Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Maria do Rosário Pedreira "Não voltei a esse corpo"
(Adão Cruz)
Não voltei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito
também, às vezes.
Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia, o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me
recolheu,
porque os cheiros tornam os lugares parecidos, confundíveis.
Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto
trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.
(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira Outra voz
(Liz Gribin)
Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.
Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto - a outra voz.
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais do que o silêncio - essa outra voz.
(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira O meu amor não cabe num poema
(Adão Cruz)
O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.
(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira "Dizem, meu amor, que neste inverno..."
(Dora Maar)
Dizem, meu amor, que neste inverno os ventos
passarão a mão pela seara e levarão o trigo;
que os dias serão escuros e frios - e tão curtos
que neles não caberá paixão alguma, por pequena
que seja. Contam que punhais de chuva se abaterão
sobre os pomares; e que as árvores crescerão
como feixes de serpentes, procurando ganhar
desesperadamente o céu. E acrescentam que
os pássaros adivinham tudo isto e que por isso
se calam de manhã - ouço-os bater as asas
num aceno triste; partem para o sul, dizem,
se dizem a verdade.
Só a casa ficará de pé a olhar a planície. E
dentro dela os sonhos e as recordações do verão -
retratos dos lugares que nunca visitámos, uma camisa
de linho no espaldar da cadeira, um livro para sempre
interrompido sobre a cama. Ouvíamos uma canção triste na
grafonola velha. Dançaríamos o ano inteiro, disseram
uma noite ao ver-nos atravessar a sombra da lua.
Ignoravam, então, o inverno.
(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira Mãe, eu quero ir-me embora
(Autor desconhecido)
Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar
Maria do Rosário Pedreira
(Adão Cruz)
Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas
que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger
da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam
as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas
dos penhascos porque as cidades apodreceram junto
às margens; que o vento é um chicote que desaba
os chapéus; que a terra treme; que o nevoeiro cega; e
que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do
vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.
E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos
se perderiam no comprimento das sombras - que não há
mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que
os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam
a carne - como um sorriso rasga o tecido de um rosto.
Se não me amas, porque me avisas assim da dor?
(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira Os gatos resguardam-se da chuva
(Odi-Sseus)
Os gatos resguardam-se da chuva.
Alguém diz o teu nome à janela,
olhando as aves que partem para o sul.
Há uma memória embaciada de outro outono,
cinzas no pátio,
o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.
(in A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica)
Maria do Rosário Pedreira Músico das letras
(Autor desconhecido)
Publicado no blog Horas Extraordinárias em 9 de Maio de 2013
Muitos dos extraordinários leitores deste blogue já ouviram certamente falar de Alain Oulman, um judeu de origem francesa nascido em Portugal que virou do avesso a vida artística de Amália Rodrigues, compondo para ela fados completamente distintos dos que cantava até então e ajudando-a a encontrar poetas, como David Mourão-Ferreira, que lhe fariam letras inesquecíveis, contribuindo para que o fado passasse de uma canção popularucha para um nível muitíssimo mais sofisticado. O que talvez não saibam é que Alain Oulman, depois de ter sido preso pela PIDE, ficou muito zangado com Portugal e foi para França trabalhar com um tio, que tinha uma conceituada editora, tornando-se um editor de excepção. Num documentário exibido há algumas semanas na RTP2 e realizado por um dos seus filhos, conhecemos melhor esta faceta de Oulman através de editores que trabalharam ao seu lado e bem assim autores de renome, como Amos Oz, cujo testemunho da sensibilidade de Oulman para a música do texto era um verdadeiro enaltecimento da figura. Para que conste, esse homem que fez músicas belíssimas para a nossa fadista, tinha o cuidado de ler ao telefone as traduções francesas de certas passagens a alguns dos seus autores (e de lhes pedir que as dissessem na sua própria língua) para ter a certeza de que a música era a mesma no resultado final. Se conseguirem ver este documentário – uma peça interessantíssima sobre um homem ainda mais interessante – não percam.
Maria do Rosário Pedreira
(Adão Cruz)
Já se esquecera a que sabia o sémen
de um estranho. E agora que voltava
sem querer às ruas vermelhas, quase se
arrependia de ter apagado tão depressa
o nojo e a indecência nos caracóis de
um menino que haveria de ser sempre
só dela. E como lhe parecia igualmente
viscoso e escorregadio o dinheiro que no
fim lhe entregavam dobrado e à pressa –
tão diferente do cartão limpinho com que
as senhoras lhe tinham pago vestidos ao
balcão, na loja que agora dava pena, assim
entaipada. Ai, se o menino soubesse que
era ainda nele e nas suas brincadeiras que
pensava quando agachada ali, durante de um
estranho, abria a boca e fechava os olhos.
Maria do Rosário Pedreira "O meu mundo tem estado à tua espera ..."
(Adão Cruz)
O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira -
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos - Deus tem as mãos grandes.
(in O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.