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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Augusta Clara de Matos Complacência, o cancro mole dos democratas

Algum bom senso prevaleceu naquela organização denominada Web Summit para anular o convite a Marine Le Pen a vir discursar durante o evento. Mas não creio que se deva ao bom senso dos organizadores senão à pressão de muitos portugueses que deitam fascismo pelos olhos, à posição de alguns, raros, elementos do PS que não do seu partido, tal como à de outros do PCP. Que eu me tenha apercebido, a posição do Partido Comunista Português, como organização política, foi tão suave que quase não se deu por ela. Apenas um partido por inteiro, o BE, tomou uma posição forte ao interpelar o Governo no sentido de impedir Marine Le Pen de vir participar como oradora no evento.
Pela CML, na pessoa do seu presidente Medina, sempre tão efusivo a acarinhar estrelas mundiais, já não ponho as mãos no fogo.
Mas muitos comentários que por aqui li fazem-me lembrar a Alemanha, em particular, e a Europa das democracias dos anos 30 e começo a duvidar que a História, de facto, nos tenha ensinado alguma coisa. Se bem se lembram os que se interessam por saber como o mundo caminha e caminhou, tanta complacência e medo de ofender os nazis, mais o convencimento da sua fraqueza nunca os deixar chegar ao poder, levaram à derrota da República Espanhola e à sanguinária Guerra Civil que se lhe seguiu bem como aos horrores da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto.
Quando uma pessoa chega aqui e vê pessoas a dizerem que somos democratas e, por isso, é preferível arvorarmos aquela postura de S. Jorge a combater o dragão, neste caso o fascismo da Le Pena, mas na reunião, para ela aprender e ver como temos razão, eu pergunto das três uma: ou nasceram já depois do 25 de Abril, ou não sabem nada da História da Europa do século passado ou estão-se nas tintas porque se convencem de que a elas nunca acontecerá nada se os fascistas voltarem ao poder.
Os mal intencionados poupem-nos a essa cangalhada argumentativa sobre extrema-esquerda, extrema-direita, comunismo, etc., etc. com o objectivo de criarem a ignorante turbulência como única actividade em que demonstram competência.
Aos outros a ingenuidade, no melhor dos casos, leva-os a esquecerem-se de que para sermos todos livres, o que implica muita coisa, temos de impedir a liberdade de alguns só a quererem para muito poucos à custa, se for preciso, da vida de muitos outros.
Daniel Oliveira Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo
Insistimos em falar, com a boca cheia de esquecimento, nos “valores europeus”. Como se Hitler, Estaline, a Solução Final, os gulags, o colonialismo, tudo a tão poucas gerações de distância, fossem coisas que se perdem na memória do tempo. Uma grande crise financeira foi suficiente para deslaçar as frágeis solidariedades europeias que mantinham os monstros fechados nas suas caves. A ausência do perigo comunista foi suficiente para iniciar o processo de desmantelamento do Estado Social, que garantia a paz social e a estabilidade política. As nossas ilusões estão a ruir. Um dos mais poderosos países europeus pode finalmente voltar a ser governado por um partido assumidamente xenófobo. Anda um espectro pela Europa: o espectro do fascismo. Ele exibe-se de forma descarada no novo governo polaco, no já velho governo húngaro e na Frente Nacional. Mas também na arrogância imperial alemã, na rendição securitária de Hollande, na brutalidade social imposta à Grécia. No meio disto, já nem sei ao certo o que quererá dizer o “europeísmo”. Talvez seja a memória de uma ideia que matámos com o euro. A senhora Le Pen é apenas a consequência. Os carrascos foram outros.
Clara Ferreira Alves Ser ou não ser Le Pen
Expresso, 24 de Janeiro de 2015
Ninguém sabe o que fazer com Marine Le Pen. É fascista? É nazi? É de extrema-direita sem ser nazi ou fascista? É igual ao pai? É diferente do pai? É pior do que o pai? A França anda às voltas com este problema insolúvel. Na verdade, Le Pen tem boas hipóteses de ganhar as presidenciais, não é preciso ser ficcionista ou ser Houellebecq para o perceber. A França dos salões intelectuais parisienses, assistindo à derrocada da esquerda tradicional, o Partido Socialista, e da direita tradicional, a UMP de Sarkozy, resiste a interiorizar a ideia de um país lepéniste. Afinal, Sarkozy acabou por dever a ascensão política de ministro do Interior a Presidente da República por causa de um célebre debate com Le Pen pai em que, justa e brilhantemente, deu cabo dos argumentos dele. Era mais fácil destruir o pai do que a filha. Apesar dos arremedos protonazis do pai e do seu antissemitismo primário, apesar do seu negacionismo, Marine tem conseguido ‘desinfetar’ o partido destes propósitos e pretender que é, por comparação com o progenitor, uma moderada. Nem nazi, nem fascista, nem sequer de extrema-direita se extremismo significar uma posição inflexível nas questões sociais e económicas. Através de uma bem orquestrada campanha de imprensa e de entrevistas a revistas importantes como a “L’Express”, Le Pen tenta fazer passar a ideia de que com ela a França não se tornará um estado pária dentro da Europa. No que toca à Europa, Marine Le Pen é manifestamente anti-União Europeia, e como o estado desta União é o que é, o propósito carregará mais votos do que dissidências. Muita gente em França, e na Europa, está farta desta União Europeia.
O que os partidos e os jornalistas não podem é continuar a tratar Le Pen como um fenómeno marginal, e o seu partido como um partido das franjas. O que quer que aconteça com a França nos próximos anos, terá o lepénismo no centro da ação.
Na manifestação “Je Suis Charlie”, o establishment decidiu desconvocar Marine Le Pen. Continua o processo de marginalização. O pior é que o liberalíssimo “The New York Times”, tão aplaudido por alguma extrema-esquerda por ter decidido, no uso da sua liberdade de expressão, não publicar a capa do “Charlie Hebdo” dos sobreviventes nem o cartoon do profeta, decidiu também, no uso dessa liberdade de expressão, dar a Marine Le Pen um púlpito. O gesto não foi tão apreciado. A página de op-ed (open editorial) do “NYT”, talvez a página de opinião mais cobiçada do mundo, foi oferecida a Marine Le Pen para dizer de sua justiça sobre o combate ao extremismo e ao islamismo radical. O artigo, um modelo de sensatez com alguns pós de dureza repressiva à mistura, para marcar a diferença, podia ter sido escrito por um político francês de direita não lepéniste ou, nalgumas frases, de qualquer outro quadrante. A garra ficou sabiamente escondida. Exceto no que toca à ideologia anti-imigração como ponto de partida, uma ideologia que ela esconde atrás de frases verdadeiras, como a necessidade de repensar a política de imigração europeia (quem discordará disto, para um lado ou para o outro? Alargando ou restringindo?).
Começa por citar Albert Camus, a voz moral da França do pós-guerra que Sartre, cioso das luzes, tentou destruir. Citar Camus é, inevitavelmente, colocarmo-nos num plano moral superior, não unívoco. Camus pensou a guerra da Argélia como um francês argelino e foi atacado por isso, incompreendido. Marine Le Pen serve-se dos atentados de Paris não para atacar o Islão mas para rever os faux pas da política externa europeia, incluindo o ataque à Líbia e a capitulação perante a duplicidade de Estados do Golfo, como o Qatar ou a Arábia Saudita, dois financiadores do terrorismo sunita na Síria. Ou no Iraque. Sobre isto, os políticos franceses que patrocinaram estas políticas, de Sarkozy a Hollande, nada têm a dizer. Tanto mais que a intervenção da França no Mali foi o resultado direto do estado de sítio e das migrações da Líbia, com as suas tribos, milícias, e o seu monumental Estado falhado. Obama, e a NATO, devem lamentar a aventura.
O grande problema destas asserções de Le Pen, que a tornam uma adversária perigosa, é que a maioria das pessoas tende a concordar. E para a contradizer, talvez para a desmentir, é preciso romper com a política bem pensante e correta. É preciso admitir os erros. É preciso reconhecer que transformar a França num estado policial não chega a ser o princípio da solução para o extremismo islâmico. E que o princípio da livre circulação da Europa pode estar ameaçado. A Europa terá de saber o que fazer com a sua anémica política externa e com a sua inexistência militar, dependente da máquina de guerra americana. Obama, nota-se no seu cansado e arrastado discurso sobre o terrorismo europeu, não se sente mobilizado para esta guerra nem a quer chefiar.
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