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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 25.02.16

"Não voltei a esse corpo" - Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira  "Não voltei a esse corpo"

 

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(Adão Cruz)

 

 

Não voltei a esse corpo; e não sei

se aqueles que o vestiram antes e depois

de mim souberam nele o verdadeiro calor

e lhe conheceram os perigos, os labirintos,

as pequenas feridas escondidas. Não voltarei

provavelmente a sentir a respiração

palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas

rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito

também, às vezes.

 

Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia, o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.

E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me

recolheu,

porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.

 

Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto

trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.

(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 20:15

Quinta-feira, 29.10.15

Outra voz - Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira  Outra voz

 

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(Liz Gribin)

 

 

Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez

para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,

a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele

tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava

que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,

na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.

 

Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas

que não voltaria a ouvir a voz dele

no espelho do seu quarto - a outra voz.

 

Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.

Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer

algo mais do que o silêncio - essa outra voz.

 

(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quarta-feira, 08.04.15

O meu amor não cabe num poema - Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira  O meu amor não cabe num poema

 

 

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(Adão Cruz) 

 

 

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,

que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.

 

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto -

a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 

O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios

de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

 

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.

 

(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 20.01.15

"Dizem, meu amor, que neste inverno..." - Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira  "Dizem, meu amor, que neste inverno..."

 

dora maar, deux personnages dans un paisage, 1907-

 

(Dora Maar)

 

 

Dizem, meu amor, que neste inverno os ventos

passarão a mão pela seara e levarão o trigo;

que os dias serão escuros e frios - e tão curtos

que neles não caberá paixão alguma, por pequena

que seja. Contam que punhais de chuva se abaterão

sobre os pomares; e que as árvores crescerão

como feixes de serpentes, procurando ganhar

desesperadamente o céu. E acrescentam que

 

os pássaros adivinham tudo isto e que por isso

se calam de manhã - ouço-os bater as asas

num aceno triste; partem para o sul, dizem,

se dizem a verdade.

 

Só a casa ficará de pé a olhar a planície. E

dentro dela os sonhos e as recordações do verão -

retratos dos lugares que nunca visitámos, uma camisa

de linho no espaldar da cadeira, um livro para sempre

interrompido sobre a cama. Ouvíamos uma canção triste na

grafonola velha. Dançaríamos o ano inteiro, disseram

uma noite ao ver-nos atravessar a sombra da lua.

Ignoravam, então, o inverno.

 

(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 05.06.14

Mãe, eu quero ir-me embora - Maria do Rosário Pedreira

 

Maria do Rosário Pedreira  Mãe, eu quero ir-me embora

 

 

(Autor desconhecido)

 

 

Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram

a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,

murcharam tão depressa as rosas que me deram —

se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu

deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

 

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão

cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,

só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais

que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos

os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que
amei

e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

 

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.

Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez

não chames pelo meu nome, não me peças que fique —

as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue

de uma ferida que se foi encostando ao meu peito

como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

 

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem

nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta

hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.

Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas

essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre

o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão

tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam

virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar

 

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por Augusta Clara às 18:00

Quarta-feira, 15.01.14

Se te pergunto o caminho ... - Maria do Rosário Pedreira

 

Maria do Rosário Pedreira

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas

que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger

da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam

as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas

 

dos penhascos porque as cidades apodreceram junto

às margens; que o vento é um chicote que desaba

os chapéus; que a terra treme; que o nevoeiro cega; e

que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do

vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.

 

E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos

se perderiam no comprimento das sombras - que não há

mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que

os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam

a carne - como um sorriso rasga o tecido de um rosto.

 

Se não me amas, porque me avisas assim da dor?

 

(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 18:30

Quarta-feira, 27.11.13

Os gatos resguardam-se da chuva - Maria do Rosário Pedreira

 

Maria do Rosário Pedreira  Os gatos resguardam-se da chuva

 

(Odi-Sseus)

 

 

Os gatos resguardam-se da chuva.

Alguém diz o teu nome à janela,

olhando as aves que partem para o sul.

 

Há uma memória embaciada de outro outono,

cinzas no pátio,

o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.

 

(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 10.05.13

Músico das letras - Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira  Músico das letras

 

(Autor desconhecido)

 

 

Publicado no blog Horas Extraordinárias em 9 de Maio de 2013 

 

   Muitos dos extraordinários leitores deste blogue já ouviram certamente falar de Alain Oulman, um judeu de origem francesa nascido em Portugal que virou do avesso a vida artística de Amália Rodrigues, compondo para ela fados completamente distintos dos que cantava até então e ajudando-a a encontrar poetas, como David Mourão-Ferreira, que lhe fariam letras inesquecíveis, contribuindo para que o fado passasse de uma canção popularucha para um nível muitíssimo mais sofisticado. O que talvez não saibam é que Alain Oulman, depois de ter sido preso pela PIDE, ficou muito zangado com Portugal e foi para França trabalhar com um tio, que tinha uma conceituada editora, tornando-se um editor de excepção. Num documentário exibido há algumas semanas na RTP2 e realizado por um dos seus filhos, conhecemos melhor esta faceta de Oulman através de editores que trabalharam ao seu lado e bem assim autores de renome, como Amos Oz, cujo testemunho da sensibilidade de Oulman para a música do texto era um verdadeiro enaltecimento da figura. Para que conste, esse homem que fez músicas belíssimas para a nossa fadista, tinha o cuidado de ler ao telefone as traduções francesas de certas passagens a alguns dos seus autores (e de lhes pedir que as dissessem na sua própria língua) para ter a certeza de que a música era a mesma no resultado final. Se conseguirem ver este documentário – uma peça interessantíssima sobre um homem ainda mais interessante – não percam.

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sábado, 27.04.13

Já se esquecera a que sabia o sémen de um estranho - Maria do Rosário Pedreira

 

Maria do Rosário Pedreira

 

(Adão Cruz)

 

Já se esquecera a que sabia o sémen

de um estranho. E agora que voltava

sem querer às ruas vermelhas, quase se

arrependia de ter apagado tão depressa

o nojo e a indecência nos caracóis de 

 

 

um menino que haveria de ser sempre

só dela. E como lhe parecia igualmente

viscoso e escorregadio o dinheiro que no

fim lhe entregavam dobrado e à pressa –

tão diferente do cartão limpinho com que

 

as senhoras lhe tinham pago vestidos ao

balcão, na loja que agora dava pena, assim

entaipada. Ai, se o menino soubesse que

 

era ainda nele e nas suas brincadeiras que

pensava quando agachada ali, durante de um

estranho, abria a boca e fechava os olhos.

 

 

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por Augusta Clara às 17:00

Quinta-feira, 18.04.13

"O meu mundo tem estado à tua espera ..." - Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira  "O meu mundo tem estado à tua espera ..."

 

(Adão Cruz) 

 

 

O meu mundo tem estado à tua espera; mas

não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,

nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

 

que um poema se escreveria entre nós dois; mas

não comprei o vinho, não mudei os lençóis,

não perfumei o decote do vestido.

 

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira -

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes

 

porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera:

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos - Deus tem as mãos grandes.

 

(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)

 

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por Augusta Clara às 18:00



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