

Ele era todo patriota, à sua maneira.

Cascava nos colonos a cuja família pertencia, e gramava bestialmente os pretos.

Mas soberania era soberania, e por isso ali estava para a defender.

Ele lia na altura Morreram pela Pátria de Mikail Cholokow.

Eu lia Os Condenados da Terra de Frantz Fanon, que ele dizia ser a minha bíblia de anticolonialista subversivo.

Penso, no entanto, que poucas pessoas gostaram tanto de mim como aquele moço.

Ajudou-me, quase sem querer a conhecer as gentes e os costumes da Guine, e contribuiu de forma sublime, ainda que um tanto inconsciente, para o maravilhoso entendimento do internacionalismo, do anti-racismo e solidariedade entre os povos.

Julgo que se ele tivesse vivido até a fim da comissão deixaria de chamar turras aos guerrilheiros que o mataram.

Foi num dia em que eu me sentia muito triste.

O Almeida procurou animar-me, lembrando-me o chuveiro que havíamos inventado a partir de um bidon e de um ralo de regador, e que borrifava sobre nós mais belos minutos do dia.

Desta vez um tanque que construímos com uns restos de cimento encontrados numa arrecadação, e que iria proporcionar-nos, apesar da sua estreiteza de três metros por um, algumas belas banhocas.

A inauguração estava marcada para esse dia e o Almeida, atrevido, imprudente e um tanto irresponsável, já se tinha deslocado sózinho a Barro para arranjar galinha que servisse de manjar no festejo.

Barro era um pequena aldeia nativa a onze quilómetros de distância, onde a Companhia mantinha um pelotão.

Toda a picada estava minada e as emboscadas eram constantes.

Mas a galinha estava do lado de cá.

A meio da madrugada o Almeida acordou-me:

-  Já que não vens comigo fazer a patrulha, meu cobardesito de merda, fazes um bom xabéu com essa galinha, para mereceres o mergulhe no tanque.

Eu respondi-lhe:

- Tem mas é juizinho nessa bola, não te armes em herói, senão nem a galinha comes.

- Cobarde, um cobardesito é o que tu és, retorquiu sorridente, com um aceno amigo que nunca mais haveria de fazer.

Eram dez horas da manhã quando a nossa velha GMC irrompeu pela cerca de arame farpado, em correria demasiada para o seu velho e gasto motor, como se ela própria sentisse  tragédia que transportava no bojo: o corpo do Alferes Almeida, crivado de balas dos pés à cabeça.

Puxei de um cigarro mas não consegui segurá-lo entre os dedos.

E nunca tomei banho no tanque.

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim, 1994)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 01.04.14

Cadi - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Cadi 

 

 

(desenho de Manuel Cruz)

 

 

 

   Cadi era uma mulher esbelta. Uma verdadeira Balanta-Bravo. Não tão bonitas como as Futa-Fulas, as balantas tinham um corpo de fazer inveja a quaisquer outras. A Cadi era o ver-dos-olhos de soldados, sargentos e oficiais. Mas apenas o ver-dos-olhos. Mais do que isso Cadi não permitia.

Nós vivíamos dentro de uma cerca de arame farpado, de onde só se podia sair, praticamente, de avioneta. Uma companhia militar e uma população rondando os mil e oitocentos negros. Não é de admirar que qualquer mulher pusesse “os olhos em bico” aos militares. Cadi sabia-o muito bem, e, com uma postura digna e distanciada, contrabalançava a sua condição de negra. Cadi sabia que todos gostariam de “fazer conversa gira” com ela (fazer amor), mas tinha grande orgulho em não deixar que lhe tocassem.

Eu admirava muito a maneira de ser da Cadi, que assim se valia do que a natureza lhe dera para impor a sua dignidade de mulher, ainda que negra, faminta, e rudemente colonizada pela “supremacia” branca.

Um dia, começou a constar na tabanca que Cadi não era normal. Cadi “ca tem catota, Cadi ca suma outra mulher”. Na mais rudimentar tradução à letra, isto queria dizer que Cadi não era igual às outras mulheres, pois não tinha “buraquinho”, e, por conseguinte, não podia “fazer conversa gira” nem ter filhos. O boato explodiu como uma granada, e, em pouco tempo, a Cadi transformou-se em “avis rara”, vítima da vingança dos que nunca puderam tocar-lhe e da chacota dos que, mesmo assim sendo, gostariam de o comprovar pessoalmente.

Como as neuroses e as depressões não são apenas doenças de brancos e ricos, Cadi começou a andar muito triste e cabisbaixa. Não parecia a mesma, aquela que todos os dias atravessava a picada com ar garboso, peitos erectos, cabeça erguida e um menear de ancas capaz de provocar desmaios.

O meu amigo e Chefe de Posto, caboverdeano, numa daquelas conversas que nos ajudavam a matar as intermináveis horas que faziam o eterno tempo de guerra que éramos obrigados a viver nestas paragens do norte da Guiné, disse-me com ar pesaroso: 

-  Doutor, ando chateado com aquele problema da Cadi. Coitada da moça, quer ir embora, quer ir viver para Binta. Sente uma grande vergonha por aquilo que dizem. Não seria possível fazer alguma coisa por ela? Por exemplo o dr. examiná-la? Ela aceitaria imediatamente. Apesar dos seus vinte anos e de nunca ter saído daqui, é uma rapariga com mentalidade evoluída e uma personalidade admirável.

Combinámos o dia e a hora do exame. Exigi a presença do Chefe de Posto e do meu enfermeiro, o qual, apesar de ser electricista de profissão, foi dos melhores enfermeiros que tive na Guiné.

O exame ginecológico da Cadi era absolutamente normal. Tinha “buraquinho” no mesmo lugar do buraquinho das mais famosas artistas de cinema, e com todos os demais apetrechos com que a natureza dotou as mulheres, brancas ou negras. Cadi podia fazer “conversa gira” com quem quisesse e podia ter filhos.

No dia seguinte, o Chefe de Posto reuniu, debaixo do mangueiro que ensombrava o pátio da sua pequena casa, todos os “Homens Grandes” da tabanca. Eram mais de dez, vestindo a túnica branca de cerimónia, e ostentando o turbante que impunha a sua origem muçulmana. Com ar grave, compenetrados da importância da sua presença, ouviram a comunicação em crioulo que o Chefe de Posto lhes fez.

Não sou capaz de reproduzir na íntegra, e tenho pena, mas posso dizer que foi das coisas mais bonitas que ouvi na minha vida de médico e de homem: “Homem Grande de tabanca, toda gente conhece Doutor. Dr. ser aquele homem que cura meningite de tanto menino, que ensina maneira certa de parir, que faz fanado limpo de infecção, que levanta de noite toda hora para acalmar sezões. Dr. ter palavra sagrada. E Dr. disse: Cadi suma outra mulher, Cadi ter catota suma outra mulher, Cadi pude fazer conversa gira e ter filho”.

Os “Homens grandes” da tabanca desfizeram-se em vénias e Cadi foi reabilitada. Ganhou até uma certa auréola de heroína, não só entre a população negra como entre os militares.

Eu tinha um jipe muito velho, quase só rodas e chassi. Com ele costumava ir ver o pôr-do-sol na orla da floresta, junto do arame farpado. Embora a distância não fosse grande, cerca de oitocentos metros, dava uma certa ficha e era motivo para entreter a pequenada em gincanas à volta da tabanca.

Já o sol se havia posto há muito. Demorei-me um pouco mais com a ternura desta gente negra e com as carícias que um velho cego de noventa anos me fazia, todos os dias, à volta da cara e nos cabelos, quando desligava o motor frente à sua palhota, onde me esperava sempre à hora do crepúsculo. Na pequena subida para a povoação, já fora da zona das palhotas, em contra-luz, vi um vulto de mulher em estilo de aparição, com os pés na terra mas bem desenhado no céu, que parecia querer falar-me. Aproximei-me o mais possível e parei. Com o seu rosto de diamante negro espelhado de orgulho balanta, envolto num lenço negro como ele, eu tinha na minha frente a Cadi.

- Cadi, que surpresa!

- Dôtô, Cadi manga de satisfação, Cadi feliz, Cadi ca sabe como agradecê, dôtô tudo merece. Cadi mist conversa gira com dôtô.

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 22.01.14

Ergue-se a lua na Serra nua - Eva Cruz

 

Eva Cruz  Ergue-se a lua na Serra nua

 

(Adão Cruz)

 

 

(ilustração de Manuel Cruz)

 

 

Ergue-se a lua na Serra nua

luar de Janeiro

não tem parceiro

brilho de aço

que num frio abraço

aconchega o Vale.

A lua de Raquel

desenha monstros e anjos

na sombra dos ramos

nos galhos sem folhas

e leva às estrelas

o reino da fantasia

na noite fria

dos caminhos sem luz.

A lua que a traz de volta

muito tempo depois

prende-a à Serra

com os pés na terra

a fantasia ainda à solta.

(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Sexta-feira, 17.01.14

Conclusão diagnóstica - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Conclusão diagnóstica

 

 

(Manuel Cruz)

 

 

   O sol baixava a sua fogueira comendo a sombra à medida que a luz crescia. Como sempre, meti o corpo dentro de uma velha bata branca e dirigi-me ao posto de socorros, onde me aguardavam soldados e nativos para a consulta matinal. Hora respeitada. Ritual.

Logo que cheguei, os olhos caíram-me na figura de uma velha cuja idade mirrara na secura das carnes. A pele parecia colada aos ossos e a silhueta nem sombra dava. Os sorrisos esqueceram-se para lá da boca, e dois ninhos de rugas guardavam os olhitos faiscantes.

O “Manjaco”, nome da etnia de que era originário, um dos meus ajudantes nestas tarefas clínicas, alto e desengonçado, sempre feliz e afável, surgia acima de todas as cabeças.

- Manjaco, vamos ao trabalho.

-Dotô, manga pessoal, manga chatice!

Quando chegou a vez da velha, o Manjaco torceu o nariz, dando a perceber que era de língua difícil e de terra sem lugar, lá onde acabam bolanhas e começam mangueiros e coqueiros. Por universal defeito de raças e linguagens as nossas falas não se cruzaram. O Manjaco olhou em volta procurando intérpretes para aquele resto de corpo. Bateu o pé no chão para espantar a pequenada, debruçada na curiosidade.

-Maldita canalha, maldita velha qui só vem no chateanço. Tu, vem cá, e tu.

Os dois rapazes entreolharam-se como se mutuamente se desconfiassem. Um deles era mandinga e o outro não me lembro.

Puseram a velha a queixar-se. Ela sacudiu os ossos em imitação de tosse, ao mesmo tempo que apertava entre os dedos a pele seca da garganta. Numa espécie de dança, mexia o corpo para a frente e para trás baloiçando a magreza. Agitava-se em tremuras fingidas, emitindo uma espécie de grunhidos salpicados de baba, enquanto as mãos apanhavam o baixo-ventre ou se espalmavam nas hipotéticas ancas. O Manjaco ia observando toda aquela mímica com ar enfastiado:

-Ché! A velha é maluca!

Olhou de maneira inquisidora os dois moços, apontou para a velha, e já com a paciência a apagar-se, exclamou:

-Fala pá, fala maleita di velha.

Os dois esquinaram o olhar, torceram a boca, e a aflição somou as duas caras. O primeiro virou-se para o segundo e disse numa lenga-lenga:

-“blá, blá, blá.

O segundo voltou-se para o Manjaco e traduziu:

-blé, blé, blé.

O manjaco encolheu os ombros, esboçou o gesto de quem nada percebeu, olhou-me de soslaio e exclamou:

-Dotô, isto estar grande merda!

De novo solicitada, a velha repetiu a cena escorrendo as palmas das mãos pelas pernas abaixo, esboçou um espasmo figurativo de dor, enroscou-se num ar felino e cravou os olhos desafiadores na cara do Manjaco. Disso é que ele não gostou. Com ar zangado, agarrou os dois rapazes pelos ombros, e numa última tentativa interpelou de novo:

-Tu ca sabi pá, tu ca sabi puto língua di velha, puxa por mimória, pá. O primeiro virou-se para o segundo e disse:

-Blá, blá, blá.

O segundo voltou-se para o Manjaco e traduziu:

-Blé, blé, blé.

O Manjaco não atingiu e enraivou o anterior desabafo, espaçando as palavras:

-Dotô,…isto…estar…grande…merda!

Caracoleou então por entre queixas e deixas, desmontou os arrebiques da velha, denunciou a incapacidade dos intérpretes, e bufou de furor e impaciência. Tomou ele a iniciativa. Ensaiou uma cantoria zombeteira e atirou à cara da velha uma autêntica algaraviada. Furiosa, a mulher fez assomar ao nariz uma lágrima de ranho, fincou no chão os pés calçados de lama seca, olhou os dois intérpretes, fulminou o Manjaco, calou uns segundos de silêncio e voltou aos mesmos gestos e grunhidos, com força redobrada e descrição veloz, como cena de filme a correr em acelerado. Parou de repente, fitou de maneira desafiadora os circunstantes e cravou pela primeira vez os olhos em mim, como que a dizer:

-Então, já percebeste?

O Manjaco estava desorientado. Começou a dar uns passos curtos e outros compridos, rodopiou sobre si mesmo, volveu os olhos ao céu, e a despeito da vontade de estrangular a velha, voltou-se calmamente para mim e disse:

Olha Dotô, corpo de ela tá todo fodido.

 

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por Augusta Clara às 16:00

Terça-feira, 31.12.13

Chega à Serra o Inverno - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Chega à Serra o Inverno

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

Chega à Serra o Inverno

amanhece tarde anoitece cedo.

No caminho novo

canta a gaita do guarda-soleiro

conserta varetas amola tesouras

pedal e roda fazem milagres.

É tempo de apanhar agulhas

que os ventos de Outono

estenderam nos matos.

Pinhas sequinhas

enchem sacos de linhagem

espalham pinhões de asas

pelo chão.

É tempo do frio que se avizinha

tempo de agasalhar o Inverno

que vai abraçar a Serra

num abraço de frio

que Raquel aquece pela vida fora.

Vem na saudade

de muitos Invernos

já não há guarda-soleiros

nem agulhas nem pinhões de asas

anoitece cedo e tarde amanhece

(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

(desenho de Manuel Cruz)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 09.01.13

Ergue-se a lua ... - Eva Cruz

Eva Cruz  Ergue-se a lua ... 

 

(Manuel Cruz)

 

(Fotografias de Adão Cruz)

 

 

Ergue-se a lua na Serra nua

luar de Janeiro

não tem parceiro

brilho de aço

que num frio abraço

aconchega o Vale.

A lua de Raquel

desenha monstros e anjos

na sombra dos ramos

nos galhos sem folhas

e leva às estrelas

o reino da fantasia

na noite fria

dos caminhos sem luz.

A lua que a traz de volta

muito tempo depois

prende-a à Serra

com os pés na terra

a fantasia ainda à solta.

 

(in Eva Cruz, Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

 

 

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por Augusta Clara às 17:00



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